Lincoln: narração de sua vida pessoal/VI
VI
DECEPÇÕES
A carreira de Lincoln no Congresso, de 1847 a 1849, foi o que poderia ser — o mesmo que na Legislatura do Illinois, apenas em maior escala. Um agradavel e amistoso interregno, infrutifero e sem significação politica. Os chefes do partido não o tomavam muito a serio, nem o achavam digno das altas iniciações. Um disciplinado membro da massa dos Whigs, nada mais. Nas estrategias partidarias durante os debates sobre a Guerra Mexicana e o caso Wilmot, desempenhou ele corretamente o seu papel, votando com os outros. Só duma feita se atreveu a algo original — um projeto de lei emancipando os escravos do Distrito de Columbia, que não passava duma reafirmação do seu protesto de dez anos antes e sobre o qual o Congresso se manifestou tão alheado como a Legislatura do Illinois. Esse projeto nem sequer recebeu a honra de entrar em debate.[1]
Mas, apesar de tudo, não se pode dizer que Lincoln não causasse impressão em Washington. Repetia-se lá a sua experiencia de Springfield. Todos lhe louvavam a sociabilidade, a modestia, o bom genio e, sobretudo, a sua arte de contar historias. O humor de Lincoln, o seu estilo pessoal, conquistava as assistencias. Alem disso, ninguem deixava de lhe reconhecer a absoluta integridade.
"Durante as ferias do Natal", diz Ben Perley Poore, "Mr. Lincoln acostumou-se a ir para a saleta usada como o Correio do Congresso, e onde os amigos de historias se reuniam cada manhã, depois da distribuição da correspondencia, para a permuta entre si dos novos casos colhidos. Breve ganhou Lincoln fama do melhor contador. Seu, lugar favorito era á esquerda da lareira, recostado á poltrona, com as compridas pernas espichadas para o fogo".[2]
Segundo outro contemporaneo, "o congressista Lincoln era muito amigo do jogo de bola e frequentemente... se reunia a outros colegas para partidas na aléia de James Casparus... Jogador desajeitado, mas de jogo muito vivo e atento, sempre visando o exercicio e distraindo os companheiros com as agudezas e comentarios de que era fertil... Quando sabiam que ele estava jogando, muita gente para lá se encaminhava afim de gosar o espetaculo e regalar-se com as suas anedotas e brincadeiras. E, assim, rodeado de espectadores e ouvintes ansiosos, entregava-se todo, e com a maior liberdade, ao seu esporte dileto, que era o de contador de casos, ás vezes com muita pimenta".[3]
Uma vez pelo menos divertiu o Congresso com uma exibição de humorismo, e, por estranho que o pareça, foi o unico caso que chegou até nós de primeira mão. O humor de Lincoln já se havia tornado tradicional. Como tudo mais em sua vida exterior, esse humor foi gradualmente mudando com a evolução do contador; do "amuseur" de Pigeon Creek ascendeu ao autor da oração de Gettysburg. As "Historias de Lincoln" aparecem como translações, ou recontadas por outros, e como todas as translações exprimem mais o translador que o original. O valor delas estava na pessoa de Lincoln, na sua maneira de contar, não na substancia. "Tinha o riso contagioso; a gesticulação angulosa era dele e de mais ninguem, e a todos atraia, desde os velhos até os meninos de escola".[4] Tornou-se famosa a sua mimica.
