Lincoln: narração de sua vida pessoal/IV
IV
REVELAÇÕES
Os homens que viam alem da superficie de Lincoln perceberam a constancia daquele estado d՚alma. Já os observadores levianos nada enxergavam; quer dizer que Lincoln não havia perdido as caracteristicas anteriormente notadas. Sua experiencia da vida era cumulativa. Tudo quanto adquiria, retinha; e porisso apresentava-se tão contraditorio aos que só vêem superficialmente. Era uma coisa por fora e outra por dentro. Clary՚s Grove continuava a te-lo como lider. Por outro lado, os homens mais analiticos entreviam algo sob as suas aparencias e chegavam ás mesmas conclusões do penetrante congressista que mais tarde o iria classificar de menos lider de homens do que diretor de homens.[1] Essa astuta distinção não soava verdadeira quanto ao Lincoln que o congressista defrontou; não obstante dizia muita coisa tanto sobre o observador como sobre o paciente da observação. O que ele via era na realidade a sombra dum Lincoln já não existente, dum Lincoln que passara tão devagar que poucas pessoas perceberam a mudança. Durante muitos anos, depois de 1835, aquela distinção aparece. Assim pensavam homens que, como William H. Herndon, socio de escritorio de Lincoln, não procediam de Clary՚s Grove. O Lincoln desse tempo era o unico que Herndon conhecia, e constitue materia de debate calcular a dose de conhecimento que ele tinha do seu companheiro; mas uma coisa percebeu — que Clary՚s Grove estava errado em atribuir a Lincoln as suas ideias em materia de liderança. Herndon viu nele, em todos os grandes assuntos, uma tendencia para aguardar os fatos, para aceitar o rumo indicado pelos acontecimentos, para fazer o que as pessoas superficiais chamam deixar-se levar pela onda. E para o explicar Herndon usa a palavra "fatalista".[2] A classificação era apenas aproximativa, como em regra todas as classificações. Mas tem sua significação o esforço de Herndon para classifica-lo. Naqueles tempos Lincoln tomava iniciativas — quando as tomava — dum modo que pouca gente percebia. Era apenas o Lincoln externo, o Lincoln de todos os dias, que entrava em contacto com os seus companheiros.
Isto é sobretudo verdadeiro do politico em ascencão. Lincoln se viu consecutivamente eleito para quatro termos legislativos e não revelou a marca dos lideres. Não pertencia a nenhum dos dois tipos de deputados que geralmente formavam o congresso daquele tempo — os que jogavam com ideias como se fossem contadores politicos, e os que eram inconcientes balcões. Como membro do Congresso Lincoln não negociava com as ideias. Organicamente incapaz de corrupção. Nada nele do tipo comum do politico. Sempre revoando alto, embora cada vez mais sociavel, o poder de que dispunha na Legislatura — pois já adquirira poder ali — era inteiramente pessoal. Conquanto classificado de Whig, não era um homem de partido, mas um amigo pessoal com capacidade de levar avante triunfos legislativos. Suas mais assinaladas realizações eram inteiramente devidas á politica pessoal. Muito se discutia então a mudança da capital, de Vandalia para outro ponto, de modo que a rivalidade entre os candidatos se fizera aguda. O condado de Sangamon propugnava a mudança para Springfield e Lincoln tomou a si conduzir a campanha. As taticas que desenvolveu podem ser apreciadas através das memorias de outro membro do Congresso, o qual parece ter antecipado aquela nobre maxima politica. "Que vale a Constituição entre amigos?" "Lincoln", diz ele, "induziu-nos, a mim e a Webb, a votar pela mudança embora fossemos deputados pelo sul do Illinois. Tivemos, pois, de defender-nos perante os nossos constituintes com a alegação de que a necessidade forçava a mudança do governo para ponto mais central; mas na realidade demos nossos votos a Lincoln porque gostavamos dele e desejavamos servi-lo, e tambem porque o reconheciamos como nosso lider."[3]
