Longe dos olhos.../III

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Longe dos olhos... por Machado de Assis
Capítulo III


De inimigos que deviam ser os dois condenados ao casamento passaram a ser naturalmente aliados. Esta aliança veio devagar, porque, apesar de tudo, ainda se passaram algumas semanas sem que nenhum deles comunicasse ao outro a situação em que se achava.

O bacharel foi o primeiro que falou, e não ficou pouco pasmado ao saber que o desembargador nutria a respeito da filha igual plano ao de seu pai. Haveria acordo dos dois pais? foi a primeira pergunta que ambos fizeram consigo mesmo; mas houvesse ou não, o perigo para eles não diminuía nem aumentava.

— Oh! sem dúvida, dizia João Aguiar, sem dúvida que eu seria muito feliz se os desejos de nossos pais correspondessem aos de nossos corações; mas há um abismo entre nós e a união seria...

— Uma desgraça, concluía afoitamente a moça. Pela minha parte, confio no tempo; confio sobretudo em mim; ninguém leva uma moça à força para a igreja e quando tal coisa se fizesse ninguém lhe podia arrancar dos lábios uma palavra por outra.

— Todavia, nada impede que à liga de nossos pais, disse João Aguiar, opuséssemos nós uma liga... nós quatro.

A moça abanou a cabeça.

— Para quê? disse ela.

— Mas...

— A verdadeira liga é a vontade. Sente-se com força de ceder? Então é que não ama...

— Oh! amo como se pode amar!

— Ah!...

— A senhora é bela; mas Cecília também o é, e o que eu vejo nela não é a beleza, quero dizer as graças físicas, é a alma incomparável que Deus lhe deu!

— Amam-se há muito?

— Há sete meses.

— Admira que ela nunca me dissesse nada.

— Talvez receio...

— De quê?

— De revelar o segredo do seu coração... Bem sei que não há crime nisto, todavia pode ser que por um sentimento de discrição exagerada.

— Tem razão, disse Serafina depois de alguns instantes; também eu nada lhe disse a meu respeito. Demais, entre nós não há grande intimidade.

— Mas deve haver, há de haver, disse o filho do comendador. Vê-se que nasceram para ser amigas; ambas tão igualmente boas e belas. Cecília é um anjo... Se soubesse o que me disse quando eu lhe contei a proposta de meu pai!

— Que disse?

— Estendeu-me a mão apenas; foi tudo quanto me disse; mas esse gesto era tão eloqüente! Eu traduzi-o por uma expressão de confiança.

— Foi mais feliz do que eu?

— Ah!

— Mas não falemos nisto. O essencial é que tanto eu como o senhor tenhamos feito uma boa escolha. O céu há de proteger-nos; estou certa disso.

A conversa continuou assim por este modo singelo e franco. Os dois pais, que ignoravam absolutamente o objeto da conversa deles, imaginavam que a natureza os ajudava no plano do casamento e, longe de impedir, lhes facilitavam as ocasiões.

Graças a este equívoco, os dois podiam repetir essas doces práticas em que cada um ouvia o seu próprio coração e falava do objeto escolhido por ele. Não era um diálogo, eram dois monólogos, algumas vezes interrompidos, mas, sempre longos e cheios de animação.

Com o tempo vieram eles a fazer-se confidentes mais íntimos; esperanças, arrufos, ciúmes, todas as alternativas de um namoro, comunicados um ao outro; um ao outro se consolavam e se aconselhavam em casos em que eram necessários consolação e conselho.

Um dia o comendador disse ao filho que era conhecido o namoro dele com a filha do desembargador, e que o casamento podia ser feito naquele ano.

João Aguiar caiu das nuvens. Compreendeu, porém, que a aparência enganava ao pai, e o mesmo podia acontecer às pessoas estranhas.

— Mas nada há, meu pai.

— Nada?

— Juro-lhe que...

— Retira-te e lembra-te do que te disse...

— Mas...

O comendador havia já voltado as costas. João Aguiar ficou só a braços com a nova dificuldade. Para ele, a necessidade de uma confidente era já invencível. E onde acharia melhor que a filha do desembargador? Era idêntica a situação de ambos, iguais os interesses; além disso, havia em Serafina uma soma de sensibilidade, uma reflexão, uma prudência, uma confiança, como ele não encontraria em nenhuma outra pessoa. Ainda quando a outra pessoa pudesse dizer-lhe as mesmas coisas que a filha do desembargador, não lhas diria com a mesma graça, e a mesma doçura; um não sei o que o levava a lastimar não poder fazê-la feliz.

— Meu pai, tem razão, dizia ele às vezes consigo; se eu não amasse a outra, devia amar a esta, que é certamente comparável a Cecília. Mas é impossível; meu coração está preso a outros laços...

A situação, entretanto, complicava-se, toda a família de João Aguiar dizia-lhe que a sua verdadeira e melhor noiva era a filha do desembargador. Para acabar com todas essas insinuações, e seguir os impulsos do seu coração, teve o bacharel idéia de raptar Cecília, idéia extravagante e só filha do desespero, visto que o pai e a mãe da namorada nenhum obstáculo punham ao casamento deles. Ele mesmo reconheceu que o recurso era um despropósito. Ainda assim disse-o a Serafina, que amigavelmente o repreendeu:

— Que idéia foi essa! exclamou a moça, além de desnecessário, não era... não era decorosa. Olhe, se fizesse isso nunca mais devia falar-me...

— Não me perdoaria?

— Nunca!

— Entretanto, a minha posição é dura e triste.

— Não o é menos a minha.

— Ser amado, poder ser feliz tranqüilamente feliz para todos os dias da minha vida...

— Oh! isso!

— Não crê?

— Quisera crer. Mas está-me a parecer que a felicidade que sonhamos quase nunca sai à medida dos nossos desejos, e que mais vale uma quimera que uma realidade.

— Adivinho, disse João Aguiar.

— Adivinha o quê?

— Algum arrufo.

— Oh! não! nunca estivemos melhor; nunca andamos mais tranqüilos do que agora.

— Mas...

— Mas não permite que às vezes a dúvida entre no coração? Não é ele do mesmo barro que os outros?

João Aguiar refletiu alguns instantes.

— Talvez tenha razão, disse ele enfim, a realidade não será sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo é uma harmonia na vida, é uma grande perfeição do homem. Se víssemos logo a realidade como ela há de ser quem daria um passo para ser feliz?...

— Isso é verdade! exclamou a moça e deixou-se ficar pensativa enquanto o bacharel lhe contemplava a admirável cabeça e a graciosa maneira com que ela trazia os cabelos penteados.

A leitora há de desconfiar muita coisa às teorias dos dois confidentes relativamente à felicidade. Pela minha parte, posso afiançar que João Aguiar não pensava uma só palavra que disse; não o pensava antes, quero eu dizer; ela porém tinha o secreto poder de lhe influir as suas idéias e sentimentos. Não poucas vezes dizia ele que se ela fosse fada podia dispensar a vara de condão; bastava falar.