História Universal por Guilherme Oncken, Volume II

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História da Antiga Pérsia pelo Doutor Fernando Justi[editar]

Livro Primeiro: Reminiscencias dos tempos mais remotos[editar]

Domínio dos medos[editar]

Os persas pertencem á familia dos habitantes da India, dos gregos, italicos, slavos, germanos e celtas. Quando emigraram do seu paiz primitivo para a terra do Iran, encontraram ahi um povo mais antigo, cujos vestigios se descobrem em muitas passagens da historia. A população arica designava-o pelo nome de dive, que quer dizer genios, espiritos ou gigantes.

Esta população primitiva fundiu-se com a massa dos vencedores, ou foi exterminada na lucta das raças.

Pelas descripções dos antigos, e pelos escriptos que o iranios nos legaram, vê-se que este povo era constituido por individuos de surprehendente belleza e elevada estatura, dotados dos mais alevantados sentimentos de honra e moralidade.

A par dos calculos egoistas e dos erros historicos que a Biblia nos apresenta ácerca da epoca dos patriarchas, e ainda a par dos escriptos do tempo em que a religião hebraica já estava completamente formada, resplandence a superioridade dos iranios com um brilho que nos espanta, por ser a sua religião inferior á mosaica.

Os persas de hoje são, já por um despotismo secular, já pela extinção das riquezas naturaes do paiz, um povo degenerado; só os parsis da India que não se deixaram subjugar pelo islamismo, nos podem dar hoje uma ideia do caracter pundonoroso dos antigos persas.

A historia dos persas começa com a destruição do imperio medico. Os persas, até então sujeitos á Media, arrancaram o sceptro ao rei d'este paiz e augmentaram o seu imperio com amplos e novos territorios, de fórma que todos os paizes do Oriente, representantes da mais remota civilisação, chegaram a obedecer a um só “rei dos reis.„

A Media, no emtanto, ocupava o primeiro logar, que mais tarde cedeu ao districto de Parsis, patria de Cyro; desde então a historia do imperio persa une-se com a da Media e a da Assyria.


A historia da Media remonta á maior antiguidade. Antes dos persas e dos semitas se estabelecerem nos paizes que mais tarde occuparam definitivamente, uma grande parte do imperio assyrico, e depois, do persa, estava, desde remotissimos tempos, habitada por povos scythas, cujo idioma tinha um ligeiro parentesco com o dos finnezes do Ural e com o turco. O seu territorio ficou depois reduzido áquella vasta região, que se estendia entre os dominios das outras duas nações, a Media e a Susiana.

O vocabulo Media é scythico e significa “terra, paiz„. Beroso, sacerdote babylonico, nascido pouco mais ou menos 330 annos antes da era christã, refere nos fragmentos das suas historias babylonicas, que nos foram legadas por diversos auctores gregos, que depois do grande diluvio reinaram n'aquelle paiz, durante 224 annos, oito reis medicos, o primeiro dos quaes se chamava Zoroastro.

Suppôe-se que estes medos, cujo dominio deve ser principiado pelos meados do terceiro millenio antes de Jesus Christo, eram uma tribu arica que tinha sahido do interior do Iran para conquistar os paizes visinhos e que, dois seculos depois, foi expulsa por uma dynastia indigena.

Embora aquella conquista fosse de curta duração, as tribus iranianas conseguiram estabelecer-se definitivamente mais a leste, entre a população scythica, que depois subjugaram ou exterminaram para sempre, prolongando-se por largo tempo a lucta pela supremacia entre as duas raças.

Era tão grande a importancia do elemento scythico na nação, no tempo dos Achemenidas, que estes principes acharam conveniente gravar ao lado das incripções persas uma traducção babylonica e scythica.

Herodoto distingue no povo medico as seguintes classes: busas, paretacenos, strucates, arizantos, budas e magos, ou, por outra, os autochtonos ou habitantes primitivos do paiz, os nomadas, os pastores, os dominadores aricos, os donos das terras e os sacerdotes.

As expedições de conquista dos assyrios contra a Media não obtiveram senão exitos passageiros e contribuiram para dar mais força ao elemento arico, pois acostumaram os scythas a ver nos dominadores aricos, os defensores da sua independencia contra os assyrios.

Fala-se de um rei medo, Pharnos, que em tempos remotos foi vencido e crucificado pelos assyrios, dado historico que provavelmente foi fornecido pela tradição popular. N'esse tempo, dizem, os assyrios construiram um caminho estrategico que, passando pelo Zagros, conduzia á Media. Xenophonte atravessou este caminho quando passou ao pé dos montes Carducos; foi tambem utilisado nas guerras entre os persas e Bysancio, e ainda hoje se conhece por uma serie de monumentos. Partia de Ninive, passando por Arbela, e depois directamente pelas montanhas, tomando o rumo nordeste, e ia dar ás planicies da Atropatena.

