Henriqueta/Capitulo 6
Henriqueta chegou á Bahia com Carlos, e lá passou por sua esposa. Se não fossem os remorsos e as saudades poderia ella ser feliz no primeiro anno em que foi rodeada de attenções pelo seu amante; mas apenas este saía de casa, ella ía á janella d'onde via o mar, e chorava amargamente.
Como queria viver muito retirada, Carlos estava com ella n'uma quinta, e nos primeiros tempos só ía á cidade, quando a necessidade o forçava a isso; porém a sua paixão foi esfriando, e os pretextos começaram a ser frequentes para deixal-a. Henriqueta não se queixava. Tinha deixado de ser zelosa. Até ás vezes o via sair com prazer, para poder entregar-se a seus negros pesares. A criminosa infeliz não era a mesma, nem no physico, nem no moral. Seu rosto se defecava e emmurchecia, seu caracter se purificava no crisol da infelicidade. No coração e alma era mais virtuosa, para assim dizer, do que no tempo em que o seu porte era bom; pois odiava o crime mais que nunca; e, se não fôra um filho que tinha de Carlos, tel-o-ia deixado, ou antes não o teria seguido. Mas o pequeno Eduardo não era bem visto de seu pae. Era feio, doente, e lhe recordava uma culpa, que tão más consequencias tivera. A mãe era mãe. Amava o pequeno e se compadecia d'elle. E não se atrevia a deixal-o ao pae, temendo que o abandonasse, nem a leval-o comsigo para morrer de miseria.
Estava ella um dia com seu filho nos braços, e derramava lagrimas, lembrando-se dos filhos que não tornaria a ver. Ouviu cavallos. Devia ser o pae de Eduardo; enxugou os olhos e procurou aparentar socego. Carlos entrou com um amigo; unica pessoa a quem ella tinha consentido vêr, para satisfazer Carlos.
— Emilia, disse Carlos, (ella havia tomado este nome) faze favor de entregar o pequeno a uma negra. Não posso ouvil-o rabujar. Tenho-te pedido muita vez que não estejas com elle ao collo; isso faz-te mal.
Henriqueta entregou, suspirando, a criança a uma escrava. Rodrigo, o amigo de Carlos, disse a este:
— Não ha casa, que eu goste de frequentar como a tua. Além do favor que me fazem em me tratarem com amizade, sinto uma verdadeira ventura ao vêr tanta paz e ordem, e tanta doçura para os negros. A snr.a D. Emilia é um anjo. Bella, amavel, boa, virtuosa!.. Se eu soubesse que achava uma esposa assim, casava-me já.
Henriqueta córou e descórou. Carlos fingiu rir e replicou para que mudasse a gosil conversa:
— Casa depressa. Quero dançar-te na bôda. Mas já que fallei em dançar... Conta-me cá; foste hontem feliz? Que tal esteve o baile? Não me disseste ainda nada d'elle.
— Oh!.. diverti-me muito!.. Eu bem queria, que fosses com a senhora. Succedeu lá um caso de summa pilheria. João Felizardo tinha trazido de Inglaterra uma linda moça, que nos impingiu por sua mulher.
— Ora!.. Todos sabem isso!
— Tu sim, mas a senhora não. Ella não falla com ninguem; vive só para seu marido e seu filho. Se todas as mulheres cumprissem assim os seus deveres...
— Conta-nos como foi o baile.
— João Felizardo apresentou-se lá com a sua ingleza. Nós estavamos prevenidos, e os pozemos no meio da rua. Se visses como elles gramaram a affronta... Fazia estalar de riso!.. Foi muito bem empregado!.. Querer-se igualar com senhoras honradas uma aventureira!..
Carlos, abatido e desanimado, não tinha tido força de tornar a interromper o amigo, bem que adivinhasse o que estava soffrendo a sua cumplice; pois, sempre que o fizera, tirára máo resultado. Henriqueta havia encerrado no fundo d'alma os trances dolorosos porque estava passando. A' ultima phrase porém de Rodrigo não pôde mais; levantou-se para sair; mas a vista lhe faltou e baqueou em terra. Os dous amigos a levantaram, e Carlos, para disfarce, lamentou que Emilia fosse sujeita a desmaios.
