Henriqueta/Capitulo 9
E' onze annos depois que vamos encontrar Henriqueta em Lisboa n'uma pequena casa do bairro d'Alfama. E quem reconheceria n'ella a antiga belleza de Rivaes?... Seus cabellos estavam brancos, seus olhos encovados, e suas magras e pallidas faces já mostravam muitas rugas.
Parecia uma sexagenaria que na mocidade tivera feições regulares, e tinha de quarenta e dois a quarenta e tres annos.
Ella trabalhava de dia e de noite, tanto para se distrair de seus pesares, como para concorrer para os gastos da casa; mas os trabalhos d'uma mulher dão tão pouco lucro que, se não fora José, teria a pobre senhora morrido á mingua e mais seu filho.
O negro a barbear e fazer outros pequenos serviços ganhava bastante, porque era geralmente bemquisto pela sua actividade, honradez e humildade. Primeiro havia sido arduo a José ouvir os rapazes zombar d'elle, mas acostumou-se de tal sorte, por amor de sua senhora, a fingir-se surdo, que por fim já nenhuma chufa lhe fazia mossa, e por isso mesmo já ninguem o incommodava.
Um dia, que Henriqueta trabalhava de tarefa, como sempre, entrou seu filho. Trazia um rolo de papeis na mão. Andava na aula de desenho. Pousou os papeis e o chapeu e correu a sua mãe.
Este mocinho, alto, magro e pallido, tinha rosto interessante e meigo, mas dava mostras de pouca saude. A sua natureza era debil, sua alma delicada. O traje de Eduardo era muito simples, mas de uma extrema nitidez e asseio.
Henriqueta vestia roupas escuras e grosseiras e talhadas com extremo desalinho. Se algum gosto lhe restava pelo trajar casquilho, ella o empregava em seu filho.
Beijou Eduardo com muita ternura as mãos de sua mãe. Esta lhe sorria melancolica. Elle se assentou em um banquinho a seus pés, e lhe disse, estorvando-a de trabalhar:
― Nunca ha de ter descanso?... Nunca ha de divertir-se com algum passatempo?... Trabalha sem cessar, e isso lhe faz mal.
― Não, meu filho, respondeu ella, anediando-lhe a cabeça; o trabalho me faz bem, e tenho todos os dias o melhor divertimento que posso ter. Vejo-te, fallo-te, recebo as tuas caricias. Deixa-me agora acabar este vestido, que é d'uma vizinha que tem pressa d'elle.
― Faz-me tanta pena ver a azáfama com que trabalha sempre!... Tenha paciencia, por ora não a deixo continuar. Deixe-me tornar a beijar-lhe as mãos. E repita-me que a minha presença lhe dá prazer; tenho precisão d'essa segurança. A's vezes... muitas vezes me parece que em logar de alegria, lhe dá pesar a minha vista.
― Oh, meu filho!... não penses isso!
― Penso, minha mãe, e tenho razão para o pensar. Ai Jesus, Jesus!... minha querida mãe... tem razão de se mortificar commigo. De que sirvo eu no mundo? Fraco e doente, para nada presto. Só sirvo para dar-lhe trabalho e canceira, e ao nosso bom José, e em retribuição que lhes dou!... Sou muito desgraçado pela minha inutilidade!...
― Meu adorado filho, pelo amor de Deus não me digas que és desgraçado!...
― Perdoe... Sou-o, porque a vejo padecer, e não posso alliviar suas tristezas. Não posso perdoar a meu pae... Não me ralhe... Sei que não devia dizer isto, nem pensal-o; porém não tenho a sua virtude e bondade.
― Que offensas tens de teu pae?!... perguntou a infeliz córando e fazendo-se pallida alternativamente.
