História da Mitologia/XXXIII

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História da Mitologia
por Thomas Bulfinch
XXXIII - Eneias na Itália


Eneias na Itália[editar]

Turno é derrotado por Eneias
ilustração de Luca Giordano (1634–1705)

Eneias, tendo se despedido da Sibila e se juntado à sua frota, margeou ao longo das costas da Itália e lançou âncora na boca do Tibre. O poeta Virgílio, tendo trazido o herói até este lugar, o fim determinado das andanças do herói, invoca sua Musa para contar a ele como estavam as coisas até aquele agitado momento. Latino, o terceiro na descendência de Saturno, governava o país. Ele agora estava velho e não tinha nenhum descendente da linhagem masculina, mas tinha uma filha encantadora, Lavínia, a quem muitos chefes das vizinhanças haviam pedido em casamento, e dentre eles, Turno, rei dos rútulos, foi favorecido pelos desejos dos pais da jovem. Mas Latino tinha sido avisado durante um sonho pelo seu pai Fauno, de que o marido destinado para Lavínia deverá vir de um país estrangeiro. E dessa união surgiria uma raça predestinada a dominar o mundo.

Nosso leitores se lembrarão de que durante o conflito com as Harpias, um daqueles pássaros semi-humanos havia ameaçado os troianos com sofrimentos atrozes. Particularmente, a ave havia predito, que antes que cessassem suas andanças, eles seriam pressionados pela fome a devorar suas próprias mesas. Este presságio agora se tornava realidade, pois, enquanto faziam uma refeição escassa, sentados sobre a relva, os homens colocaram seus biscoitos envelhecidos no colo, adicionando junto todas as migalhas colhidas na floresta. Assim que devoraram as últimas migalhas, terminaram por comer as cascas de pão. Ao ver isto, o garoto Iulo disse brincando: "Veja, estamos comendo nossas mesas." Eneias entendeu o significado e aceitou o presságio. "Todos façam suas saudações à terra prometida!" exclamou ele, "este é o nosso lar, nosso país." Ele, então, tomou providências para descobrir onde se encontravam os atuais habitantes da terra, e quem eram seus governantes. Uma centena de homens foi enviada até a aldeia de Latino, levando presentes e um pedido de amizade e de aliança. Chegando lá, foram recebidos com cordialidade. Latino imediatamente concluiu que o herói troiano era nada mais que o genro prometido e que fora anunciado pelo oráculo. Latino alegremente concordou com a aliança e mandou de volta os mensageiros, montados sobre cavalos de seus estábulos, carregados de presentes e mensagens de amizade.

Eneias e Acates
ilustração de Dosso Dossi (1490-1542)

Juno, ao ver que as coisas seguiam tão prósperas para os troianos, sentiu renascer dentro de si uma velha animosidade, e chamando Alecto do Érebo, mandou que ela espalhasse a discórdia. A Fúria primeiro se apossou da rainha, Amata, e fez com que ela se opusesse de todas as maneiras contra a nova aliança. Alecto, então, correu até a cidade de Turno, e assumindo a forma de uma velha sacerdotisa, informou-o sobre a chegada dos estrangeiros e as tentativas de seu príncipe de roubar-lhe a noiva. Em seguida, ela voltou sua atenção para o campo dos troianos. Lá, ela viu o garoto Iulo e seus companheiros brincando durante a caça. Ela aguçou, então, o orgão sensitivo dos cães, e os levou a descobrir um cervo manso atrás de uma moita, o favorito de Sílvia, filha de Tirreu, o pastor do rei. Um dardo das mãos de Iulo feriu o animal, mas ele ainda teve forças para correr para casa, morrendo aos pés de sua dona. Os gritos e lamúrias dela chegaram até seus irmãos e os pastores, e eles, munidos de quaisquer armas que tivessem em mãos, atacaram com fúria o bando de caçadores. Estes estavam protegidos por seus amigos, e os pastores finalmente bateram em retirada com perda de dois indivíduos de seu grupo.

Estes acontecimentos foram o bastante para disparar a tempestade da guerra, e a rainha, Turno, e os camponeses, todos exortavam para que o rei expulsasse os estrangeiros do país. O rei resistiu o quanto pode, mas, percebendo que sua oposição de nada valia, finalmente cedeu e se retirou para um lugar muito remoto.

