Manual de Arboricultura/Ananaz
ANANAZ
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Ananassa sativa Lindl. Planta vivaz da familia das bromeliaceas, originaria das regiões tropicaes da America. Para fructificar exige uma temperatura elevada, nunca inferior a 20 graus; por isso na Europa só póde ser cultivada em abrigos e com o emprego de estufas ou camas quentes. No Algarve cultiva-se ao ar livre, mas no inverno é indispensavel recolhel-o a sitios cobertos e abrigados, e ainda assim o seu fructo não adquire grande primor. Por meio da cultura forçada obtem-se magnificos fructos.
Na ilha de S. Miguel tem tido ultimamente esta cultura um grande incremento, e no sul de Portugal poderia tambem desenvolver-se com muito proveito; o alto preço que obtem este fructo compensa largamente os cuidados que exige.
O ananaz multiplica-se pelos filhos que rebentam do pé, exige no nosso clima um terreno artificial que se compõem com terra franca normal, terriço vegetal, e muito estrume bem curtido misturado com terra siliciosa. Planta-se em vazos que tenham 12 a 15 centimetros de diametro, cheios de terra preparada d'aquelle modo, ao fundo deita-se-lhe uma camada de areia e devem ser munidos dos orificios necessarios para darem escoamento ás aguas de rega.
Faz-se a plantação no outomno, collocam-se os vazos na cama quente enterrados até dois terços da altura, as camas devem ser resguardadas por vidraças que nas noites muito frias se cobrem de palha, e nos dias de sol muito ardente tambem se devem cobrir com esteiras, que impedindo a acção directa dos raios solares deixem todavia penetrar alguma claridade.
Quando se cultiva o ananaz em ponto grande convém preparar-lhe uma habitação mais espaçosa e commoda, n'este caso é melhor construir uma estufa apropriada, que se póde obter com muita economia. Escolhido o local apropriado, risca-se um rectangulo com a superficie que se desejar, levantam-se-lhe as paredes em todo o perimetro, na altura de 80 ou 90 centimetros, sobre as paredes estabelece-se um caixilho envidraçado de altura aproximadamente egual, o tecto é feito tambem de caixilhos envidraçados. Levantado assim o edificio, o seu interior póde ser disposto do seguinte modo: ao centro uma plate-banda de 80 centimetros de altura por 2 metros de largura, aos lados duas plate-bandas da mesma altura e 80 centimetros de largura, como se vê da fig. 97. Estabelecem-se ahi as camas quentes, lança-se no fundo das plate-bandas uma camada de areia grossa, por cima d'esta outra camada espessa de excretos de cavallo misturados com algumas folhas seccas e areia, superiormente uma camada de entrecasco de carvalho, ou aparas miudas de cortiça, introduzem-se os vazos n'estas camas até dois terços da sua altura. Quando a temperatura é inferior a 20 graus renovam-se as camas.
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Fig. 97
Passados 25 ou 30 dias depois da plantação os gomos ou coroas dos ananazes começam a emittir raizes, o que se conhece pelo crescimento do gomo terminal, rega-se amiudadas vezes com agua amornada dentro da estufa. Passado um anno depois da sua plantação já as plantas téem tomado um certo desenvolvimento, e é necessario mudal-as para vazos maiores, observam-se então as suas raizes, cortam-se as que estiverem pôdres ou contusas. Os novos vasos devem ser collocados em novas camas, estas devem ser mais reforçadas, porque então as plantas já téem necessidade de mais calor, as regas devem ser mais frequentes.
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Em logar de se fazer a transplantação para novos vazos póde transplantar-se para a propria cama, mas n'este caso é indispensavel preparar-lhe uma camada de terriço curtido com estrume de 30 centimetros de espessura, para se produzir e conservar o calor necessario, já n'este caso ha mais difficuldade na applicação de rescaldos e renovação das camas, por isso é conveniente fazer circular por baixo do leito de terra um ou mais tubos conductores de ar quente, para isso do lado de fóra da estufa faz-se um fornilho de tijôlo, do qual parte o encanamento para o interior, circulando pela parte inferior das plate-bandas.
