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Henriqueta/Capitulo 3

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Capitulo III

Depois da fatal noite, em que a filha de Henrique de Moraes, viu Carlos da Silva, encontrou-o muitas vezes, e mais e mais lhe parecia amavel e interessante, e cada vez menos temivel. Já não tinha difficuldade em sair sem seu marido, antes procurava pretextos para isso. A louca enganava-se a si mesma. Julgava-se no mesmo terreno, e adiantava-se a passos de gigante no caminho da perdição.

― Não amo Carlos, dizia comsigo, é por compaixão que o soffro. Se a sua conversação me agrada, o mesmo succede a Clementina. Se eu fosse solteira, poderia apaixonar-me por elle; mas no meu estado nada tenho a receiar.

Dizia ella isto para se illudir, mas no fundo do coração lhe bradava ha muito uma voz que se acautelasse. Esta voz importuna foi desprezada, e a imprudente continuou a seguir seu gosto, frequentando cada vez mais a casa de Clementina, e todas as outras, onde encontrava Car- los.

E' mais perigosa para uma mulher uma amiga louca, que um amante apaixonado. Se Henriqueta não tivesse Clementina por amiga, talvez houvera arredado Carlos a tempo; mas as insinuações da amiga eram sempre em favor do amante, que nada mais desejava senão adorar em segredo, e chorar o bem que perdera.

Julio no entanto se applaudia de ter conduzido sua mulher aos termos, em que queria viver: saía e entrava sem que ella o mortificasse já. Ha muito precisava elle ir a Inglaterra, por causa de negocios; e como via sua esposa sem os malditos zelos, que tão tristes dias lhe deram antes, julgou a occasião propicia, e fallou n'isso a Henriqueta. Ella empallideceu; teve medo de ver-se só. Já ha muito que não fazia caricias a seu marido, porque não era impostora, mas n'esta occasião lançou-lhe os braços ao pescoço, e desfez-se em meiguices pedindo-lhe que a não abandonasse.

― Abandonar-te! minha Henriqueta, respondeu Julio, retribuindo-lhe suas caricias, abandonar-te! Antes morrer mil vezes. Mas deixar-te por alguns mezes, não é abandonar-te. Quando nos tornarmos a ver seremos outra vez noivos.

― Julio! bradou ella angustiada, não vás!... Ouço dizer que a mulher longe do marido é fraca... Tenho medo de ficar só.

Elle julgava serem estas expressões restos do genio zeloso de sua mulher, e lhe respondeu sorrindo:

― Ou só ou comigo é sempre forte a minha virtuosa esposa... Fio-me tanto em ti, Henriqueta, como em mim.

Ella cobriu o rosto com as mãos. Esteve quasi tentada a confessar a seu marido, que poderoso inimigo ameaçava a sua honra; mas seria destruir a felicidade do pae de seus filhos, e a paz domestica, e suscitar rixas entre seu marido e Carlos. Elles viam-se e tractavam-se com politica, mas não se amavam; e pouco bastaria, para que se tornassem inimigos declarados.

― Expulsarei a imagem de Carlos, pensou ella... Começa na verdade a interessar-me demasiado! Evitarei tornar a vel-o. Irei passar algum tempo com meus paes, e farei com que elles obriguem Julio a não me deixar.

Tomando esta resolução disse a seu marido, que queria ir passar alguns dias a Rivaes. Julio adivinhou que ella queria ajudar-se da auctoridade dos paes para o não deixar partir. Dissimulou e lhe disse que sim; que o pae estava sempre a pedir sua neta, e a mãe, Augusto. Que iriam todos alegrar seus paes. E ria comsigo mesmo de que ella fosse adiante de seus desejos.

Tinha disposto a sua partida para muito breve, e estimava deixar a sua familia em companhia dos paes de Henriqueta.

A tenção que sua esposa tomara de evitar Carlos, foi n'essa mesma occasião quebrada. Veio Clementina buscal-a para ir jantar com ella, e á noite ir ao theatro.

E ella foi!... Carlos era amigo da casa, acompanhou-as sempre. De manhã foram passear ao jardim, jantaram todos, e á noite foi tambem com ellas ao theatro.

