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Henriqueta/Capitulo 13

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Capitulo XIII

Custou muito a fazer tornar a si Henriqueta. Passadas duas horas abriu a infeliz os olhos. Junto ao leito estava um cirurgião, Rosa, a antiga criada da casa, Virginia e o negro José, que chorava grossas lagrimas aos pés da cama. A enferma só via sua filha.

Saiu o cirurgião depois de ter dito o que se havia de dar á doente, que elle achava em extremo abatida. Virginia perguntou a esta com muita doçura, se queria que lhe deixasse Rosa, ou se desejava ficar só com o seu criado, que a tinha vindo procurar, não a vendo chegar á estalagem.

― Oh, meu Deus! pensou a infeliz, minha filha vai deixar-me!

A menina repetiu a pergunta.

― Deixa-me?!.. articulou a pobre mãe. Não tornarei a vel-a?

― Virei depois ver como está, redarguiu retorguiu a filha de Julio. Agora vou para a minha familia.

― Para a sua famia?!.. Tem razão.... Não deve deixal-a mais tempo para estar com uma estranha.

Havia certo azedume n'esta phrase. Virginia não o percebeu e lhe disse, que se quizesse alguma cousa, a mandasse pedir pelo seu criado, e dispunha-se a sair.

Henriqueta a deteve, dizendo com voz supplicante e chorosa:

― Antes de me deixar faça-me uma graça.

― Não se acanhe, replicou a menina, diga o que quer.

― Queria tornar a beijar-lhe a mão.

― Beijar-me a mão!.. Para que? Não me deve favores.

― Oh!.. devo muitos... muitos! E faz-me lembrar uma filha que perdi.

― Pobre mãe!..

E Virginia se debruçou sobre o leito, e beijou o cadaverico rosto de sua mãe.

Esta não pôde senhorear suas sensações; apertou a donzella em seus descarnados braços, e a beijou com soffreguidão muitas vezes, dizendo entre soluços:

― Filha da minha alma!.. filha do meu coração!

Este phrenesi assustou a menina, que o suppunha filho só do delirio, e se soltou o mais brandamente possivel dos braços que a retinham; recommendou ao negro que velasse em sua ama, e que chamasse, sendo preciso; e promettendo á doente de voltar breve, saiu.

Henriqueta, apesar do seu estado de fraqueza, assentou-se na cama, apenas ficou só com o negro, Lançou a este uma vista espantada e lhe disse:

— José, José!.. Viste aquelle anjo?.. E' minha filha!.. E deixou-me!.. Foi para a sua familia!.. Eu não lhe sou nada!... Ah!.. Eu desafio todos... todos... avô, pae, irmão, noivo, a que a amem mais que eu!.. A que a amem tanto!.. Ai!.. pobre de mim!.. Senti seus labios tocarem meu rosto... mas era um beijo de piedade!.. Estava insensivel e talvez receiosa em meus braços!.. E eu ardia n'um extasis de amor materno. Ah! se não fosse por lançar o ferrete da ignominia sobre ella, e sobre todos, que ama, lançar-me-ia a seus pés e lhe diria: ― Tua mãe não morreu!.. Sou eu!.. Fui criminosa; mas amo-te muito!.. muito!.. Quero morrer nos teus braços! ― Porém não!.. Não juntarei mais erros, aos meus erros passados. Seja ditosa e conserve na memoria as virtudes de sua mãe... E' uma piedosa mentira. Ainda me lembra o que soffreu o pobre Eduardo ao saber.... Mas o seu nome aqui é um sacrilegio!.. e um anathema contra mim.

Depois de ligeira pausa proseguiu com voz surda:

— Vês estas paredes, meu amigo? São as paredes da minha casa. Mas este quarto não é o meu quarto alegre e risonho de solteira, nem os meus aposentos ricos e asseados de casada, é o pobre quarto dos viandantes pobres, e fui acolhida aqui por caridade. Meu pae e meus filhos estão lá em cima, fallando em mim como de uma estranha e indifferente!.. Nunca saberão quem eu sou!.. O unico que o saberá é meu marido... Elle só sabe, que existo, e sou culpada... Os outros julgam-me ha muito morta e veneram a minha memoria. Meu marido me conhecerá... e recuará de horror ao saber quem sou! Mandar-me-ha expulsar de casa, eu irei morrer n'um palheiro da visinhança... não poderei ir longe. Não importa!.. Tudo mereço. Sabes, que fui matricida e quasi parricida? Minha mãe morreu de dor. E eu não morri d'angustia ao saber os effeitos do meu crime!.. Resisti a tudo!.. Não morri com tantos golpes... Vivo ainda para soffrer o aguilhão do remorso... e toda a força da desesperação!

