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Lisboa no anno três mil/6

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CARTA VI

 
A escrita portuguêsa.—Os mestres da decadência.—A crítica; a poesia.—Os «Lusíadas».—A arte e a couve gallêga.
 

O grande poeta, a que anteriormente me referi, ― Camões, — escreveu numa língua, hôje universalmente desconhecida, como tôdas as línguas do século XX.

A língua dos portuguêses fôra primitivamente um mixto de locuções romanas, árabes e provençais. Regularizára as suas fórmulas sintácticas e prosódicas no século XV, e chegára á possível perfeição no século XVI, a que pertenceu o poeta dos Lusíadas. Deteriorada no século XVII pelo prurido das innovações, da extravagancia e das subtilezas ôcas, tentou baldadamente recuperar os seus créditos no século XVIII, até que depois de meiado o século XIX, entrou num período de deplorável anarquia e de decadência definitiva. Os raros modelos de boa linguagem, carcomia-os o gusano e apodreciam em arquivos tenebrosos e bafientos.

Os escritôres, que o consenso geral classificava de pontifices literários, reduziam o seu exemplo e a sua sciência ao jôgo casuístico das etimologias, considerando mais perfeita a escrita que mais difficil fôsse de aprendêr e imitar. Em vêz de têrem um sinal exclusivo para a representação, de câda som, estribavam-se nos infólios grêgos e latinos, e permittiam-se o luxo nocivo e inútil de dar a um só sinal valôres differentes, para que os estrangeiros, as mulheres e as crianças nunca pudessem dizêr que sabiam a língua nacional. Assim, o nh pronunciava-se de um modo em minha e de outro em inhábil; o ch em fachada não se pronunciava como em monarcha. Em certas locuções, faziam adicionamentos que não significavam coisa alguma, como em physica, para exprimirem uma ideia que, com a maior simplicidade e nitidêz, podia exprimir-se por tísica.

E tudo isto, em nôme das etimologias, que os próprios pontifices desacatavam, pois que insensivelmente escreviam caridade, caro amigo, idade, Santos, semelhante, etc, quando, se fossem consequentes no próprio absurdo, deveriam escrevêr charidade, charo amigo, Sanctos, similhante, etc.

Faziam mais ainda. Quando a etimologia lhes não offerecia pretextos para escrevêr e complicar a linguagem com adições sábias, acrescentavam sinais e duplicavam consoantes, a seu bel-prazer. De fórma, que era vulgarissimo vêr-se um patriarca das letras escrevêr: cahir, sahir, fallar, Thiago, sachristão, quando não havia razão nem sombra de pretexto para que se não escrevêsse: cair, sair, falar, Tiago, sacristão.

A esta anarquia, para que se não olhaya, ainda nas esferas mais illustradas, mas que era já um grande passo para a ruina da língua, acrescia o caos, em que atropelavaṁ a linguagem os escritôres que, antes de o sêrem, não estudaram o seu idioma.

A ância do renôme, a pressa da celebridade, sacrificava as mais evidentes aptidões, atirando os sedentos de glória, das bancadas da escola primária, para as arenas do jornalismo, do romance, da critica e da poesia.

Não pódes imaginar o que se disse e o que se escreveu, por êsses tempos. A linguagem chegou a sêr uma algaravia inextricável, donde a grammática e o bom senso fugiam espavoridos e horrorizados. A crítica tornou-se uma faculdade puramente individual, pela ausência de princípios e de orientação: o crítico A. celebrava a apotéose daquillo que, para o crítico B., era a suprema toleima; num dia, tôdo o occidente aclamava um herói, e, momentos depois, o herói era recenseado na confraria dos ineptos ou dos infames. O romance era a fotografia da linguagem do tempo e o estimulante de paixões reles. A poesia, ou antes, o que se crismava com este nôme, era, por via de regra, a extravagância metrificada a palmos, em gíria de estudante cábula.

