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Henriqueta/Capitulo 7

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Capitulo VII

Passaram-se perto de dous annos sem grande novidade no viver de Henriqueta. Só ella tinha mais vagar de chorar suas culpas na solidão. Carlos mais e mais se afastava d'ella. Parecia que lhe pesava a sua companhia.

A misera nem agora tinha a criminosa satisfação de crêr que havia sacrificado a honra, a patria, a familia, os seus deveres e todas as suas alegrias a um amante fiel: ella conhecia bem que só a commiseração e a vergonha obrigava Carlos a tratal-a ainda como sua mulher.

— Se não fora Eduardo, pensava ella, se não fora meu pobre filho, dispensaria Carlos d'este martyrio, fugindo, fosse para onde fosse. O' meu Deus!.. que aviltamento o meu!.. Viver á custa de um homem que me perdeu... e que me despreza!.. Mas onde posso ir com meu filho?.. Como o poderei sustentar?.. Desacostumei-me de tal sorte de trabalhar... Apenas sei chorar.

Os mimos de Eduardo enterneciam a infeliz, e lhe retalhavam a alma, por elle ser filho de um crime, e porque d'aquella edade fora por ella abandonado Augustinho. Os pequenos eram muito differentes porém. Augustinho aos quatro annos era bello, forte, atrevido e cheio de graciosa ignorancia, e de innocencia. Eduardo não era bonito, nem forte. Sua alma era bella, seu espirito perspicaz, mas sua timidez não o deixava mostrar o que valia. Seu pae o tinha por estupido e parvo e não o amava. O menino o temia. Todo o seu affecto se empregava em sua mãe e José.

Este negro queria adivinhar-lhe as vontades, para agradar a sua senhora.

Um dia passeava José com a creança e desviou-se um pouco para apanhar-lhe laranjas; ouviu um grito; volta-se e vê um grande mono, levando o menino. Corre após elle, mas o macaco pula sobre as séves, trepa ás arvores, transpõe collinas, levando sempre a sua presa, que bradava por José continuamente. O negro perseguia-o com actividade. O mono, seguido de perto, endireitou por uma ladeira abaixo, porque não tinha por onde se safar; mas mostrava muita inquietação; é porque no fim estava um rio e elle não podia tomar á direita, nem á esquerda. Chegando á borda do rio o manhoso animal atirou á agua a creança e trepou para uma arvore, tendo por certo que o negro o deixaria para acudir ao menino e assim foi. José se atirou ao rio, ainda que estivesse alagado em suor, e salvou o filho da sua bemfeitora.

Com o susto e com o banho estiveram ambos muito doentes; particularmente José, que esteve á morte. Quando Henriqueta viu o negro são, lhe disse, que já que outro bem lhe não podia dar em remuneração dos seus serviços, lhe dava a liberdade. Em vez da alegria que todo o escravo sente ao ver-se liberto, José mostrou no rosto intensa dor.

— Que tens, José? lhe perguntou ella admirada. Não entendeste o que te disse? E's agora senhor das tuas acções. Recommendo-te, que enfreies sempre a tua colera. Os homens livres precisam tambem subju- gar suas paixões.

José se lançou de joelhos, bradando:

— O negro querer ser escravo de minha senhora... Não querer nunca deixar minha senhora!...

— Meu bom José, tens-me então muita affeição?

— Sim... sim... minha senhora.

Pois estarás commigo emquanto quizeres; mas és livre.

José beijou os pés de sua senhora, agradecendo-lhe, não a liberdade, mas o deixal-o viver com ella como escravo.

Quando elle saiu, bradou Henriqueta com as lagrimas a correr pelas faces:

— E os brancos desprezam os negros!.. Ai de mim!.. só o coração d'este grato negro me resta!.. Ninguem mais me ama!

— E eu, mãe?.. e eu, disse Eduardo, que assentado n'um cantinho do sofá tinha estado calado e attento.

A mãe tomou-o nos braços e o cobriu de beijos. A discrição prematura d'esta creança era cousa pasmosa. Conversava com sua mãe com muito juizo, e raras vezes brincava. Era triste. A melancolia da mãe e o desamor do pae o tinham tornado assim.

— Mãe, disse elle, o senhor Rodrigo disse-me que os negros são assim, para se não sujarem e nos servirem: isso póde ser?..

— Não, meu filho; o snr. Rodrigo disse-te isso por graça.

— Mas é tão feio mentir!.. O Senhor não quer que se minta.

— E' verdade... hei de ralhar ao snr. Rodrigo.

— Mãe, por que quer José ser negro?..

A mãe queria que elle fosse branco,

— Não, Eduardo, eu não podia querer o que Deus não quiz. Elle nasceu negro, e assim ha de morrer; mas escravo é que não nasceu. Quando cresceres havemos de fallar sobre isto mais a fundo.

— Eu queria ser muito grande... como o pae e o snr. Rodrigo, para conversar com a mãe, e entender tudo que me dissesse.

— Mas então não te terei ao collo como agora.

— Isso é verdade!.. e é tão bom estar assim.

— Então porque foges dos meus braços a todos os momentos?

— Para a não incommodar. O pae diz,que lhe faz mal pegar em mim.

— O' meu rico filho!.. a unica cousa que me faz bem e me consola é ter-te em meus braços.

— Ah!.. Ouço a voz do pae nas escadas... Deixa-me ir para o José?

— Sim, mas antes beija a mão a teu pae e cumprimenta o snr. Rodrigo, que tambem sobe.

Carlos entrou com Rodrigo. Havia dias que negocios ou divertimentos o tinham detido longe de Henriqueta, mas cumprimentou-a com muita frieza, e repelliu seu filho, que tentara beijar-lhe a mão.

Passado pouco foram os dois amigos passear á quinta. Henriqueta saiu tambem correndo, e foi embrenhar-se no laranjal, onde se acoitava sempre que as saudades do tempo passado, ou das pessoas que abandonara a opprimiam. Muitas e amargas lagrimas tinha alli derramado e n'este dia não foi um dos que menos chorou.

Aos seus pesares do passado se reunia o amargor do presente, e o receio do futuro. E que viria a ser do seu Eduardo?

O pae o odiava; e ella não ousava mesmo queixar-se d'isto.

Infeliz Henriqueta!.. ainda não tinhas esgotado o calix do amargoso fel, que devias beber gôta a gôta!