Heróis do Medo

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Heróis do Medo
por Ruy Barbosa
Publicado em A Imprensa, em 30 de março de 1899


Pavebant terrebantque — aterravam por medo, escrevia Tácito dos tiranos antigos. Roubando a liberdade aos seus semelhantes, a si mesmo se rouba o déspota da sua tranqüilidade. Só na primeira proeza foi talvez livre o seu atrevimento. Só nele houve acaso intrepidez. Daí em diante, a afoiteza vem a ser uma necessidade da própria conservação. É mister ser arrojado, para não cair, destemido na violência dos golpes, para se tranqüilizar. A ilegitimidade da prepotência obtida por um crime não se mantém senão a poder de outros. Mas, como cada atentado, salvando um perigo, cria constantemente perigos maiores, quanto mais vão medrando as enormidades, mais se impõe a exigência de agravá-las. De modo que, sustentando-se justamente pelo que torna cada vez mais ameaçada a sua posição, os despotismos não fazem senão comunicar aos oprimidos o susto que os oprime. A audácia é para eles uma lei do medo.

Ao primeiro rompimento com a honra, ou a humanidade, a consciência do irremediável cava um abismo por trás do ambicioso. Daí em diante é subir, alturas acima, pelas escarpas da insânia. A poucos toca a divina fortuna do arrependimento. O orgulho, a avidez, o espírito de dominação abrem diante do perdido os horizontes da impenitência. Na esplanada, embaixo, estão as vulgaridades severas do dever. Além, montanha acima, entre as miragens da alucinação, as grandezas coroadas do triunfo. Galgar, galgar, de cimo em cimo, os espigões da soberbia. É lá que se firma a segurança, e se libra o poder sem limites. Todos os rebeldes ao freio moral fazem, inconscientemente, nas horas de vertigem, este raciocínio da loucura. Todos, desde Tibério a Balmaceda. Visto desses píncaros da tentação, o próximo é cada vez mais pequenino, cada vez mais ridículos os escrúpulos humanos. Essa ilusão óptica da habitualidade na culpa facilita dia a dia ao culpado a ascensão funesta. Vai alijando a carga dos preconceitos normais. Sente-se leve. Dilata-se-lhe o fôlego. Diria, às vezes, que se lhe vão alongando as pernas. Já não há grutas, algares, despenhadeiros, que não vença de uma passada o impertérrito trepador, capaz de perlongar firmemente como sonâmbulo a orla de uma voragem. Por outro lado, enquanto se vai perdendo pelas cristas dos precipícios façanhas arriba, entre as formas fantásticas do extra-humano, a refração do assombro a agiganta fantasticamente aos olhos da turba. A distância do mal transfigurou-os: são agora espetros desmarcados. Eis como se estabelece a admiração pelos violentos, como a miopia ordinária cria os heróis, como nasce o culto dos atrevidos.

No horrendo poema da demagogia em armas, a audácia, que ainda hoje arrebata aplausos, sempre foi isso. A história da Revolução Francesa é o cântico mais grandioso da coragem na defesa da pátria e da coragem no martírio. São inenarráveis ali as sublimidades do heroísmo nos campos de batalha e no cadafalso. Mas o valor, mais precioso, mais raro, de resistir, pela verdade e pelo direito, às multidões e às assembléias, esse denodo, tão escasso ainda agora em França, parecia então quase extinto. O mundo político era a região da cobardia. No meio desse aviltamento geral, a audácia se facilitava aos temperamentos duros, céticos, ou corrompidos. Nessa virtude, Robespierre é superior a Danton, Marat superior a Robespierre. Mais heróico, na medida da admiração pelas reações, é reclamar de uma vez duzentas e cinqüenta mil cabeças que envolver na hipocrisia de um tribunal, organizado exclusivamente para o extermínio, a função de submeter uma nacionalidade inteira à dízima patibular.

José Michaud disse: “Toda a Revolução pode conjugar-se assim: eu tenho medo, tu tens medo, ele tem medo; nós temos medo, vós tendes medo, eles têm medo.” A França tinha medo à Convenção; a Convenção, às comissões de salvação pública e de segurança, à Comuna, ao tribunal revolucionário; o tribunal, a Comuna, às comissões, aos cafés, aos clubes, às galerias, aos patriotas, às megeras da carniça revolucionária; os chefes dos partidos, a tudo isso. As provas abundam. Haja vista a resposta de Le Peletier de Saint-Fargeau, quando instado por Lanjuinais a não votar o suplício de Luís XVI: “Mas eles me matariam!” Haja vista a resposta de Danton ao Conde de Ségur: “Nós não podemos governar, senão metendo medo.” Haja vista a resposta de Sieyès a M. de Montlosier, que, apontando-lhe a Convenção, lhe perguntava: “Que pensais desta assembléia?” “Caverne: s’y jetter, y demeurer.” Haja vista o aviltamento dos girondinos atravessando as salas do palácio legislativo até as bancadas, a ler, com o sorriso nos lábios, a prosa ignóbil da folha de Hébert. Haja vista a unanimidade aquiescente da Convenção a todas as propostas dos ditadores da guilhotina: o incêndio de Lião, as atrocidades do processo revolucionário, o extermínio dos seus próprios membros.

Não basta?

