História da Mitologia/XXXV

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CAPÍTULO XXXV

ORIGEM DA MITOLOGIA ESTÁTUAS DE DEUSES E DEUSAS POETAS DA MITOLOGIA ORIGEM DA MITOLOGIA

Tendo chegado ao fim de nossas narrativas de episódios da mitologia paga, impõe-se uma pergunta: "De onde vieram aquelas lendas? Têm algum fundamento na verdade, ou são apenas sonhos da imaginação?" Os filósofos têm aventado sobre o assunto várias teorias:

 1. Teoria Bíblica — 

De acordo com esta teoria, todas as lendas mitológicas têm sua origem nas narrativas das Escrituras, embora os fatos tenham sido distorcidos e alterados. Assim, Deucalião é apenas um outro nome de Noé, Hércules de Sansão, Árion de Jonas etc. "Sir Walter Raleigh, em sua História do Mundo, diz: Jubal, Tubal e Tubal Caim são Mercúrio, Vulcano e Apolo, inventores do pastoreio, da fundição e da música. O Dragão que guarda os pomos de ouro era a serpente que enganou Eva. A torre de Nemrod foi a tentativa dos Gigantes contra o Céu." Há, sem dúvida, muitas coincidências curiosas como estas, mas a teoria não pode ser exagerada até o ponto de explicar a maior parte das lendas, sem se cair no contra-senso.

 2. Teoria Histórica — 

Por essa teoria, todas as personagens mencionadas na mitologia foram seres humanos reais e as lendas e tradições fabulosas a elas relativas são apenas acréscimos e embelezamentos, surgidos em épocas posteriores. Assim, a história de Éolo, rei e deus dos ventos, teria surgido do fato de Éolo ser o governante de alguma ilha do Mar Tirreno, onde reinou com justiça e piedade e ensinou aos nativos o uso da navegação a vela e como predizer, pelos sinais atmosféricos, as mudanças do tempo e dos ventos. Cadmo, que, segundo a lenda, semeou a terra com dentes de dragão, dos quais nasceu uma safra de homens armados, foi, na realidade, um emigrante vindo da Fenícia, que levou à Grécia o conhecimento das letras do alfabeto, ensinando-o aos naturais daquele país. Desses conhecimentos rudimentares, nasceu a civilização, que os poetas se mostraram sempre inclinados a apresentar como a decadência do estado primitivo do homem, a Idade do Ouro, em que imperavam a inocência e a simplicidade.

 3. Teoria Alegórica — 

Segundo essa teoria, todos os mitos da antigüidade eram alegóricos e simbólicos, contendo alguma verdade moral, religiosa ou filosófica, ou algum fato histórico, sob a forma de alegoria, mas que, com o decorrer do tempo, passaram a ser entendidos literalmente. Assim, Saturno, que devora os próprios filhos, é a mesma divindade que os gregos chamavam de Cronos (Tempo), que, pode-se dizer, na verdade destrói tudo que ele próprio cria. A história de Io é interpretada de maneira semelhante. Io é a lua e Argos, o céu estrelado, que se mantém desperto para velar por ela. As fabulosas peregrinações de Io representam as contínuas revoluções da lua, que também sugeriram a Milton a mesma idéia:


Contemplas lá no alto a lua errante
Do apogeu, pouco a pouco aproximar-se,
Como alguém que tivesse se perdido
Nas vastidões do céu, sem rumo andando.
Il Penseros

o

 4.Teoria Física — 

Para esta teoria, os elementos ar, fogo e água foram, originalmente, objeto de adoração religiosa, e as principais divindades eram personificações das forças da natureza. Foi fácil a transição da personificação dos elementos para a idéia de seres sobrenaturais dirigindo e governando os diferentes objetos da natureza. Os gregos, cuja imaginação era muito viva, povoaram toda a natureza de seres invisíveis, e supuseram que todos os objetos, desde o sol e o mar até a menor fonte ou riacho, estavam entregues aos cuidados de alguma divindade particular. Wordsworth, em seu poema "Excursão", apresentou de maneira muito feliz esse modo de encarar a mitologia grega:

