Henriqueta/Capitulo 8
Algum ruido e fallar a meia voz veio colher a mãe de Eduardo no meio do seu prantear, e o supplicio que então padeceu é acima de toda a expressão. Suas lagrimas se seccaram, suas faces tornaram-se pallidas, e seu corpo tremulo e coberto de suor frio curvou-se quasi sem ella dar por isso, e se occultou entre as folhas das bananeiras que estavam na borda do laranjal. Do outro lado entre Rodrigo e Carlos corria o seguinte dialogo:
-E' o que te digo Carlos, estimo-te menos desde que lhe mostras pouca affeição. Confesso que Leonor é uma moça bonita e galante, mas que te importa a ti isso, homem casado com uma senhora de tantos meritos e virtudes? Dizes que D. Emilia vai perdendo a belleza todos os dias. Isso é verdade: mas suas boas qualidades, sua docilidade e paciencia são sempre as mesmas. Quanto mais te tornas injusto para ella, mais a admiro. Não faz uma só queixa!... uma só recriminação! Carlos, uma esposa virtuosa e boa é sempre bella para um bom marido. E quem te diz que os desgostos que lhe dás não são os algozes de seus encantos? E D. Emilia ainda tem muita belleza, e entre a maior parte das mulheres levaria a palma.
— Rodrigo, vou fazer-te uma confidencia, que nunca pensei fazer-te, para que conheças o horror da minha situação... mas não!.. basta que saibas que duas cousas me levaram a requestar Emilia, a paixão do amor por ella, e a do odio contra outro homem, que tambem a amava. Nos primeiros tempos julguei-me feliz pela possuir; porém agora que me inspira indifferença... tedio... aborrecimento... e que só me resta, para temperar estes desagradaveis sentimentos uma pouca de compaixão...
— E a estima... e o respeito?.. Mostra-lhe estes sentimentos, que são os mais duradouros, solidos e apreciaveis.
— Amor era o unico sentimento que podia mostrar-lhe; o unico que ella acreditaria verdadeiro. Estima e respeito, se os podesse fingir, tomal-os-ia por escarneo. Emilia não é minha esposa, foi minha amante, e agora é uma mulher que sou obrigado a respeitar e fazer respeitar ao publico... já que ao publico menti. Uma mulher que me corta as azas, se quero voar. Sou moço, rico, solteiro, e não posso escolher uma esposa entre as mulheres mais pobres.
— Quem tal havia de dizer? Não é tua esposa aquella infeliz senhora?!
— Conheces agora que tenho razão em fugir-lhe?
— Não, cada vez conheço que és mais injusto com D. Emilia. Meu amigo, sê um homem de bem. Casar com uma amante moça e bella, é cousa facil e aprazivel; mas casar com a mãe de um filho quando ella começa a envelhecer, e que o coração se inclina a outra, é um acto custoso, mas de justiça e probidade. Se D. Emilia deixou a vereda da virtude, foi de certo por que te amava muito. Tem uma alma tão nobre, um viver tão honesto, um coração tão excellente, que se torna digna de ser a esposa de um homem de bem. Casa com ella, meu amigo. Será sem limites a sua gratidão, se a regenerares do seu immerecido abatimento.
— E' impossivel!..
— Não ha nada impossivel no desempenho dos seus deveres. Esta maxima aprendi-a da mãe de Eduardo.
— Ella disse-te isso?.. Desgraçada!.. Os remorsos a atormentam. Tenho pena do seu soffrimento; mas que lhe hei de fazer?... Não lhe posso restituir a ventura, que lhe roubei. Fizemo-nos desgraçados um ao outro... Seremos o algoz e victima mutuamente. Estamos ligados por laços de crime, que se não podem desatar. Emilia... (nem Emilia é seu nome)...
Henriqueta estremeceu e se occultou mais entre as bananeiras. Cuidou ir ouvir seu verdadeiro nome. Carlos suspirou, e continuou:
— Essa a quem roubei a paz e ventura, e que agora faz o meu tormento, era casada; e abandonou a familia para me seguir.
— Quanto deve soffrer!.. Ah! uma mulher com as suas idéas tão culpada!.. Pobre infortunada! Não lhe mostres ao menos a falta de attenções que costumas; adoça-lhe a taça de fel que ella traga, por commiseração por ella, e por amor de teu filho.
— Não me falles n'elle!.. Ainda me aborrece mais que sua mãe. Se não fosse essa insipida creatura, nunca eu resolveria Emilia a abandonar a sua familia, e seriamos ambos felizes. E o pequeno é tão feio!.. tão estupido!.. tão fraco!.. tão desengraçado!..
— Não tem nada d'isso senão ser fraco. Tu o atemorisas. Quando está sem ti é muito ajuizado e interessante.
— Aborreço-o, e elle paga-me na mesma. Apenas appareço faz-me a graça de se esquivar.
Os dois amigos, que haviam conversado assentados n'um banco, se ergueram, e continuarám o passeio.