Lincoln não inventava as hitorias. Tomava-as de toda parte e vestia-as coma sua arte pessoalissima. Era mais um gracejador do que um ironista. O que hoje sabemos dessas historias é apenas o enredo central; o vestuario que as tornava preciosas não chegou até nós. Dai o desinteresse que apresentam as coleções, como é tambem desinteressante o Dante de Carey e o Homero de Bryant. Igualmente estranhamos não encontrar humor em suas cartas. Esse famoso gracejador escreve aos amigos da maneira mais seria, frequentemente triste. O exemplo do seu humor no Congresso — uma burlesca caricatura do candidato democratico Lewis Cass — não suporta repetição, despida do elemento pessoal, do vestuario de gestos e tom com que ele a apresentou aos colegas.[5]
Lincoln mostrou-se profundamente humilhado de não causar nenhuma seria impressão em Washington.[6] Seus olhos arregalaram-se ao perceber a existencia de mundos que ele não podia conquistar. A Washington daquele tempo estava longe de ser uma grande capital; pouco mais se avantajava a Springfield e Vandalia. Os homens que lidavam com ideias como se fossem mercadorias politicas, ou os que conheciam todas as subtilezas da arte da corrupção, constituiam figuras tanto locais como nacionais. A politica pessoal era a mesma coisa em Washington ou em qualquer outra parte; havia, entretanto, uma pequena diferença — e nessa pequena diferença aparece a razão do fracasso de Lincoln. De mil modos essa diferença o afetava, e pode ser simbolizada por um pequeno detalhe — a incongrua inclusão do seu nome na lista dos diretores do Baile Inaugural de 1840. Nunca nada semelhante acontecera em sua vida. E como Mrs. Lincoln não estivesse lá, ele "se reuniu a um grupo de amigos" interessados na festa. Um desses homens conta que "ele se mostrou grandemente interessado em todas as particularidades da festa e só nos separamos ás quatro da madrugada".[7] Que quadro ironico o desse digno provinciano, a ultima palavra em esquerdice, socialmente tão estranho a tudo aquilo como uma criancinha, gastando a noite inteira a olhar atentamente para tudo, para aquela barbarica exibição de riqueza, os suntuosos vestidos das damas, os brilhantes uniformes, os figurões estrangeiros, e os lideres da America, homens como Webster e Clay, impantes no seu ar de poderosos — os homens que ele não conseguira impressionar! Foi essa a sua despedida de Washington. Lincoln voltou para casa e declarou a Herndon que se havia suicidado politicamente.[8] Tinha enfrentado o mundo e achara-o muito forte para seus dentes.
Mas que havia de errado? Ele conseguira fazer-se popular em Washington do mesmo modo que se fizera popular em Springfield. Porque, então, o mesmo sucesso o encantava em Sprifgield e o humilhava em Washington? A resposta está na diferença entre os dois mundos. A sociabilidade e a narração de historias em Springfield conduziam á influencia; em Washington só determinavam aplausos. Em Springfield eram um meio; em Washington, um fim. O mundinho menor dera-lhe ensejo de revelar tudo quanto havia de valor dentro de si; o mundo maior impiedosamente po-lo em seu lugar, como um bom sujeito e nada mais. Na Washington daquele tempo não havia posição para Lincoln. Nem o solitario pensador mistico, nem o engenhoso bufão teve forças para impressionar a fundo. Superficial como Springfield, Washington não revelava a impulsiva generosidade da primeira. Confirmava-se a obtusidade da capital. Os deuses lhe haviam enviado um grande homem e ela não percebera. Lincoln teria de repetir a sua representação.
E foi assim que Lincoln voltou para casa, desapontado, desiludido, sem haver conseguido crear nenhuma nova credencial nem sequer no seu grupo. E sem isso, como pretender a reeleição? A frivolidade da maquina politica dos Whigs em Sangamon ficou provada com a mudança de candidato. Aqueles mazorros politicos pessoais tinham-no enviado á capital, meio essencialmente corrupto em que Lincoln falhara. E agora ele enfrentava, politicamente, o muro branco do ostracismo. Não havia ainda nele a conciencia de qualquer poder com forças para quebrar a muralha. Que fazer?
Nessa perigosa encruzilhada — tão claramente um fecho de capitulo — ofereceram-lhe o governo do novo Territorio de Oregon. Pela primeira vez sentiu-se Lincoln numa bifurcação de caminho, onde uma decisão de sua vontade decidiria de seu futuro e onde a pressão das circunstancias era de valor secundario.
Para atender à crise, algo emergiu de seu imo. A herança materna e a herança da floresta sempre estiveram presentes em Lincoln. Mas não era ele apenas o filho de Nancy e das solitarias estrelas do ceu — havia ainda em seu sangue a herança da instabilidade de Thomas. E se o que reviveu naquele momento de crise não foi essa herança paterna, foi algo da mesma sorte. Assim como para desembaraçar-se dum insucesso Thomas punha os tarecos num carro e tocava para adiante, assim tambem seu filho Abraham, naquela crise psicologica, sentiu a tentação de pôr num carro os pertences e atirar-se para o desconhecido. Em redor insistiam para que aceitasse. "Dominará a nova comunidade e, quando o Oregon for elevado a estado, poderá ir para Washington como senador”. Era o que em seu lugar faria Thomas. Mas Lincoln hesitava...
Foi quando a mulherzinha com quem se casara entrou em cena. Voltar para a floresta justamente quando estavam firmando o pé no mundo, quando a prosperidade do escritorio em Springfield era coisa evidente, quando já se tornavam figuras de importancia social? Não. Ninguem os deteria mais, decidiu ela.
Lincoln declinou da nomeação e retomou a pratica da advocacia em Springfield.[9]
| Licenças | |
|---|---|
| Original | Esta obra está em domínio público nos Estados Unidos porque foi publicada antes de 1º de janeiro de 1930. |
| Tradução | Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41. |
