Henriqueta/Capitulo 5
Tudo se preparava em casa de Henrique de Moraes para uma festa de familia. Julio tinha chegado a Lisboa, não dissera o dia em que vinha, mas não estaria longe esse dia.
Todos andavam alegres, menos Henriqueta, que tinha immenso trabalho para occultar sua desesperação. Era naturalmente franca e custava-lhe muitissimo dissimular. Precisava sorrir quando quereria soltar gritos de angustia.
Recolheu-se um dia mais tarde que costume de seu passeio solitario. As sombras que se estendiam sobre a natureza valeram para esconder a vermelhidão de seus olhos, e a angustia de suas vistas....
— Já estava para te mandar procurar, lhe disse seu pae, que passeava na sala com sua netinha ao collo.
— Tardei bastante... não sirvo senão para dar-lhes cuidados e tristezas, replicou ella com voz alterada.
— Que tens?.. Parece-me que estás mais incommodada.
— Não, meu querido pae. Creio que estou rouca; e doe-me a cabeça, mas estes incommodos de nada valem.
― Estás mais doente do que dizes. Apesar do gosto que tens, vaes sempre a peior. Teu marido póde ralhar-nos quando chegar. Deixamos-te muito senhora da tua vontade, e tu não trataste da saude como devias. Elle póde dizer que fomos máos depositarios , que não és a mesma, que eras, que já te não quer.
Este gracejo de Henrique de Moraes era um agudo punhal para o coração da mulher culpada, que estava dizendo comsigo:
― Terrivel verdade diz meu pae, sem o saber!...
E disse depois o melhor que pôde:
― Meu pae, dá licença que eu vá ámanhã ao Porto a casa de Julio? (Já se não atrevia a dizer: a minha casa.) Tinha alguns arranjos a fazer alli.
― Essa é boa!.. Estás emancipada. Mas se queres escutar os meus conselhos, os arranjos a que tens de attender primeiro, é de te tratar. Cuida da tua saude. Vaes ao Porto, falla com o teu medico.
― Sim, meu bom pae.
Elle continuava a passear com a menina, e proseguiu dizendo:
― Estimo que venha teu marido, porque me davas muito cuidado, e porque tambem o amo como filho, e terei muito gosto de o vêr; mas quando penso que me vão ser roubados meus netos... Hei de pedir-lhe que me deixe um d'elles. Vós podeis contentar-vos com um, emquanto não tiverdes mais.
Henriqueta passou a mão pela testa, e disfarçando seu abalo, replicou:
― Quer ficar com Virginia, não é assim?
― Com Virginia ou Augusto, não escolho, bem que este amorzinho me encante. E tua mãe é doida pelo pequeno.
― Elles são muito felizes por terem tão bons protectores!.. Não sabe, meu rico pae, quanto isto me consola.
― Que dizes?.. Consolar-te de que? Duvídas ainda que teu marido esteja a chegar?.. E' preciso, minha filha, que não sejas tão exigente. Um homem não póde estar sempre agarrado á saia de sua mulher. Mas, como tenho visto o mal que te fez a ausencia de Julio, hei de pedir-lhe que te não deixe mais. Na minha ultima carta já eu lhe dizia que mais vale viver contente e feliz que possuir grossos cabedaes: e a resposta d'elle approvava o que eu lhe dissera, e assegurava-me que ía viver só para sua virtuosa esposa e seus innocentes filhos; que ía deixar-se do seu commercio de vinhos. Estás satisfeita?
― Sim, meu pae... respondeu ella, forcejando por suster suas lagrimas e suspiros. Depois approximou-se d'elle, dizendo-lhe com meiga tristeza: ― Meu querido pae, deixe-me beijar Virginia, e abençôe-me... Quero ir deitar-me, por me doer a cabeça... e quero levantar-me cedo.
