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Manual de Arboricultura/Amendoeira

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AMENDOEIRA

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A amendoeira (amygdalus communis) é originaria da Asia e das regiões temperadas quentes do norte d'Africa.

Parece que antigamente na Europa sómente se conhecia a amendoeira amarga; actualmente acha-se naturalisada em toda a Europa meridional e os seus fructos são objecto de importantissimo commercio na Italia, na Hespanha e mesmo em Portugal. Sómente pelos portos do Algarve a exportação d'amendoa no anno de 1872 foi de mais de cincoenta e cinco contos de reis; a producção só n'esta provincia é orçada em cem mil decalitros. Calcula-se que uma amendoeira adulta e de porte mediano póde dar um rendimento medio annualmente de 1$800 reis; algumas arvores, excepcionalmente productivas, dão mais de 4$000 reis. De todos estes factos se deduz a grande importancia que tem esta cultura que é digna da maior attenção e cuidados.

VARIEDADES

São conhecidas muitas variedades de amendoeiras, mas distinguiremos em primeiro logar duas castas profundamente differentes, cujos fructos tem applicação muito diversa. São as amendoeiras amargas e as doces.

A amendoeira amarga apenas se cultiva em pequena escala, porque o seu fructo tem pouco consummo; é procurado para a extracção d'oleo e para uzos medicinaes. É a amendoeira dôce que geralmente se cultiva em ponto grande; os seus fructos tem um consummo, póde dizer-se, illimitado. Ácerca d'este fructo dá-se no Algarve um facto que contraría todas as leis economicas: vem a ser que quanto maior é o producto, mais alto é o seu preço. Explica-se este facto pela seguinte razão: é que quando a colheita da amendoa é exigua, os negociantes estrangeiros não mandam cá navios para a carregar; se a safra é abundante isto consta nos mercados e affluem os navios, vendendo-se quanta haja por bom preço.

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As variedades mais notaveis da amendoeira dôce, são: durazia, molar e de côco.

A amendoeira durazia é a mais vulgar; dá uma producção abundante, mas o seu fructo vende-se por preço muito inferior ao das outras variedades. A amendoa molar tem a casca menos dura que a antecedente e vale no mercado mais 30 a 40 por cento do que aquella. A amendoa côca, ou de côco, tem a casca extremamente molle e desfaz-se entre os dedos. Rende muito mais do que as castas antecedentes, valendo no mercado 30 ou 40 por cento mais do que a molar. O preço medio que tem regulado nos ultimos tempos tem sido os seguintes:

Amendoa durazia, decalitro . . . 400

» molar, » . . . 500 a 550

» de côco, » . . . 650 a 700

TERRENO E CLIMA

A amendoeira não póde prosperar, senão nas regiões onde os invernos forem temperados, e as geadas sejam pouco frequentes; floresce muito cêdo, ordinariamente por todo o mez de janeiro está já em flôr, pelo que as intemperies d'aquella estação a prejudicam gravemente.

O Algarve é uma das zonas mais favoraveis á sua cultura; aqui raras vezes a sua fructificação é compromettida porque as geadas são raras e a temperatura hybernal é bastante elevada. E' certo que a amendoeira acompanha a vinha e a oliveira em toda a parte onde estas culturas prosperam, mas a sua fructificação é muito contingente em todos os pontos onde possa haver fundados receios de geados.

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Nas regiões mais proximas do equador, onde a temperatura se conserva constantemente elevada, a amendoeira desenvolve-se, mas não produz fructo.

Os terrenos silico-calcareos, são os que melhor lhe convem, embora contenham calhaus e areolas grossas, mas que tenham profundidade bastante para que as arvores possam alongar as raizes. Nos terrenos humidos e argilosos a amendoeira desenvolve-se regularmente, mas a sua fructificação é menos abundante. Em todo o caso, deve evitar-se sempre a cultura da amendoeira em sitios baixos e humidos; a situação que mais lhe convem é em terrenos altos, secos, desafrontados e expostos aos ventos.