No alto do desfiladeiro de Zagros, entre Rovandiz e Uschnei, nas immediações de Sidek, levanta-se sobre um pedestral uma columna de pedra azul escura, com seis pés de alto, á qual os medos dão o nome de Kelischin. Esta columna, na face que olha para o oriente, tem gravada uma inscripção medica cuneiforme, que consta de 41 linhas. A cinco horas de distancia d'esta, na direção de Sidek, existe um seguindo Kelischin. Em Sirgan, perto de Uschnei, a estrada toma a direcção de leste e sudeste, indo de Sihna a Ecbatana.

Este caminho cobre-se de neve no inverso; era então preciso utilizar outro, que, partindo de Arbela e passando pelos mananciaes de naphta de Kerkuk (Mennis), por Soleimonia e pela planura de Shahrizur, penetrava por um desfiladeiro do monte Za-


gros, perto de Kirrind, e vinha desembocar na valle de Kermanshah, que acaba junto do monte Alvand em Hamadan (Ecbatana).

Esta estrada acha-se indicada pelas ruinas de muitos monumentos, pertencentes a todas a epocas.

Butkaneh, ou o templo dos idolos, é um logar com esculpturas antigas; perto de Shahrizur existia no tempo da conquista dos arabes a antiga cidade de Nimra, cujo nome conserva a recordação do de Namiri, tão frequentemente citado nas incripções assyricas; na planura de Hurin ha ruinas de uma cidade babylonica; perto d'esta, na garganta de Scheikan, pode ver-se n'um penedo uma esculptura com inscripções cuneiformes.

A estrada passa depois por diante de um portico de marmore, chamado Tak i Girrah. A planura de Kermanshah está cheia de ruinas, quasi todas do tempo dos Sassanidas; muitas são em estylo grego.

Nos rochedos de Behistan vêem-se ainda várias esculpturas, que depois mencionaremos; os palacios de que nos falam os antigos, parecem ter sido substituidos pelo palacio do Kosso Parvez, construido ao pé da montanha.

Os medos são citados com frequencia nas inscripções assyricas, nas quaes se conservam tambem os nomes de muitas cidades, cuja situação, como é de suppor, se torna difficil fixar.

O assyrio Teglatphalasarm que reinou aproximadamente desde 1130 até 1080 antes de Christo, é o primeiro que fala de uma expedição á Armenia e á Media; Salmanasar, que reinou nos meados do seculo IX, teve tambem de luctar com os medos. Disseram os assyrios, que os medos juntamente com outros povos que viviam para o Oriente, foram submetidos durante o reinado de Bin-nirasi (809-780). Nas inscripções do tempo do se-


gundo Teglatphalasar (744-726) os sagancios apparencem estabelecidos na região de Sultania.

O facto de Sargão (721-704) ter que levantar fortalezas para proteger a Assyria contra os medos, demonstra claramente que não deram resultado as tentativas feitas pelos assyrios para os subjugar; prova-o tambem uma inscripção do tempo de Esarhaddão (680-669), na qual este rei diz que nenhum dos seus antecessores poude submetter aquelle povo.

Pelas inscripções assyricas vemos que a Media estava dividida n'um sem-numero de principados; a descripção feita por Herodoto da conducta de Dejoces antes de subir ao throno, dá a entender que os principes compartilhavam do poder com os notaveis das assembleias populares. Com effeito, o poder do principe, limitado pela aristocraciam conserva-se ainda hoje, desde remotos tempos, nas tribus que vivem em grande liberdade.

O Avesta, ou livro sagrado dos sectarios de Zoroastro, mostra-nos este estado de cousas e esta constituição no tempo dos Achemenidas; diz que os chefes de familia, de tribu, de districto e de provincia, governavam por seu proprio alvedrio, sem menoscabo do direito do rei dos reis.

Os kurdos, que occupam o paiz em que d'antes habitavam os medos, teem conservado até hoje esta antiga constituição: dividem-se em tribus, classes e familias, as quaes se reunem em assembleias populares, para deliberar sobre assumptos de commum interesse.

A tribu dos mikrikurdos divide-se em 20 familias: os bilbas em 3 grupos: o primeiro em 12 sub-grupos, o segundo em 5, em 8 o terceiro; os duschiks estão divididos em perto de 20 familias, á cabeça de cada uma das quaes está um chefe (beg). O mais pequeno d'estes grupos consegue pôr em pé de guerra alguns milhares de homens.

Entre os baktiares, affins dos kurdos, e situados na Media meridional na direcção de Ispahan, ha uma grande tribu, chamada Hafleng, que está fraccionada em cinco tribus mais pequenas; uma d'estas conta 15 divisões, com um total de 4000 familias. Estas tribus estão unidas ao seu chefe por laços de verdadeira e cordial estima. Rich conheceu um kurdo que depois de acompanhar voluntariamente o seu chefe no captiveiro, em Bagdad, se suicidou quando elle morreu.