Pois oiçam um convencional, o padre Grégoire: “De que se compunha essa maioria da Convenção, que decretava? De ferozes e sobretudo de cobardes. E, para lhes ter mão, que fazia a minoria?”

Oiçam um convencional, Levasseur: “O terror, que inspirávamos, insinuava-se nos bancos da Montanha, como nos palácios do bairro de S. Germano.”

Oiçam o convencional Mercier: “A arte de subjugar uma nação está na arte de apavorá-la. Robespierre terrificou a Convenção nacional. Que de legisladores não poderão alegar, ante a posteridade, outra escusa senão esta: estávamos aterrados! Erigiram os romanos um templo ao Medo: a nação francesa em massa deve-lhe um grande altar.”

Oiçam o convencional Cochon de Lapparent: “O medo, sim, senhor, o medo. Tremia a gente, não por si só, senão pelos seus, por seus amigos.”

Oiçam o convencional Baudot: “Cuidam que tínhamos um sistema. Mas é engano. Nós obedecíamos fatalmente a esta necessidade: matar, para não morrermos.”

Oiçam o convencional Thibaudeau: “Parecia então que, para evitar o cárcere, ou o patíbulo, não havia outro meio, senão prender, ou executar os outros.”

Oiçam o truculento convencional Barrère: “Só havia em nós o sentimento da nossa conservação. Só um desejo tínhamos: o de preservar a nossa existência, que cada qual julgava ameaçada. Fazia uma pessoa guilhotinar o vizinho, porque este a não guilhotinasse.”

Oiçam o convencional Merlin de Thionville, uma das sumidades da revolução jacobina, falando à própria Convenção em março de 1793: “Se, concluídos os nossos trabalhos, apresentando-me um dia à barra da assembléia legislativa, se atrevessem a me dizer que me faltou o ânimo, eu exclamaria: Quem ousa acusar-me? Quem é que não foi tão cobarde como eu?”

Oiçam a Roland, ministro da Convenção: “Não posso mencionar um homem. Em todos só se via a palidez do medo e o esmorecimento do desespero.”

Oiçam, enfim, Madame Roland, nos seus Derradeiros pensamentos: “Oh! Se tivessem tido a minha coragem esses entes pusilânimes... Cobardes, transigiram com o crime. Deviam cair por sua vez; mas sucumbem no opróbrio, sem pesar de ninguém e sem outra perspectiva na posteridade que o seu perfeito desprezo.”

O peso desses depoimentos é irresistível. Bem autorizado está por eles o juízo, que a respeito dessa época escrevia, o mês passado, o Spectator: “Houve, no Terror, um elemento mais deslustroso à França que o carnaval de morticínio, em que se engolfaram os membros da Montanha, dementados talvez pelos prolongados sorvos do que já se tem chamado absinto intelectual: foi a pasmosa cobardia dos não-embriagados. Se há certeza acerca do Terror, é a de que só aprovava uma diminuta minoria, a de que o exército o detestava, a de que as pessoas respeitáveis lhe tinham medo, a de que a própria multidão, que três vezes removeu a guilhotina, intimamente o condenava por ímpio e injusto. Mal um grupo exíguo da Convenção, por amor da própria vida, se animou a desafiar o Terror, foi-se ele para logo, e, apesar dos mais desesperados esforços, não se conseguiu restabelecer. Sobre lhe ser adversa a maioria silenciosa da Convenção, que votava constantemente as listas de proscritos, a mesma força material estava inteiramente desse lado, e, logo que para ela se apelou, sacudiu os terroristas, obrigando-os a se ocultarem como verdadeiras sevandijas humanas. Não se disparou um tiro, quando fecharam o Clube dos Jacobinos, e tangeram a bengaladas ‘as fúrias da guilhotina’. Durante meses e meses, com efeito, a França, cujo povo, entretanto, rolava para a guerra nas fronteiras, vivera, no interior, paralisada nervosamente de susto, transida em presença de uns gigantes de papelão, que, ao primeiro sintoma de resistência real, rebentaram por encanto, deixando após si uma tradição mais fatal à verdadeira liberdade que todos os reis e reacionários, cujo governo lhes sucedeu.”

Eis aí um monte de verdades inestimáveis. O governo da demagogia não passa disso: o governo do medo. A audácia agressiva dos terroristas foi a audácia do medo. As nações politicamente pusilânimes caem com a maior rapidez sob a tirania da pusilanimidade, tanto mais violenta e fanfarrona, quanto mais assustadiça. Inscrevam o que quiserem no pedestal da estátua de Danton as seitas à cata de ídolos. O que a razão fria ali admira é a confissão e o desafio de Merlin, um dos heróis da sangueira jacobina: Quem foi menos cobarde que eu?

Esta a lição dos povos, que pretenderem ser livres: não se recea­rem “dos gigantes de papelão”. Difíceis seriam as tiranias, se as nações não se iludissem com a inanidade dos colossos de teatro. Por via de regra, os excessos dos ditadores não exprimem senão o heroísmo do medo. O pavor das revoluções faz as estupendas tropelias dos déspotas. O pavor dos déspotas, a abjeta subserviência dos povos. Os primeiros tremem de um perigo real, filho dos seus crimes. Os segundos, de uma quimera, obra da própria fraqueza. Os Dantons não são possíveis senão nos países onde as maiorias não têm consciência de si mesmas.