REPRODUCÇÃO

Geralmente é por sementeira que se obtem a multiplicação das amendoeiras: a amendoa lançada á terra germina ordinariamente dentro de 25 a 40 dias, conforme a temperatura e a profundidade a que se enterra; mas a semente raras vezes reproduz a variedade que se pretende; por isso a enxertia é indispensavel. Póde semear-se no terreno que difinitivamente a arvore tem d'habitar, mas muito melhor é semear em viveiro; d'este modo se podem tractar e educar com pouco trabalho muitas arvores reunidas n'um pequeno local.

Para se crear um viveiro d'amendoeiras, começa-se por surribar o terreno a 30 centimetros de profundidade pelo menos; arma-se de modo que possa receber irrigação. No mez de novembro ou dezembro para os climas meridionaes, e até março, nas regiões mais frias, faz-se a sementeira. Convem notar que os ratos são muitos avidos das amendoas; succede ás vezes destruirem completamente a sementeira; por isso é melhor empregar a amendoa amarga, que não é cobiçada por elles. Enterram-se a 10 centimetros de profundidade, em linhas espaçadas a 80 centimetros, devendo ficar cada semente a 40 centimetros de distancia na direcção das linhas. Depois das arvoresinhas nascidas, convem sachal-as repetidas vezes; se o estio corre secco convem dar-lhes algumas regas. No inverno do anno seguinte observam-se todas as arvores: aquellas que tiverem lançado ramos lateraes muito vigorosos e apresentarem o caule tortuoso e irregular devem ser dirigidas de modo a tomarem um desenvolvimento conveniente; os ramos lateraes muito vigorosos serão quebrados a maior ou menor altura, segundo a sua força; não se devem cortar rentes, porque n'este caso o caule principal tomará grande desenvolvimento em altura, ficando muito delgado e a arvore enraizará mal; o que mais convem é promover o desenvolvimento de grande numero de ramos lateraes, mas todos pequenos e fracos. Ao segundo anno, se o terreno é de boa qualidade e o viveiro foi bem tractado, já muitas arvores estarão no caso de poderem ser enxertadas. A enxertia póde ser feita de differentes modos: ordinariamente enxerta-se na base do tronco, applicando-se um escudo de olho vivo se a operação é feita no principio da primavera, e de olho dormente se é feita no estio. Muitos adoptam outro systema: transplantam as arvores bravas, e um ou dous annos depois de transplantadas, enxertam-as em alto nas arrancas principaes. N'este caso escolhem-se no topo do caule, na altura a que se deve formar a copa, tres ramos symetricos, applica-se a cada um dous enxertos d'escudo, pelo lado exterior, a 15 centimetros do seu comprimento; d'estes escudos devem rebentar os ramos principaes da arvore; todas as mais ramificações da arvore serão podadas rentes; a applicação de dous enxertos tem unicamente por fim dar-nos mais garantias de bom exito, porque se um falhar teremos o outro para produzir o ramo que se pretende; se ambos se desenvolvem, escolhe-se o melhor e supprime-se o outro.

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A practica da enxertia no viveiro, na base do tronco, parece-nos muito mais vantajosa do que esta; as arvores desenvolvem-se mais rapidamente, com os troncos muito mais direitos e regulares. Em todo o caso os enxertos deverão ser tirados de boas arvores, que não sejam muito novas, e de ramos que apresentem signaes de boa fructificação. Os enxertos tirados d'arvore novas ou sobre ramos infructiferos são sempre pouco productivos e levam muitos annos a fructificar.

Geralmente, em Portugal, a formação do esqueleto das amendoeiras é absolutamente descurada, de modo que esta utilissima arvore que produz tão alto rendimento, além dos contratempos a que está sujeita naturalmente, soffre, e não pouco, pelo abandono em que vive. Os troncos quasi sempre disformes e tortuosos, a copa desequilibrada, os ramos emmaranhados em confusão; a incerteza da sua fructificação não é só devida ás intemperies, mas em grande parte a este abandono. A amendoeira para dar regularmente o maximo da producção, exige um tractamento discreto: é indispensavel logo na edade nova dirigil-a de modo a formar uma copa regular e symetrica, e tendo em vista o seu modo de fructificar; podal-a todos os annos, ou ao menos de dous em dous annos.