Nessa terra gentil, o pastor solitário,
Na maciez da relva, estendido, indolente,
Repousa, no verão, o dia quase inteiro,
Com música pastoril se embalando, na sombra
E aconteceu que, em pausa em que o simples ruído
Do próprio respirar calara-se de todo,
Ele escutar julgou, ao longe, melodia
Mais doce, muito mais, que os acordes da rude
Avena pastoril que ele próprio tocara.
A fantasia, então, foi procurar no carro,
No rico e flamejante carro do deus Sol,
Um jovem que, tangendo alaúde de ouro,
De harmonia e esplendor encheu o campo em torno,
Para a lua crescente o terno olhar erguendo,
A grande caçadora invoca, poderosa,
A linda divindade errante, que concede,
Sem relutância, a luz que os campos ilumina.
Uma deusa radiosa, então, com suas ninfas
Atravessando o prado e o bosque penumbroso
(Seguida pelos sons de notas melodiosas
Que o eco reproduz nos rochedos e grutas)
Correu a perseguir a caça, ao mesmo tempo
Que, no céu nebuloso, a lua e as estrelas
Corriam, enquanto o vento as nuvens agitava.
O viajante a sede ao saciar na fonte
De linfa cristalina, à náiade agradecendo,
Raios de sol brilhando em montanhas distantes
E, entre sombras, depois, o espaço percorrendo,
Com a ajuda sutil da leve fantasia
Transforma seu olhar em danças de oréades.
Os zéfiros que passam, abrindo as leves asas,
Não deixam de encontrar, em seu caminho,
Criaturas que escutam, ternas, complacentes,
As palavras de amor murmuradas no ouvido.
Troncos de árvores já secos e de grotesco
Aspecto e de suas folhas já despidos,
De um solitário vai na profundez ocultos
Ou perdidos na verde encosta das montanhas,
E, às vezes, junto aos quais de um bode solitário
A barbicha se avista, ou de um veado os galhos,
Um bando folgazão de sátiros alegres
Ou o próprio Pã parecem, aos olhos do pastor.

Todas as teorias acima mencionadas são verdadeiras até certo ponto. Seria, portanto, mais correto dizer-se que a mitologia de uma nação vem de todas aquelas fontes combinadas, e não de uma só em particular. Podemos acrescentar, também, que há muitos mitos originados pelo desejo do homem de explicar fenômenos naturais que ele não pode compreender e que não poucos surgiram do desejo semelhante de explicar a origem de nomes de lugares e pessoas.

 ESTÁTUAS DOS DEUSES

Apresentar adequadamente aos olhos as idéias destinadas a serem levadas ao espírito sob o nome das diversas divindades era tarefa que exigia o exercício das mais elevadas potencialidades do gênio e da arte. Das muitas tentativas, quatro se tornaram as mais célebres, sendo as duas primeiras conhecidas apenas pela descrição dos antigos e as outras ainda existindo e representando realmente obras-primas da escultura.{ A estátua do Júpiter Olímpico, obra de Fídias, era considerada como a mais perfeita realização da escultura grega. Tinha dimensões colossais e era o que os antigos chamavam "criselefantina", isto é, composta de marfim e de ouro, sendo as partes representando a carne feitas de marfim montado sobre uma base de madeira ou pedra, ao passo que as vestes e outros ornamentos eram feitos de ouro. A altura da estátua era de quarenta pés e ficava sobre um pedestal de doze pés de altura.{ 2} O deus era representado sentado em seu trono. Estava coroado com um ramo de oliveira e tinha na mão direita um cetro e na esquerda uma estátua da Vitória. O trono era de cedro, adornado de ouro e pedras preciosas. A idéia que o autor procurava apresentar era a da divindade suprema da nação helênica, entronizada como vencedora em um estado de perfeita majestade e repouso, e governando com um aceno de cabeça o mundo subjugado. Fídias revelou que tomara a idéia de Homero, na seguinte passagem da Hinda, Ilíada, Livro I

Calou-se, e inclina a majestosa fronte
Que sombreiam os cabelos anelados
E todo o Olimpo treme ante o seu gesto.

 A MINERVA DO PARTENON

Era também obra de Fídias e ficava no Partenon o templo de Minerva em Atenas. A deusa era representada de pé, com a lança em uma das mãos e a imagem da Vitória na outra. Seu elmo, profusamente decorado, era encimado por uma esfinge. A estátua tinha quarenta pés de altura e, como a de Júpiter, era feita de marfim e de ouro. Os olhos eram de mármore e, provavelmente, pintados, para representar a íris e a pupila. O Partenon, onde ficava essa estátua, também foi construído sob a orientação e direção de Fídias. Sua parte externa era ornada de esculturas, muitas delas de Fídias. Os mármores de Elgin, atualmente no Museu Britânico, fazem parte delas. Tanto o Júpiter como a Minerva de Fídias estão perdidos, mas há bons motivos para acreditar que temos em diversos bustos e estátuas, ainda existentes, a concepção do artista sobre a fisionomia de ambos. Ela se caracteriza pela beleza grave e digna, livre de qualquer expressão transitória, que, em linguagem artística, se chama repouso.

