Ir para o conteúdo

Hortensia de Castro

Wikisource, a biblioteca livre
Publia Hortensia de Castro
 

 

Hortensia , ou Publia Hortensia de Castro, a bella e ainda juvenil mulher, de habito preto e toucado branco, cuja physiognomia a ultima das nossas gravuras reproduz, pertence áquelle pequeno grupo de damas letradas que se distinguiram e ganharam renome no seculo XVI, durante a muito curta mas vivaz florescencia do renascimento português, e que é costume (um tanto incorrecto) agruparmos em volta da Infanta D. Maria, celebrando-as em globo, com phrases sonoras e hyperboles encomiasticas, como socias da sua academia feminina, insignes em sciencias e artes, ou outras tantas musas inspiradas e inspiradoras — quae cum omne vetustate certant eruditione' — para d'este modo encobrirmos a nossa grande e lastimavel ignorancia ácerca do seu merito real. [1]

E’ verdade que aquella de que tratamos não é das mais conhecidas. Não se destacava alta e altiva da schiera vo/gare, cingida daaureola de uma admiração geral, que derivava da sua prosapia, seu genio e formosura, de modo a ser avistada de longe. Os severos e pouco vulgares conhecimentos d’ella foram applaudidos apenas por um circulo restricto de sabios conterrâneos.

Não sendo senhora de sangue real, nem da primeira nobreza, não tinha a dispensar valiosissimos favores, nem mesmo vivia na côrte em contacto com os poetas áulicos, como as duas Sigeas, Joanna Vaz, e Paula Vicente, a tangedora.

Por isso não recebeu missivas de papas e imperadores, nem trocou em prosa e metro cumprimentos em linguas mortas com as summidades litterarias da epoca. Nenhum auctor conhecido lhe dedicou as suas obras. Poeta algum a celebrou em vida ou pranteou depois de morta. Os posteros tão pouco se lembraram de lhe attribuir versos alheios, inserindo-os, em nome d'ella, em miscellaneas manuscriptas. Nem sequer o fabulista-mór, que enriqueceu e amenizou a historia da litteratura nacional com quantas anecdotas e lendas romanticas encontrava, applicaveis a typos portugueses, a menciona no Epitome, na Europa ou nos Commentarios camonianos, entre as notabilidades patrias.

Apenas um português, erudito de reconhecida probidade scientifica, que o leitor já conhece — vir minime adulator sed gravis sibique semper constans — que a viu e ouviu no primeiro dia da sua joven gloria, se lembrou de attestar urbi et orbi o saber aristotelico e os dotes de oradora de Publia Hortensia de Castro. [2] Um pouco mais tarde, um viajante estrangeiro pôde ainda registar esta mesma fama no seu Itinerario.

E' portanto uma rara boa-fortuna e um acaso quasi inexplicavel o possuirmos o seu retrato, como foi rara a boa-fortuna que nos conservou não só aquella unica carta latina de Mestre André de Resende, onde se encerra a summula biographica da Hortensia lusitana, mas ainda a preciosa nota do italiano J. B. Venturino, enterrada até o meado do seculo XIX na bibliotheca do Vaticano.[3]

Se aquella se perdesse, como tantas outras, não entrando nas obras do benemerito archeologo, nem passando para a Hispania illustrata de Schott, e d'ahi para o Gyneceo de Nicolas Antonio, o Jardim de Portugal, a Bibliotheca Lusitana[4], o Theatro heroino, o Portugal illustrado pelo sexo feminino, e quantos mais volumes, impressos e manuscriptos, foram dedicados, dentro e fóra de Portugal, ás donas que illustraram a Peninsula, em virtudes, letras, armas e artes [5]; e se Herculano não tivesse trazido á luz a Viagem do Cardeal Alexandrino, o nome tantas vezes repetido — Hortensia de Crasto — que vemos inscripto na gravura, seria hoje um mero nome, não nos dizendo cousa alguma.[6]