Já alguem murmurava de Clementina. A ella pareciam ser dirigidos os obsequios do mancebo. Henriqueta, ajudada por sua amiga, que gostava d'estas scenas de apparatosa sensibilidade, disse a Carlos que era preciso romper a relação d'amisade que os unia, pois, por innocente que fosse, podia parecer a alguem pouco conveniente. Carlos quiz reagir. Henriqueta persistiu, e Clementina sustentava que a sua amiga tinha razão, mas accrescentava logo com um suspiro: E é pena, meus ricos amigos!... Tinheis nascido um para o outro. Se a minha amiga tivesse conhecido o snr. Carlos em solteira!... Mas tambem eu sou muito franca; porque não veio v. s.a ver aquella que pretendia para esposa?... Agora soffra as consequencias do seu desleixo. E tu tambem, Henriqueta, porque rejeitaste o senhor Carlos, que tão bom porte tem tido sempre, e credito de que é um excellente cavalheiro?... Mas tudo isto vem fóra de tempo. Não ha remedio agora senão sujeitarem-se a viver longe um do outro.

Com estas e outras phrases, de sensibilidade affectada e de virtude forçada e manca aggravava o mal.

Carlos ficou, ao que parecia, em profunda melancolia o resto do dia, Henriqueta tambem triste e abatida; e a sua perigosa amiga espalhava entre os dois consolações e preceitos de virtude duvidosa.

A esposa de Julio recolheu-se a casa com a alma despedaçada de angustia. Pensava que tinha feito uma grande cousa!... E Carlos se retirou mais que consolado. Ia contente. Deu-lhe a certeza de ser amado com paixão a profunda magoa, com que Henriqueta lhe dissera que éra preciso não tornarem a ver-se. Em taes casos o melhor remedio é poucos ajustes e declarações. A ausencia sem preleminares de despedidas vale mais que todas as razões e phrases de boas tenções.

Henriqueta foi para a quinta de seus paes com seus filhos e marido. Este voltou para a cidade promettendo regressar no dia seguinte. Não tornara a fallar na sua viagem, e Henriqueta quasi esquecera tal projecto. Ella não pensava senão em Carlos, que julgava não tornaria a ver. Julio não tornou a Rivaes. Escreven a dizer que graves negocios o detinham no Porto.

Henriqueta folgou com isso. A sua pesada melancolia daria que pensar a Julio; dos paes se occultava ella, mettendo-se pelos sitios mais reconditos da quinta, emquanto elles se entretinham com os pequenos. As cartas de Clementina ateavam aquelle incendio, que lhe ia dentro do peito. Cinco dias depois recebeu carta de seu marido e da sua pessima amiga. A d'esta foi lida primeiro. Vinha toda cheia do que dissera Carlos; até havia chegado a fallar em suicidio! Henriqueta chorou com desesperação. Ouvia os pés de seu pae, e se apressou a esconder a carta de Clementina, e a abrir a de Julio,

― Ah!... disse o pae ao vel-a, já sabes, que teu marido partiu para Inglaterra?... Mas não é preciso chorar assim. Elle prometteu-me que se não demoraria muito.

As lagrimas de Henriqueta seccaram-se. Ficou aterrada por um pedaço, mas foi-se animando, e quasi se alegrou de saber que estava livre por algum tempo. Seu amante estava longe; ella estava com seus paes: que podia temer? Nada tinha na verdade que receiar, se antes não tivesse feito conhecer que a paixão d'elle achara echoem seu coração.

Pensou com satisfação que teria tempo para chorar e esquecer Carlos, emquanto Julio andava longe; mas não procurou esquecel-o, e só cuidou em choral-o.

Um dia, em que triste e abatida se embrenhava na mata da quinta, para se entregar a seus criminosos devaneios, viu vir para ella um homem em trajes aldeãos; quiz evital-o, mas elle correu e se precipitou a seus pés. Era Carlos.

A esposa de Julio mostrou encolerisar-se; mas elle a apazigoou com mil juramentos de lhe querer só dizer um adeus eterno. Protestava ao mesmo tempo uma paixão respeitosa, um amor sem esperança. Carlos ia partir para o Brasil, sem outro fim que fugir da terra em que vivia a unica mulher que o podia fazer feliz.

Ella lhe perdoou tanta ousadia com a condição de não tornar a procural-a. E retirou-se, ordenando-lhe que não a pretendesse tornar a ver. Ordem sem força para aquelle que sabia ser amado, e conhecia a fraqueza e imprudencia d'ella!

Henriqueta fez mil planos para o futuro; e um d'elles (o mais rasoavel e bom) era de não se afastar mais de seus paes e seus filhos.

Depressa a fatigou, porém, o constrangimento. Fechava-se no seu quarto para chorar, e chorava muito. A voz da consciencia dizia-lhe, que tinha commettido muitos erros, e que estava em risco de os commetter muito maiores.