E, entretanto, nos grandes casos em debate Lincoln não tinha força para lidera-los. Em 1837 o movimento do abolicionismo, muito recente ainda, estava começando a atroar os ouvidos da União. Filho ilegitimo do calvanismo e dos direitos do homem, o movimento condenava com anatemas todo possuidor de escravos e todos os oponentes á escravidão que não fossem do grupo. A animosidade voltava-se em especial contra qualquer sugestão para suprimir a escravatura sem choque economico, ao exemplo inglês, pondo termo aquela "peculiar instituição" por meio da compra. O lado religioso da abolição enfurecia-se com tais ideais. Os senhores de escravos eram os cananitas. O novo culto não passava duma instituição de Deus, desejoso de dar a Israel a alegria de estraçalhar Agag. Fanaticos terriveis, heroicos, eles faziam duas especies de adversarios — não só os partidarios da escravidão como ainda os reformadores que, embora odiando esse instituto, igualmente odiavam os pregadores da hecatombe como instrumento da ciencia politica. A maioria da Legislatura do Illinois era partidaria da escravidão, e nos começos de 1837 aprovou moções condenatorias do abolicionismo. Nessa emergencia foi revelado — sem que isso tivesse a minima importancia no momento — que entre os inimigos da abolição estava o jovem "amigo de todo mundo", Abe Lincoln. Dele, entretanto, partiu um protesto contra a ação da Legislatura. Apesar da sua influencia pessoal em outros setores, Lincoln só conseguiu persuadir um deputado a assinar com ele a moção. O protesto exorbitava das normas usuais. Os signatarios proclamavam a sua crença em que "o instituto da escravidão era baseado na injustiça e na má politica, mas que as doutrinas abolicionistas antes cooperavam para promover do que para suprimir os seus males."[4]
A singular originalidade desta posição, condenando os dois lados daquele duelo, passou despercebida no mundinho em que Lincoln vivia. Mais tarde apresentaria o interesse duma bomba que deixou de explodir. Era a aurora do seu intelecto. Na sua solitaria vida interior, aquele jovem ainda cru, amante dos livros numa aldeia onde o livro era simples curiosidade, tinha começado a pensar. Os degraus da sua transição de mero contador de historias, isto é, de artista da palavra, para homem de ideias, não podem hoje ser retraçados. Mas nesse fato temos uma profecia dos anos futuros. Em vão procuraremos as primeiras fases de todas as ideias de Lincoln. Seu espirito nunca se revela antes do momento decisivo. Não espanta, pois, que, um dia, seus companheiros o considerassem o mais fechado dos homens; e que um dos seus observadores dissesse que quanto mais coisas sabia de Lincoln, menos o ficava conhecendo.[5]
O surto intelectual de Lincoln, no atrazo daquele meio, parecia retardado. Estava ele nos vinte e oito anos. Outra caracteristica: seu espirito trabalhava lentamente. Mas cumpre notar que as ideias estampadas naquele protesto nunca foram abandonadas. Mais uma caracteristica, portanto: a tenacidade mental. Até o fim da vida ele olhou com maus olhos o abolicionismo, considerando-o um dos principais males da politica americana. Igualmente significativa foi a outra ideia do protesto, que ele jamais renegou.
Na questão do direito que tinha o governo central de intervir no problema da escravidão, Lincoln. colocou-se em desacordo com os dois credos politicos do tempo. Os Democraticos já haviam formulado a doutrina de que o governo nacional era uma coisa de poderes extremamente limitados — o "glorificado policial" de uma certa escola de publicistas em extrema minoria. Os Whigs, embora se mostrassem amistosamente vagos quanto á maior parte dos problemas, salvo ganhar dinheiro com a ajuda do estado, eram tidos como sustentadores de um governo central "forte". O abolicionismo havia forçado os dois partidos a considerar uma questão perturbadora: "No Distrito de Columbia, onde o governo nacional é supremo, qual a sua atitude a respeito da escravidão?" Os Democraticos respondiam prontamente: Deixai o "glorificado policial" na sua função de manter a ordem e fiquem os interesses particulares, inclusive os da escravatura, entregues apenas aos interessados." Já os Whigs fugiam á questão, não procuravam aplicar ao caso a teoria do "governo forte"; tinham receio de ofender uma parte do grupo se afirmassem que não cabia á nação o direito de abolir a escravidão no Distrito, e tambem receiavam ofender outra parte do grupo se sustentassem o contrario. O protesto de Lincoln afirmava que "o Congresso dos Estados Unidos tinha o poder, dentro da Constituição, de abolir o escravismo no Distrito de Columbia, mas... esse poder não devia ser exercido senão a instancias do Distrito." Por outras palavras, Lincoln, depois que emergiu da catastrofe consequente á morte de Ann, assumiu em relação ao poder politico uma atitude que não era emanada do ambiente, e que o punha á parte, como um homem raro na historia do estadismo. Que outro americano daquela epoca, ou de qualquer epoca, teria ousado afirmar ao mesmo tempo a existencia de um poder e a obrigação moral de não usa-lo?