A pobre Henriqueta beijou sua filhinha com sofreguidão e lhe inundou o rosto de lagrimas, abraçou seu pae e lhe beijou a mão. Elle lhe afagou as faces, dizendo:
― Deus te abençôe. Choras!..
― Choro tanto de ternura e alegria, como de tristeza... O amor que o pae tem a meus filhos...
― Está bom... Chorar de tristeza ou de ternura deve augmentar-te as dores de cabeça.
― Tem razão... Adeus, meu pae.
E saiu precipitada. No corredor encontrou sua mãe, de quem se despediu. Alli estava já muito escuro, e suas lagrimas não foram vistas.
Vinha um criado com luze ella se apressou a deixar sua mãe.
Chegando ao quarto arrancou os cabellos com desesperação, e correndo para o leito se arremessou n'elle estorcendo-se, e ferrando nos lençoes para abafar seus gritos. Uma criada entrou com luz.
― Põe essa luz longe, balbuciou ella: doe-me a cabeça.
― O snr. Henrique e a senhora, mandam perguntar se quer tomar alguma cousa, disse a criada.
― Não quero nada, Rosa.
― A senhora disse que vinha logo cá vêl-a.
― Que não venha... que não venha. Ella custa-lhe andar depois da queda que den; e eu do que preciso é de socego. Vou dormir... mas queria antes beijar meu filho.A'manhã partirei muito cedo para o Porto. Vai-o buscar. Mas... olha uma cousa. Eu espero voltar ámanhã, mas... quem sabe? Posso ter occupações que me demorem. Toma conta em meus filhos... e trata minha mãe como agora. Tu és uma boa rapariga.
― O' snr. D. Henriqueta!.. quem póde ser máo n'esta casa?..
― Tens razão... só uma pessoa como... como ha algumas, podia aqui ser má. Vai buscar meu filho.
Rosa foi buscar o menino, e voltou logo com elle.
Henriqueta tinha-se erguido do leito; estava sentada longe da luz, e disse á criada: ― Deixa aqui um pouco Augusto. Vem buscal-o logo.
Rosa saíu. Henriqueta fechou a porta e pegando em seu filho nos braços tornou a sentar-se. As lagrimas lhe corriam em fio, contemplando o bello rostinho do pequeno, e o comia de beijos.
― Que tem mama?.. disse a creança lançando os bracinhos ao pescoço d'ella. Está a chorar?.. Mordeu-lhe alguma vespa? Tambem mordeu uma na menina, e ella chorou tanto!.. (coitadinha!..) mas eu hei de matal-as todas... todas! A avó diz que se podem matar, porque não fazem mel como as abelhas.
― Segue sempre os conselhos de teus avós... e dá-lhes muitos abraços e beijos, dizia Henriqueta suffocada em chôro, e apertando seu filho ao coração. Faze-lhes sempre a vontade... e sê muito amiguinho de tua irmã, e... e... Queria dizer-lhe mais, porém os soluços lhe embargaram a voz.
― E porque chora mamã?..
— Porque... tenciono ir ámanhã ao Porto, e... estou com dôres de cabeça; mas vou-me deitar, e ámanhã levantar-me-ei bôa.
E forcejou por suffocar o pranto, e continuou:
― Obedece sempre a teus avós e... a teu pae... para que elle te perdoe... quando fizeres alguma cousa que lhe não agrade.
― Sim, mamã. Elle ha de me trazer um cavallinho de Inglaterra!..
― Não deves esperar que elle te traga nada. Andam a metter-te tolices na cabeça. Tomáras tu que elle te trouxesse o seu amor... e t'o conservasse sempre.
― Não se agonie commigo, mama. Beije-me e chame-me o seu Nini, que eu hei de ser sempre bonito, e não hei de tornar a fallar no cavallinho que o papá me ha de trazer.
Henriqueta cobriu seu filho de beijos e lagrimas.
— Torna a chorar, mamã?..
E o pequeno poz-se tambem a chorar.