Ao passo que os kurdos e os baktiares vivem sob o regimen de uma aristocracia feudal, os luros, seus irmãos (a noroeste dos baktiares, na região superior de Kercha não teem chefes propriamente ditos, mas constituem uma republica federal.

Conhecemos muito bem a organisação das tribus dos afghans no Iran oriental, chamado pelos antigos Paropamisos. O chefe da familia responde por ella: cada dez chefes de familia obdecem a um ancião; cada dez ou doze d'estes estão submettidos a um kandidase ou chefe de secção; estes estão por sua vez ás ordens de um malik ou muchir, e estes escolhem um chefe entre as familias mais antigas.

Um numero indeterminado d'estes grupos constitue um Kail, cujo chefe adopta o titulo de Khan: a seu lado ha um conselho de chefes de diversos grupos, e todos os negocios interiores são dirigidos pelo Khan, embora com a intervenção e approvação do Conselho. Ha, no emtanto, tribus afghans a leste que não teem Khan, e nas quaes, por consequencia, estão quebrados os laços de união entre as familias da tribu; ás vezes, comtudo, algumas secções do Kail reunem-se n'uma Gundi, especie de assembleia de irmãos de armas.

Falando dos antigos persas, Herodoto cita dez tribus, entre as quaes a dos pasargadas exercia a hegemonia ou poder directivo: a familia mais distincta d'esta tribu era


dos Achemenidas, na qual se escolhiam os principes da Persia depois de confirmada a sua nomeação pelo rei dos reis, e por consequencia pelo monarcha medico, quando existia este imperio.

Attendendo a esta organisação politica na antiga Media, comprehende-se facilmente que o facto de Dejoces subir ao throno, como diz Herodoto, foi o resultado natural d'essa organisação.

Dejoces, filho de Phraortes, gozava de grande consideração entre os individuos da sua propria trubu e das trubus, pela sua rectidão e justiça. Conseguiu collocar debaixo da sua dependencia os outros principados medicos, e parece que chegou a este resultado sem difficuldades, attendendo a que os medos tinham necessidade de um poder grande e energetico, para fazerem frente ao assyrios.

Quando Dejoces alcançou o poder supremo, ou a dignidade real, mandou construir immediatamente uma cidade bem fortificada; como os reis assyrios, rodeiou-se de uma côrte e de uma guarda d'honra, e introduziu tambem o costume de ninguem se lhe dirigir sem seu consentimento; entendia que assim como os egypcios se faziam venerar como deuses, elle e os outros monarchas asiaticos deviam fugir aos olhares profanos do povo. As relações d'este com o rei mantinham-se por intermedio de funccionarios especiaes, cujo dever era apresentar por escripto as pretenções do povo; a vigilancia e ordem de todas as partes do reino, estavam confiadas a inspectores, como na epocha dos Achemenidas.

A tribu, cujo primeiro chefe foi Dejoces (o rei Sargão chama ao seu principado Bit-Dayauku) occupava indubitavelmente o logar onde elle mandou levantar a cidade para sua residencia imperial, Ecbatana, situada n'uma vasta planice, nas abas dos monte Alvand (Orontes). Vindo de Teheran, e depois de chegar ao cimo do citado monte, vê-se um enorme rochedo dominado por Alvand, cujo cume está, por sua vez, na parte septentrional, egualmente dominado por uma segunda serra, que se levanta ao fundo.

Do sopé do Alvand partem suaves encostas que vão terminas n'uma bem regada planicie; era sobre estas encostas que se levanta a cidade circumdada de arvores. Na parte sudoeste da povoação existe, n'uma collina formada pela mão do homem, o castello chamado Ark, hoje convertido em logar de oração, no mesmo sitio em que estava o antigo castello real medico. Das antigas construcções apenas resta uma torre. Encontrou-se ahi um leão de marmore e um pedestal de columna, completamente egual aos encontrados em Persepolis, o que demonstra que os Achemenidas (provavelmente Dario I) construiram um palacio de pedra junto ao de madeira levantado por Dejoces. O geographo Zakuto viu ainda ali, nos principios do seculo XIII, uma solida abobada.

Dario e Xerxes mandaram gravar várias inscripções n'uma rocha de porphyro, no meio de um deserto cheio de penhascos de aspecto selvagem, atravessado por torrentes que se precipitam com estrepito na cordilheira.