O instintivo modo americano de limitar o poder é negar a sua existencia. Nossos politicos de tal modo desconfiam do nosso temperamento, que nada deixam entregue á lei moral. Revelam espirito anormalmente mecanico. A limitação estatutoria, especificada, é para eles a unica que tem realidade. A verdade de que a disposição do momento é na politica um fator tão forte como a lei, não era percebida pelos politicos de 1837 — salvo pelo jovem Lincoln. Sua natureza, ou sua hereditariedade, o ajudava nisso. Das profundezas de seu ser emergiram as duas ideias: a fé num poderoso governo central e a fé em que esse poder fosse usado com infinita ternura, que se mostrasse tolerante com os erros humanos e os fosse reduzindo gradualmente, como em tudo faz a natureza em seus processos de mudança.
Esse iria ser o Lincoln futuro — o homem dessas duas ideias. O tom de sua politica fôra dado por aquela manifestação na Legislatura aos vinte e oito anos de idade. Nada mais inevitavel que a alta significação do fato não fosse percebida pela assembleia; todos ali o supunham um dos seus iguais; desculparam-lhe a fantasia e esqueceram-na.
O momento foi melancolico na vida de Lincoln. A força de muita leitura de livros de emprestimo havia conseguido obter licença para advogar. Na primavera de 1837 mudou-se para Springfield, levando no bolso apenas um dolar. Foi a cavalo — cavalo emprestado — e levou tudo quanto possuia, inclusive a sua "biblioteca juridica", em dois sacos de viagem; lá chegando, dirigiu-se ao unico marceneiro da terra e encomendou uma cama. Depois encaminhou-se para o armazem de Joshua F. Speed. O encontro está descrito por Speed e vale pela historia classica do genio atolado na pobreza: "Lincoln entrou no meu armazem, depôs os sacos sobre o balcão e pediu o preço do enxoval necessario a uma cama de solteiro. Tomei o lapis, fiz o calculo e respondi que um enxoval completo custaria dezessete dolares. Ele respondeu: Deve ser barato, mas devo confessar não tenho dinheiro para paga-lo; se quer dar-mo a credito até o Natal, e se minha experiencia como advogado for bem sucedida, então o pagarei. Em caso contrario, provavelmente não o pagarei nunca. O tom de sua voz era tão melancolico que me comoveu. Olhei para aquele homem e pensei comigo que jamais vira uma cara tão triste. E respondi: Se tão pequena divida parece afeta-lo, posso sugerir um meio de ter o que precisa sem individar-se. Disponho aqui dum espaçoso quarto com cama dupla, e terei muito gosto em compartilha-lo com o amigo, se for do seu agrado." "Onde é esse quarto?" indagou ele. Em cima, respondi, e apontei para a escada que ia do armazem ao meu quarto. Sem dizer uma palavra, Lincoln tomou os sacos e subiu, e com o rosto iluminado por um sorriso exclamou: "Pois bem, Speed, estou instalado."[6]
Foi esse o começo duma amizade que parece ter sido a unica dessa especie na vida de Lincoln. Mais tarde, gosou de camaradagem equivalente com os seus habeis secretarios particulares e com um ou dois homens de valor encontrados já na idade madura. Mas nenhum deles penetrou na solidão da sua profunda vida interior. O unico que jamais o fez foi Speed. Na grande coleção de cartas de Lincoln só vemos verdadeira intimidade nas que escreveu a Speed. E mesmo entre essas só são verdadeiramente intimas as relacionadas a certo assunto. A instintiva reserva de Lincoln foi um mal incuravel. O assunto confidenciado era o seu ultimo caso de amor. Quatro anos após á mudança para Springfield, ele pedira a mão de Miss Mary Todd. Por aquele tempo já estava advogando e livre da pobreza. Longe da prosperidade ainda, mas com grandes possibilidades — coisa de valor para o ardente coração do Oeste.