Para explicar tanta escassez de noticias e tanta falta de enthusiasmo nos auctores quinhentistas, em geral tão prodigos com louvores, devemos lembrar-nos ainda de que Hortensia veiu tarde, na perturbadissima era do infeliz D. Sebastião, quando o astro português ia declinando com vertiginosa rapidez, para d'ahi a pouco se apagar nas trevas de Alcacer-Quebir. [7] De mais a mais, nasceu e viveu não sómente longe de Lisboa, mas exactamente no quartel general da milicia de Ignacio de Loyola, sob cuja influencia quasi illimitada as suas aptidões naturaes, desviadas do campo onde poderiam ter fructificado , se esterilizaram na confecção de «flosculos theologicaes», e de versos sacros.

E' verdade que tambem nenhuma outra entre as letradas portuguesas tinha sido francamente humanista — verdadeira virago — como as italianas do seculo XV, no sentido honorifico em que os homens da Renascença empregavam o termo, hoje tão mal aceite. A renascença das letras penetrou em Portugal depois do grande schisma da igreja, é preciso repeti-lo. A Reforma dos Estudos (1537) coincidiu quasi com o Concilio Tridentino, sendo seguida de perto da introducção da Censura, da Inquisição (1539) e do triumpho da Companhia de Jesus (1546); é por isso que quasi todos os escriptores cultivaram desde então, conjunctamente, com admiravel prudencia, sciencias humanas e divinas.

Mas, ainda assim, na côrte lia-se e escrevia-se, nos dias de D. João II, a par de obras de theologia, romances amenos de cavallaria, novellas pastoris, trovas de folgar e versos de amor, conforme contei. Em Evora pelo contrario, predominavam as sciencias sacras.

Ninguem imaginará Paula Vicente, Joanna Vaz, Luisa Sigea no trage religioso de Hortensia de Castro.

E' bom distinguirmos, estabelecendo estas differenças, que a gravura ajuda a fixar.

Quando a vi pela primeira vez, fiquei um pouco desapontada — confesso-o com franqueza. Aos leitores talvez succeda o mesmo.

A linda menina que a lenda nos havia apresentado em disfarce de alegre estudante, o qual vestiamos (mau grado do crasso anachronismo) com o velludo preto e as rendas dos modernos tunantes da nação vizinha; a donzella lusitana, que pela arte do seu dizer ganhou o cognome de Hortensia ou Publia Hortensia, accrescentado ou substituido ao seu verdadeiro nome de baptismo, fazendo-o esquecer completamente; aquella que arrebatou um auditorio selecto de doutos latinistas, e que reis, principes e embaixadores iam ouvir e comparavam á famosa romana, citada como modelo de eloqüencia mulheril e herdeira dos talentos do pae, o rival de Cicero, cujos brilhantes improvisos, lucida disposição das materias, voz melodiosa e gesticulação artistica, a historia regista — ei-la ahi transformada em grave freira, rosario em punho, a psalmodiar, por encommenda da austera Infanta D. Isabel, que encheu dois in-folios com Notas aos Evangelhos para todos os domingos.[8]

Mas esta desillusão não nos deve tornar injustos.

A physiognomia que a gravura apresenta, é realmente sympathica, muito embora nada ahi lembre a inspiração de quem, fallando, commove e enthusiasma as massas, nem dos arrobos extaticos de uma noiva do Senhor. Muito pelo contrario, o olhar é um tanto absorto, calmo, e, para assim dizer, «virado para dentro», como de quem, reflectindo, palpita attento, á espera das palavras em que o cerebello, depois de lenta elaboração inconsciente, irá condensando as sensações que recebeu. Póde ser que me engane, mas affigura-se-me que, abrindo ella a bocca e fallando em prosa portuguesa, as palavras proferidas não sahiriam faceis, em rapidas catadupas de elegantes phrases feitas, mas antes vagarosas e graves, tendo um cunho individual, isto é, reproduzindo com sinceridade e singeleza o que a propria mente lhe iria dictando.