A abertura dos portões do templo de Jano[editar]

A face dupla de Jano representa sua visão do passado e do futuro.
ilustração da obra História de Roma para a Juventude, de Charlotte Mary Yonge (1823-1901)

Era o costume do país, quando uma guerra estava para começar, que o chefe dos magistrados, vestido com as roupas dos rituais, abria solenemente os portões do templo de Jano, os quais permaneciam fechados durante os períodos de paz. Seu povo agora exigia que o velho rei tomasse parte dos ofícios solenes, mas o soberano se recusava. Enquanto discutiam, a própria Juno, descendo dos céus, golpeou as portas com força irresistível, até que elas estouraram. Imediatamente, o país inteiro se alvoroçou. As pessoas corriam por todos os lados gritando por guerra.

Turno foi reconhecido por todos como líder, outros juntavam-se aos aliados, cujo líder era Mezêncio, soldado valente e capaz, mas dono de uma odiosa crueldade. Ele tinha sido chefe de uma das cidades vizinhas, mas o povo da cidade o haviam expulsado. Junto com ele se juntou seu filho Lauso, jovem generoso, merecedor de um pai mais humano.

Eneias lutando contra Mezêncio e Lauso
ilustração de Václav Hollar (1607–1677)

Camila[editar]

Camila e Métabo, seu pai, indo para o exílio.

Camila, a favorita de Diana, que era caçadora e guerreira, da mesma maneira que as Amazonas, chegou com seu grupo de cavaleiros montados, incluindo um bando seleto de mulheres, perfilando-se ao lado de Turno. Esta donzela não havia habituado seus dedos à roca de fiar ou ao tear, mas havia aprendido a suportar os agrilhões da guerra, e com grande velocidade, corria mais que o vento. Parecia que ela conseguia correr sobre os trigais eriçados sem amassá-los, ou sobre a superfície da água, sem molhar os pés. A história de Camila era extraordinária desde o início. O pai dela, Métabo, exilado de sua cidade devido a um desentendimento entre civis, levou consigo, durante a fuga, sua filha pequena. E enquanto ele fugia através da floresta, enquanto seus inimigos, perseguiam-no implacavelmente, chegou às margens do Rio Amazeno[1], o qual, transbordando por causa das chuvas, parecia dificultar a passagem. Ele parou por um momento, e então decidiu o que fazer.

Ele amarrou a criança em sua lança envolvendo-a com cascas, e equilibrando a arma com suas mãos levantadas, se dirigiu a Diana desta maneira: "Deusa das florestas! A ti consagro esta criança," em seguida, arremessou a arma com seu fardo para a margem oposta do rio. A lança sibilou sobre das águas que ribombavam. Seus perseguidores já estavam se aproximando, mas ele mergulhou no rio, e encontrou a lança, junto com a menina sã e salva do outro lado do rio. Desse dia em diante, Métabo viveu entre os pastores, criando sua filha nas artes da floresta. Quando criança, ensinaram a ela a usar o arco e a lançar o dardo. Com seu bodoque, ela conseguia derrubar um grou ou um cisne selvagem. Suas vestes eram feitas com pele de tigre. Muitas mães a desejavam como nora, mas ela continuava fiel a Diana, rejeitando qualquer plano de casamento.

Métabo e sua filha Camila
ilustração da Biblioteca Nacional da França

Evandro[editar]

Esses eram os formidáveis aliados que rivalizavam contra Eneias. A noite era alta e ele estava deitado, dormindo nas margens do rio sob o manto do céu. O deus dos rios, o pai Tibre, parecia ter levantado a cabeça acima dos salgueiros e disse: "Ó nascida dos deuses, governante predestinada dos reinos latinos, esta é a terra prometida, aqui há de ser o teu lar, aqui cessarão as hostilidades dos poderes celestiais, caso perseveres com firmeza. Amigos não muito distantes te aguardam. Prepara teus barcos e sobre o meu regaço, eu te conduzirei até Evandro, o chefe arcadiano, que há tempos vem lutando contra Turno e os rútulos, e está preparado para se tornar vosso aliado. Levantai! oferecei vossos votos a Juno, e aplacai o ódio que corre dentro dela. Quando tiverdes conquistado tua vitória, só então pensai em mim." Eneias acordou e imediatamente obedeceu à visão gentil. Fez seus sacrifícios a Juno, e invocou o deus do rio e todas as fontes de seus afluentes para oferecerem ajuda. Então, pela primeira vez, um barco repleto de guerreiros planou sobre o fluxo do rio Tibre. O rio diminuiu suas ondas, e fez com que seu curso fluísse suavemente, ao passo que, impulsionado pelos vigorosos golpes dos remadores, os barcos rapidamente subiram seu curso.