A hospitaleira Springfield abrira-lhe as portas; alguns dos melhores homens de lá tinham-no conhecido na Legislatura. Esqueceram-lhe a humilde origem e a pobre condição. A՚ moda do Oeste, foi ele posto em prova afim de que revelasse o que tinha dentro. Se pudesse dar boas contas de si, nada mais lhe seria pedido. A sua sociabilidade impos-se. Os homens de Springfield deixaram-se cativar quasi tão facilmente como os de New Salem.
Mas tudo isso era vida externa. Se o fermento interno se manteve vivo de 1835 a 1840, o fato perdeu-se na sua taciturnidade. Mas transparecem alguns sinais da sua inquieta vida emotiva.
Depois que emergiu da depressão consequente á morte de Ann, Lincoln deu novos passos em busca da felicidade — uma coisa real, agora que havia descoberto o horror da infelicidade. A principio julgou ve-la na pessoa duma rapariga de nome Mary Owens; Mary, porém, percebeu que ele a não cortejava muito a serio e achou-o deficiente "nessas pequeninas coisas que fazem a felicidade duma mulher" — e mandou-o passear, com grande alivio do candidato.[7]
Já o caso com Mary Todd foi diferente. Era moça da melhor sociedade. O Oeste naquele tempo enxameava de filhos cadetes, ou o equivalente disso, que procuravam fazer carreira e cujas irmãs e primas eram muito cortejadas. Mary Todd, cunhada dum figurão de Springfield, tinha suas origens no Kentucky e na Virginia; sua gente alegava uma prosapia que ia até o seculo 6.°. A historia, porém, contenta-se com um seu avô e um bisavô, militares de alguma reputação, dois tios avós que haviam sido governadores e outro que chegou a ministro de estado. O contraste com as familias de Thomas Lincoln e Nancy Hanks era grande. Cumpre tambem assinalar a educação da moça — Mary havia cursado um colegio onde as jovens com pretenções sociais só podiam exprimir-se em francês. Sentia-se uma fidalga e com altos destinos.
O seu caso com Lincoln não correu sem nuvens. Muito grande a diferença dos temperamentos; houve disputas, amuos e, afinal, sem que o motivo chegasse até nós, a 1.° de janeiro de 1841 deu-se o rompimento. Antes do fim do mês Lincoln escrevia ao seu socio de escritorio desculpando-se das inhabilidades. "Peço que me perdoi o não apresentar relatorio dos trabalhos; não está em mim faze-lo. Sinto-me a mais infeliz creatura existente. Se o que padeço fosse distribuido a todo o genero humano não haveria um rosto alegre no mundo. Ignoro se melhorarei disto. Terríveis presentimentos dizem-me que não. Mas ficar no que estou é-me impossivel. Preciso morrer ou sarar... e tenho a impressão de que uma mudança de ambiente me ha de favorecer."
Novamente foi Speed a sua salvação. Esse bom amigo fechou o negocio e levou-o ao Kentucky, onde o devotamento de Bowlin Green e da esposa the veio em socorro. Mas a psicologia desse incidente foi muito singular. A vida interior de Lincoln havia evoluido bastante desde a morte de Ann, e o progresso fôra em materia de introspeção, de auto-analise. Lincoln tornou-se meditativo. E, como sempre, a mudança não se revelou antes que um fato da vida externa a fizesse vir a furo. Seus amigos não suspeitavam que no intimo ele vivesse permanentemente meditando, questionando-se, analisando-se, sondando a alma de todas as coisas.
"No verão de 1840-1841", escreve Speed, "ele se declarava infeliz com o noivado, sentindo que o seu coração não acompanhava a sua mão. O quanto sofreu com isso só eu sei, pois só comigo se abria. No verão de 1841 tratei o meu casamento. Ele estava aqui de visita quando cortejei minha atual mulher; e devo confessar que alguma coisa do sentimento que nele eu considerava tontice tomou posse de mim, e fez-me muito infeliz desde o momento do pedido de casamento até á sua realização. Isso explica o profundo interesse a meu respeito manifestado em suas cartas... Uma coisa me parece clara: se eu não me tivesse confessado mais feliz com a união que o esperara, Lincoln não se teria animado a casar.
