Henriqueta/Capitulo 4
O tempo corria muito agradavel para Henrique de Moraes e sua mulher, e para seus netos. Se alguma cousa contristava os primeiros, era verem, que sua filha andava triste, fugia d'elles, havia perdido suas bellas cores e o appetite. E quanto não se esforçava ainda Henriqueta para occultar suas penas e males!... Elles estavam persuadidos que as saudades de Julio é que causavam a doença e tristeza d'ella; quão longe estavam de pensar que tudo nascia agora de remorsos!...
Henrique de Moraes escreveu a seu genro a pintar-lhe o estado de sua filha, para que elle abreviasse a sua volta.
Pouco tempo depois recebeu ella carta de seu marido. Córou ao lêl-a, depois fez-se pallida. Saíu de casa, correu pela quinta, como se quizesse fugir a si mesma; foi a um bosquezinho, arremessou-se sobre um banco e soluçou sem constrangimento. Um homem vestido de trabalhador correu alli e lhe disse com um tom de auctoridade, que não dizia com seu traje humilde:
― Isto passa das marcas!... Queres que os teus criados venham aqui e te achem n'esse estado? Que accrescimo de loucura tens hoje? Henriqueta, ganha juizo. Deitas-te a perder com taes excessos. Dize, porque choras! E' por me fazeres feliz?
― Cala-te, Carlos, bradou ella endireitando-se, e deixa-me. Hoje não posso soffrer teus discursos... Fizeste-me a mulher mais desgraçada do mundo!... Não me queixo... Tive a principal culpa do meu aviltamento e desgraça... Mas deixa-me... deixa-me agora chorar e morrer de vergonha! Não me importunes! Parte d'esta terra!... Não me tornes a apparecer... é o unico favor que te peço.
Carlos replicou com paixão e ternura:
― Que parta!... que te não torne a vêr!.
Ó minha Henriqueta! pede-me antes a morte. Perdoa-me tuas penas... Fiz-te desgraçada, porque me não amas. Se me amasses, lamentarias o nosso amor?
― Não te amo, Carlos?! Achas que te não amo? Por tua causa deshonrei e atraiçoei os melhores dos paes, os mais ternos e innocentes filhinhos, e um marido magnanimo e nobre; um marido...
― Um marido que ha oito mezes te deixou sem saudades, e que passa a vida alegre com alguma amante abjecta.
― Para desculpar nosso crime não calumniemos os ausentes. Não sei de Julio nada de mal, e ainda que o soubesse... já não tenho direito de ser zelosa, Oxalá que elle não pensasse mais em mim!... Lê esta carta, que acabo de receber... Oh! meu Deus!... Chama-me a sua virtuosa esposa!...
Lamenta os meus padecimentos... Vai deixar todos os seus negocios para vir viver comigo!... Lamenta a ambição que de mim o separou! Trabalhava para deixar nossos filhos mais ricos, mas diz que a felicidade está primeiro que a riqueza... A felicidade!... a felicidade!... morreu para nós.
E ella cobriu o rosto e chorou como desesperada.
Carlos pegara na carta, e sem a ler a rasgou em pedacinhos, amarfanhou-os, e os lançou longe. Depois lhe disse:
― Julio vai chegar. E' preciso que te occultes a suas vistas, Henriqueta.
― Oh!... bem o queria!... Carlos, chegou o tempo de ame provares o teu amor... de me fazeres ver que, se eu te sacrifiquei os meus deveres... deveres de filha... esposa e mãe... os deveres mais sagrados, não tenho ao menos empregado mal meu criminoso affecto, faz-me um sacrificio... (muito ligeiro em proporção do que eu te fiz) matame... mata-me e foge! Ainda deves ter aquelle punhal com que te quizeste suicidar á minha vista. Mata-me, Carlos, e eu abençoarei a mão que me ferir.
― Henriqueta... meu amor, estás em uma allucinação terrivel!... Socega, e escuta-me.
― Ah!... não!... estou em meu juizo. Allucinada estava eu quando perdi o direito de ser respeitada... quando me aviltei a meus olhos e aos teus.
― Aos meus és sempre um anjo. Não me peças que te mate. E' pedir impossiveis. Não teria animo, ainda que o quizesse.
― E tiveste animo para me tornares desgraçada!
― Fiz-te desgraçada porque te amava muito, e tu me amavas pouco. Se tu tivesses por mim a paixão que me inflamma, quanto não seriamos felizes!... Iriamos para a Bahia...
― Cuidas que eu teria animo para affrontar assim a opinião do mundo?
― Mudarias de nome; passarias por minha esposa, e sel-o-ias diante de Deus. O matrimonio que contraistes foi iniquo... foi sacrilego. Rompe-o. Deixa livre esse homem que te não merecia. Vem... vem comigo...
— Cala-te, Carlos!... Fazes-me horror! Deixar meus filhos!... meus paes!... Lançar sobre elles e sobre meu marido uma nodoa infamante! Deshonrar entes que devia honrar e fazer honrar!... Ai Jesus!... que digo? a deshonra é certa...
― Foge Henriqueta, foge de toda essa gente que te insultará porque tu tiveste um coração sensivel. A honra ou deshonra são cousas que ás cegas applica o mundo como lhe parece. Muitos, dignos do patibulo, são estimados; outros, merecedores d'uma coroa, soffrem despresos. Foge de quem te ha de despresar porque foste mulher fraca, e não criminosa.
— Não... isso não! Fugir é augmentar meus erros.
― Terás animo para soffrer a colera de teu marido?... As reprehensões de teus paes?... As vistas dos teus criados?... O despreso de toda essa gente selvagem que se regosijará de vêr sem prestigio a mulher que a opinião publica tinha sempre respeitado?... Vem comigo, serás a minha esposa... o meu anjo!... Estarás cercada de respeitos que mereces, e das minhas adorações e amor. Ah! minha querida Henriqueta!... se não é por ti, e por mim, se te não importa a tua vergonha e a minha desesperação, ao menos por nosso filho, foge d'esta casa!... Vê que elles terão animo para deital-o á roda ou ao monturo!... para abafal-o!...
― Não acabes de matar-me... Deixa-me!... E' quasi noite.
― Adeus... até ámanhã. Pensa no que te disse. Além-mar nos espera... Vem ámanhã... Adeus. Ouço gente.
Carlos se retirou precipitadamente. Vinha um criado procurar Henriqueta.