Lincoln: narração de sua vida pessoal/II
II
O MISTERIOSO RAPAZ
De vagabundos, ou pouco menos que isso, era a impressão que davam Thomas Lincoln e sua gente quando se dirigiam para Indiana. Um ano depois de chegados ainda estavam como "squatters" — colonos intrusos, morando num "open-faced camp" — cabana sem uma das paredes e "fogo de indio" na parte em aberto, em vez de fogão. Naquela suposta casa Nancy e os filhos passaram o inverno de 1816-1817. Thomas voltou ao negocio de adquirir terras a credito, e os Lincolns passaram a fazer parte de um "settlement” — uma colonia de sete ou oito familias localizadas á margem dum riacho de nome Pigeon Creek. Thomas entrou na posse dum bom trecho de terra fertil e no curso dos seguintes onze anos conseguiu — ó milagre! — paga-la no suficiente para receber o titulo de proprietario da metade.
Enquanto isso, a pobre Nancy chegava ao fim. Morreu. Pigeon Creek era um reduto avançado no Oéste ainda sem colonização, e durante os dois anos que lá viveu aquela mulher não teve o consolo mistico a que se afizera no Kentucky. Talvez muito raramente encontrasse algum pregador volante. Mas seus dias de extase já estavam passados; nenhum grande "revival" rompeu os selos de seu espirito na nova zona de residencia; tudo ela recalcou para os imos da alma. Não houve serviço religioso quando foi posta no esquife de madeira verde afeiçoado pelo marido. Meses se passaram e a neve se acamou alta, antes que um sacerdote viesse rezar sobre seu tumulo. Diz a lenda que foi o jovem Lincoln o promotor dessa oficiação. Muito provavelmente ele sentiu que o perturbado espirito de sua mãe não teria sossego enquanto a piedosa cerimonia não fosse realizada. Sombria como fôra Nancy, era entretanto, uma realidade para seu filho. Lincoln acreditava que dela recebera a melhor parte de seu genio, e não só a amava como a reverenciava. Muitos anos após á morte de Nancy exteriorizou-se ele assim: "Deus, abençoai minha mãe; tudo quanto sou ou espero ser a ela o devo".
Thomas Lincoln não permaneceu viuvo por muito tempo. No ano seguinte foi ao Kentucky e voltou triunfalmente com a nova esposa — uma antiga namorada que se casara, enviuvara e ainda sentia anseios de novas aventuras. Sarah Bush Lincoln, de menos distinção que Nancy, revelou espirito forte e voluntarioso. Por esse tempo Thomas já havia deixado o rancho em aberto e se abrigado numa cabana. Mas que cabana! Sem folhas de porta e janelas, sem assoalho. Sally Lincoln exigiu que o esposo construisse coisa melhor, ao tipo comum das casas de Pigeon Creek. Havia trazido consigo uma carreta de moveis e pertences. Essas comodidades, mais a sua vontade energica, determinaram uma era nova, de relativo conforto, na cabana do velho Lincoln.[1]
Sally foi para o rapaz uma boa madrasta, das que sabem fazer-se queridas. Naquela pobre comunidade — um mundinho de sitios agricolas maltratados, de miseraveis estradas lamacentas, de casotas de madeira, a familia subiu de posição e passou a ter vida mais toleravel. A sordida miseria descrita pelos estudiosos da vida de Lincoln parece haver terminado lá pelos doze anos da vida do rapaz. Pelo menos desapareceu aquele eterno aspecto de acampamento de vagabundos. Embora a vida fosse sem luxos, e ainda rude, dominada pela grosseira mentalidade camponia local, do ponto de vista da gente do campo não era de padrão baixo. Alimentação abundante, boa proteção contra o mau tempo, fogo sempre aceso no inverno, trabalho e consideração social. Escusa dizer que o trabalho era penoso e constante. Mas, do mesmo modo que as surras do Kentucky, que mais era de esperar numa comunidade agricola daquela marca? Abraham tudo aceitou com o mesmo estoicismo com que aceitara as surras. Pela lei não escrita do pequeno grupo humano ali formado, o rapaz era propriedade de seu pai, bem como o seu trabalho. Thomas utilizava-se dele como de um servo, e ainda o alugava a outros. Vemo-lo trabalhando num sitio com a paga de 25 centavos por dia, provavelmente a molhado; em outra ocasião aparece num matadouro de porcos, com o salario de 31 centavos — mais, porque o trabalho era mais duro. E o jovem Lincoln tambem se tornou notavel no manejo do machado.