E aquella mão que segura o calamo, bem talhada, como em geral a mão portuguesa, escreveria pausadamente, em caracteres fortes, distinctos apenas pela sobria clareza dos traços, muito parecidos aos que se distinguem na carta da Infanta D. Maria, apophtegmas moraes ou trovas muito sentenciosas, no gosto e estylo pesado dos Dictos da Freira que devemos a D. Joanna da Gama, outra contemporanea e irmã em Minerva de Hortensia, que viveu e morreu no mesmo ambiente.[9]

Faltam-nos, infelizmente, os meios de averiguarmos se esta diagnose — pensierosa — é veridica, ou se por ventura, nos opusculos que escreveu em romance vulgar poderia descobrir-se, contra a minha espectativa, aquella arte de argumentar e a allocução correcta, pela qual a Hortensia romana ganhou a causa que defendia [10], orando em presença dos triumviros, e foi acclamada, não unicamente em honra e homenagem ao seu sexo (non tantum in sexus honorem)[11].

Nada resta das obras da Hortensia lusitana. O douto abbade de Sever recolheu titulos vagos, de qualquer indiculo manuscripto. As Cartas varias e as Varias poesias (em latim e português), que o irmão da fallecida possuia em 1613, assim como os dialogos sobre assumptos de religião e philosophia, intitulados Flosculus theologicalis, a que já alludi, e uns oito psalmos, nacionalizados a pedido da Infanta D. Isabel de Bragança, que em 1640 entraram na livraria regia, tudo desappareceu — consequencia fatal do proverbial desleixo d'esta nação fidalga, que considera como indigna mesquinhez arrecadar e contar valores tão miudos.

Existe apenas uma carta-prologo, de poucas linhas e diminuto alcance, dirigida à sua protectora. E' preciso confessar que não prima pela fórma [12]

Concluiremos que a gloriosa antonomasia, não devendo ser entendida ao pé da letra, significa apenas que Hortensia de Castro foi a primeira portuguesa que «orou» em publico no seculo XVI [13], o qual distribuia liberalmente cognomes classicos, povoando a terra portuguesa de mais de um Platão, Tacito, Seneca, Virgilio, Ennio, Plauto, Lucano. Ou teremos de suppôr que a pouca fluencia da sua prosa portuguesa provinha exactamente do costume de arredondar periodos na lingua de Cicero? e que no seu espirito se travára certa lucta entre as elegantes e typicas formulas dos exercicios latinos e as construcções syntaxicas da lingua patria, tão pouco culta ainda então? [14]

Podemos assignalar tres ou quatro dias na vida da illustre Callipolense, entre os quaes um só foi de gloria e de franca alegria — o primeiro.

Estamos em Evora, no anno 1565 (se os meus calculos merecem confiança), na sumptuosa sala dos actos da Universidade do Cardeal-Infante, hoje em ruinas, ou porventura no paço archiepiscopal. Hortensia possuia então, aos dezasete, toda a frescura e todo o enthusiasmo d'essa idade. Estava lá para discursar sobre assumptos de philosophia moral, defendendo theses contra quantos eruditos opponentes quisessem quebrar lanças com ella.

No auditorio, que incluiria tudo quanto a cidade de Sertorio tinha de mais selecto em letras e sciencias, achava-se, conforme já se indicou, o venerando Mestre André de Resende, que, apesar dos seus setenta annos, distribuia palmas enthusiasticamente, jubiloso porque a sua muito amada terra natal, cuja historia continuava a elucidar, possuia afinal a sua gloria feminina, uma oradora erudita, que podia rivalizar não só com as damas da côrte, mas até com as notabilidades de Salamanca e Alcalá, Paris, Bolonha e Roma, mesmo a Roma de Cicero.

