Influência do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas/Línguas da Índia, Noções gerais
A Índia, a par doutras riquezas, é tambêm muito rica em idio-
mas e dialectos de várias espécies e gradações, falados por uma
população indígena de mais de trezentos milhões, em uma área igual
à da metade da Europa[1].
É sobretudo nas regiões montanhosas, habitadas por numerosas tríbus nómadas e selvagens ou semi-selvagens, que fervilham diversas falas, que não se sabe bem se são línguas distintas ou dialectos de- finidos ou meras variantes.
Nas planícies, as línguas poderosas dilatam-se pela absorção, e muitos dialectos, de ordinário limitados por províncias ou distritos, fácilmente se reduzem a um tipo comum. Há porêm cidades, como Bombaim e Calcutá, que são verdadeiras Babéis, onde não é raro encontrar-se gente que fale de outiva duas e três línguas, e indiví- duos ilustrados que se exprimam correntemente em meia dúzia de idiomas.
Mas a exploração scientifica e o exame comparado de todo êste vasto campo linguístico pode-se dizer que estão ainda no período em- brionário, não obstante valiosos trabalhos, quer gerais, quer parciais, últimamente dados à luz por Erskine Perry, John Wilson, Max Mül- ler, George Campbell, Crawfurd, Marsden, Hoernle, Caldwell, La- tham, Burnell, Beames, Cust, Grierson, e outros eminentes orientalistas[2].
Os sábios, absortos por longo tempo no estudo da língua e literatura sânscrita, não tiveram lazer para a análise dos idiomas vernáculos ou não a julgaram digna das suas atenções. Os antigos missionários, em geral, aprendiam a fala vulgar da sua zona quantum satis, como meio indispensável à sua prègação; e se alguma cousa chegavam a escrever para o público, era o necessário para o doutrinamento reli- gioso dos catecúmenos e dos neófitos[3]. Ainda assim, os mais antigos escritos sôbre as línguas orientais são exclusivamente devidos aos pregoeiros do Evangelho, e, em tempos modernos, são eles os seus principais cultores[4].
De há cinquenta anos para cá, e especialmente nos últimos tempos, o estudo e a cultura das mais importantes línguas vivas teem ido tomando largo incremento, graças aos persistentes esforços dos mis- sionários e dos indianistas, e ao constante incitamento e generoso patrocínio do govêrno inglês. Em toda a parte se abrem escolas ver- náculas mixtas, e todos os anos se publica, nos caracteres próprios, uma avultada quantidade de livros, maiormente didácticos, alêm de grande número de periódicos e jornais, que são ávidamente lidos pela geração actual[5].
Não é pois de admirar que não esteja até o presente averiguado com exactidão o número total das línguas e dos dialectos, nem mar- cados com consenso unânime os limites da Índia sob o ponto de vista glotológico — limites que diferem muito da Índia geográfica e política. Robert Cust eleva a 243 o número das línguas e a 296 o dos dialectos, agrupados em 8 famílias; mas estende demasiado a sua área, abrangendo até Timor, Madagascar e a ilha Formosa, fundado, como diz, em afinidades linguísticas e étnicas[6]. Em zona mais circunscrita, compreendendo todavia Birmânia e Sião, Beames dava em 1868 uma centena de línguas com muitos dos principais dialectos, omitindo alguns e designando outros sob deno- minações genéricas[7].
O Sr. Grierson, em publicação mais recente, baseado sôbre o censo da Índia inglesa de 1901, para o qual êle contribuiu com um capí- tulo sôbre as línguas, orça o número total de línguas em 147, incluindo as duas faladas em Adem (semítica e hamítica) e excluindo as de Ceilão (singalês e a dos aborígenes veddas) e as dos residentes temporários. Do grupo malaio admite sómente duas (selung e nicoba- rês) e do concani faz dialecto do marata[8].
- ↑ Segundo o censo de 10 de Março de 1911, a população da Índia inglesa, excluindo Ceilão, monta a 315,132,537; e a da Índia portuguesa é dada pelo censo de 1900 em 531,798. A área é calculada em 4,860,000 quilómetros qua- drados.
- ↑ «For nearly thirty years philology has been wandering through the maze of Indian languages with uncertain steps... Speculations regarding Indian lan- guages must wait till the survey is concluded, and all the facts are presented in a convenient form. Till then, even the classification adopted in the following pages must be taken as provisional». G. Grierson, The Languages of India, p. 1.
- ↑ É natural que os mais versados deixassem apontamentos gramaticais e lexi- cológicos, manuscritos, para uso particular dos colegas e sucessores. «O padre Francisco Anriquez aprendeo em menos de seis meses a falar, e a ler e escrever as proprias letras e caracteres da terra [Malabar], e em breve tempo sahio com a arte [gramática], e vocabulário da lingoa com espanto dos naturaes... e grande beneficio dos nossos padres e irmãos, que d'entam até agora per estes e per ou- tros livros, que se foram fazendo, tam facilmente aprendem o Malabar, como o latim». Padre João Lucena, Historia da Vida do Padre Francisco de Xavier, liv. V, cap. 25.
- ↑ «A uma classe do trabalhadores a sciência deve mais do que a qualquer outra. Aludo aos missionários, assim protestantes como católicos romanos, que teem rivalizado uns com os outros em irradiar luz em lugares escuros». Robert Cust, A Sketch of the Modern Languages of the East Indies.
- ↑ Publicam-se na Índia cêrca de 800 periódicos indígenas, impressos em 19 línguas diferentes. Dão-se à estampa anualmente mais de 7:000 livros nas línguas vernáculas.
- ↑ Op. cit., p. 148.
- ↑ «No Panjab cada distrito tem um dialecto, e alguns distritos teem mais de um»... «Dialectos Munipuri, dialectos Koreng, dialectos Karen». John Beames, Outlines of Indian Philology.
- ↑ George Grierson, The Languages of India, and the Census of 1901, publicado em The Asiatic Society Quarterly Review, April, 1904. Vid. tambêm Linguistic Survey of India, pelo mesmo autor.