A pouca distancia d'aqui, n'uma escarpada elevação, ha uma plataforma quadrangular, antigo sitio destinado ao fogo sagrado, e aonde ainda hoje os persas vão em peregrinação,

Os muros que circumdavam o castello real constituiam sete recintos concentricos, cujas ameias estavam pintadas de branco, negro, encarnado, azul e alaranjado; as duas muralhas mais interiores tinham o parapeito coberto de laminas de ouro e de prata. O palacio de madeira e o templo de Anahita estavam tambem enfeitados com estes metaes.


Esta descripção da fortaleza imperial tem verdadeira importancia architectonica. Os setes degraus da torre (Ziggurat) de Babel, chamada “o templo dos sete luminares da terra„ eram tambem de côr, e nas ruinas de Khorsabad encontrou-se uma torre cujos quatro degraus, que ainda se conservam, estão pintados de negro, branco e encarnado (em vez de alaranjado) e azul, começando a contar estas côres pela parte inferior.

As côres podiam dar-se de tres maneiras; estendia-se sobre a parede uma camada de estuque e pintava-se este, ou dava-se côr sobre a superficie dos tijolos e fixava-se


no forno peça acção do calor, ou, por ultimo, empregavam-se pequenos cones de argilla, pintados de madeira que, introduzindo-os horizontalmente no cimento com o vertice para dentro, apresetavam a superficie corada da base visivel no exterior. Tambem se conhece o methodo que era empregado para revestir as paredes de bronze, prata e outro.

Além d'isso, as muralhas de Ecbatana demonstra que ahi, como na Babylonia, se adoravam como deuses os sete planetas, aos quaes esses muros eram consagrados, e cujas côres sagradas ostentavam.

Se invertermos as duas primeiras côres na descripção de Herodoto, e se trocarmos a terceira pela quinta, apparece então em ordem inversa, do muro mais interior para fóra: dourado, prateado, encarnado, azul, amarello, branco e preto; e se em logar das côres pozermos os nomes dos planetas a que estavam consagradas, estes apparecem na mesma ordem em que se observam nos dias da semana que teem o nome d'elles: Domingo (sol), lunes, lundi (Lua), martes, mardi (Marte), miercoles, mercredi (Mercurio), jueves, jeudi (Jupiter), viernes, vendredi (Venus), sabado, sabbado, samedi (Saturno).

O culto dos astros (Sabeismo), que é o mais alto grau de perfeição da religião fetichista, foi propagado na Mesopotamia pelos scythias da Media e pelos sumeres, que eram seus affins, e tem grande importancia na religião dos babylonios. A dos persas tambem tributa culto e adoração dos astros, e attribue a sua invenção a Takmuraf, o qual parece ser em parte uma personificação da civilisação scythica.

Os chaldeus da Babylonia diziam que os planetas presidiam ao nascimento dos homens, e chamavam-lhes, por isso, astros do nascimento; reconheciam a influencia de dois d'elles como benefica, a de outros dois como malefica, e a dos restantes oscilantente entre essas duas.

Dejoces deixou um vasto imperio a seu filho Phraortes, o qual empregou o poderio que herdára do pae em engrandecer a Media, começando por submetter a Persia, cujos principes tinham já reunido as suas tribus em corpo de nação durante o reinado de Dejoces.

Esarhaddão (680-669) diz que aprisionou dois principes persas, Sitirparna e Sparna. Phraortes venceu tambem Achemenes, e fel-o seu vassallo, succedendo outro tanto aos restantes principes do Iran, até aos ultimos confins da Bactriana e da Sogdiana. Depois, Phraortes dirigiu-se contra a Armenia, que já por várias vezes tinha sido hostilisada pelos assyrios.

Este paiz montanhoso, com vastas planicies cheias de pastos, com soberbos lago, caudalosos rios e elevados picos, no qual a sagrada tradição colloca o paraizo, é atravessado de leste para oeste por campos em que se levantam extensas cordilheiras e picos isolados. A mais importante, que divide o paiz em duas metades, estende-se desde o monte Ararat (Masis) até á união dos dois affluentes do Euphrates; os picos mais elevados d'esta cordilheira, levantam-se nas immediações de Erivan, e são o Grande e o Pequeno Ararat e o Alagis.

A parte septentrional da região montanhosa vem terminar no valle por onde correm as aguas do Kura, cujos affluentes da mesma região procedem do Caucaso, ao passo que o Aras (Araxes), que afflue ao Kura um ponto antes da sua desemboccadura, vindo de Bingöldag ao sul de Erzerum (Karin, Theodosiopolis), percorre uma grande parte da região montanhosa, entrando depois na planicie de Karabag (Siunik, Parnes).

Entre os dois rios está o lago Gelakuni (Sevanga). Não longe do Araxes brotam tambem as duas nascentes do Euphrates, que, depois de se juntarem, atravessam a parte meridional da região montanhosa, que é continuação do Pequeno Tauro.