— Já te causo penas, meu filho?.. Perdôa-me... não chores... não chores, meu Nini, olha... estou já melhor... já não choro. Pede a Deus, quando te deitares, por mim...
Pede-lhe que nos tornemos a vêr... no céu, accrescentou mentalmente.
— Leve-me comsigo, mamã. Leve-me comsigo e não chore.
— Oxalá que podesse!.. Mas não!.. Deus me livre!.. Tua avó ficaria muito triste, se a deixavas, meu filhinho.
— Pois então não ha de chorar mais, não?..
— Não, meu filho, não choro mais. E se fores bom... nunca mais me has de vér triste. Mas não digas a ninguem que me vistes chorar. Se tua avó o sabia, chorava tambem, e não a devemos affligir. Deves fazer sempre por lhe dar alegria. Ama-a sempre muito e ao avô. Faze-lhes muitas meiguices e a teu pae, para... que elle seja teu amigo.
— Assim, mama?
E elle acariciava as faces de sua mãe. Ella fechou um momento os olhos, depois continuou, beijando-o:
— Sim, meu adorado filho? E sê muito bom para tua irmã. Ella (pobrezinha!..) chegará a tempo em que talvez ninguem a ame. Seu avô não é novo, sua avó padece... mas tu has de amal-a e protegel-a.
— Sim, mamã. Não irei no carro do cazeiro, antes hei de ficar sempre a brincar com ella; e hei de matar as vespas todas, para que lhe não ferrem.
— Sim, meu filhinho. Sê o seu protector. Defende-a sempre...
A criada forcejava por abrir a porta, julgando-a cerrada. Henriqueta foi-a abrir com seu filho nos braços, e dando-lhe um ultimo beijo, o poz no chão para ir com a criada, e ficou á porta emquanto o avistou; depois entrou e debruçou-se no leito pensando:
— E' para sempre!.. para sempre!.. Nunca mais o verei... nem a Virginia... nem a meus paes!.. nem... nem a todos os que tenho amado em tempos felizes!..
Quando a criada tornou, achou-a deitada; parecia dormir. Saiu succintamente. A infeliz não fechou os olhos senão para não vêr o reflexo da luz da lamparina. A cabeça lhe doía horrivelmente.
No dia seguinte foi para o Porto, e de lá escreveu a seus paes, dizendo que sabia que seu marido vinha por terra, e que ía ao seu encontro, e mettendo-se n'uma sege partiu de casa, seguida por um criado que tinha ha pouco. Julio chegou n'um vapor, e dizendo-se-lhe que sua mulher fora por terra ao seu encontro, se affligiu e admirou de tal disparate. Subiu ao seu quarto para descansar, e achou a seguinte carta:
«Não te escrevo para pedir-te perdão da deshonra que te lego e a nossos filhos... sei que o não mereço. As reprehensões que me faz a consciencia não são menores que as que tu estás em direito de fazeres á minha memoria. Deixo-te para ser desgraçada. Não poderia encarar-te!.. Ah!.. Julio!.. que não herdem nossos filhos o odio que terás com justiça á mãe. Elles são innocentes. E bem tenrinhos ficam abando- nados de sua criminosa mãe!.. Adeus, Julio... fiz a tua desgraça e a minha!.. Se ousasse, te pediria que me perdoasses na hora da morte... mas sou indigna de todo o perdão!.. odeia-me... Esquece-me!.. e ama Augusto e Virginia, e meus pobres paes. Adeus até o dia tremendo, em que tão espantosas contas tenho de dar... Adeus.»
Narrar o desesperado frenesi de Julio é impossivel.
Por felicidade estava só, e pôde dar livre curso á sua angustia sem testemunhas. Quando teve valor para senhorear suas sensações, montou a cavallo e partiu em seguimento de sua criminosa esposa; passados dias voltou e procurou occultar ao mundo sua deshonra e a de seus filhos.
Deixaremos porém os trahidos para seguir a traidora.