E contudo, meu amigo, Portugal têve uma literatura. Póde até dizêr-se que, de todas as bellas artes, a poesia foi a que maiór número contou de notáveis artistas. Em parte, explica-se o facto pela influência de tradições aventurosas, e pelo cálido temperamento e vago sentimentalismo das gentes occidentais.

Têve, pois, muitos e bons poétas êste pequeno país.

A tôdos, porém, sobreleva Camões, pêla relativa perfeição artística da sua obra, pêla grandêza da sua alma ardente e devaneadôra, e pelo acrisolado patriotismo que repassou o seu poema.

Nunca se fez um poêma tão nacional e tão patriótico, como os Lusíadas A Ilíada e a Eneida são prejudicadas pela fábula; a Divina Comédia é uma fantasia immortal, mas uma fantasia; a Gierusalemme, e o Orlando, e o Paradise lost, e a Messíada, absorvem-se no misticismo, ou na contemplação de proêzas de estranhos, a Henriade representa uma hora de ócio de um filósofo demolidôr; o Fausto é um problema em verso. Só os Lusíadas são a incarnação brilhante do espírito da pátria, da aspiração nacional, das glórias de um pôvo, que morreu desconhecido e desprezado, mas que՚ sendo dos mais pequenos do mundo, soubera tomar as proporções do maiór pôvo do velho continente.

Seguidamente ao brado patriótico dos Lusíadas, o país perdeu por sessenta annos a sua autonomia; e, por tal fórma se habituou á dependência, que proscreveu a musa do patriotismo; como se os cantos livres da pátria fossem uma banalidade râncida e piegas. A musa nacional deu-se depois ao inoffensivo labôr de reconstituir a Arcádia, mas povoada de pastores, que, em vêz da agresta avena ou frauta rude, tangiam a lira, um instrumento célebre, de que ainda não pude descobrir vestígios.

Quando a vóz dos poetas já não chegava aos ouvidos de ninguém, a musa desgrenhou-se compungida, nevrótica, fantástica, e deu-se a fazêr balladas e trênos e melopeias com acompanhamento de piano. Estêve a ponto de morrêr de clorose, mas foi restabelecêr-se no campo: e de tal maneira se affeiçoou ás coisas da natureza, que passou a cantar a cenoira e a couve gallêga, comprazendo-se, aos serões. em estudar a filosofia de Epicuro. A linguagem da poesia, quando não era síbillina, como nos poemas de Rosalino, era, como nos poemas de Rosalino era, como nos poemas de Jaime José, tão natural que parecia prosa, mas prosa sem normas, em que o sublime era grotesco, e em que o simples e o natural era o sôro chilro de miolos sem vida.

Das collecções de Reliquiano, separo um fragmento poético, para que melhor entrevejas a índole e a linguagem da poesia da decadência. Lê, e arquiva, que vale a pena:

 

Quando ólhas para mim, lirio do val՚,
esvai-se-me a razão, foge-me o estilo,
pois vejo nos teus olhos, tal e qual,
com licença do clássico Camillo,
duas... —não queiras levar isto a mal !—
duas cabêças rútilas de grilo;
e juro-te que tenho em ti mais fé,
do que no próprio Comte ou no Littré.

Tu és o meu ideal em carne e ôsso,
e, quando te não vejo, alva Anſitrite,
dou o cavaco, foge-me o apetite,
e fico tôdo o dia sem almoço.
Que bellos frângams tinha o Mata, um dia,
em que almocei na tua companhia!

Pois os espargos?! não te lembras, filha?
Hei-de levar-te um leque de Sevilha
e cerejas da praça da Figueira,
se voltares ao Mata, quinta feira.
Não te esqueças, amôr, leva a mantilha.

E՚s um bijou com ella;
e quero vêr se aínda hôje falo
ao Rafael Bordalo,
para fazer de ti uma aguarela!

 

Tenho-me espraiado muito sôbre literatura, e ainda te não disse tudo o que tinha para dizêr-te. Outro dia falaremos.

Recebe o meu ósculo de saudação.

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