É tambem n'esta zona meriodional que teem origem os dois braços do Tigre, o occidental não longe das origens do Euphrates, e o oriental na vertente que corresponde ao sul do lago de Van. O Chorrok (Akampsis), que depois de percorrer o paiz dos kalybes e dos saspires desembocca no Mar negro, é tambem um rio notavel.

Entre a extremidade meridional e os planatos de Airarat (paiz dos Alarodios), encontram-se as cordilheiras que constituem a continuação do Elbur ou região septentrional do Iran, passando pelo norte do lago de Urmia (chamado pelos antigos Kapauta, quer dizer, azul) e circumdam, com os seus nevados picos, o lago de Van (Thospitis).

Os caminhos que facilitaram á Armenia as suas communicações com o mundo antigo, são as grandes vias militares de Susa e Sardes, que comprehendiam uma grande extensão de territorio na parte sul do paiz, e a via de Melitene que passa por Daskusa, Eriza (Erzingan) e Erzerum, em direcção ao centro da Armenia, onde junto á parte superior do Araxes se encontram as antigas capitaes Erovandachat (na desemboccadura do Akurean), Valachapat (nas immediações do paiz dos patriarchas, Echmiadzin), Dovin, Artaxata (hoje Ardacher) e Armavir; e mais ao norte, nas pedregosas margens do Akurean, Aní, residencia dos reis bagratidicos durante a Edade media e seguindo mais para diante, rio abaixo. Naxuana, onde a via passa da Atropatene para a outra banda do rio. Depois de atravessar altos desfiladeiros, o caminho segue em direcção a Tiflis e á antiga capital da Georgia, Metzketha. Aqui, atravessando Kutais, antiga residencia dos reis imerethicios, o paiz d'onde os medos são originarios, até ao Mar negro e ao norte pelas portas dos Alanos, subindo ao alto do Caucaso.

Os 10000 gregos commandados por Xenophonte, quando chegaram a Sapphe, dirigiram-se para o norte pela região dos Karducos (Kurdos), atravessaram o Centrites (Bohtanchai ou Tigre oriental), ponto em que os caminhos se bifurcam em direcção ao lago Van e a Manavazkert, cruzaram o Teleboas (rios de Musch), chegaram em seguida ao valle do Phasis, isto é, do Araxes, no paiz de Basean (Phasiana) e depois de terem transporto a cordilheira pela parte superior do valle por onde desliza o Chorrok, vieram ter á costa de Trebisonda.

A Armenia foi habitada desde os mais remotos tempos até ao seculo VII proximamente, por um povo que deve ser considerado como pertence á familia dos georgianos do Caucaso.

Este povo deixou, principalmente em Van, grande quantidade de monumentos com inscripções cuneiformes, que nos fornecem elementos para conhecermos o nome de uma serie de reis da Armenia.

Herodoto chama alarodios a este antigo povo, nome que é um hellenismo de Urartu nas inscripções assyricas ou Urastu (nas achemenidas); este subsiste ainda no nome do paiz, Airarat.

No seculo IX o reino de Urartu exercia a sua soberania sobre os outros principados da Armenia, entre os quaes são citados Musasir (ao norte do lago Van), Mildich (no districto de Maku), Milidda (Melitene) e Van.

N'esta epoca, e ainda posteriormente, a Armenia dividia-se em pequenos cantões, muito difficeis de reunir n'um só reino, por causa das condições naturaes do paiz, que é cheio de valles de difficil accesso, e não possue senão uma planicie notavel, junto ao Araxes. Por estas razões, um reino armenio que estendesse o seu dominio sobre o paiz nunca podia ser duradouro; além d'isso, os grandes imperios limitrophes tiveram sempre o cuidado de conservar sob o seu dominio um territorio tão importante debaixo


do ponto de vista estrategico, territorio que era atravessado pelas grandes vias de communicação do norte para o sul e do oeste para leste.

Pelas incripções alarodicas e assyricas, sabemos que a principal divindade dos alarodios era Haldia, cujo templo principal se encontrava em Musasir. Esta divindade constituia uma trindade com o deus do firmamento e o do sol; era, por consequencia, provavelmente a lua. Em Khorsabad conserva-se n'um baixo relevo um desenho do citado templo.

Além dos colchios e saspires que estavam estabelecidos na Armenia, Herodoto cita o povo dos matienos, que residiam na Atropatene e n'outros districtos, precisamente onde hoje vivem os kurdos.

Estes matienos eram de origem iranica. Herodoto colloca os armenio na região occidental que se estende desde a parte superior do Euphrates até ás immediações da Phrygia. Segundo a tradição antiga, vieram d'esta, formando parte d'aquelles numerosos povos que partindo da peninsula dos Balkans invadiram a Asia menor, devendo ter-se estabelecido na citada região nos tempos dos ultimos reis assyricos.

