Manual de Arboricultura/Castanheiro
CASTANHEIRO
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O castanheiro (fagus castanea) é uma arvore de primeira grandeza, indigena das regiões temperadas da Europa; pertence, como a nogueira, á familia das amentaceas; as suas flôres são unisexuaes; merece particular attenção, não só pelo seu fructo que fornece um alimento sadio e nutritivo, que é a providencia de numerosas populações, e que nos ultimos tempos tem augmentado consideravelmente de valor, mas tambem porque nos fornece madeira de excellente qualidade para construcções, marcenaria, vazilhames, etc.
As variedades d'esta especie são muito numerosas; na Italia são conhecidas mais de trinta; em Portugal não temos ainda uma classificação methodica de castanheiros, as variedades conhecidas dividem-se em dois grupos, longáes e rebordãos. As primeiras produzem fructo alongado e grande, mais saboroso e conserva-se mais tempo; por isso teem muito maior valor.
O castanheiro para se desenvolver rapidamente quer terreno arenoso, fertil e fresco; apraz-se nas situações elevadas, escabrosas e frias; comtudo vê-se prosperar nos solos mais magros e estereis, por entre os penhascos mais agrestes. Os terrenos calcareos e os que forem muito carregados em argilla são improprios para esta especie. As exposições ao norte e noroeste são as que mais lhe convem.
Explora-se o castanheiro principalmente pelo seu fructo, e subsidiariamente pela madeira, ou sómente pela producção da madeira; no primeiro caso costuma formar soutos ou castanhaes; no segundo caso forma soutos bravos ou cantinçaes. O systema de cultura é differente, segundo o fim que se pretende.
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SOUTO MANSO
Escolhe-se a castanha para semente da mais graúda e perfeita, guarda-se stratificada em areia bem secca até ao mez de janeiro; n'esta epocha póde semear-se logo no terreno destinado á creação do souto, ou muito melhor é semear-se em viveiro. No primeiro caso lavra-se e limpa-se perfeitamente o terreno; abrem-se regos parallelos ao de regador, distanciados de 9 a 12 metros; semeiam-se as castanhas nos regos a 40 ou 50 centimetros de distancia; passados dois annos arrancam-se as arvores mais fracas, ficando as mais fortes distanciadas entre si de 9 a 12 metros; aos 7 ou 8 annos enxertam-se de coroa ou de canudo (pag. 132 e 138); d'ahi por diante não ha mais a fazer senão limpar os castanheiros dos ramos seccos, dos ladrões, dos que vierem mal nascidos ou muito bastos, e lavrar a terra todos os annos.
Fig. 94
Quando se semeia em terrenos muito inclinados convem abrir os regos mais largos e fundos em sentido perpendicular á inclinnação do solo; junta-se a terra extrahida do rego do lado mais baixo, como se vê da fig. 94.
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Quando se semeia em viveiro, arma-se a terra em canteiros de quatro a seis metros quadrados, collocam-se as castanhas a distancia de 25 centimetros umas das outras, á profundidade de 8 a 10 centimetros, sempre com a ponta para baixo; para preserval-as dos ratos póde-se-lhe applicar a receita indicada para a semente da nogueira, ou regar o terreno com agua no qual se tem dilluido alguns excrementes de porco ou de cão e ajuntado uma pequena porção de nós vomica em pó. Ao segundo anno os novos castanheiros devem ser rareados, ficando a distancia de 70 centimetros uns dos outros, transplantando-se para outros canteiros os que se arrancarem. Nos annos subsequentes vae-se-lhe dirigindo a formação do caule; os que forem muito tortuosos decepam-se para crearem uma haste nova; ao quinto ou sexto anno deverá a arvore apresentar o diametro, na base do tronco, de 4 centimetros e a altura de 2,50; então transplanta-se para o local onde tem de habitar diffinitivamente.
Quando o castanheiro tem na base do tronco o diametro de 6 centimetros está no caso de receber a enxertia, corta-se a 2,50 d'altura, na parte superior desenvolvem-se muitos novidios, escolhem-se cinco ou seis dos mais vigorosos, supprimem-se todos os outros. No anno seguinte applica-se-lhe a enxertia de flauta (pag. 138).