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A amendoeira não produz fructo senão sobre os raminhos novos; os que uma vez produziram fructo não tornam mais a dal-o; os ramos do esqueleto depressa se desguarnecem na base e só produzem raminhos fructiferos na extremidade; para se evitar este inconveniente, convem de dous em dous annos rebaixar-lhe os ramos principaes; assim se obrigam a produzir maior quantidade de raminhos novos, em toda a extensão. Nos climas mais septentrionaes que o nosso, a amendoeira para fructificar exige abrigos e cuidados minuciosos; sujeita-se facilmente a todas as fórmas a que costumam submetter o pecegueiro e arma-se em espaldeiras encostadas a muros. No nosso clima póde dispensar abrigos: vive e fructifica perfeitamente solta em campo aberto, e até folga nos locaes mais desabrigados.

O methodo de cultura que julgamos mais acertado póde compendiar-se nas seguintes regras:

1.ª Semear amendoa amarga no viveiro, dirigir as arvoresinhas de modo que não deitem grandes ramos lateraes, mas que estes sejam numerosos e pequenos.

2.ª Ao segundo anno enxertar d'escudo na base do tronco.

3.ª Um anno depois d'enxertada, transplantar, abrir boas covas, bem fundas, poupar quanto possivel as raizes no acto da transplantação, muito especialmente attender a que levem o espigão intacto. O corte do espigão, aconselhado por alguns auctores é mortifero para a amendoeira.

4.ª Dirigir a formação da copa, do modo conveniente, que os ramos fiquem symetricos e espaçados; para isso deixam-se tres arrancas principaes, que no segundo anno se fazem bifurcar, seguindo-se as mais indicações, feitas a pag. 108 e seguintes.

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5.ª Cortar todos os annos, ou ao menos de dous em dous annos, a extremidade dos ramos principaes, e supprimir perfeitamente todos os ramos seccos e todos os que fizerem confusão e desordem.

Os arboricultores francezes e belgas adoptam e aconselham podas muito complicadas e minuciosas, que para o nosso clima são absolutamente desnecessarias e seriam até prejudiciaes. [8]

ENFERMIDADES DA AMENDOEIRA

No nosso clima a amendoeira é pouco sujeita a enfermidades; se a sua fructificação é compromettida e falha em alguns annos, não é isto por motivo de molestia, é em primeiro logar por causa das geadas intensas nos nevoeiros persistentes, durante a época da fecundação das flôres; por isso se recommenda para ella as exposições abertas e desafogadas, onde o ar circule livremente; em segundo logar por causa do abandono em que vive. N'um anno a arvore produz copiosamente, extenua-se, fica carregada de lenha; no anno seguinte nada produz. O encurtamento dos ramos principaes e a limpeza dos ramos que fructificaram é sempre de grande utilidade para se evitar quanto possivel a intermittencia de producção.

[8] Lemos agora n'um livro que tracta d'arboricultura, escripto pelo sabio jurisconsulto o ex.mo snr. dr. Camillo Aureliano da Silva Souza - que a natureza do clima nenhuma influencia tem sobre a natureza da poda e fórma das arvores; pretende s. ex.ª abonar esta asserção com uma citação de Dubreuil, que a respeito dos climas meridionaes diz:

«A distribuição das arvores será a mesma com pequena differença; aqui todas as especies d'arvores fructiferas preferem a posição pleno ar á de espaldeira, em consequencia do excesso de calor a que ficam expostas encostadas a muros; estes não são aqui necessarios senão para vedações, e poderão suprimir-se os muros interiores indispensaveis nos climas frios.»