Na primavera do terceiro anno começa a desenvolver-se o fructo, convém amiudar as regas, a temperatura nunca deveria descer abaixo de 30 graus, o ar deverá conservar-se sempre bem carregado de humidade.
Conhece-se que os ananazes estão maduros pelo cheiro suave que exhalam e pela mudança de côr. Colhem-se e convém guardal-os ainda 4 ou 5 dias depois de colhidos para adquirirem o mais alto grau de doçura e aroma.
COLHEITA, TRANSPORTE E CONSERVAÇÃO DOS FRUCTOS
Para que os fructos se conservem o mais longo tempo possivel, e para que desenvolvam no mais alto grau as suas qualidades sapidas, é indispensavel que na colheita se tomem certas precauções, e se sigam algumas regras muito simples, mas que ordinariamente são desprezadas.
O solo, a exposição e a temperatura das estações do anno tem uma influencia capital na maturação dos fructos, não é o kalendario que nos deve dar indicações ácerca da sua colheita, é a quantidade de calor que elles teem gosado e sobretudo o seu aspecto.
Os fructos destinados á guarda não devem esperar sobre a arvore pela completa maturação, nem devem tambem ser colhidos antes de estarem completamente desenvolvidos; tudo quanto podessemos dizer ácerca d'este ponto, de certo não poderia supprir a practica e o bom discernimento do arboricultor; é um uso deploravel e altamente reprehensivel apalpar os fructos, qualquer toque por mais leve que seja faz-lhe perder nos pontos tocados a pennugem ou a tenue poeira que os cobre, e produz uma contusão que provoca em breve o apodrecimento; quando se observa que os fructos ha oito ou dez dias deixaram de augmentar de volume, e que dão o primeiro indicio de mudarem de côr, é chegada a occasião da colheita; referimo-nos especialmente ás peras e maçãs; as uvas para guarda em fresco devem apresentar o bago transparente n'um estado de mais adiantamento de maturação.
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Deverá evitar-se sempre fazer a colheita por tempo humido ou mesmo sombrio. A melhor occasião para este serviço é nos dias quentes e seccos entre as 10 horas da manhã e as 4 da tarde. A practica de abanar as arvores para se apanharem os fructos no chão é detestavel; devem ser colhidos á mão, devendo-se tirar da arvore com precaução para trazerem o pedicello que os supporta, os que estiverem muito altos, que não poderem ser colhidos á mão, facilmente se colhem sem que fiquem magoados com o instrumento que a fig. 98 representa. Quando por motivo de força maior é indispensavel proceder á colheita por tempo chuvoso, as precauções a tomar ainda devem ser mais minuciosas, é indispensavel evitar-se que os fructos soffram qualquer contusão, conduzem-se para casa, collocam-se sobre palhas seccas, deixam-se ahi enxugar, de modo algum se deverá consentir que sejam friccionados com pannos, isto seria apressar a sua decomposição.
Fig. 98
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No transporte dos fructos devem usar-se cestas de fundo largo e pouca altura, guarnecidas de feno secco ou fetos, de modo que não fiquem muito accumulados, para que não façam grande pressão uns sobre os outros. Não se deverão guardar no fructeiro sem que antes estejam por quatro ou cinco dias expostos ao ar, n'uma casa secca e arejada, a fim de eliminarem o excesso de humidade que tiverem.
FRUCTEIRO
A casa de arrecadação dos fructos deve achar-se em condicções especiaes para que estes possam resistir, o mais possivel, ás causas que determinam a sua deterioração; esta deterioração é o resultado de varias fermentações occasionadas pela acção do ar atmospherico sobre as materias azotadas, sacharinas e outras que n'elles se contêm; é sabido que o calor, a luz e a humidade são excitantes poderosos d'esta acção propria do ar; é evidente pois, que o primeiro cuidado que se deve tomar na construcção ou escolha da casa da fructa é evitar quanto possivel a acção do ar, especialmente dos seus poderosos excitadores. Para se conseguir o melhor resultado possivel convém que o fructeiro satisfaça as seguintes condições:
Deverá ser fresco e pouco sujeito a alternativas de temperatura, obscuro e secco quanto possivel, e o ar que contenha raras vezes renovado e pouco carregado de oxygenio.