Depois de ter felicitado o pae, Thomé de Castro, e o irmão Jeronymo, assim como os professores circumstantes que haviam coadjuvado os dois na educação de Hortensia, prognosticando á gentil menina um futuro brilhante, ei-lo recolhendo apressadamente ao seu gabinete de estudo, que equivalia a um museu de antiguidades, e sentando-se á escrivaninha, para propalar a boa nova.

Com quem começaria?

Devia desculpas a um afamado jurisconsulto, hespanhol, o qual tentára visitá-lo, pouco antes, e a quem, muito a seu pesar, não podera fazer as honras da cidade, porque o «barbaro» mandão que fazia as vezes do governador, havia fechado as portas ao visitante, pretextando que, embora vindo de Talavera, não era impossivel trouxesse comsigo o bacillo de uma temivel epidemia que devastava Sevilha. Traçou pois a fórmula inicial:

BARTHOLOMEO FRIÆ ALBERNOTIO JURISPERITO

DOCTISSIMO

L. ANDREAS RESENDIUS

S. P. D.


e principiou, pouco mais ou menos:

«Quanta alegria a tua visita me teria proporcionado se a recebesse, tanta tristeza me causou a inqualificavel grosseria do meticuloso vice-governador da comarca... Pena foi realmente que não entrasses nesta cidade... porque, ainda que mais nada tivesses encontrado, de que te regozijasses (e, para dizer verdade, temos aqui algumas cousas bem bonitas), poderias ter assistido, seis dias depois da tua partida, a um espectaculo unico. Ouvias a Publia Hortensia de Castro, uma menina de dezasete annos, instruida além do vulgar nos estudos aristotelicos, disputar publicamente, desfazendo com summa pericia e graça os arguciosos argumentos que lhe oppunham muitos homens doutos, esforçando-se por combater as theses d'ella. E mesmo tu, ó sabio jurisconsulto, terias confessado que nunca presenceaste um torneio mais formoso, nem poderias ter negado que uma cidade que produz tal donzella (de mais a mais de figura muito agradavel) [15], era digna de ser visitada, e fosse sómente por causa d'ella.» [16]

Se não foi no fim do discurso que a oradora foi acclamada Hortensia lusitana, somos forçados a admittir que já ganhara fama e nome anteriormente, em annos muito verdes, visto que Resende a appellida assim.

O theatro da segunda scena foi Villaviçosa, d'onde Hortensia era oriunda. Uma embaixada especial vinha em 1571 de Roma [17], para, aconselhando o phantasioso monarca ácerca da Santa Liga e seu casamento com Madame Marguerite, observar os fios que, partindo da curia, de Lisboa, Evora e Paris se cruzavam e enleavam, ás vezes, no Escorial. Caminho de Elvas a Evora, o Legado do Pontifice, Miguel Bonelli (aliás, cardeal Alexandrino), que ia acompanhado do geral da ordem de Jesus, o veneravel S. Francisco de Borja, e grande comitiva, hospedou-se no magnifico palacio dos duques de Bragança. No programma dos festejos projectados figurava um discurso de Hortensia. Mas não se realizou, por falta de tempo.

Foi então que J. B. Venturino, que tomara a seu cargo descrever em italiano o processo da viagem, lançou ao memorial a nota seguinte;

«Villaviçosa tem formosas mulheres e, entre outras, uma que não o é menos da alma que do corpo, da idade de vinte e tres annos, filha de Thomé de Castro, [18] á qual, por sua muita litteratura, chamam Publia Hortensia. Esta donzella, que frequentara Salamanca, quis defender conclusões naturaes e legaes, o que não teve logar por causa da subita partida do Legado [19]

Tres annos mais tarde, encontramos Hortensia na residencia do Senhor D. Duarte, creio que em Evora, nos paços reaes, nos aposentos da Infanta D. Isabel, que, alvoroçada com a partida de D. Sebastião para a primeira guerra de Africa, quis que a sua protegida rezasse com voz eloquente, mas sem se afastar das palavras da Escriptura Santa, pela vida e victoria de seu filho D. Duarte, que embarcava com o monarca (1574).