Henriqueta, logo que os sentiu longe, correu a casa, e ordenou a José que não perdesse o menino de vista. Parecia lhe vêr Carlos erguer uma mão filhicida sobre a innocente creatura. E fechou-se no seu quarto dizendo, queria ficar só o resto do dia.
Carlos deixou-lhe algumas desculpas e tornou a partir com Rodrigo.
Quando a infeliz ouviu o trote dos cavallos, chamou José e disse-lhe:
— Preciso voltar á patria com meu filhinho. Só de ti me fio. Quero ir em segredo. Vai vender-me estas joias, e arranjar-me passagem em algum navio, que parta breve para Portugal; seja para que porto for. Serão os ultimos serviços que me farás, bom José.
— O negro irá com sua senhora; respondeu José.
— Não, meu bom José, não. Na minha patria ha poucos homens da tua côr, e os loucos (e desgraçadamente ha muitos) zombam de vós outros. Tu és arrebatado. Se ouvisses escarnecer de ti, farias alguma desordem, e serias castigado. Que afflicção não seria a minha então!..
— O negro não fará desordens, estando com sua senhora.
— Se podesses conter as tuas iras, serias desgraçado.
— Serei muito contente estando com minha senhora e o menino.
— Meu amigo, isso não póde ter lugar. Hei de viver muito pobremente; não poderei ter-te commigo. O meu trabalho chegará mal para não deixar morrer meu filho á mingua... Talvez serei forçada a esmolar um pedaço de pão.
Henriqueta cobriu os olhos com as mãos para occultar as lagrimas. O negro replicou com intimativa e força:
— O negro ha de trabalhar. A'minha senhora e ao menino não ha de faltar pão.
— Excellente coração!.. exclamou a infeliz, abraçando o negro; que não tenha eu a abundancia em que nasci, para ter-te sempre commigo socegado e feliz!..
José confuso e interdicto se lançou de joelhos em se livrando de seus braços; e curvando-se, beijou-lhe os pés, humedecendo-lh'os com lagrimas.
— Alma generosa, proseguia ella, inclinando-se para elle e pondo-lhe a mão na cabeça, levanta-te e attende-me. Não devo acceitar o teu sacrificio, mas levarei no coração a lembrança da tua dedicação. Meu bom José, em Portugal não terias em que ganhar o teu pão, quanto mais o meu e de meu filho!..
— Lá os senhores não fazem barbas?
— Fazem.
— Então o negro ganhar lá sua vida.
— Queres por força ir?
— Sim, minha senhora, mas antes... meu senhor não escapar ao negro, que é máo para minha senhora tão boa.
O negro pronunciou estas palavras com uma vista tão feroz, que a mãe de Eduardo estremeceu, e para desviar o crime exclamou com força:
— Malvado!.. Querias matar o senhor que te tirou dos ferros?.. Vê o que fazes!.. Um assassino me faria horror.
O negro sem perder a vista ferina abaixou um pouco a cabeça, balbuciando:
— Elle ser máo para minha senhora...
A pobre Henriqueta assentou abater-se na opinião do negro, para o estorvar de commetter o crime, e replicou, cobrindo os olhos:
— Estás enganado, José. Não fujo ao snr. Carlos, porque elle me trate mal. Deixo-o, porque é esse o meu dever. Elle não é meu marido... nem o póde ser. Sou a mulher mais culpada do mundo todo. Abandonei meu marido... meus filhos... meus paes... para seguir aqui o snr. Carlos. Agora o deixo para viver com o filho que me resta. Já vês que não sou digna do respeito e estima que me tinhas. Mas assim mesmo espero que me farás os serviços que te peço.
José ficou cabisbaixo e calado. A pobre senhora murmurou com as lagrimas nos olhos:
— Até este coração me foge!..
O negro ergueu a cabeça e as mãos, exclamando:
— Negro amar sempre e respeitar minha senhora. E querer ir com ella para toda a parte.
Henriqueta consentiu que elle a acompanhasse com a condição que não faria mal a Carlos; e elle retirou-se cheio de jubilo por lhe ser permittido acompanhar uma pobre senhora e uma creança inerme a terra estranha, e sustental-as com o seu braço.
Oito dias depois recebia Carlos na cidade a seguinte carta:
«Quando receber esta carta estará livre dé mim. Não me queixo... (eu fui a mais culpada) e lhe perdôo. Maria fica com todas as chaves. Recommendo-lhe esta fiel negra, e todos os outros escravos. Póde declarar que o nosso casamento era ficticio; mas peço-lhe por caridade que não diga o meu nome, nem mesmo ao seu amigo. Adeus, snr. Carlos, até ao dia em que havemos de dar contas... e que terriveis serão!.. comtudo Deus é de infinita misericordia. O nosso arrependimento póde merecer-nos o perdão. Adeus... Esqueça-se que existiu no mundo a desgraçada ― Emilia.»