Jogaram a espadilha

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A trez mulatos que por tirarem as espadas contra huns desembargadores foram a enforcar atanazadados, e esquartejados.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsJuízes de Igaraçu

1Jogaram a espadilha
três canzarrões co'a Justiça,
e como o demo as enguiça,
iam sempre à cascarrilha:
não achavam na cartilha
carta de jeito, ou feitio
para trunfarem com brio,
ante jogo tão nefando,
que um quarto de hora jogando
perderam seis mãos a fio.
  
2Não sendo de perder fartos
para o seu total destroço
perdido o dinheiro grosso,
perderam também os quartos:
mas depois de azares artos,
virão os três pescadores,
que a Justiça destra em flores
em jogando com maraus
sempre ganha com três paus
os maiores matadores.
  
3Ao tempo, que os três sentiram,
que o tal jogo os embarranca,
todos se viram sem branca,
mas sem alva não se viram:
do jogo se despediram
sentido do espalhafato,
mas tão nus do esfola-gato,
que de pura compaixão
lhes vestiu a Relação
uma fralda de barato.
  
4Tanto ali se entristeceram,
e tanto se trespassaram,
que a todos nos admiraram,
quando assim se suspenderam:
finalmente os três morreram
uma morte tão veloz,
que ao veneno mais atroz
nenhuns tão presto acabaram,
como estes, quando cheiraram
as entrepernas do algoz.
  
5Jogar sobre mesa rasa
com seis Desembargadores,
isso não, que aos matadores
nunca deixam fazer vaza:
se aos treze escaldou a brasa,
aos mais sirva de exemplar,
e quando queiram jogar,
joguem, mais ao truque não,
que os três paus da Relação
sempre é carta de ganhar.
  
6Com becas qualquer joguilho
sempre é mui prejudicial,
pois com jogo tal, ou qual
sempre levam de codilho:
têm cartas de garrotilho,
porque têm cartas de agarro,
e os que imaginam, que é barro
jogar com Ministro inteiro,
se esperam rodar dinheiro,
hão de rodar sobre um carro.
  
7Vós, que na cidade vistes
tantos quartos, e tão artos,
entendei, que tão maus quartos
resultam de horas mui tristes:
e os que de vê-los fugistes,
crede, que a hora não tarda,
a quem a má sorte aguarda,
antes deveis de entender,
que a toda a casa há de arder,
a quem seus quartos não guarda.
  
8Alerta Pardos do trato,
a quem a soberba emborca,
que pode ser hoje forca,
o que foi ontem mulato:
alerta que o aparato
daquele pendente pé,
que na parede se vê,
vos prega com voz sincera,
que se sois, o que ele era,
podeis ser, o que ele é.