Por volta da metade do dia, eles avistaram os edifícios dispersos da cidade que nascia, onde nos tempos vindouros, se ergueria a soberba cidade de Roma, cuja glória alcançaria aos céus. Por obra do acaso, Evandro, o velho rei, estava naquele dia celebrando as solenidades anuais em honra de Hércules e de todos os deuses. Palas, seu filho, e todos os líderes da pequena comunidade estavam presentes. Quando eles viram aquele barco gigante deslizando nas imediações da floresta, eles ficaram assustados com o que viram, e levantaram-se de suas mesas. Palas, porém, proibiu que as solenidades fossem interrompidas, e tomando de uma arma, avançou até a margem do rio. Ele gritou em voz alta, perguntando quem eram eles, e o que eles pretendiam. Eneias, segurando um galho de oliveira, respondeu: "Somos troianos, vossos amigos, e inimigos dos rútulos. Estamos procurando Evandro, e propomos que juntemos nossas armas às vossas." Palas, espantado ao ouvir nome tão grandioso, convidou para que desembarcassem, e quando Eneias tocou à praia, tomou-lhe as mãos, e demoradamente a segurou num abraço de amigos. Prosseguindo através da floresta, juntaram-se ao rei e à sua comitiva, tendo sido cordialmente recebidos. Assentos foram providenciados para todos nas mesas, e o banquete teve início.

Primeiro anos de Roma[editar]

Na mitologia romana, Evandro era um herói e divindade da Arcádia, na Grécia, que trouxe o panteão, as leis e o alfabeto para a Itália, onde ele fundou a cidade de Palanteu, onde hoje fica Roma, sessenta anos antes da Guerra de Troia. Foi ele quem instituiu as festas lupercais

Quando terminaram as solenidades, todos se dirigiram para a cidade. O rei, curvado por causa da idade, caminhava entre seu filho e Eneias, apoiando-se sobre o braço de um ou de outro, e conversando sobre vários assuntos agradáveis encurtaram o caminho. Eneias, embevecido, olhava e ouvia tudo, observando todas as maravilhas da paisagem, e aprendendo sobre os inúmeros heróis renomados dos tempos antigos. Evandro disse: "Estes bosques imensos foram outrora habitados por faunos e ninfas, e uma raça de homens rudes, que surgiram das próprias árvores, não tinham leis nem cultura social. Eles não sabiam como emparelhar o gado, nem fazer uma colheita, nem reservar a abundância atual para uma escassez no futuro, porém, pastavam como bestas sobre os galhos frondosos, ou devoravam com avidez a presa que caçavam. Assim viviam eles, quando Saturno, expulso do Olimpo por seus filhos, se aproximou deles, e reuniu os selvagens ferozes, formando com eles uma sociedade, e lhes deu leis. Tamanha paz e abundância foram desfrutados, que os homens desde então chamaram o seu reino de idade do ouro, mas, aos poucos, outras épocas remotas se sucederam, prevalecendo a sede do ouro e a avidez por sangue. A região tornou-se presa de sucessivos tiranos, até que a sorte e o destino implacável me trouxeram até estas paragens, exilado de minha terra natal, a Arcádia."

Rocha Tarpea

E tendo dito isso, ele mostrou a Eneias a Rocha Tarpeia e o local inóspito, nessa época, coberto de arbustos, onde nos tempos vindouros se levantaria o Capitólio com toda sua suntuosidade. Em seguida, apontou para algumas muralhas em ruínas, e disse: "Aqui ficava o monte Janículo, construído por Jano, e logo ali, Satúrnia, a cidade de Saturno". E enquanto falavam, chegaram à cabana do pobre Evandro, de onde avistaram os rebanhos mugindo e vagando pelas planícies, onde se ergue hoje o Forum orgulhoso e imponente. Entraram, e um leito foi estendido para Eneias, bem estufado com folhas, e revestido com pele de um urso da Líbia.

