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Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas/Influência de Portugal no Oriente

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I. — Influência de Portugal no Oriente

A influência de Portugal no Oriente não tem sido até hoje devida- mente apreciada num conjunto, em toda a sua extensão e em toda a sua intensidade.

Tem-se escrito muito sôbre os feitos gloriosos dos seus navegado- res e conquistadores, sôbre os actos heróicos dos seus capitães e governadores. Tem-se descrito graficamente o seu largo trato comer- cial, os seus vastos empórios, os labores penosos e o luxo deslum- brante de seus filhos nas colónias. Tambêm se tem criticado severa- mente, pela orientação moderna, a sua política de crueldade e intole- rância e os excessos do seu zelo religioso. E geralmente se julga que essa influência foi restrita, superficial e efémera.

A verdade, porêm, é que a acção civilizadora de Portugal nos seus antigos domínios e nos povos com que esteve em contacto foi, em vários sentidos, muito dilatada, muito funda e muito duradoura, do que ainda presentemente há vestígios numerosos e evidentes, e argumentos irrefragáveis[1].

O Dr. Heyligers reconhece «que a influência do elemento portu- guês exercida no Arquipélago Indiano» — e o mesmo se pode dizer de diversas outras partes — «foi de uma fôrça absolutamente parti- cular», e abrange essa influência em três capítulos: população e raça, costumes e língua[2]. Mas há outros pontos de não somenos valia e que são factores importantes de civilização: o comércio de novos objectos, a flora, a fauna, a agricultura e indústrias. Nenhuma nação colonial tem menos egoísmo de raça e mais ten- dência à identificação com os indígenas do que a portuguesa[3]. O perspicaz estadista Afonso de Albuquerque não achou melhor meio de enlaçar o Oriente com o Ocidente e de consolidar o império que ia adquirindo do que a fusão dos conquistadores com os conquista- dos, e para isso envidou os seus esforços[4]. E se a sua atilada polí- tica não foi persistentemente seguida ou topou com graves dificuldades, nem por isso deixou de produzir consideráveis resultados. Ainda ao presente existem em várias regiões asiáticas grupos, mais ou menos numerosos, dos que se gloriam de descendentes dos primeiros civili- zadores europeus dos tempos modernos, da denominação de portu- gueses e de nomes e apelidos lusitanos; e teem por êste motivo direitos e regalias superiores aos de outras classes indígenas, ou os mesmos que os europeus, como em Maluco[5]. Até hoje não se descobriu veículo mais poderoso de civilização de gentes incultas do que o cristianismo e a acção missionária; e todas as nações coloniais, mais ou menos, o empregam e o promovem. Ora os colonizadores portugueses serviram-se, de preferência, da propaganda religiosa, como de meio mais eficaz e perdurável de cultura[6]. E se houve alguns abusos, agora avolumados por hipercríticos, os povos convertidos não admitem que devam à Europa maior ou melhor benefício do que a religião que professam, recordam-se com profunda gratidão dos seus primeiros evangelizadores, e desculpam de boa vontade a nação portuguesa de quaisquer desmandos que haja cometido[7]. E entre os hindus ilustrados, propugnadores da autonomia nacional, há quem sinta, como eu mesmo tive ocasião de ouvir, que Portugal não tivesse convertido à sua religião a maior parte da Índia. Tambêm os portugueses concorreram para a civilização do Oriente com o seu imenso tráfico, levando da Europa novos artigos, introduzindo-os no uso doméstico, e transportando muitíssimos de umas regiões asiáticas para outras remotas, como indicam os nomes com que andam vinculados[8]. A flora asiática e, em particular, a indiana devem a Portugal a introdução de numerosas plantas, maiormente de origem americana, muitas das quais crescem espontâneamente, cobrem vastas áreas e são de notável utilidade[9]. Igualmente a fauna oriental adquiriu por via dos portugueses alguns espécimes até então desconhecidos ou pouco generalizados, do que se encontram provas no presente trabalho. A cultura de campos e de palmares tambêm deveu grandes bene- fícios aos portugueses, especialmente às suas ordens religiosas, que possuíam grandes herdades modelares[10]. E o mesmo se pode afirmar com respeito a vários ramos de indústria.


  1. «No campo dos princípios Portugal foi, pois, o primeiro país que os soube formular de modo a conseguir-se, por uma política de assimilação entre os conquistadores e os conquistados e sem violências ou tiranias inúteis, o progredimento e a civilisação das regiões mais atrasadas. E no campo da prática não démos provas menos brilhantes nem menos decisivas».

    Parecer da Sub-commissão (Política Colonial) da Sociedade de Geografia de Lisboa.