O bom negro pedia ha muito a sua senhora com as mãos erguidas e muitas lagrimas, que socegasse; mas ella, só quando as forças, se lhe esgotaram, é que cessou de fallar, e caiu sobre o travesseiro. Aquella agitação em que estivera, fez-lhe muito mal, e lançou algumas golfadas de sangue pela bocca. José quiz chamar, mas Henriqueta deteve-o; e com a cabeça encostada ao braço, com que elle a sustinha, lhe disse com affeição e reconhecimento:

— Socega, meu bom José, socega. Não te afflijas assim. Isto está a dar resto. Demos graças a Deus... Não preciso já de remedios... Preciso só de cumprir aquillo a que vim, e reconciliar-me com Deus. Vai dizer, qué por caridade me chamem um sacerdote... Elle pedirá de meu mando perdão a meu marido... Já não tenho forças para me lançar a seus pés... Assim é melhor. A minha vista faria mal áquelle homem tão offendido.

José pousou a cabeça de sua senhora no travesseiro e foi cumprir a commissão, que lhe fora dada. Voltou logo. A enferma viu o cupioso pranto do negro e lhe disse com doçura:

— Lembras-te do que me dizia o innocente, que perdemos, nos seus ultimos momentos? Pois é o que eu quizera poder dizer-te agora. Esta ultima metade da minha vida tem sido um prolongado padecimento. Se és meu amigo, regosija-te por veres, que meus males vão dar resto. E tambem não achas satisfação em seres o meu unico confidente, e amigo que me cerrará os olhos?..

― Ah! exclamou o negro, tenho satisfação em estar com minha senhora... mas eu quer morrer com ella.

— Não, José, não queiras morrer. Eu quero que vivas. Fica n'estes sitios, se poderes; ama meus filhos e meu pae, e respeita meu marido... Peço-te tambem, que nunca em tempo algum, ouças a meu respeito o que ouvires, digas uma palavra que possa descobrir o meu segredo. Não digas sobretudo ao snr. Julio cousa que o faça adivinhar que tu sabias a minha historia. Isso o humilharia na tua presença, e demasiados dissabores lhe tenho já dado.

José prometteu tudo sempre, chorando. Henriqueta ficou mais socegada.

Pouco depois entrou um velho dizendo:

— Seja aqui a paz do Senhor.

— O padre Simão!.. pensou a enferma. O santo varão que me deu as lições de moral, que eu depois calquei aos pés!.. que me fez exortações para eu amar e respeitar meu marido!.. Oh, meu Jesus!.. Restava-me ainda passar por esta vergonha!..

No entanto o sacerdote havia mandado José para fóra do quarto e assentou-se á cabeceira do leito.

Passado um quarto d'hora saía elle com os olhos sempre cheios de lagrimas, por mais que se esforçava por enxugal-as: deu ordem a José de não entrar no quarto, se a senhora não chamasse, antes d'elle voltar, e de não deixar entrar ninguem.

Desde que o ancião saiu conservou-se Henriqueta com as mãos erguidas e os olhos postos. Estava deitada e tão immovel, que pareceria já um cadaver, senão se lhe ouvisse a respiração oppressa, e não se visse o movimento convulso dos labios descorados. Alguem entrou no quarto. A moribunda abriu os olhos espantados. Era Julio. O primeiro impulso de Henriqueta foi de levantar-se para se lançar de joelhos, mas tornou-lhe a cair no travesseiro a cabeça que erguera. Julio correu a ella e lhe pousou uma mão para que se não levantasse. Não fallou logo, porque a voz lhe estava presa na garganta. A infeliz cobrindo com as mãos tremulas e descarnadas o macilento rosto, balbuciou com custo:

— Acabrunha-me com a tua cólera... Não mereço consideração.

Tudo ficou em silencio. A moribunda, espantada de não ouvir reprehensões, nem queixas, tornou a olhar para seu marido; viu-o, euxugando o pranto e abafando os soluços com o lenço.

— Tu me perdoas!.. murmurou ella com espanto, e ternura. Não amaldiçoarás a minha memoria?

— Lamento-te... replicou Julio. Perdoei-te ha muito... Perdoa-me tambem de ter concorrido de algum modo para a tua desgraça.

— Oh, meu Deus!.. Que generosidade!.. Julio, Julio!.. quão pouco conheci a bondade de teu coração!.. Se fosse possivel augmentarem-se os remorsos que ha tantos annos me ralavam a alma....

