Henriqueta/Capitulo 2
Aos dias de paz e ventura seguiram-se dias de guerra surda e de amargura. Henriqueta tinha para si, que seu marido desde que deixara de ser seu amante, havia tomado outros amores; e o fazia seguir por toda a parte, espiava-o, consumia-o. Máo plano para attrahir um marido!... Julio, em retribuição, fugia-lhe cada vez mais. A frieza d'elle se communicou ao coração da esposa. Esta já o não amava, mas zelava-o sempre. Se ás vezes se reprehendia a si mesma pela pouca affeição que sentia por Julio, logo se desculpava pensando:
— Sou muito bôa por comparar a minha indifferença com a d'elle. Perco-lhe o affecto com razão, e fui abandonada sem motivo: os escandalos apartam amor.
Assim estes dous loucos se tornaram desgraçados reciprocamente; em vez de procurarem a ventura domestica, que ambos podiam e deviam gozar, tinham ao menos a prudencia de occultar aos olhos do publico seus desgostos particulares. Henriqueta não fazia pequeno sacrificio n'isso, principalmente quando alguem lhe gabava a amabilidade de seu marido, ou o seu bom porte.
Julio era menos infeliz que sua mulher, pois não tinha no coração o inferno dos zélos, e se alguma cousa em casa o mortificava, sahia, e esquecia seu desgosto.
E' a vantagem que os homens teem. Se em casa não são felizes, o mundo que é uma especie de segunda familia para elles, (se ás vezes não é a primeira) os consola dos desgostos domesticos.
Henriqueta pois soffria mais, e tambem o merecia, porque era mais culpada. Era ella sempre que encetava questões desagradaveis. Um dia lhe disse seu marido:
— A tua amiga Clementina andava fazendo compras na calçada dos Clerigos, e me disse contava hoje á noite comtigo. Tem visitas.
— Irei, se tu fores ― respondeu ella.
— Não posso acompanhar-te. Quero ir ao theatro. Ha peça nova.
Ella calou-se, mas ficou com ar descontente. Fingiu-se Julio desentendido, e agarrando seu filho, que corria pela casa, o beijou muitas vezes e disse a sua mulher:
— Muito se parece o nosso Augusto comtigo! Tem os olhos mais lindos!..
Eu conheço a belleza dos meus pelos seus effeitos. Não ha supplicio egual para ti ao de vel-os uma hora no dia.
— Só se eu passasse a minha vida prezo a ti com uma grilhêta, é que te mostrarias satisfeita.
— N'isso creio que mostro ter-te affeição... Os laços que nos prendem ás pessoas que amamos, nunca nos parecem cadeias insuportaveis.
— Eu não chamei cadeias insuportaveis aos laços que nos prendem. Não invertas as minhas palavras.
— Como tomaste o recado para ti!.. Não te nomeei.
— Mas eu percebo-te.
— Bom é isso.
— Henriqueta, não sei que gosto tomas em nos tornar infelizes!...
— Bem sei que ha muito tempo te faço infeliz.
— Estás cada vez mais impertinente.
E' com a edade. Ha um anno a esta parte envelheço todos os dias a teus olhos muitos annos.
Julio pegou no chapeo, dizendo:
— Vir-me-á a ser impossivel passar alguns momentos com meus filhos!... Estás insuportavel!
E saiu zangado.
Henriqueta fechou a porta, para chorar á vontade.
Seu filho corria pelo aposento sobre uma bengala de seu pae. Até aquelle dia nunca o pequeno fez reparo nas lagrimas de sua mãe; mas n'esta occasião olhava-a attentamente, e, vindo a ella, gritou:
— Mamã... mamã; não chore que lhe dou o meu cavallinho.
Henriqueta abraçou e beijou seu filho com a maior ternura e pensou:
― Preciso d'ora em diante guardar-me de Augusto. Não deve vir a presumir que tenho razões de queixa de seu pae.
O constrangimento em que se pôz por causa de seu filho, foi-lhe saudavel. E quando veio a noite resolveu ir a casa de Clementina. Podia saber d'ella se Julio passeara só pela calçada dos Clerigos, e veria tambem se lá estava uma outra senhora, de quem mais zelava Julio, ou se ella iria ao theatro, como desconfiava.
Não estava lá. Fatal coincidencia, que mais azedou a espoza de Julio.
Clementina era a peior amiga que Henriqueta podia ter; porque tinha um porte regular; mas não amava a virtude tanto como devia. Nem a ella comtudo dizia a filha de Henrique de Moraes as suas tristezas; mas n'esta noite era tão infeliz, que ella as adivinhou, e lh'o disse.