Na manhã seguinte, acordado pela aurora e os cantos estridentes dos pássaros sob os beirais de sua baixa mansão, o velho Evandro se levantou. Vestido com uma túnica, e uma pele de pantera jogada sobre os ombros, com sandálias nos pés, e sua inseparável espada presa na cintura, saiu para se encontrar com seu convidado. Era seguido por dois mastins, toda sua comitiva e o corpo de guarda. Encontrou o herói sendo atendido pelo seu fiel Acates, e Palas, que logo se juntou a eles. Então, o rei falou desta maneira:

Saturno, deus do capitólio, da riqueza, da agricultura, da liberdade e do tempo.
ilustração de Polidoro da Caravaggio (1495–1543)

"Ilustre troiano, é muito pouco o que podemos fazer diante de uma causa tão grandiosa. Nosso estado é fraco, cercado de um lado por um rio, e de outro pelos rútulos. Mas eu proponho me aliar a vocês, um povo numeroso e rico, a quem o destino vos trouxe no momento propício. Os etruscos povoam os territórios que ficam além do rio. Mezêncio era o rei deles, um monstro de crueldade, que inventou tormentos de que jamais alguém ouviu falar, para saciar seus instintos de vingança. Atava os mortos aos vivos, umas mãos contra as outras, e rostos com rostos, deixando as infelizes vítimas morrerem nesse abraço assustador. Eles queimaram seu palácio e mataram seus amigos."

Eneias erege um trofeu de armas
que pertenciam a Mezêncio
ilustração de Václav Hollar (1607–1677)

"Ele fugiu e se refugiou junto a Turno, que o protege com suas armas. Os etruscos exigem que ele seja entregue para o castigo merecido, e agora estão dispostos a reforçar a sua exigência, porém, são contidos pelos sacerdotes, que dizem a eles ser esta a vontade dos céus e que ninguém que tenha nascido nesta terra os conduzirá à vitória, e que o líder que foi vaticinado deverá vir do outro lado do oceano. Eles ofereceram a coroa para mim, mas sou velho demais para assumir empreitadas tão grandiosas, e meu filho, por ter nascido nestas terras, não lhe é permitido que seja escolhido. Vós, indicados pelos deuses, tanto por causa do nascimento como pela idade, e pela fama de guerreiro, deveis apenas aparecer para que sejais saudados imediatamente como líder deste povo. Convosco colocarei Palas, meu filho, minha única esperança e consolo. Sob vosso comando ele aprenderá a arte da guerra, e se esforçará para repetir vossas grandes conquistas."

Nesse instante, o rei ordenou que cavalos fossem fornecidos aos chefes troianos, e Eneias, com um grupo seleto de seguidores, e Palas acompanhando, montaram em sua tropa e rumaram em direção à cidade etrusca,[2] tendo enviado de volta o resto de seu grupo para os navios. Eneias e seu bando chegaram sãos e salvos ao acampamento etrusco e foram recebidos de braços abertos por Tarcão e seus compatriotas.

Niso e Euríalo[editar]

Enquanto isso, Turno havia agrupado seu bando, deixando tudo pronto para a guerra. Juno mandou Íris para que fosse até ele levando uma mensagem incitando-o a tirar vantagem da ausência de Eneias, surpreendendo, assim, o acampamento troiano. E desse modo, a investida foi realizada, mas os troianos estavam de guarda, e tendo recebidos ordens estritas de Eneias para não lutarem durante a sua ausência, eles permaneceram ainda em suas trincheiras, e investiram todos os esforços dos rútulos para atraí-los até o campo. A noite se aproximava, e o exército de Turno, animados com a sua pretensa superioridade, festejavam e se divertiam, até que finalmente se deitaram nos campos e dormiram tranquilamente.

Turno e Camila
ilustração de Václav Hollar (1607–1677)

No acampamento dos troianos as coisas eram bem diferentes. Lá, todos estavam vigilantes, ansiosos e impaciente pela volta de Eneias. Niso[3] montou guarda na entrada do acampamento, e Euríalo, um jovem que se destacara acima de todos no exército, pelo seu carisma e pelas ótimas qualidades, estava com ele. Os dois eram amigos e irmãos de armas. Niso disse para o seu amigo: "Você está vendo que confiança e desprepraro demonstra o inimigo? A iluminação é escassa e fraca, e todos os homens parecem estar sob o efeito do vinho e do sono. Vocês sabem como nossos chefes estão ansiosos para enviar mensageiros a Eneias, para receber alguma orientação dele. Neste instante, estou fortemente motivado a abrir caminho pelo acampamento inimigo e ir à procura de nosso chefe. Se eu conseguir, a glória desse ato será a recompensa que me basta, e caso se julgue que o serviço tenha maior merecimento, seja você o beneficiado."