Uma parte dos alarodios foi empurrada para o norte, e a outra submettida. É por esta razão, que nas inscripções de Sargão (721-704) nos encontramos com um nome de procedencia ario-armenica, o do deus Bagamachtuv, ou do rei Bagadati, de Mildich. Nas inscripções dos reis persas chama-se ao povo Armina e não Urartu, nome que se encontra unicamente nas traducções babylonias e scythicas do texto persa.

Os armenios chamavam-se a si mesmos Haik (senhores) porque, como os medos iranicos, tinham conseguido dominar a antiga população.

O que hoje sabemos de positivo ácerca dos acontecimentos anteriores ao estabelecimento do Haik, devemo-lo ás inscripções assyricas. Os territorios do sul da Armenia que confinavam com a Assyria e a tantas vezes vezes citada região de Nairi na parte superior do Tigre, foram submettidos desde tempos muito remotos pelos reis d'aquelle imperio. Teglatphalasar I, o rei mais antigo de que possuimos noticias circumstanciadas e documentadas, já se envaidece de ter imposto aos reis de Nairi um tributo de 1200 cavallos e 2000 bois. Penetrou nos territorios do principado de Mildich, onde se viu obrigado a abandonar os seus carros, por causa do paiz ser muito montanhoso, não sem que tivesse incendiado muitas povoações e recebido tributo.

O facto de os reis que se seguiram a Teglaphalasar terem de combater constantemente os nairis, prova claramente que essa victoria não foi duradoura.

Não longe das origens do Subeneh-Su e da aldeia de Karkar encontrou-se uma imagem de Teglatphalasar (que não reproduzimos, porque os leitories já a conhecem) com uma inscripção; outra, descoberta em Kala Shergat, refere-se á sua erecção junto ao Supnat.

Asur-nasir-habal (882-857) tambem conseguiu o pagamento de um tributo dos armenio da parte meridional; absteve-se, comtudo, de atacar a parte mais poderosa, Urartu.

Estas regiões já deviam estar muito povoadas n'esse tempo, segundo se deprehende do numero de cidades, das quaes Asus-nasir-habal tomou 250.

O successor d'este, Salmanasar (857-829), penetrou ainda mais para o interior do paiz, travou lucta com Arumi de Urartu, chamado Arame nas inscripções alarodicas de


Van, arrazou a sua principal fortaleza, Subaniga, e muitas cidades, e apoderou-se da capital Arnia, junto ao rio Turnat.

Metade do reinado de Salamanasar V (780-770) passou-se em guerras contra a Armenia, e conservam-se tambem descripções pormenorisadas das sustentadas com Sardu de Urartu por Teglatphlasar II (744-726). Sardu alliou-se com o principe de Kummuk, junto ao Tigre, mas foi derrotado e aprisionado na cidade de Thurus, perto do lago de Van, onde pediu misericordia. O vencedor erigiu a sua estatua no centro da cidade, mandou muitos armenios para a Assyria e fundou na Armenia uma cidade, onde os habitantes das serras foram obrigados a residir.

A Armenia é citada com muita frequencia durante o reinado de Sargão (721-704). Ursa de Urartu, (o Hratcheai da tradição armenia,) colligou-se com Bagadati de Mildich e com os principes de Karalla, Sagartia e Van. Sargão aproveitou o desthronamento de Aza de Van para se apresentar como vingador d'este principe legitimo; prendeu Bagadati, que foi esfolado, e collocou Ullussun, irmão de Aza, no throno de Van; todavia, o novo principe tomou depois o partido dos seus parentes armenios e reconheceu a suzerania de Ursa. Sargão voltou com um exercito “numeroso como uma nuvem de gafanhotos„, destruiu a capital de Nairi, Szirti, impoz um tributo ao rei d'este paiz na sua fortaleza de Kubuskia, e as gentes dos principais alliados foram deportadas. Ullussun continuou no throno, com a condição de pagar tributo duplo.

Ursa declarou guerra a Ullussun e tomou-lhe 22 povoações fortificadas, e este conspirou com Dayauku, governador de Van, cujo filho levou em refens, Sargão reconquistou as 22 povoações, dando assim a entender que considerava o paiz de Ullussun como territorio dependente do imperio assyrico.

Ursana de Musasir, alliado de Ursa, fugiu como uma ave para as montanhas, e Sargão levou de Musasir, como despojos, os deuses Haldia e Bagamachtuv, o thesouro de Ursana, tres minas de ouro, 682 mulas, 125 cordeiros, pannos de linho e 816o prisioneiros. O principe fugitivo suicidou-se com uma adaga. Ursa intentou robustecer o seu poder em frente dos assyrios e alliou-se com Mita, rei dos moskos e com Kulli, rei dos tibarenos (Tabal), cujos dominios deviam estender-se muito para o sol no tempo dos assyrios; mas a acreditar no que diz Sargão, foram ambos vencidos e substituidos por um satrapa assyrico.