Notemos que Hortensia, depois de se ter desempenhado, apparentemente com rigorosa exactidão, da incumbencia, accrescentou ainda, motu proprio, uma jaculatoria — outro fragmento de mosaico, feito com versos de David — pedindo ao Omnipotente a destruição dos turcos, herejes e mais infieis.

Em Elvas é que se passa o ultimo acto. Felipe II estava realizando a sua entrada solemne no reino conquistado, e todos quantos necessitavam de favores approximavam-se d'elle. Hortensia, que já passava dos trinta, esquecendo no meio do lucto nacional, depois do grande cataclismo, os seus sonhos juvenis de gloria pessoal, desejava refugiar-se no quieto remanso de um mosteiro, sem ter quem a ajudasse a pagar o dote conventual. A infanta já não vivia (desde 16 de setembro de 1576).

O senhor D. Duarte, que voltara são e salvo da inutil expedição a Tanger, fallecera pouco depois (28 de novembro de 1576), sem se lembrar, no seu extenso testamento, d'aquella que em dias de angustia, havia misturado suas lagrimas e preces com as da idosa mãe. O irmão de Hortensia ia entrar (ou já entrara) na ordem dos prégadores.

Só e solteira, que havia de fazer senão substituir o enclausuramento em um dos muitos conventos alemtejanos ao encerramento na propria casa, onde tinha vivido até então como «viuva de observancia», para empregarmos a formula classica da epoca?

A ideia de utilizar pela ultima vez o seu bello talento, a fim de achar um novo protector, não é estranhavel.

Ignoramos se Hortensia fallou realmente em presença da Sacra, Cesarea e Real Magestade de Felipe II, como a lenda quer; ou se teve, como tantos outros, finura bastante para emmudecer gelada deante do magestatico sosiego do impassivel monarca; ou se este, desejoso de comprar corações, nem mesmo a avistou, contentando-se com as informações e recommendações dos influentes que a metteram na lista dos que mereciam uma tençasinha. O certo é que no dia da partida de Elvas, depois da visita á casa de D. Catharina de Bragança, Felipe II doou a Hortensia uma pensão annual de 15$000 reis, «havendo respeito ás suas letras e sufficiencia», «pera se melhor poder sustentar e recolher — mercê da qual se passou alvará, com força retroactiva, oito meses mais tarde, a pedido do principe-cardeal, Alberto d'Austria, o vice-rei. Quinze mil reis, exactamente a tença de Camões!

Publico o alvará de Felipe II, que o sr. D. José Pessanha obsequiosamente procurou para mim na Torre do Tombo. Acha-se ahi no livro 45.o, entre os conhecidos pela designação D. Sebastião e D. Henrique (a fl. 217, v.). E diz:

«D. Felippe, etc. Faço saber aos que esta carta virem, que, havendo respeito ás lettras e sufficiencia de Publia Hortensia de Crasto e a m'o pedir o Principe-Cardeal, hei por bem de lhe fazer mercê que ella haja e tenha de minha fazenda, em cada um anno, quinze mil réis de tença, pera se melhor poder sustentar e recolher; os quaes começará a vencer de 28 dias do mez de fevereiro d'este anno pre sente de 581 em deante. Pelo que mando aos vèdores de minha fazenda que lhe façam assentar os ditos quinze mil réis de tença no livro d'ellas e despachar dos ditos 28 de fevereiro em cada um anno a parte onde d'elles haja bom pagamento. E por firmeza do que dito é, lhe mandei passar esta carta de padrão, por mim assignada e sellada com o meu sello pendente.

«Baptista de Guerra a fez. ― Elvas, a dois de novembro, anno de 1581. — Eu, Manoel Pessoa, a fiz escrever.»