O castanheiro agradece muito as cavas ou lavouras que se lhe derem; assim desenvolve-se mais rapidamente do que se lhe deixarem em volta o terreno endurecido e coberto de matto como é usual no nosso paiz; é indispensavel destruir-lhe todos os rebentos que apparecerem sobre o collo da raiz e limpar-lhe de dois em dois annos todos os ramos seccos.
Esta preciosa arvore quando collocada em boas circumstancias póde viver dois ou tres seculos, mas ordinariamente, quando passa de cem annos, começa a apresentar indicios de velhice; convem então decotal-a rigorosamente; a madeira que se lhe tira tem já um grande valor, e em breve se regenera.
Pelo decurso do tempo, o tronco do castanheiro torna-se ôco e a decomposição vai-se propagando pelo interior da arvore, até que morre. Remedeia-se até certo ponto este mal, carbonisando superficialmente as partes affectadas e enchendo depois os vazios com uma argamassa ou betton composto de cal e calhaus miudos, barro, excrementos de boi e cinzas.
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COLHEITA E CONSERVAÇÃO DOS FRUCTOS
O castanheiro começa a fructificar ao 3.º ou 4.º anno depois de enxertado; aos 50 ou 60 annos está na maior força de producção.
Em algumas localidades de Portugal é costume esperar-se que as castanhas caiam dos ouriços, para as irem apanhando do chão, é uma practica muito prejudicial, uma grande parte dos fructos é destruida ou roubada, e outra parte fica deteriorada ao contacto do solo humido e com as chuvas ou orvalhos da noite. Quando os ouriços começam a abrir e caem os fructos, convem varejal-os moderadamente; expõem-se ao sol por algum tempo, para se evaporar a humidade que tiverem em excesso, e guardam-se em local bem secco e arejado.
Fig. 95
A maior parte da colheita de castanhas é consummida em fresco, mas tambem se seccam grandes quantidades para o consummo de todo o anno e para a exportação; o processo de seccagem consiste em expôr os fructos por algum tempo ao fumo e a um calor moderado; quando largam facilmente a casca, calcam-se a pés calçados de grossos tamancos, ou mettem-se em saccos, que se batem fortemente sobre um madeiro.
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Quando ha grande quantidade de castanhas a seccar, arma-se, sobre postes de madeira de 2,20 d'altura, uma sebe horisontal feita de vimes e varas de castanheiros, lançam-se as castanhas sobre a sebe e accende-se fogo por baixo com qualquer combustivel que produza bastante fumo; quando apresentam uma certa dureza e largam facilmente a casca, levam-se para casa e descascam-se; para este fim usam-se uns maços apropriados, feitos de um madeiro grosso guarnecido de dentes de madeira rija, em fórma de pyramide, e com um cabo um pouco arqueado, como se vê da fig. 95.
SOUTOS BRAVOS OU CASTINÇAES
Quando se pretende crear um souto, especialmente destinado a producção de madeiras, semeia-se definitivamente a castanha no terreno destinado á matta, lavra-se e limpa-se o solo, abrem-se regos a 2 metros de distancia uns dos outros, se o solo é muito inclinado guardam-se as disposições indicadas pela fig. 94, enterra-se a castanha nos regos, a 8 ou 10 centimetros de profundidade. Passados dois annos cortam-se todas as plantas perto do solo, e assim rebentam novas hastes, numerosas e mais direitas; tres annos depois opera-se novo corte, supprime-se toda a ramagem, ficando sómente duas ou tres hastes das melhores; novamente rebentam novos lançamentos do solo, mais fortes e direitos do que os que se supprimiram; quatro ou cinco annos depois opera-se novo desbaste; as varas que se cortam já dão arcos de pipa, aguilhadas, estacas, etc.; passados outros cinco annos faz-se novo corte, que já dá madeira de construcção, ripas, barrotes, etc.; por essa occasião escolhem-se alguns paus mais direitos e robustos, deixam-se crear, para darem madeira de maiores dimensões, cortam-se quando téem de 30 a 100 annos.
Formado o castinçal, de cinco em cinco annos deve ser limpo e desbastado, cortando-se, junto ao solo, todas as hastes fracas ou tortas, que servem para estacas ou para lenha.