― Não sei que tens! Que te mortifica?
― Nada. Doe-me a cabeça alguma cousa. Fiz mal em sair e retiro-me já para casa.
― Estás douda?! Se queres descansar, vai um pouco para o meu quarto. Não consinto, que te ausentes. Quando se não está bom, é que são as precisas distracções. Tomara eu saber o que se póde fazer sosinha em casa!... Faria rir, se tu, na tua edade te emparedavas! E tens muito geito para isso! E, olha, está aqui um amigo de meu marido que se iria deitar ao Douro, se tu fugisses já.
― E' muito natural.
― Fóra de graça, fizeste hoje uma conquista papa fina!
― Que estás a dizer?!
― A verdade. Ha um certo sujeito que morria de amores por ti antes de ver-te. Veio ao Porto a negocios, e protestou que não se iria sem conhecer-te. Mas tu... é preciso prometter uma missa ás almas para se alcançar a dita de enchergar-te!
― Estás hoje muito divertida.
― Fallo sério. Tens um adorador, evou apresentar-t'o.
― Fazes com que me retire immediatamente.
― Tens medo?!
E Clementina soltou uma risada.
― Não tenho medo; mas não devo comprometter a minha fama fallando com um louco.
― Não temas, que queira comprometter a tua reputação. Não sou eu tua amiga? Bem sei o que te fica bem e o que te fica mal. Nenhum risco corres em fallar com o amigo de meu marido. Elle não quer passar por teu amante; é-o sómente no fundo do coração. Não te espantes com tão pouco, e não deves dar-te por entendida de cousa que deves ignorar. As creancices é que compromettem o credito. Todos sabem que adoras teu marido, que, a fallar verdade, devia mostrar-se mais grato ao amor de uma esposa como tu; e acompanhar-te mais a miudo. Mas parece que gosta mais de andar por sua conta e risco... Leva-te poucas vezes ao theatro, e ha um seculo que ninguem te vê nos bailes.
― Não gosto de bailes.
— Se teu marido te levasse mais vezes, havias de gostar. Permitte-me que te diga uma coisa... bem sei que não tem remedio... mas sou muito franca. Porque não casastes antes com Carlos da Silva? Como elle te não faria feliz! oban odnos
— Conheces Carlos da Silva?
— Se conheço?! E' o amigo de meu marido, em que te fallei.
— E elle está aqui?! Deixa-me retirar.
— Estás dicididamente douda! Que se diria, se tu saías a esta hora?... Não consinto que faças disparates. Essas parvoices é que muitas vezes compromettem a melhor fama. Que pódes receiar? Creio que não tens medo de te namorares de Carlos. E teu marido não é zeloso. O mundo te conhece.
— Porém, se Carlos diz...
— O pobrezinho não diz nada que te desdoure. Antes de tu chegares estava n'um alvoroço... Quando te viu, ficou assombrado e murmurou a meu marido: ― Que formosura! Nunca vi uma mulher assim.
Clementina detinha Henriqueta, que no fundo d'alma não tinha já desejos de se ausentar. Queria conhecer aquelle que rejeitara, e ao qual parecia tão bem. Não se lembrava que Julio tambem ao vel-a a primeira vez ficara enlevado.
O marido de Clementina veio n'este momento apresentar o amigo á amiga de sua mulher.
Henriqueta o recebeu o mais natural que pôde, mas o coração batia-lhe a rebate, como para advertil-a de que se aproximava inimigo, e era mister retirar a tempo.
No entanto não tornou a esposa de Julio a fallar em ausentar-se. Carlos era tão amavel... e fazia-lhe a côrte com tanta delicadeza e modestia...
O mancebo occultava no fundo do coração a paixão, que o devorava, para não espantar a caça (em phrase de caçador) e ella sem o pensar, se deixava apanhar na rede. Quando se retirou ia melancolica e perturbada. Pela primeira vez sentia desprazer de achar já em casa seu marido; e tambem pela primeira vez, desde muito, não lhe deu piques pelas pessoas que elle veria. O pobre Julio se regosijava de ver sua mulher docil e boa; e ella tinha a culpavel loucura de comparal-o em segredo a Carlos, e de achar este superior ao outro.
― Fui injusta! pensava ella suspirando. E a razão não lhe dizia que, se fora injusta quando rejeitara Carlos, era agora criminosa em preferil-o.