A Eduardo deixava cair algumas lagrimas nas mãos de sua mãe que tinha entre as suas, e apertando-as ao coração, respondeu:
― Perdoe... sei que tem querido enganar-me... Meu pae não morreu. Lembra-me muito bem que viviamos em uma linda casa e quinta, e que muitos pretos nos serviam. Meu pae não nos amava... era duro... Nós lhe fugimos.
― Henriqueta deixou cair a cabeça sobre o peito e guardou silencio. Seu filho continuou, beijando-lhe as mãos:
― As suas maximas não teem conseguido com que eu seja generoso... Não perdoo a meu pae!... Ter uma esposa tão boa... tão meiga... tão terna... tão virtuosa...
― Eduardo! interrompeu a pobre senhora, arrancando uma das mãos de entre as de seu filho, e cobrindo os olhos; não continues... Matas-me. Não sabes o que dizes. E não aborreças teu pae. Elle não teve culpa em nós o abandonarmos.
― Eu sei o contrario. Não queira illudir-me. E oh! meu Deus!... que incalculaveis males nos faz elle soffrer!
― Não pensei que eras ambicioso!... A falta de riqueza te parece um mal tão horrivel!... O amor e o trabalho, a honra e a virtude não serão as unicas riquezas dignas de apreço?...
― Não sou ambicioso, minha rica mãe, não! Quizera ter alguma pequena parte das riquezas de meu pae, para ver gozar minha querida mãe de todas as commodidades da vida, e o bom José de descanso; porém não me lembrava agora isso... Os males a que alludia eram outros.
― Quaes são, Eduardo? Quaes são?
― E' um segredo.
― Um segredo?!.. Tu me assustas!
― Não se assuste, minha rica mãe, tornou elle, fingindo brincar e rir, não é caso para sustos. E' uma experiencia que quero fazer. Vejamos, se sei guardar um segredo.
Henriqueta puxou seu filho para si, e abraçada n'elle disse com terna meiguice:
― Meu Eduardo, has de me dizer esse segredo. Com uma mãe não deve haver dissimulações. Ora vamos... sê bom filho, dize-me esse segredo.
― Ah!... ah!... como queria fazer-me cair!... Com que anzol se dispunha pescar!... Bem sabe que os seus carinhos são a isca que mais me atrahe e engoda; mas d'esta vez perde os seus afagos. Quero que veja que tenho aprendido as suas lições. Um segredo não se diz a ninguem, nem mesmo a uma terna e carinhosa mãe.
― Meu filho!... meu amor; tu não pódes ter segredos para mim. Não me queiras deixar em uma terrivel anciedade.
― Como a mãe é curiosa!... Ora supponha que querem fazer-me ministro d'estado.
― Eduardo, tu não pódes enganar-me. O teu rosto é um livro em que estou acostumada a ler. Não póde lograr-me o teu riso forçado. Occultas-me alguma desgraça; mas has de dizer-me qual é. O conhecimento da verdade não póde ser mais cruel do que as suspeitas do que poderá ser.
José entrou assustado e exclamou:
― Minha senhora, o senhor moço quer comprar pistolas!
Eduardo lhe lançou uma vista tão severa, que o pobre negro tornou a sair com a pressa com que entrara.
― Comprar pistolas!... repetiu Henriqueta, fitando vistas aterradas em seu filho, comprar pistolas!... Eduardo, ordeno-te, que me digas, para que precisas d'armas. Ficas calado?.. Não ouviste, que te ordenei, que me dissesses, para que precisas d'ar- mas?
― Não se agonie, minha boa mãe. Vou dizer-lhe o que passo. Ha cousas, que me seria impossivel de balbuciar mesmo. Offenderam-me, minha virtuosa mãe!.. offenderam-me mortalmente. E não ha forças humanas, que possam desviar-me da tenção, que tenho de castigar o malvado.
― Com um assassinio!!!.. exclamou a mãe aterrada.
― Não, minha mãe. Com um duello.
― Oh, meu doce Jesus!.. como elle se esqueceu cedo dos preceitos de religião, que lhe dei!.. E' mais um castigo de meus peccados!..