Euríalo, inflamado pelo ardor da aventura, respondeu: "Rejeitaria então você, Niso, a compartilhar tuas empreitadas comigo? E eu te deixaria sozinho correr perigo tão grande? Não foi para isso que meu pai me educou, nem foi isso que planejei para mim mesmo, quando me juntei ao pelotão de Eneias, e decidi fazer pouco de minha vida em comparação à tua honra." Niso respondeu: "Não duvido disso, meu amigo, mas conheceis os acontecimentos incertos de semelhantes investidas, e seja lá o que me acontecer, quero que você esteja seguro. Você é mais jovem que eu e a vida te promete mais. Nem desejo eu ser a causa de tamanho sofrimento para a sua mãe, que escolheu ficar aqui no acampamento ao teu lado, ao invés de ficar e viver em paz com as outras matronas na cidade de Acestes. Euríalo respondeu: "Não digas mais nada. Inutilmente buscais argumentos para me dissuadir. Já me decidi que vou contigo. Não vamos perder tempo."

Eles chamaram o guarda, incumbindo-o de vigiar no lugar deles, e partiram em direção à tenda do general. Eles encontraram os líderes principais reunidos, decidindo como enviariam notícias para Eneias sobre aquela situação. A proposta dos dois amigos foi bem recebida, tendo sidos muito elogiados, com promessas das recompensas mais liberais em caso de vitória. Iulo particularmente se dirigiu a Euríalo, assegurando-lhe a amizade duradoura. Euríalo respondeu: "Gostaria apenas de pedir uma bênção. Minha idosa mãe se encontra comigo no acampamento. Por mim ela deixou o solo troiano, e não quis ficar para trás com as outras matronas da cidade de Acestes. Parto agora sem me despedir dela. Não suportaria sua dor, nem ter de rejeitar suas súplicas. Mas vai tu, te imploro, e a conforta em sua aflição. Prometa-me isto e seguirei com mais coragem diante de quaisquer perigos que se me apresentem." Iulo e os outros chefes ficaram comovidos até as lágrimas, e prometeram fazer tudo o que ele pediu. "Tua mãe será a minha," disse Iulo, "e tudo o que eu te prometi será transformado em benefícios para ela, caso não retornes para recebê-lo."

O últime combate entre Eneias e Turno
ilustração de Václav Hollar (1607–1677)

Os dois amigos deixaram o acampamento e imediatamente invadiram os campos do inimigo. Ninguém estava vigiando, sentinelas não estavam a postos, mas, por toda parte, soldados cansados dormiam sobre a relva e por entre as carroças. As leis da guerra daqueles primórdios não proibiam que um homem valente matasse o inimigo que dorme, e os dois troianos matavam, à medida que passavam, tantos inimigos quanto podiam sem fazer alarme. Em uma tenda, Euríalo tomou como prêmio um helmo reluzente com ouro e plumas. Eles haviam atravessado pelas fileiras inimigas sem ser descobertos, mas, de repente, uma tropa apareceu bem diante deles, a qual, sob o comando de Volceno, seu líder, se aproximavam do acampamento. O helmo reluzente de Euríalo chamou a atenção deles, e Volceno saudou os dois jovens, e perguntou quem eram e de onde vinham. Eles não responderam, e se infiltraram na floresta. Os cavaleiros se espalharam em todas as direções para interceptar-lhes a fuga. Niso havia enganado o perseguidor e estava fora de perigo, mas, Euríalo, que havia se perdido, se voltou para procurá-lo. E entrou novamente na floresta, logo se aproximando do som de vozes. Olhando através do denso matagal, Niso viu que todo o bando estava ao redor de Euríalo fazendo perguntas ruidosamente. O que ele devia fazer? Como libertar o amigo, ou melhor seria morrer com ele?.