Nos intervalos de folga de sua carreira como trabalhador braçal, somou uns tantos meses de atividade escolar, menos de um ano ao todo. Uma historia mil vezes repetida no-lo mostra ao pé do fogo, na cabana, á noite, fazendo contas no chato duma pá e raspando a madeira quando queria mais "papel". Devorou todos os livros que lhe cairam na mão, bem poucos, é certo, mas em regra grandes livros — a Biblia, Esopo, Robinson Crusoe, o Pilgrim՚s Progress e alguns romances, estes, infelizmente, da mais pobre categoria. Bem cedo transparece a sua vocação para escritor — e compõe pobres versos e contos burlescos em que figuram seus conhecidos. Tudo em estilo biblico.[2]
O monotono da vida em Pigeon Creek havia sido quebrado por uma grande experiencia. Lincoln fizera uma viagem a New Orleans como remador de uma barcaça — viagem da qual nada sabemos mas que nos sugere muita coisa. Para a sua natureza tão profundamente poetica, forte deveria ter sido a impressão da majestade do grande rio, dos panoramas marginais, dos navios em transito, das flotilhas de barcaças, da velha cidade francesa com a sua multidão humana, seus sinos, seu cais, os rostos estranhos e o uso duma lingua estrangeira. Tudo demonstrações tremendas de que havia outros mundos alem do pequenino Pigeon Creek!
Não podemos saber que sementes essa Odisseia lançou na imaginação de Lincoln. A "colonia" ficava a quinze milhas do rio Ohio, na mesma zona sul de Indiana que recebera no começo do seculo muitas familias da mesma situação, do mesmo carater e da mesma origem dos Lincolns — brancos pobres em lenta marcha para a região das campinas. Localizada em boas terras e não longe duma grande via fluvial, a colonia ilustrava em sua rude prosperidade uma transformação não comum em muitos "settlements” daquele tipo: a transformação da erradia gente florestal no agricultor fixo. Vida da terra e bem terrena; embora retivessem as tradições religiosas da floresta, a significação dessas tradições se ia evaporando; o misticismo passara a emocionalismo; o rude acampamento na floresta derrubada degenerara em piquenique. O grande acontecimento social — o casamento — era festejado com expansões que duravam vinte e quatro horas: — corrida dos convivas masculinos, com uma garrafa de whiskey como premio; homerico banquete ao meio dia; "uma tarde de jogos grosseiros e de ultrajantes chalaças; ceia e dansa à noite, interrompida pelas constantes retiradas do noivo e da noiva, recebidos depois com cerimonias e troças rabelésianas; e uma barulhenta dispersão no dia seguinte".[3] A vida da floresta ainda sobrevivia no rijo beber, na furia brincalhona e na caçada. E a paixão pelas historias de nenhum modo arrefecia.
Nesta atmosfera o jovem Lincoln, então com dezoito para dezenove anos, passou quasi repentinamente dum delgado rapazinho a homem de avantajado porte, ossudo, desajeitado, com seis pés e quatro polegadas de altura e força muscular fora do comum. Essa força foi uma consequencia do seu desenvolvimento e libertou-o de qualquer especie de medo. Lincoln mostrava-se cheio de peculiaridades. Era feio, acanhado, despido dos apetites arrogantes do homem sensual mediano. Sem sua grande força fisica essas peculiaridades o teriam lançado no ridiculo. Mas, forte como era, podia bater todos os competidores no box ou na luta corpo a corpo, e ninguem o molestava. Mas instintivamente havia em Lincoln outra mira alem de viver em paz. Duas caracteristicas já denunciadas na infancia se foram acentuando: a placidez e o vivo senso de camaradagem. Este senso de camaradagem, entretanto, sofrera mudança. Já não se voltava para as creaturas selvagens da floresta e sim para os homens. Lincoln adquiriu em relação aos homens a mesma calma curiosidade que tinha para com o mundo dos animais — o mundo dos esquilos, das flores, dos veados.