Verdadeira ou falsa esta conclusão de Speed, o certo era serem os dois extraordinariamente semelhantes em temperamento; o que quer que determinou a ruptura do noivado de Lincoln com Miss Todd, tambem se repetiu na experiencia do companheiro, e esse paralelismo de sentimentos rompeu-lhe os diques da vida interior e libertou-o de recalques internos. Eram os dois homens profundamente introspectivos. Tinham ambos um agudo senso das responsabilidades emotivas do casamento, coisa peculiar a certos tipos hiper-sensiveis, pelo menos entre os anglo-saxões. Mas nem um nem outro percebeu essa feição da propria sentimentalidade, e alegremente seguiram o impulso, até que a conciencia de subito despertada lhes perguntasse se realmente amavam as noivas e estavam certos de amor duradouro.
Foi sobre este ponto que se desenvolveram as unicas epistolas verdadeiramente intimas de Lincoln. Haviam sido escritas depois de seu retorno a Springfield, enquanto Speed lutava com o demonio da auto-analise. Lincoln fazia a mesma coisa e afinal recobrou a serenidade. Em certo momento escreveu: "Sei qual é o ponto doloroso, quando você se sente infeliz: é a duvida de que a não ama o quanto queria ama-la. Que tolice! Como foi que entrou a corteja-la? Por achar que ela o merecia e por lhe ter dado razão para esperar? Se foi por isso, por que a mesma razão não fez você cortejar Ann Todd, ou pelo menos vinte outras á mão, diante das quais você podia apresentar-se com mais vivacidade do que a ela? Cortejou-a por causa da sua fortuna? Não, porque você disse que era moça pobre. Mas você declara que raciocinou muito. Que quer dizer com isto?" E por ali além, nesse mesmo tom — uma pintura indireta do seu proprio estado de espirito, em tudo coincidente com o do amigo.
Esse estranho episodio tambem nos revela que entre os silencios de Lincoln, enquanto o homem exterior avultava em todos os campos, o homem interior estava procurando uma religião. Sua incapacidade para aceitar a forma do credo materno não se baseava em nenhuma falta de espiritualidade. Embora difusa, a religiosidade de Lincoln transparece nas cartas a Speed. Quando a noiva deste caiu enferma, levando-o a paroxismos de remorso e dor, Lincoln escreveu-lhe: "Espero e creio que essa ansiedade e desespero em relação á saude dela irão banir para sempre as horríveis duvidas quanto ao afeto que você lhe dedica. Se tais duvidas podem ser definitivamente afastadas (e tenho a intuição de que o Todo Poderoso enviou a você essa aflição expressamente para esse fim) nada virá substitui-las e encher a incomensuravel medida das dores... Se, como você supõe, ela estiver destinada á morte prematura, constitue grande consolação saber que está perfeitamente preparada para o lance."
Em outro ponto escreve: "Sempre fui supersticioso. Creio que Deus me fez um dos seus instrumentos para unir você a Fanny — união por Ele pre-determinada. E o que quer que Ele haja predeterminado em meu caso, Ele fará que se realize. Guarde silencio e procure a salvação do Senhor — é o meu texto agora."
A dualidade em auto-tortura desses irmãos espirituais durou ano e meio e cessou com o casamento de Speed. Lincoln já estava completamente libertado do seu demonio interior. Escreveu ao amigo uma encantadora carta, serena, afetuosa, brincalhona, embora levemente tocada dum laivo de desilusão. “Digo-te, Speed, que os nossos pressentimentos (para os quais somos ambos peculiarissimos) constituem a peor especie de contrassenso... Você receia a não realização do eden com que sempre sonhou. Bem, se não for assim, eu juro que não será por falta da que é hoje sua mulher. Não tenho duvidas de que o peculiar a nós dois é sonhar sonhos de paraisos acima de todas as possibilidades de realização neste mundo."[8]
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| Original | Esta obra está em domínio público nos Estados Unidos porque foi publicada antes de 1º de janeiro de 1931. |
| Tradução | Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41. |