  2. Traces de Portugais dans les principales langues des Indes Orientales Neerlandaises.
  3. «Os portuguezes têem sido sempre n'este ponto muito tolerantes — e é esta uma das suas grandes qualidades de colonizadores — e não podiam considerar desdouro a alliança com as castas nobres da India, do mais puro sangue aryano». Conde de Ficalho, Garcia da Orta e o seu tempo, p. 169.
  4. Vid. João de Barros, Déc. II, v, 11: «E já a este tempo haveria em Goa quatrocentos e cincoenta casados, todos criados delRey, o da Rainha, e dos Senhores do Portugal, e eram tantos os homens que queriam casar, que se não podia Afonso do Albuquerque valer com requerimentos, e elle não dava licença se não a homens honrados». Commentarios de Afonso de Albuquerque, III, cap. 9. «Os Portuguezes tiram um espantoso lucro em toda a parte da India, onde tem entrada. Associam-se com os naturaes, que os acompanham em suas navegações, e até todos os seus marinheiros e pilotos são indios, ou gentios ou mouros». Pyrard de Lavai, Viagem, I, p. 313.
  5. «Os holandeses e os seus feitos cessaram de ser lembrados pelos singaleses da região baixa; mas os chefes do sul e do oeste perpetuam com orgulho o honorífico título de dom que lhes foi concedido pelos primeiros conquistadores, e ainda antepõem aos seus antigos patronímicos os sonoros nomes cristãos dos portugueses». Sir James Emerson Tennent, Ceylon, an account of the Island. «Servião nos nossos arraiaes quatro Modeliares naturaes, todos christãos, e filhos de Columbo dos principaes da Ilha... e se chamavão D. Aleixo, D. Cosme, D. Balthazar, e D. Theodozio». João Ribeiro, Fatalidade Histórica da Ilha de Ceilão, liv. II, cap. I.
  6. «Os Reys de Portugal sempre pretenderão nesta conquista do Oriente vnír tanto os dous poderes, spiritual e temporal, que em nenhum tempo se exercitasse vm sem o outro». Diogo do Couto, Déc. VI, iv, 7. «Em Cochim achey hũa arca de cartinhas por onde insynam os meninos, e pareceo me que voss alteza as nam mandara pera apodrecerem estando na arca, e ordeney huum homem casado aquy, que insynase os moços a ler e escrever, e averá na escolla perto de cem moços, e sam delles filhos de panicaees e de omeens honrrados; sam muito agudos e tomam bem o que lh ensynam e em pouco tempo, e sam todos cristãos». Afonso de Albuquerque, Cartas, I, p. 45. «Os quaes (meninos) Antonio Galvão mandava doutrinar nas cousas da religião, e ensinalos a ler e escrever». Fernão Lopes de Castanheda, Historia do Descobrimento e Conquista da India, liv. VIII, cap. 203.
  7. «Pelo que respeita à influência da colonização portuguesa sobre os costumes dos habitantes indígenas, bastará dizer que desde o princípio os missionários portugueses prègaram o cristianismo e fundaram escolas cristãs... Inútil é acrescentar que a obra dos missionários introduziu ao mesmo tempo os primeiros elementos da civilização europeia e as ideas dos conquistadores, emquanto os costumes começaram a abrandar-se sob o influxo do cristianismo». Dr. Heyligers, op. cit. «Essas populações catholicas, que ainda por lá estão, em terras onde ha longos annos perdemos o domínio, e ainda unem á veneração pela sua crença o respeito pelo nome do nosso paiz, provam quão fundo haviam penetrado a palavra e o influxo do padre portuguez». Conde de Ficalho, op. cit., p. 160.
  8. «O nosso antigo trato, todavia, deixou traços indeléveis na língua, Bengara-Ijima, Chaujima e Santomejima são tecidos importados das cidades indianas de Bengal (port. Bengala), Chaul e St. Thomas (port. San Tomé). Amakawa-sango são corais de Macau (outrora chamado Amacao); Indengawa, coiro da Índia; e Perusyagawa, o da Pérsia». Dr. N. Murakámi, The Influence of Early Intercourse with Europe, etc. «Muyta soma de panos de Cambaya, de Chaul, e Dabul; e de Bengala lhe trazem muytos synabasos, que saom sortes de panos». Duarte Barbosa, Livro, p. 261.
  9. Vid. Dr. D. G. Dalgado, Flora de Goa e Savantvadi. Vid. tambêm Conde de Ficalho, Memorias sobre a influencia dos descobrimentos portugueses no conhecimento das plantas.
  10. «The excellence of the Goa mangoes is stated to be due to the care and skill of the Jesuits». Hobson-Jobson.