― Não me conhecias, não, Henriqueta!.. Soffrias os rigores da pobresa, e não te lembravas que eu vivia?!..

— A maior necessidade que eu padecia era de consolações, e essas não podia pedirt'as; e não pensava que fosses tão generoso... Além d'isso vivia com um ente, que... apesar de muito innocente, era um anathema para mim... uma pedra de escandalo entre nós.

— Dize-me aonde está essa creatur; prometto-te protegel-a.

— Basta, Julio, basta! Não me confundas mais com tua excessiva generosidade. Essa pessoa existe agora no céu.

— E não tens nenhumas recommendações a fazer-me?

— Sim... Julio, tenho. Ama nossos filhos, e meu pae, e sê feliz com elles. Como são bellos e amaveis nossos filhos!.. De que ventura me privei pela allucinação de um momento!.. Que felicidade seria a minha, se tivessemos vivido sempre juntos, e agora morresse nos teus braços e nos d'elles, sem crimes nem remorsos!.. Misera de mim!.. Não os tornarei a ver!.. nem ouvirei mais suas vozes!.. Vi-os, e não corri a seus braços.... Ouvi-os lamentar a minha morte, e não lhes bradei que ainda vivia, e que os adorava!.. Oh, Julio! fui muito culpada, mas ainda fui mais desgraçada! Os tormentos que sobre tudo soffri ha pouco... não os posso exprimir. Estou-te magoando sem o dever... A culpa foi minha... só minha, se perdi o direito de abraçar meus filhos... E comtudo os abracei a ambos!!! A caridade os tornava indulgentes e meigos para a pobre velha desconhecida!.. Bem hajas, Julio, bem hajas , que lhes inspiraste ideias de bondade e compaixão!.. Bem hajas tambem pela piedosa mentira, com que encobriste meu crime... sobretudo a meus filhos... Com que horror não saberiam elles, que sua mãe era tão culpada!..

Julio tinha chorado continuamente, mas senhoreou por fim sua angustia, e pondo com muita brandura as mãos sobre as da enferma, disse, curvando-se sobre ella:

— Socega, Henriqueta, tens fallado demasiado. Esgotas as forças que te restam. Dize só, se queres que te faça alguma cousa para descarga da consciencia, ou satisfação do coração. Sabes que és rica, dicta as tuas vontades, que eu as cumprirei. Serei o teu fiel testamenteiro, sejam quaes forem as ordens do teu testamento.

— Dá as esmolas que quizeres... manda dizer as missas que te parecer!.. — articulou com voz entrecortada Henriqueta. — E só te recommendo esse pobre negro.... que me sustentou tantos annos com o suor do seu rosto... Tem um coração grato como ha poucos. Adeus, Julio, homem generoso e bom!... Vive para nossos filhos... que elles ignorem sempre as culpas e desgraças de sua mãe... Ella morreu ha muito... agora só está aqui uma viandante desconhecida que... vai dar contas a Deus.

Henriqueta tinha ido enfraquecendo, e a final ficou muda com os olhos fitos em Julio, com expressão de grata affeição, que pouco a pouco se foi enfraquecendo.

Julio, que estava contemplando immovel e angustiado aquella mudança, não pôde conter-se mais tempo, e lançando-se sobre o corpo inanimado da sua culpada e infeliz esposa, deu largas á sua dôr. Uma mão amiga lhe puxou por um braço, e uma voz debil e commovida pronunciou estas palavras:

— Não é aqui o logar do snr. Julio. O que aqui tinha a fazer, está feito. Vá para seus filhos. Este logar é só para mim agora.

Era o padre Simão, que fallava. Julio deixou o corpo quasi inanimado, e saiu precipitadamente.

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Dois dias depois enterrava-se a pobre desconhecida no cemiterio da aldeia. Acompanhavam seu corpo o padre Simão, que de longe a longe cessava de psalmear para enxugar os olhos; o negro, que chorava e gemia sempre, e Augusto, que seu pae mandara cumprir este acto de caridade, e que se sentia commovido com a magoa d'aquelle negro, e a apparição e morte da mysteriosa desconhecida. Desde esse dia tomou José debaixo da sua protecção, o que foi muito do gosto de Julio.

Todos os dias de madrugada ia o negro ao cemiterio rezar e chorar; e de noite tambem lá ia alguem ás vezes; o que deu logar a boatos d'almas do outro mundo.

Foi uma noite o padre Simão tambem lá. E diziam depois que tinha ido requerer a alma penada, e que satisfizera as suas exigencias, porque desde esse dia nunca mais, fóra d'horas, se avistou vulto ou abantesma no cemiterio.

Fim.