Duas escravas levaram a senhora para o leito, e a fizeram tornar a si.
N'esta occasião sentiu Carlos immensa compaixão pela mulher, que desgraçára, e, se podesse, lhe restituiria a paz e ventura, que lhe roubára, á custa de todos os seus haveres. Tarde lhe chegavam idéas generosas!.. A infeliz estava votada a uma vida de ignominia e remorsos.
Toda a noite esteve Henriqueta em terriveis agitações. Só de manhã adormeceu. Carlos saiu então. Ao voltar achou-a mais socegada; mas, apenas se viu com elle, tendo uma negra saido com Eduardo, exclamou apertando as mãos convulsas ao peito:
— Ah!.. meu Deus!.. se aquella desgraça nos succedia a nós!
— Socega, disse elle acercando-se compassivo, socega, minha querida Emilia. Ninguem duvida que és minha és minha esposa. Todos te respeitam e amam.
— Sim!.. sei enganar melhor o publico que essa pobre ingleza!.. que recebeu todos os insultos, que eu devia participar. Por mais criminosa que ella seja, não o póde ser tanto como eu... e comtudo só tu sabes quanto sou infame... Perdoa-me, Carlos... perdoa-me por ter sido tão fraca.
— Emilia... Deixemos este assumpto. Quiz hoje comprar-te um bello mulato, para te acompanhar, quando saisses.
— Por piedade não me dês mais d'essesinfelizes.
— Se tu chamas infelizes os negros que tratas como filhos, que chamarás a alguns que eu hoje vi?.. Um deixou-me horrorisado!.. Estava em uma loja humida, nú, prezo a um cepo, e ás escuras. Disse-me o senhor, que m'o foi mostrar, que elle tinha a côr esbranquiçada por estar ha tempos alli de castigo, a jejuar a pão e agua, e a levar açoites todos os dias, não porque fosse doente... Ahi estás tu a chorar!..
— Carlos, se te deve alguns cuidados o meu socego, vai... compra-me esse desgraçado.
— Quiz compral-o, por me fazer muita compaixão, e vel-o estender-me as mãos em ar de supplica. O senhor dava-m'o muito barato, mas disse-me que não queria enganar ninguem, que o negro tinha um genio feroz, que estivera para matal-o com um machado. Antes te comprarei o mulato em que te fallei.
— Não, não!.. Compra-me o negro, que está em castigo. Mas has de me fazer mais um favor, compra-o com o preço de umas joias que trouxe de Portugal.
— Ah, Henriqueta!.. Não te pedi tanto que não trouxesses nada da casa de Ju...
— Cala-te!.. não pronuncies o seu nome!.. Faz-me um mal terrivel ouvil-o da tua boca. As joias que trouxe foram aquellas que meus paes me deram antes de casar; e só vieram commigo como lembranças da minha vida innocente e pura. Quero vendel-as todas, se for preciso, e comprar esse desgraçado com o meu dinheiro. Essa boa acção me dará muita consolação, e talvez proveito.
— Já fazes distincção do que é meu e teu?.. Guarda as tuas lembranças. Quero dar-te eu o negro. E' muito barato. Deus queira que não venha dar-te desgostos.
Henriqueta insistiu, que queria compral-o com dinheiro seu. Depois de breve debate elle cedeu. Tinha conseguido seu intento, que era distrahil-a de seus remorsos.
No dia seguinte foi Carlos á cidade, e voltou com o negro vestido de novo, e apontando-lhe para Henriqueta, lhe disse:
— José, alli está a tua senhora, que te comprou com dinheiro do seu bolsinho. Vê como te portas!.. Ella quiz-te livrar dos castigos que estavas soffrendo; vê se és ingrato.
O negro tinha-se arrojado aos pés d'ella, e lh'os beijava soffocado em choro.
Foi este o dia mais feliz da vida errada de Henriqueta, ou de maior consolação; porque felicidade não a ha onde existe o remorso.