 A VÊNUS DE MÉDICI

A Vênus de Médici é assim chamada por ter pertencido aos príncipes daquele nome, em Roma, quando despertou pela primeira vez a atenção, há cerca de duzentos anos. Uma inscrição em sua base revela que é obra de Cleômenes, escultor ateniense de 200 a.C, mas a autenticidade da inscrição é duvidosa. Existe uma versão segundo a qual o artista foi encarregado de apresentar a perfeição da beleza feminina e para que pudesse executar a tarefa foram postas à sua disposição as mais belas mulheres da cidade. O APOLO DO BELVEDERE O mais apreciado de todos os remanescentes da antiga escultura grega é a estátua de Apolo, chamada do Belvedere, nome do apartamento do palácio do Papa em Roma, onde ela foi colocada. O artista é desconhecido. Supõe-se que se trata de uma obra-de-arte romana, aproximadamente do primeiro século de nossa era. É uma figura de pé, em mármore, com mais de sete pés de altura, nua, com exceção de um manto preso em torno do pescoço e que cai sobre o braço esquerdo estendido. Supõe-se que representa o deus no momento em que acabara de lançar a seta para matar o monstro Píton (V. Capítulo III). A divindade vitoriosa está dando um passo para diante. O braço esquerdo, que parece ter sustentado o arco, está estendido e a cabeça voltada para a mesma direção. No que diz respeito à atitude e à proporção, é inexcedível a graciosa majestade da figura. O efeito é completado pela fisionomia, onde a perfeição da beleza juvenil e divina reflete a consciência de um deus triunfante.

 A DIANA À LA BICHE

A Diana da Corça, no Museu do Louvre, pode ser considerada como a contraparte do Apolo do Belvedere. Sua atitude assemelha-se muito à de Apolo, os tamanhos se correspondem e também o estilo da execução. É uma obra do maior valor, embora de modo algum igual ao Apolo. A atitude é a de um movimento rápido e decidido; a fisionomia, a de uma caçadora na excitação da caça. O braço esquerdo está estendido sobre a cabeça da corça, que caminha ao seu lado, enquanto o braço direito se move para trás sobre o ombro, a fim de tirar uma seta da aljava.

 OS POETAS DA MITOLOGIA

Homero, de cujos poemas "Ilíada" e "Odisséia" tiramos a maior parte dos nossos capítulos sobre a Guerra de Tróia e o regresso dos gregos, é um personagem quase tão mítico quanto os heróis que celebra. A versão tradicional é que ele era um menestrel vagabundo, cego e velho, que viajava de um lugar para outro, cantando seus versos ao som da harpa, nas cortes dos príncipes ou nas cabanas dos camponeses, e vivendo do que lhe davam voluntariamente os ouvintes. By ron o chama de "o velho cego da rochosa ilha de Sio" e um bem conhecido epigrama alude à incerteza quanto à sua terra natal:

De ser berço de Homero a glória rara
Sete cidades disputaram em vão.
Cidades onde Homero mendigara
Um pedaço de pão.

Essas cidades eram Esmirna, Sio, Rodes, Colofon, Salamina, Argos e Atenas. Eruditos modernos põem em dúvida o fato de os poemas de Homero serem obras da mesma pessoa, em vista da dificuldade de se acreditar que poemas tão grandes pudessem ser da época em que se supõe terem sido escritos, época essa anterior às mais antigas inscrições ou moedas existentes e quando os materiais capazes de conter tão longas produções ainda não existiam. Por outro lado, indaga-se como poemas tão longos poderiam ter chegado até nós, vindos de uma época em que só poderiam ter sido conservados pela memória. Esta última dúvida é explicada pelo fato de que havia, então, um corpo de profissionais, chamados rapsodos, que recitavam os poemas de outros e tinham por encargo decorar e declamar, a troco de pagamento, as lendas nacionais e patrióticas. Atualmente, a opinião da maioria dos eruditos parece ser a de que o esboço e grande parte da estrutura dos poemas pertencem a Homero, mas que há muitos acréscimos feitos por outras mãos. Segundo Hérodoto, Homero viveu cerca de oito séculos e meio antes de Cristo.