Não nos parece que estas palavras traduzam a ideia que o illustre jurisconsulto exprime; ao contrario, Dubreuil diz-nos n'aquelle periodo que nos climas meridionaes as arvores dão-se melhor soltas do que encostadas a muros; ora a poda d'uma arvore solta é mui differente da que se deve applicar ás arvores em espaldeiras. Além d'isso o facto positivo, certo, evidente, que o snr. dr. Camillo Aureliano decerto não ignora, é que uma dada especie, qualquer que ella seja, tende a desenvolver-se com maior energia, toma maiores dimensões, vegeta com maior vigor n'um dado clima do que em outro. Onde o clima lhe fôr desfavoravel, não tomará grandes dimensões, e a sua vegetação não será muito vigorosa; se submettermos esta arvore a fórmas acanhadas, se a martyrisarmos com podas rigorosas e reiteradas, sujeita-se facilmente a ellas, e não tem força para reagir. Onde o clima e o solo fôr propicio, que tenha vigor para medrar e desenvolver-se, se lhe imposermos aquelle tractamento, a arvore acceita-o é certo, mas em breve começa a protestar; lança uma grande quantidade de novidios, que todos serão estereis se não forem logo mutilados; é indispensavel vigial-a constantemente para que aquellas producções sejam fructiferas, até que a seiva contrariada constantemente começa aproduzir protuberancias e fendas no tronco e ramos, d'onde em breve começa a sair um liquido viscoso; se se lhe acode com algumas incizões longitudinaes ainda se prolonga algum tempo a vida da arvore; mas em todo o caso a sua condemnação é certa e a morte não tardará.

Tomando como exemplo a amendoeira, vemos que em França este vegetal é considerado um arbusto; no Algarve temos muitas amendoeiras do porte de bons castanheiros, isto é, attingem as dimensões d'uma arvore de primeira grandeza. Deverá sujeitar-se uma arvore de primeira grandeza á fórma e á poda que se applica a um arbusto?

O curioso, para quem a arboricultura é apenas um divertimento, póde entreter-se, applicando ás suas arvores podas e fórmas caprichosas, que teem a vantagem de lhe proporcionar muito cedo o goso d'alguns fructos formosos; mas o arboricultor, para quem a colheita de fructos é um negocio e um meio de vida, pretende obter do seu capital e do seu trabalho o maximo producto liquido; para isto convem-lhe não contrariar, mas sim dirigir em seu proveito as tendencias naturaes da arvore, se ella tende a crescer e medrar melhor; seria grave erro, para obter alguns fructos mais cedo, amesquinhal-a e mutilal-a constantemente.

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A amendoeira é ás vezes atacada por uma enfermidade que se revela pelo apparecimento de fendas na casca dos ramos e tronco, por onde corre um liquido viscoso e corrosivo, que desorganisa os tecidos lenhosos por onde passa, e origina grandes feridas até causar a morte da arvore.

Ás vezes esta enfermidade é causada pelas podas e mutilações exageradas, principalmente se o terreno é humido e fertil. Quando as arvores já são muito velhas póde ser causada pelo endurecimento e grande espessura das camadas externas da casca; n'este caso convem aliviar os troncos de todas as cascas mortas, abrir-lhes algumas incizões longitudinaes, e caial-os. Em todo o caso, quando haja chagas abertas, é indispensavel limpal-as, cortando até ao são; se o corrimento viscoso continua é preciso limpal-o frequentes vezes com um panno molhado, e applicar-lhe o emplastro de enxertia.

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A amendoeira é perseguida por alguns insectos, cujas larvas se agarram ás folhinhas novas, devoram-as, e destroem os fructos logo depois de formados. Durante o inverno veem-se ás vezes na extremidade dos ramos uns tecidos filamentosos: são os ninhos onde se abrigam as pequeninas larvas; logo que a vegetação desperta e a arvore começa a rebentar, sáem do seu abrigo para levarem a destruição aos novos raminhos. O remedio para esta praga é limpar perfeitamente a arvore no inverno e destruir todos aquelles ninhos.

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