Para se obterem estas condições póde adoptar-se o fructeiro indicado por Mr. Dubreuil, que vamos descrever:
Em terreno secco, um pouco elevado, com exposição ao norte, escava-se o solo á profundidade de 0m,70; no perimetro da excavação levantam-se dous muros parallelos de 0m,33 de espessura, deixando-se entre elles um espaço vasio de 0m,50; convém fazel-os de barro misturado com alguma cal e palhas miudas, tudo bem amassado, não só porque esta construcção é mais barata, mas porque é menos conductora de calorico do que a alvenaria ordinaria; o muro interior tem uma porta e duas frestas lateraes, e o muro exterior tem eguaes aberturas exactamente fronteiras ás do muro interior; o muro interior tem uma porta ordinaria, o exterior tem uma porta dupla, isto é, tem uma que deve abrir para o lado de fóra e outra para dentro, partida ao meio, de modo que quem entra abre a primeira porta para fóra, fecha-a logo atraz de si, colloca-se no vão da parede e abre para a frente a segunda porta, e assim penetra no fructeiro sem deixar entrar grande quantidade de ar exterior. Abrem-se as frestas, que devem ser envidraçadas, sómente para deixarem penetrar a luz indispensavel para se poder vêr o recinto.
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O intervallo entre as duas paredes deverá ser cheio de palhas, serradura de madeira ou qualquer substancia má conductora do calor; o tecto é feito de ripas ou de canas, collocadas sobre barrotes, e sobre ellas deve-se collocar uma camada de musgos seccos, fetos ou feno, de 0m,30 de espessura.
O pavimento deverá ser asphaltado, e as paredes deverão ser forradas interiormente de madeira.
Ao centro da casa haverá uma meza, e as paredes serão guarnecidas de prateleiras feitas de ripado de pinho, de 0,50 de largura, collocadas a 0,25 de distancia uma das outras; as mais baixas podem ser horisontaes, mas da altura de 1,50 para cima deverão ser um pouco inclinadas para o interior, para facilidade da arrumação dos fructos e para que possam ficar todos á vista.
Com estas precauções evitam-se quanto possivel as alternativas de temperatura, a renovação do ar, e acção da luz solar; resta ainda eliminar a humidade do ar, e a que provém da evaporação dos fructos, que tem tambem uma acção nociva sobre elles. Para se conseguir conservar no interior do fructeiro uma atmosphera secca póde-se empregar a cal caustica, collocando-se alguns fragmentos d'ella aos cantos da casa, esta substancia absorve a humidade mas tem o inconveniente de absorver tambem e combinar-se com o acido carbonico do ambiente, cuja presença é muito util á conservação das fructos. Consegue-se muito melhor resultado com o emprego do chlorureto de calcio, que tem tambem grande avidez pela humidade, sem depauperar o ambiente do acido carbonico que contém.
Faz-se um pequeno taboleiro de madeira, forrado interiormente de uma lamina de chumbo, a um dos cantos faz-se-lhe um bico, colloca-se sobre uma banquinha a 0,50 acima do solo; deverá ter alguma inclinação para o lado do bico. Collocam-se no taboleiro 6 ou 7 kilogrammas de chlorureto de calcio, em pedaços, este sal vae absorvendo a humidade, vae tambem deliquescendo, pelo bico do taboleiro, vae correndo pouco a pouco, para dentro d'um vaso; quando todo o sal se liquifez, emprega-se nova doze, e o liquido recolhido no vaso póde evaporar-se ao fogo, refazendo novamente o sal em estado solido. O preço baratissimo por que se obtém o chlorureto de calcio permitte empregar-se este processo com muita economia.