O rei vencedor viu-se tambem obrigado a suffocar em Milida uma insurreição, e a levantar ali fortificações a fim de proteger e enraizar as suas conquistas.

Ursa nunca mais poude ser vencido; os assyrios não conseguiram tornar a pôr o pé nos seus dominios.

Os successores de Sargão, Senacheerib e Esarhaddão, tinham outras occupações; no seu tempo apenas se menciona uma guerra contra os minnos, estabelecidos junto ao lago de Urmia, na direcção do monte de Zagros.

A partir d'essa epoca as forças armenicas ficaram unidas e, se a tradição armenica não mente, o seu rei Baroir colligou-se com um principe medo, Arbaces (80 annos antes de Dejoces) contra os assyrios.

Phraortes (e talvez só o seu successor Cyaxares) conquistou e incorporou a Armenia ao imperio medo-persa.


Phraortes, que já possuia vastos territorios, julgou-se com força bastante para acabor com o poder, ainda ameaçador, dos assyrios e declarou-lhes guerra; mas estes ainda conservavam a sua pericia militar, e Phraortes foi derrotado e morto n'uma grande batalha (635).

Ao morrer legou a seu filho Cyaxares (Huvaksatara) a vingança contra Ninive, em cujos preparativos, feitos muito a occultas, aquelle principe passou os seus primeiros annos do seu reinado.

Cyaxares experimentou a pericia e o valor das suas tropas n'uma guerra contra os parthos; depois de ter submettido este guerreiro e destemido povo, entabolou negociações com Nabopalasar da Babylonia, para ajustar uma alliança contra a Assyria. Este Nabopalasar, chaldeu de origem, era satrapa assyrico, pois, como é sabido, a Babylonia depois de longas e tenazes luctas para conservar a sua independencia, acabára por ficar submettida á Assyria.

A filha de Cyaxares foi dada em casamento, como pacto de alliança, a Nabuchodonosor, filho de Nabopalasar, mas antes de se emprehender uma campanha decisiva contra a Assyria, Cyaxares teve que conter uma devastadora invasão dos scythas que acabavam


de atravessar o Caucaso. Comprehendendo que a força d'estes, armados de arcos e achas, estava baseada na confiança absoluta que depositavam nos chefes, Cyaxares e os magnates medicos surprehenderam Madyas e os principes capitães dos scythas n'um banquete, e depois de os embriagarem, assassinaram todos barbaramente; as tropas que ainda devastavam a Media, privadas de direcção, foram passadas á espada ou reduzidas á escravidão. Soou então a ultima hora de Ninive. Chaldeus e os medo cercaram esta cidade, depois de muitos recontros infelizes; o Tigre auxiliou os sitiadores com a sua cheia e conseguinte ruptura das muralhas; as hostes entraram e destruiram-na tão completamente (625), que nunca mais poude ser reedificada.

Os scythas serviram de pretexto a Cyaxares para uma nova conquista. Uma parte dos que tinham sido expulsos foi acolhida por Alyattes, rei da Lydia, e tendo-se este opposto á sua extradicção, os medos emprehenderam a conquista da Lydia.

O reino da Lydia tinha o centro no valle do Hermos, onde, junto a um rio de segunda ordem, se levantava Sardes, sua capital. Os mais antigos reis d'este paiz são lendarios; entre os seus nomes ha muitos que são simples personificação de algumas tribus lydias, por exemplo, Lydo e Tyrrheno. Este, por causa de uma grande fome, enviou para o outro lado do mar uma colonia que chegou até á Italia, onde constituiu a nobreza etrusca, assenhoreando-se da primitiva povoação e introduzindo n'ella os costumes e crenças religiosas da Asia.

A estes antigos reis seguiu-se a dynastia fundada por Agron, que quer dizer fugitivo, e que é possivel que tivesse sido irmão do rei da Assyria.

A Troade tambem estava submettida á influecia da Assyria, que mandou um exercito, commandado pelo kuchita Memnon, em auxilio do rei de Ilion (Troia), seriamente ameaçada pelos acheus (gregos).

N'aquella região, banhada pelas aguas do Scamandro, do Simois, do Thymbrio e do Granico, e atravessada pelas cordilheiras e serras do Ida, vivia um povo, em epoca prehistorica, cujas relações com os paizes do Oriente, principalmente com a Syria, conhecemos muito bem pelas antiguidades encontradas em Troia.

Os instrumentos musicos de pedra e marfim parecem proceder dos thracios, aos quaes os hellenos attribuem a invenção da poesia e do canto. O marfim foi talvez importado da Mesopotamia, onde, segundo os dados fornecidos pelas incripções egypcias e assyricas, havia elephantes no seculo XII; o cobre e o bronze, encontrados em abundancia, demonstram que os habitantes da Troade commerciavam com a ilha de Chypre, e o antiquissimo e primitivo alphabeto troiano mostra-nos tambem claramente que aquelle paiz manteve relações com esta ilha e com Syria, relações que datam de tempos anteriores ás viagens dos sidonios e tyrios.