Para onde iria? E' provavel que «se recolhesse», sem proferir votos monasticos, visto que ninguem falla de Soror Hortensia, ou lhe conhece o novo nome religioso. Barbosa Machado diz que teve sepultura no claustro dos Agostinhos d'Evora (vulgo da Graça). E' provavel que nesse mosteiro passasse o resto dos seus dias — discursando, escrevendo e entoando no officio divino o canto-chão, sem corromper nem mudar um ponto do antigo, «attenta, mesurada, devota e grave», como exigia o severo Azpilcueta Navarro ― até adormecer, em 1595, na paz do Senhor, tendo, portanto, como a Infanta D. Maria, Joanna Vaz e Luisa Sigea um santo e bom fim, apesar dos maus prognosticos com que o povo ameaça, zombando, ou com seria malquerença, a mulher que sabe latim [20]

 

Ficou dito que muitos entre os estudiosos que, do seculo XVII em deante, historiaram a cultura intellectual de Portugal, copiaram e glosaram as phrases de Resende e Venturino sobre Hortensia.

Será preciso assentarmos agora que os repetidores accrescentaram alguns pontinhos á historia, creando uma lenda?

Deixando de parte affirmações gratuitas, como a da assistencia no paço de D. Maria, e erros pequenos, como 20$000 réis em logar de 15$000 réis de tença, fallarei apenas de um que offerece certo interesse neste tempo, em que a mulher, tentando destruir tantos privilegios injustos do sexo forte, deita de vez em quando um olhar de piedosa e grata recordação para as precursoras que nos seculos passados succumbiram, tentando em vão desacorrentar-se das peias que as aleijavam.

Parece-me que na passagem de Venturino, que citámos, já entrou um pormenor inexacto. Ouvindo dizer que Hortensia defendera theses, o italiano inferiu que ella fizera acto, depois de ter cursado regularmente humanidades, philosophia e theologia numa universidade. E como, ao ver de todos os estrangeiros, Salamanca era a verdadeira universidade peninsular, lá metteu este nome, sem receio de errar [21]. Os nacionaes, pelo contrario, metteram Coimbra. Sabendo, porém, de sciencia certa, que nunca pessoa alguma se havia sentado em saias nas bancadas das aulas conimbricenses, idearam a unica explicação possivel, e deram-na como certa: a saber que Hortensia vestira trajes de homem, vivendo incognita na companhia de dois irmãos.

Fizeram mal em inventar dois irmãos, não se contentando com o unico cuja existencia está provada, porque d'este modo, a historia de Hortensia ficou demasiadamente parecida com a de outras mulheres illustres, como, por exemplo, a da celebre castelhana D. Isabel Vergara.

Os poucos factos positivos que conhecemos, obrigam-nos a presumir, tendo em conta o caracter e as tendencias da nação e do tempo[22], que Hortensia, que encontrámos em Evora, Villaviçosa e Elvas, mas nunca fóra da sua provincia, foi doutrinada em casa, como quasi todas as filhas de letrados [23]. Primeiro estudaria na sua cidade natal e depois em Evora, auxiliada pelo arcebispo D. João de Mello, o santo de aspecto mortificado que Venturino descreve e que era proximo parente de Thomé de Castro. Este recommendá-la-ia aos principes e magnates nas suas repetidas visitas á cidade de Sertorio , e facilmente impetraria d'este e d'aquell'outro lente do collegio do Espirito Santo, fundado pelo cardeal-infante em 1551 e transformado em universidade em 1559, o favor de lerem á sua intelligente sobrinha um privatissimum em linguas, letras e sciencias. Não duvido rezasse, conjunctamente com seu irmão, primeiro pela Doutrina Christa do Padre Marcos Jorge, aprendendo latim pela obra de Manoel Alvares, estudando depois com Mestre Ignacio e Luis de Molina. Além disso, receberia mais de uma vez os christianissimos conselhos de S. Francisco de Borja, o qual, como Geral da Ordem, desejava ardentemente a prosperidade das fundações eborenses [24].

Aos poetas, que não quiserem abandonar a ideia do disfarce, lembrarei apenas que o traje dos estudantes era o talar preto, a roupeta dos jesuitas.

Lancemos mais um olhar sobre a nossa gravura.