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Este systema offerece garantias de bom resultado, mas tem o inconveniente de ser bastante trabalhoso, e nem sempre exequivel, o fructeiro portatil de Dombasle é de mais facil execução, e a sua efficacia é satisfatoria.
FRUCTEIRO PORTATIL DE DOMBASLE
Fazem-se caixas de madeira de 65 centimetros de comprimento, 40 de largura e 10 d'altura, sendo estas medidas tomadas interiormente; deverão ser todas de dimensões exactamente eguaes, de maneira que ajustem perfeitamente umas sobre as outras; não téem tampas, o fundo de umas deve assentar solidamente sobre o bordo das outras, de modo a servir-lhes de tampa; ao meio de cada um dos quatro lados da caixa, prega-se junto ao bordo superior pelo lado de fóra uma ripa de oito centimetros de comprimento por 5 de largura, de modo que fique 1 ou 2 centimetros acima do bordo da caixa, e a que lhe serve de tampa possa encaixar pelo lado de dentro; estas ripas servem para que as caixas se possam sustentar empilhadas e perfeitamente justas umas sobre outras, ainda mesmo quando soffram algum abalo.
Escolhem-se os fructos perfeitamente sãos, deixam-se por dous ou tres dias expostos ao ar, em logar bem sêcco, á sombra, para eliminarem o excesso da humidade que contéem.
Prepara-se uma porção de serradura de madeira bem secca ao forno, mistura-se-lhe um decimo do seu volume de pó de carvão, faz-se um lastro na caixa d'esta mistura, e collocam-se os fructos de modo que se não toquem uns aos outros, mette-se serradura entre elles, enche se a caixa, sobre ella colloca-se outra, podendo assim empilhar-se doze ou quinze; cada pilha apresenta a apparencia d'um cofre perfeitamente fechado, que occupa pequeno espaço e se póde collocar em qualquer local; indica-se a altura de 10 centimetros para as caixas, porque é a mais conveniente para a maior parte dos fructos, mas poderá ser maior ou menor, conforme se queira, com tanto que sejam exactamente do mesmo comprimento e largura; com aquellas dimensões, cada caixa póde conter 150 a 200 boas maçãs ou peras; assim, uma pilha de 15 caixas, que occupam um espaço limitadissimo, póde conter uma provisão de dous a tres mil fructos, que se conservam perfeitamente até proximo da novidade do anno seguinte. A boa conservação d'elles é devida á estagnação do ar dentro das caixas, á absorpção da humidade pela serradura de madeira e ás propriedades anti-putridas do pó do carvão.
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Este processo é especialmente applicavel á conservação de maçãs e peras. Tambem se póde usar para a conservação das uvas, mas para isto é preferivel adoptar outros processos que dão resultados mais seguros. Qualquer que seja o systema que se adopte é indispensavel que as uvas sejam escolhidas das melhores castas, que mais resistem ao apodrecimento; as differentes variedades de ferral são as mais proprias a este fim, e sobretudo uma casta pouco vulgar, mas bastante conhecida no Algarve, denominada citima, que dá tres camadas de fructo, a ultima das quaes amadurece no mez de dezembro, póde facilmente conservar-se fresca até ao mez de maio; devem preferir-se as uvas provenientes de videiras altas, cujos fructos, por menos sujeitos a receberem a humidade proveniente da evaporação do solo, resistem mais á decomposição; as que tiverem o bago apertado são absolutamente improprias para guardar.
Por muitos modos se póde obter a conservação das uvas frescas até ao mez de maio ou ainda mais tarde, indicaremos as que nos parecem mais faceis e commodas.
No fructeiro construido, como vae indicado antecedentemente, collocam-se algumas prateleiras feitas de rede d'arame de malha larga, sobre ellas põeem-se alguns fetos colhidos verdes e seccos á sombra, e collocam-se as uvas sobre elles; todas as semanas deverão ser observadas: cortam-se com uma thesoura os bagos que apparecerem deteriorados.