Depois da destruição de Ilion, os eolios do Peloponeso, que foram expulsos d'ahi pelas tribus doricas, passaram para a Troade (seculo XII), onde, sobre as ruinas da antiga cidade, fundaram outra nova.

O ultimo rei da dynastia lydia, acima mencionada, Kandaules, foi assassinado por Gyges, a instancias da mulher d'elle, e este fundou a dynastia dos Mermnades (687). Gyges viu-se obrigado a reconhecer a suzerania do imperio assyrico.

Nos annaes de Assurbanipal lê-se o seguinte:

“(669-626) Gaggu, rei de Luddi, paiz remoto de que não tiveram nenhuma noticia os reis meus predecessores, teve conhecimento da magnitude do meu imperio por um sonho que lhe enviou Assur, o deus que me deu a vida. Mandou-me embaixadores para m'o dar a conhecer, e submetteu ao jugo da minha


auctoridade e ao imperio de Assur e Istar, as divindades, meus senhores, o povo dos gimirros (cimmerios ou scythas) que lhe tinham devastado o paiz e que não tinham reconhecido os meus antecessores; e enviou-me dois chefes carregados de cadeias de ferro e de bronze. Apezar dos embaixadores terem sollicitado a minha amizade, Gaggu faltou á sua palavra e alliou-se com o rei de Musuri (Psammetico do Egypto) para sacudir o meu jugo, mas Assur ouviu a minha supplica, e Gaggu foi morto pelo gimirros que lhe tornaram a devastar os Estados, subindo ao throno seu filho Ardis (652), que se me submetteu.„

A Lydia intentou depois a conquista da Asia menor. As cidades gregas situadas na costa foram submettidas por Sadyattes e Alyattes; em seguida cahiu em seu poder a Phrygia, essa antiquissima terra de civilisação, encravada no centro d'aquella região e da banda de cá do rio Halys, cuja riqueza deu origem á fabula grega do rei Midas, e de cuja velha cultura tão especial dão prova os sepulchros dos seus reis, ainda hoje existentes; depois seguiu-se Capadocia, territorio limitrophe do reino medico. Apenas conservaram a sua independencia as costas meridionaes, Lycia, Pisidia e Cilicia.

Cyaxares marchou contra Lydia, mas o valor do inimigo fez com que a empresa fracassasse; depois de elle morrer, seu filho Astyages continuou a guerra.

Apóz longo tempo de lucta, o rei da Babylonia, que devia ter interesse especial em não permittir que o poder dos medos augmentasse muito, e Syenesio, rei da Cilicia, celebraram um tratado de paz, (que se firmou e sancionou com o casamento de Aryenis, filha de Alyattes, com Astyages,) e para o qual contribuiu um eclipse do sol (28 de maio de 585) em que a superstição dos soldados julgou ver um aviso de Deus.

Durante o reinado de Astyages, os reis da Lydia augmentaram consideravelmente os seus dominios com conquistas novas; a Babylonia fixou as suas fronteiras ao norte, diligenciando reunir todos os povos de origem semitica n'um grande Estado. Astyages, que ao principio era um principe de grande ponderação, entregou-se depois a vida desregrada, por causa dos thezouros que trouxe da Assyria.

Ha dominadores que convencidos da sua fraqueza julgam poder sustentar aos olhos dos subditos, e mediante medidas despoticas, a sua auctoridade, quebrantada pelo espectaculo dos seus vergonhosos vicios; durante algum tempo o temor consegue conter as insurreições; mas se n'uma occasião de desespero apparece um homem de valor, que saiba captar as boas graças dos descontentes, entre os quaes quasi sempre figuram em primeiro logar, os que rodeiam o monarcha, esse homem apodera-se facilmente da soberania e é acclamado por todos como libertador.

Astyages passava por ser um rei voluptuoso e cruel, de modo que o descontentamento dos medos devia ter dado animo ao joven Cyro, filho do principe dos “persis„, tributario da Media, para impôr a suzerania a todos os povos do reino medico.

Astyages casara sua filha Amytis com um magnate medico, Spitamas, ao qual, por esta razão, deu o direito de successão ao throno, privilegio que, com certeza, enfureceu quasi todos os outros ambiciosos magnates medicos.

Harpagos, um dos mais distinctos nobres, irritado com a crueldade do rei, entrou em relações com Cyro e apresentou-lhe como coisa facil o triumpho sobre o tyranno, cuja ruina lhe devia satisfazer completamente a sêde de vingança.