Erguendo os olhos para a lua, que agora brilhava claramente, disse: "Deusa! Favorece-me o esforço!" e mirando seu dardo para um dos líderes da tropa, acertou-lhe nas costas, estendendo-o na planície com um lançamento mortal. Enquanto se espantavam, outra arma veio voando, e um outro do grupo caiu morto. Volceno, o líder, não conseguindo saber de onde vinham os dardos, investiu a espada que tinha nas mãos sobre Euríalo. "Você pagará pela morte dos dois," disse ele, e teria mergulhado a espada em seu peito, quando Niso, que de seu esconderijo via o perigo que seu amigo corria, avançou exclamando: "Fui eu, fui eu, volta tua espada contra mim, rútulos, fui eu, ele apenas me acompanhou como amigo." E enquanto ele falava, a espada desceu e atravessou o peito forte de Euríalo. Sua cabeça caiu sobre seus ombros, como uma flor arrancada pelo arado. Niso investiu contra Volceno e mergulhou a espada no corpo do inimigo, e no mesmo instante foi morto com inúmeros golpes.

Mezêncio[editar]

Turno matando Pândaro
ilustração de Václav Hollar (1607–1677)

Eneias, com seus aliados etruscos chegavam ao palco de ação a tempo de salvar o acampamento sitiado, e agora, os dois exércitos, sendo quase equivalentes em força, a guerra era travada inexoravelmente. Não poderemos relatar aqui todos os detalhes, mas devemos simplesmente registrar o destino dos principais personagens, os quais foram apresentados aos nossos leitores. O tirano Mezêncio, vendo-se envolvido com seus súditos revoltados, encolerizou-se como um animal selvagem. Ele matava a todos que ousavam enfrentá-lo, e punha a multidão para correr sempre que aparecia. Finalmente ele viu-se de frente com Eneias, e os exércitos ficaram parados para observar o confronto. Mezêncio atirou sua lança, a qual, acertando o escudo de Eneias, se resvalou e atingiu Antor. Antor era grego de nascimento, e havia deixado Argos, sua cidade natal, para seguir Evandro até a Itália. O poeta Virgílio fala sobre ele com uma paixão natural que tornou memoráveis suas palavras: "Ele morreu, infelizmente, vitimado por um ferimento destinado a outro, olhou para os céus, e ao morrer, se lembrou da sua inesquecível Argos."

Eneias, por sua vez, arremessou sua lança. Ela penetrou o escudo de Mezêncio, e o feriu na coxa. Lauso, seu filho, não conseguiu suportar o que via, e avançando, colocou-se diante do pai, enquanto seus seguidores rodeavam Mezêncio para afastá-lo dali. Eneias manteve a espada suspensa sobre Lauso e se demorava a atacar, mas o jovem furioso avançou e ele foi obrigado a desferir o golpe mortal. Lauso caiu, e Eneias se curvou sobre ele tomado de piedade. "Jovem desventurado", disse ele, "que posso fazer por ti que seja digno de louvor? Conserva tuas armas que tanto te glorificam, e nada temais, pois o teu corpo será devolvido aos teus amigos, e receberás as honras de um funeral digno." E assim dizendo, ele chamou seus acovardados seguidores entregando-lhes em mão o corpo do rapaz.

Mezêncio, enquanto isso, tinha sido levado para as margens do rio, e lavava os ferimentos. Não demorou muito e as notícias chegaram até ele sobre a morte de Lauso, e o ódio e o desespero substituíram o lugar da força. Ele montou em seu cavalo e avançou até o centro da batalha, e procurou por Eneias. Ao encontrá-lo, cavalgava em círculo ao redor do herói, lançando um dardo após o outro, enquanto Eneias se protegia com seu escudo, girando de todas as maneiras para desviá-los. Finalmente, depois que Mezêncio fez o círculo por três vezes, Eneias atirou a sua lança em direção à cabeça do cavalo. A lança penetrou a têmpora de Mezêncio que caiu desfalecido, enquanto gritos dos dois exércitos cortavam os céus. Mezêncio não pediu misericórdia, mas, que apenas seu corpo fosse poupado dos insultos de seus súditos revoltados, e que fosse sepultado no mesmo túmulo onde estava o seu filho. Ele havia recebido o golpe final não estando despreparado, sua vida e seu sangue foram juntos derramados.