Quando não haja casa preparada n'aquellas condições podem conservar-se as uvas dependuradas, como é muito usual, mas n'este caso convém suspendel-as pela extremidade do cacho e não pelo pé; d'este modo os bagos tendem a affastar-se uns dos outros e conservam-se muito melhor.
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Dubreuil aconselha um systema usado em França que diz ter dado magnificos resultados; consiste em colher as uvas com um pedaço do sarmento que as supporta, introduzir a extremidade d'elle n'um frasco cheio até aos tres quartos da sua capacidade com agua potavel, á qual se junta uma pequena porção de carvão de madeira pulverisado, collocam-se os frascos em prateleiras, como se vê da fig. 99; deverão ficar n'uma casa que esteja aproximadamente nas condições do fructeiro descripto, que tenha pouca luz, que gose de uma temperatura regular, e que o ar seja pouco renovado; diz-se que é tal a efficacia d'este systema, que no mez de abril ainda os cachos conservam o pedunculo e engaço perfeitamente frescos.
Fig. 99
Quando se pretenda conservar grandes quantidades de uvas para commercio parece-nos que seria preferivel adoptar-se um processo industrial, que comquanto exija o emprego d'alguns apparelhos, póde tornar-se mais economico do que qualquer d'estes já indicados, quando usado em ponto grande. Depois de montados os apparelhos podem funccionar com insignificante despeza e applicar-se á conservação de enorme quantidade de fructos.
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Depois da invenção de Appert e dos estudos e experiencias feitas modernamente por Mr. Pasteur, está provado que é o ar atmospherico pelo seu oxigenio e pelos corpusculos que traz em suspensão, que provoca as fermentações que dão em resultado a decomposição das materias organicas. Se podessemos subtrahir estas substancias á acção d'estes agentes, a sua conservação seria quasi illimitada, a sua decomposição só poderia vir das acções chimicas dos corpos que entram na sua composição, uns sobre os outros, e das acções physicas d'attracção e repulsão dos athmos que os constituem; mas estas acções sendo desajudadas dos excitadores externos, ar e fermentos que elle transporta, seriam tão fracas que os seus effeitos seriam imperceptiveis por muito tempo. Assim, se conseguirmos conservar os fructos n'uma atmosphera expurgada d'ar teremos conseguido o resultado desejado.
Pelo processo que vamos indicar collocam-se os fructos n'uma atmosphera d'acido carbonico, altamente favoravel á sua conservação.
Póde fazer-se uso d'um apparelho analogo ao que se emprega na preparação do acido carbonico para o fabrico das aguas gozozas.
Preparam-se caixas de madeira pintadas por fóra com tinta d'oleo espessa, para que o ar não penetre pelos poros, deverão ter um orificio em cada uma das duas menores faces, enchem-se de uvas, envolvidas em aparas de papel, expele-se da caixa o ar atmospherico que contém e enchem-se d'acido carbonico, fecham-se e lacram-se os orificios, guardam-se em local onde não haja grandes variações de temperatura.
O apparelho para a producção e introducção do acido carbonico, fig. 100, consiste n'uma tina de madeira, A, forrada de chumbo, na qual se introduz acido sulphurico pela abertura a', que depois se fecha; o tubo de chumbo b deixa correr o acido pela torneira b para a tina inferior B, esta communica com a tina superior A, por meio do tubo a a, que está sempre aberto e estabelece a egualdade de pressão entre os dois recipientes A e B. Na tina B, de ferro fundido, forrada interiormente de chumbo, introduz-se pela abertura b' uma porção de cré, ou carbonato de cal esmiuçado e desfeito em agua. Esta tina é munida interiormente de um agitador de manivela p que põem em movimento a cré, impede que se deposite no fundo, e favorece a acção do acido sulfurico que corre gradualmente pelo tubo b.