Ali, como lá, a diferença entre ele e sua mãe, profunda apesar das aparencias, acentuava-se fortemente. Tivesse o filho a mesma religiosidade materna, e o dom da expressão verbal, que ia sempre aprimorando, podia te-lo levado a um caminho agradavel ao coração de Nancy — feito dele um pregador, talvez um grande revivalista. Seu pai e sua irmã entraram para a igreja batista de Pigeon Creek, mas Abraham não os acompanhou. Não existe nenhum traço de seu apego á pratica religiosa. Ao contrario, só ha traços da sua glacial indiferença.[4] Havia nele a inescrutabilidade da floresta — o que a floresta dá aos homens cautelosos e sempre em guarda na revelação dos seus sentimentos. Sempre coexistiram em Lincoln duas vidas, uma interna, outra externa; a externa calmamente conciliatoria, a interna solitaria e misteriosa.
Foi a sua vida externa que transpareceu nos anos de Pigeon Creek. Durante esse tempo descobriu em si grandes qualidades de narrador de historias — e tambem descobriu que era dotado de humor. No emprego dos dois talentos, aceitou como materia de curso o tom dos jovens rufiões entre os quais vivia. Muito cedo o alentado rapaz, que podia vencer a qualquer deles na luta, tornou-se a figura central do grupo por uma razão mais alta — o poder de agradar. E quem conhece como as escolas de arte camponesa surgem — ou todas as escolas vitais — sabe como ele o fez. Neste ponto os seus famosos biografos Nicolay e Hay objetam que a historia a ele atribuida é antiga. Todas as historias são antigas. O que importa é a forma com que são contadas. Em seus ultimos tempos Lincoln escreveu todas as boas historias que tinha ouvido, classificou-as e assim as fez suas.[5] Quem duvidará que essa deliberada assimilação, o tipico processo artistico, não começou em Pigeon Creek? Lincoln nunca haveria conquistado o seu publico de camponeses, levando-os a rolar de rir nos intervalos do trabalho, se não lhes houvesse devolvido as suas proprias historias entrajadas de modo novo. Que fossem grosseiras e até obcenas, é coisa que temos como assente, embora não haja prova positiva. Do contrario, seriam impossiveis aquelas gargalhadas quando Lincoln chegava ao fim.
Conquanto o humor dessas historias fosse, no minimo, falstafiano, e Lincoln equivalesse ao galo do terreiro entre os rapazes de Pigeon Creek, uma observação muito significativa merece ser mencionada. Nenhuma das suas anedotas revelava lincenciosidade pessoal. Homens de excessivos escrupulos, que mais tarde se mostraram ofendidos pela sua rudeza de expressão, jamais lhe atribuiram habitos em harmonia com as historias contadas. E tambem, guiados pela impressão pessoal, sempre tiveram a sensação de que o narrador era "limpo de espirito". A explicação de tudo estava na sua dupla vida. Essa parte que nós hoje chamamos "suas reações" obedeciam a uma curiosa lei. Aquela gente frequentava a sua vida externa, mas não penetrava em sua vida interior; todos os impulsos interiores de Lincoln permaneciam fechados com ele. Mesmo aos dezenove anos Lincoln devia impressionar os sensiveis á espiritualidade com a nota de misterio. Para os homens grosseiros que o rodeavam, porém, isso seria imperceptivel. Não lhes era dado perceber o problema do seu carater, ou suspeitar que estivessem diante de um genio, nem adivinhar que no futuro muitos homens sinceros iriam formar a seu respeito ideias tão opostas como o branco é oposto ao negro. O rapaz que os homens de Pigeon Creek viam era um reflexo deles mesmos. Mas apenas reflexo — superficial como a imagem que um espelho reflete.
| Licenças | |
|---|---|
| Original | Esta obra está em domínio público nos Estados Unidos porque foi publicada antes de 1º de janeiro de 1931. |
| Tradução | Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41. |