Palas, Camila e Turno[editar]

Turno e Íris
ilustração de Václav Hollar (1607–1677)

Enquanto aconteciam estas coisas em uma parte do campo, na outra, Turno encontrava o jovem Palas. A disputa entre campeões equipados de modo tão desproporcional não poderia ser duvidosa. Palas se portou com bravura, mas morreu pela lança de Turno. O vitorioso quase desfaleceu ao ver o jovem valoroso caído morto aos seus pés, e declinou o uso de privilégio de conquistador despojando-o de suas armas. Somente o cinturão, adornado com tachas e inscrições douradas, fez questão de pegar, colocando-o em torno de seu corpo. Os demais objetos ele enviou para os amigos do morto.

Depois da batalha, as armas foram poupadas por alguns dias, a fim de permitir que ambos os exércitos sepultassem seus mortos. Durante este intervalo, Eneias desafiou Turno para decidir o combate com uma única luta, mas Turno não aceitou o desafio. Seguiu-se nova batalha, na qual Camila, a guerra virgem, foi particularmente notável. Seus atos de bravura simplesmente ultrapassaram os feitos dos mais bravos guerreiros, e muitos troianos e etruscos foram atravessados por seus dardos ou golpeados pelo seu machado de batalha. Finalmente, um etrusco chamado Aruns[4], que há muito tempo a vinha observando, tentando tirar alguma vantagem, percebeu quando ela perseguia um inimigo em fuga, cuja esplêndida armadura oferecia um prêmio tentador. Preocupada apenas com a caçada, ela não previu o perigo, e o dardo de Aruns a golpeou, infligindo-lhe o ferimento fatídico. Ela caiu e deu seu último suspiro nos braços de algumas donzelas que a serviam. Mas, Diana, contemplando-lhe o destino, não permitiu que o seu assassinato não fosse vingado. Aruns, enquanto fugia, satisfeito, porém, assustado, foi atingido por uma flecha oculta, arremessada por uma das ninfas do séquito de Diana, e morreu de maneira ignóbil e inexplicável.

Por fim, o conflito final foi travado entre Eneias e Turno. Turno havia evitado o confronto até quanto pode, mas, no final, impelido pelos insucessos de suas armas e pelos comentários de seus seguidores, se preparou para o conflito. Não poderia haver dúvida. Do lado de Eneias estavam expressos as decisões do destino, o auxílio de sua mãe e deusa em cada emergência, a armadura impenetrável fabricada por Vulcano, a pedido dela, em benefício de seu filho. Turno, por outro lado, tinha sido abandonado pelos aliados celestiais, e Júpiter havia proibido Juno terminantemente de continuar lhe oferecendo ajuda. Turno arremessou a sua lança, mas ela retiniu inofensiva no escudo de Eneias. O heroi de Troia, então, fez o seu lançamento, que atravessou o escudo de Turno, perfurando-lhe a coxa. Então, a força de Turno o abandonou e ele implorou por misericórdia, e Eneias lhe teria oferecido a própria vida, mas, em dado momento, seus olhos se voltaram para o cinto de Palas, que Turno havia tomado do jovem assassinado. No mesmo instante, sentiu que o ódio lhe ressurgia, e exclamou: "Com este golpe, é Palas quem te sacrifica", e o traspassou com sua espada.

Neste ponto, o poema da "Eneida" se encerra, e somos levados a inferir que Eneias, tendo triunfado sobre seus inimigos, conseguindo Lavínia como sua noiva. Diz a lenda que ele fundou sua cidade, e deu a ela o nome em homenagem à sua amada: Lavinium. Seu filho Iulo fundou Alba Longa, que foi o local de nascimento de Rômulo e Remo e berço da própria cidade de Roma.

Há uma referência à Camila, naquelas bem traçadas linhas de Pope, na qual, ilustrando a regra de que "o som deve ser o eco do sentimento," ele diz:

"Quando Ájax força o imenso peso do rochedo para arremessar,
A linha fica pesada e as palavras se movem devagar,
O mesmo não acontece quando a veloz Camila percorre a planície,
Voando sobre o milharal que não se curva, roçando levemente o continente."

Ver também[editar]

Notas e Referências[editar]

  1. pode ser também, Rio Amiseno.
  2. Neste instante, Virgílio insere alguns trechos famosos que dizem imitar o som de cavalos galopando, que pode ser assim traduzido: Então, troam os cascos dos cavalos sobre o solo, num tropel de quatro patas.
  3. Dicionário de Mitologia Grega e Romana - Mario da Gama Kury.
  4. Aruns: companheiro de Eneias e assassino de Camila.