E a triste senhora desatou a chorar como perdida. O filho procurou enxugar as lagrimas maternas com osculos e caricias, dizendo:
― O' minha querida mãe, não chore!.. Despedaça-me o coração! Ouça-me... Eu tenho todos os seus ditames gravados na alma.
― Então, meu filho, como ousas pensar em duello?!..
― E não tente desviar-me do meu proposito. Escute o qué tenho a dizer-lhe. Declarei-lhe os meus intentos por duas razões, primeiro porque m'o ordenou, segundo porque nem as suas ordens, nem os seus rogos podem abalar a minha resolução. O castigo do máo póde ser deferido, se me fecharem, mas ou tarde ou cedo lho hei de dar. Não chore... não chore assim!.. Olhe, minha adorada mãe, não esqueci os seus preceitos de religião, le perdoaria uma offensa propria; mas não posso deixar passar calumnias sobre a pessoa mais virtuosa da terra. Devo castigar o difamador: se o não fizesse, poderiam haver crédulos... Pelo que tenho observado o mundo menoscaba a virtude humilde, e acata o vicio mesmo sendo arrogante. E' mister pois, que a virtude tenha quem a defenda arrogante, quando a insultam. E chora cada vez mais; minha dignamãe!!.. Teme por mim?.. A sua ternura exagera o perigo. Não haviam antigamente, minha cara mãe, duellos que se chamavam o juizo de Deus?.. Pois bem, este será tambem um juizo de Deus. Eu como David matarei o Golias. A mão de uma creança vingará a virtude calumniada. Aquelle dos dois que combater pela verdade matará o contrario.
Era muito!.. Henriqueta desorientada se lançou de joelhos diante de seu filho,bradando:
― Misericordia!.. Não me laceres mais o coração!.. E' para defenderes a reputação de tua desgraçada mãe, que te vaes votar a morte violenta!.. Morte de corpo e talvez d'alma!.. E essa mãe que queres desaffrontar é mais criminosa cem vezes do que o póde crêr esse homem, que queres matar.
― Oh, minha mãe!.., exclamou o joven, forcejando por levantal-a, esse ardil não me illude. Sei o que devo pensar. Lembra-me muito bem, que meu pae era seu marido, e sei que depois que o deixamos, tem vivido só para mim.
― Infeliz!.. Estás enganado!.. Teu pae não era meu marido.
― Oh, meu Deus!.. Para me salvar a vida, minha mãe, diz tão horrivel falsidade?!.. Não ouvi eu dizer-lhe a José quando chegamos a Lisboa: Vai vender este annel, que é a ultima lembrança do meu tempo de solteira!.. Não se afflija com vãos receios. Deus é justo: elle decidirá, qual de nós combate pela razão, e será punido aquelle, que estiver do máo lado.
― Eduardo! Eduardo! já que Deus assim o quer, para meu espantoso castigo, sabe a horrivel verdade, e não me amaldiçôes!.. (Meu Jesus, acceitai esta minha humilhação!..) Eduardo... Casei em muito moça... vi depois teu pae... namorei-me d'elle... e fugi com elle, abandonando meu marido... meus filhos... e meus paes!..
Henriqueta estava ainda de joelhos, e seu filho a abraçava. De repente sentiu ella, que os braços de Eduardo a largavam, e abafada em pranto, soluçou:
― Repelle-me!.. Sou-lhe odiosa!.. Faltava-me isto, meu Deus!..
O pobre mocinho não a ouviu. Tinha-a deixado, porque perdeu os sentidos, e baqueou no chão.
Precipitou-se sobre elle a desgraçada mãe, e vendo-o sem sentidos, soltou um grito. Passou-se um momento de silenciosa agonia. Ella apalpava o rosto macilento de Eduardo. Depois torcendo os braços clamou com terrivel angustia:
― Basta, meu Deus, basta! Não posso com tanto.