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Fig. 100
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O acido sulfurico decompõe a cré ou carbonato de cal, formando sulphato de cal e soltando o acido carbonico que passa pelo tubo c para o vaso lavador C; este vaso é simplesmente uma tina de madeira forrada de cobre estanhado, contendo agua, é destinado a reter algumas materias estranhas que poderiam ser arrastadas na corrente do acido carbonico. O acido carbonico lavado passa pelo tubo d d atravessa o tubo em U, que está cheio de pedra pomes embebida em acido sulfurico, ahi deixa alguma humidade que poderia conter, e entra para dentro da caixa de fructos E. Esta caixa está em communicação por meio do tubo f com o aspirador F que está cheio d'agua. Abrindo-se a torneira do aspirador vae sahindo a agua, que n'elle se contém, e assim se determina a aspiração do ar contido na caixa E, em logar do ar que vae sahindo, vae entrando pelo tubo d d o acido carbonico que o fica substituindo. Ultimada a operação fecham-se e lacram-se os orificios da caixa por onde se introduziram os tubos f e d. Colloca-se outra caixa no logar d'aquella, enche-se novamente o aspirador e repete-se a operação.
O carbonato de cal é quasi gratuito, o acido sulfurico tambem se póde obter a preço barato, por isso n'este processo, depois de montados os apparelhos, o custo da preparação dos fructos é muito economico.
CONSERVAÇÃO DAS UVAS EM PASSA
As passas de Corintho, de Malaga e Alicante teem uma reputação universal e constituem um importantissimo ramo de commercio na Hespanha e nas ilhas do archipelago grego. Portugal poderia facilmente competir com estes paizes n'este ramo de commercio; temos para isso as melhores condições naturaes; mas não tem havido a necessaria diligencia na escolha das castas proprias a este fim, e no apuro da sua preparação.
As uvas proprias para passa devem ser grandes, de bagos soltos e raros, bastante sacharinas, e sobretudo devem escolher-se castas que tenham pouca grainha e esta bem miuda. Em Hespanha destinam-se a este fim certas variedades de moscatel de bagos muito grandes, que possuem estes predicados; em Portugal preferem-se as castas alicante branca, perola, malvazia fina, mantheudo e dedo de dama; não temos conhecimento de que haja a variedade de moscatel que os hespanhoes cultivam para a passa, parece-nos não ser a mesma que o nosso moscatel de jesus, por ter o bago maior e menor quantidade de grainha.
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O processo geralmente seguido para a preparação das passas d'uva é o seguinte:
Quando o cacho se aproxima da sua maturação, torce-se-lhe o pedicello, e esfolha-se em parte a videira, de modo a expol-o á luz do sol; deixa-se assim por alguns dias até que comece a murchar; então procede-se á colheita; n'esse acto escolhem-se e cortam-se-lhes á thesoura os bagos imperfeitos ou damnificados, levam-se á eira, expõem-se ao sol por dois dias, sobre esteiras; em seguida prepara-se uma lexivia de cinzas de vide, á qual se ajunta uma pequena porção de herva doce, rosmaninho, alfazema ou outras plantas aromaticas; leva-se ao fogo até ferver, experimenta-se com alguns cachos, mergulhando-os por tres vezes successivas n'esta lexivia; se os bagos estalam e racham convém diluil-a em maior quantidade d'agua, e experimenta-se novamente; se apenas um ou outro bago vem rachado é signal de que está em boa conta; então deixa-se esfriar, côa-se por um panno e leva-se novamente ao fogo, quando ferve vão-se mergulhando os cachos, dando-se-lhe tres banhos successivos, levam-se novamente á eira onde devem ser expostas ao sol por tres ou quatro dias, havendo o cuidado de os revolver de modo que recebam o calor e a luz por todos os lados; quando os bagos se amolgam entre os dedos sem se despedaçarem estão no caso de se guardar, não se deverão deixar seccar de mais porque perdem muito de valor.
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