Se o pequeno quadro original, pintado a oleo sobre cobre, que se acha actualmente na galeria do ex.mo sr. Anselmo Braamcamp Freire — e que, sob o ponto de vista da arte, não tem grande importancia — fôr realmente uma vera effigie, como creio, não pode ser posterior ao anno de 1595, em que morreu. Talvez date de 1581, i.é do tempo em que Hortensia resolveu enclausurar-se.

Que palavras mysteriosas são as que acaba de inscrever como lemma na pagina aberta do livro que symboliza a sua erudição? Um versiculo da Biblia? uma sentença salomonica que attrahira a sua attenção, e que procura interpretar, relembrando experiencias pessoaes?

Danti mihi sapientiam, dabo gloriam.

Glorificarei a quem me fez sabia? A quem me der sabedoria, dar-lhe-hei gloria. Vou escrever o panegyrico do varão que me instruiu? Hei de louvar aquelle que me mostrou o meu verdadeiro destino, abrindo-me as portas do convento? Ou antes: Cantarei hymnos e psalmos ao Creador, que, concedendo-me a minha intelligencia, me fez ditosa? Ou ainda: Bemdirei a quem, nestas densas trevas qae nos cercam, me der a sciencia, desvendando-me os mysterios da vida e da morte?

Ignoro-o.

Tão pouco sabemos de Hortensia de Castro que seria arrojo querer adivinhar o seu pensar e sentir intimo, dizendo se, na sua in- tellectualidade, era feliz ou desgraçada.