 VIRGÍLIO

Virgílio, também chamado pelo seu sobrenome de Marão, e de cujo poema, "Eneida", tiramos a história de Enéias, foi um dos grandes poetas que tornaram o reinado do imperador romano Augusto tão célebre. Virgílio nasceu em Mântua, no ano de 70 a.C. Seu grande poema é considerado inferior apenas aos de Homero, no mais elevado gênero de composição poética, o épico. Virgílio é muito inferior a Homero em originalidade e invenção, mas superior em correção e elegância. Para os críticos de origem inglesa, somente Milton, entre os poetas modernos, parece digno de ser classificado entre aqueles ilustres antigos.

Seu poema Paraíso

Perdido, que citamos tantas vezes, é igual sob muitos aspectos, e superior, em alguns a qualquer uma das grandes obras da antigüidade.

 OVÍDIO

Freqüentemente chamado pelo seu outro nome de Nasão. Ovídio nasceu em 43 a.C. Foi educado para a vida pública e exerceu alguns cargos importantes, mas a poesia era o que lhe interessava e resolveu a ela dedicar-se. Assim, procurou a companhia dos poetas contemporâneos, tendo travado conhecimento com Horácio e mesmo com Virgílio, embora este último tivesse morrido quando Ovídio ainda era demasiadamente jovem e obscuro para que houvesse amizade entre os dois. Ovídio viveu em Roma gozando fartamente a vida, graças a uma renda razoável. Desfrutava a intimidade da família de Augusto e dos seus, e supõe-se que alguma ofensa grave cometida contra algum membro da família imperial foi a causa de um acontecimento que pôs fim à felicidade do poeta e amargurou a última parte de sua vida. Quando contava cinqüenta anos de idade, Ovídio foi banido de Roma, recebendo ordem de ir viver em Tomi, à margem do Mar Negro. Ali, entre um povo bárbaro e sujeito a um clima severo, o poeta, que estava acostumado aos prazeres de uma luxuosa capital e ao convívio dos mais ilustres de seus contemporâneos, passou os últimos dez anos de sua vida devorado pelo sofrimento e pela ansiedade. Seu único consolo no exílio foi dirigir cartas, escritas em forma de poesia, à esposa e aos amigos. Embora esses poemas ("Os "Tristes" e as "Cartas do Ponto") não falassem em outra coisa a não ser nas mágoas do poeta, seu bom gosto e a habilidosa invenção livraram-nos da pecha de tediosos e são lidos com prazer e mesmo com simpatia. As duas grandes obras de Ovídio são as "Metamorfoses" e os "Fastos". São ambos poemas mitológicos, e tiramos do primeiro a maior parte dos episódios narrados neste livro sobre a mitologia grega e romana. Um escritor moderno assim caracteriza esses poemas: "A rica mitologia da Grécia ofereceu a Ovídio, como ainda pode oferecer ao poeta, ao pintor e ao escritor, os materiais para a sua arte. Com raro bom gosto, simplicidade e emoção, ele narrou as fabulosas tradições das idades primitivas e deu-lhes uma aparência de realidade que somente a mão de um mestre conseguiria. Suas descrições da natureza são vivas e verdadeiras; escolhe com cuidado o que é adequado; rejeita o superficial; e, quando completa sua obra essa não apresenta nem insuficiência nem redundância. As "Metamorfoses" são lidas com prazer pelos jovens e relidas com maior prazer ainda pelos mais idosos. O poeta aventurou-se a prever que seu poema lhe sobreviveria e seria lido enquanto o nome de Roma fosse conhecido." A previsão a que acima se alude é contida nos últimos versos de "Metamorfoses":

Assim eis terminada a minha obra
Que destruir não poderão jamais
A cólera de Jove, o ferro, o fogo
E a passagem do tempo. Quando o dia
Em que pereça a minha vida incerta
Chegar, o que em mim há de melhor
Não há de perecer. Subindo aos astros
Meu nome por si mesmo viverá.
Em toda a parte onde o poder de Roma
Se estende sobre as terras submissas,
Os homens me lerão, e minha fama
Há de viver, por séculos e séculos,
Se valem dos poetas os presságios