  1. 2 Vid. mais acima pag. 6 e 36, assim como Nota 15.
  2. 3 O renome do erudito antiquario eborense era e é tal, que o auctor da Bibliotheca hispana não exagerava muito quando dizia, com relação a Hortensia de Castro: In Andrea Resendii monumentis alernum vivet. «Eterna vive no monumento que lhe pôs André de Resende.»
  3. 4 Vid. Notas 54 e 55.
  4. 5 E, porém, justo confessar que Barbosa Machado dispunha de mais alguns materiaes, devidos a investigações proprias ou ao trabalho dos seus predecessores. ― Não compulsei o Parnasso de Villa Viçosa de Francisco Moraes Sardinha, nem tenho à mão a Evora gloriosa de Francisco da Fonseca. E nunca tive ensejo de ler um artigo de Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara na Revista universal lisbonense (5 de outubro de 1844), que se occupa dos talentos feminis portugueses, e faz, dizem, enthusiastica commemoração de Hortensia.
  5. 6 Já disse que Faria e Sousa não a conheceu. O mesmo vale de Duarte Nunes de Leão, que, no capitulo da sua Descripção de Portugal, dedicado á habilidade da mulher portuguesa para as letras e artes liberaes, não colloca Hortensia ao lado das infantas, princesas, fidalgas e mestras regias que celebra.
  6. 7 A gravura diz apenas Hortensia, ou antes, com orthographia claudicante, Hortencia. Todos os mais a chamam Publia Hortensia. O italiano diz expressamente que lhe deram os dois nomes, por sua muita litteratura. A' filha do opulento causidico, Q. Hortensius Hortulus, não pertence, todavia, o nome Publia ― Deveremos pensar, portanto, que Thomé de Castro deu a sua filha, no acto do baptismo, o nome Publia? Que illustre latinista seria então o seu padrinho? Não conheço outra Publia portuguesa entre as Quinhentistas. Os nomes romanos não estavam então na moda. ― O Padre Joaquim José da Rocha Espanca affirma que o nome não foi adoptivo, porque o viu em varias escripturas (notas publicas), em que figura o irmão Frei Jeronymo de Castro como testamenteiro de Hortensia. Vid. Compendio de Noticias de Villa Viçosa 1892, p. 440.
  7. 8 Vid. mais acima a pag. 94 a Nota 215b.
  8. 9 Barb. Mach., 1, 924Pb. ― Vid. supra Nota 212.
  9. 10 Joanna da Gama, freira em Evora depois de ter enviuvado, morreu em 1586. Os seus pensamentos e versos foram impressos ahi mesmo (1555) e no Porto (1872) em nova edição.
  10. 11 Isenção das ricas optimates de certos impostos que os questores lhes queriam lançar.
  11. 12 Quintiliano, 1. 1. 6. ― Valerio Maximo, VIII, 3.3.
  12. 13 «Vossa Alteza me ha mandado tirar os versos do Psalterio com que se pudessem pedir a Deus quatro cousas: vida e victoria para o Principe D. Duarte, seu carissimo filho e principe nosso; item que Deus o livrasse dos perigos da terra, do mar e dos inimigos. E V. A., como mais conversa com os ceos que com nós outros, me deu a ordem como compuzesse o psalmo, em o qual havia de pedir estas quatro cousas que me manda; scilicet que o Psalmo comece em louvores de Deus, o qual eu observei; porque no principio ponho um ou dois versos invitatorios ou que nos convidam a louvar a Deus, e logo um verso com que V. A. louva a Deus», etc. etc. ― Barb. Mach., 11, 629b.
  13. 14 Não digo a unica, porque estou lembrada de D. Isabel de Castro e Andrade que «defendeu conclusões de philosophia e theologia no convento do Varatojo».
  14. 15 Comparem o português dos humanistas com o seu latim. ― E' verdade que a dicção de Barros e as proposições masculas de Goes já significam um grande progresso, mas, na minha humilde e heretica opinião, não houve bom estylo em prosa portuguesa antes de Brito e frei Luis de Sousa.
  15. 16 «Omitto formam intra modum venustam».
  16. 17 De Antiquitatibus Lusitaniae. Libri quattuor. Romae, 1597. ― Só esta carta se conservou. Todavia, quem conhecer medianamente a mania epistolar que grassava entre os sabios da Renascença, não duvidará de que muitos mais correspondentes do respeitavel ancião foram devidamente inteirados do apparecimento d'aquella oitava maravilha no Alemtejo.
  17. 18 E' nesta data que se baseiam os meus calculos ― a unica que conhecemos, visto que a carta de Resende carece d'ella. Quem em 1571 era de 23 annos devia contar 17 em 1565, tendo nascido em 1548 e perfazendo 33 em 1581, no acto de recolher-se.
  18. 19 A mãe chamava-se Branca Alves.
  19. 20 Vid. Herculano, Opusculos, VI, p. 57-58. ― Com respeito á viagem, veja-se ainda: Barb. Mach., Memorias de D. Sebastião, III, cap. VI. ― Fr. Luis de Sousa, Barth. dos Martyres, III, p. 22. Sanchez Moguel, Reparaciones historicas, p. 245-266. ― Falcão de Resende, Poesias, p. 131.
  20. 21 Ainda ha pouco, F. A. Coelho, que tambem se referiu a Hortensia nos seus interessantes estudos sobre a Historia da instrucção popular (Revista do ensino, X, p. 64), citou o proloquio popular, e mais alguns dictados sobre o mesmo assumpto.
  21. 22 Os annaes da universidade de Salamanca, que registam com os devidos louvores bastantes nomes portugueses, e os de algumas meninas castelhanas que se matricularam effectivamente em humanidades, philosophia e theologiacomo D. Alvara de Alba, em 1546 não fallam de Hortensia. Vid. D. Alejandro Vidal y Diaz, Memorias historicas de la universidad de Salamanca, Sal.,1869.
  22. 23 Baste citar mais uma vez o nome de D. Antonia de Lebrija.
  23. 24 A vida de Soror Auta da Madre de Deus, de quem se conta o mesmo facto, não póde ser allegada como prova contraproducente, visto andar envolvida em trevas e lendas.
  24. 25 D. João de Mello hospedou em 1571 o cardeal Alexandrino e São Francisco de Borja nos paços de Sertorio, onde vivia.