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Manual de Arboricultura/Cultura

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CULTURA DA VINHA

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A vinha é a principal riqueza territorial do nosso paiz.

A producção de vinho orça annualmente em Portugal por quatro milhões de hectolitros; só a exportação representa um valor de dez mil contos de reis.

Se nos lembrarmos de que temos ainda mais de um milhão de hectares de terreno perfeitamente apto para esta cultura, que se acha completamente abandonado, poderemos ajuizar até que ponto poderiamos elevar esta já tão importante riqueza.

A Providencia concede a cada região os seus meios especiaes de obter a felicidade. A Portugal coube um clima e terreno apto por excellencia á producção de optimos e variadissimos vinhos. Quando quizermos e soubermos tirar todo o partido possivel d'este precioso privilegio, o pequeno Portugal será uma das nações mais opulentas e felizes.

Em todos os tempos a cultura da vinha mereceu uma veneração especial. Quasi todas as religiões antigas e modernas lhe prestam até um certo culto.

O culto de Baccho, Osiris, a veneração por Noé, são as expressões com que a humanidade agradece a Deus a preciosa dadiva que aquelles prestantissimos varões ensinaram a aproveitar.

O vinho é a felicidade do pobre, a alegria do rico, a juventude do ancião, o sol que alumia o espirito, desperta a eloquencia, incende o amor e expande os affectos mais nobres do coração.

Cultiva-se a vinha em Portugal desde os tempos mais remotos; mas parece que a fama dos nossos preciosos vinhos só transpôz os mares e as fronteiras no fim do seculo XIV.

Alguns cavalleiros inglezes que acompanharam a princeza D. Filippa de Lencastre, mulher de D. João I, e outros que vieram alistar-se nas gloriosas hostes do condestavel D. Nuno Alvares Pereira, ao regressarem á sua patria levaram saudades do delicioso licor que aqui bebiam á farta; nos seus convivios choravam pela falta do precioso sumo das uvas portuguezas. A esse tempo sobreveio uma grande esterilidade aos vinhedos da Italia, que até então gosava o monopolio do fornecimento de vinhos á Inglaterra, fizeram-se algumas encommendas de vinho ao nosso paiz, e assim começou o nosso principal commercio com a Inglaterra. A cultura da vinha começou a tomar maior incremento.

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A esse tempo, o infante D. Henrique mandou vir das ilhas do archipelago grego, cujos vinhos eram então os mais afamados, as melhores castas de videiras alli conhecidas, por sua iniciativa introduziu-se a sua cultura na ilha da Madeira, e assim se lançaram as bases da grande riqueza que hoje possuimos.

CLIMA

A videira (vitis viacitera), é um dos vegetaes mais vivazes e sobrios que se conhece, prospera e fructifica em quasi todos os climas, mas para produzir fructo vinificavel exije certas condições que felizmente o nosso paiz possue no mais elevado grau.

Nas latitudes que excedem a 50 graus, a vinha já não recebe o calor necessario para elaborar assucar em quantidade sufficiente para produzir, pela fermentação, um liquido que mereça o nome de vinho.

Nas latitudes proximas do equador a vegetação das plantas é contínua, não ha o repouso hybernal; a vinha apresenta ao mesmo tempo e sobre a mesma cepa flôres e fructos, e no mesmo cacho vêem-se bagos a limpar a flôr e outros já maduros; por isso a vinificação é impossivel.

A latitude mais conveniente á cultura da vinha é a que se comprehende entre 30 e 45 graus. Achando-se Portugal situado entre 37 e 42 graus, vê-se que está justamente na posição mais favorecida.

Nas latitudes superiores a 45 graus sómente se poderá cultivar a vinha com proveito nas planicies pouco elevadas e nas encostas que não excedam a 50 metros de altura sobre o nivel do mar, expostas ao nascente ou ao sul.

Nas latitudes proximas a 30 graus póde a vinha prosperar e produzir excellente fructo a uma altura de 1:000 metros.

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A exposição do solo e os abrigos naturaes ou artificiaes exercem uma influencia poderosa sobre a vegetação da vinha. Algumas encostas baixas e valles profundos, abrigados dos ventos, produzem ás vezes melhor vinho do que outros terrenos situados a uma latitude mais favoravel.

TERRENO

Em Portugal a vinha prospera admiravelmente em toda a parte e em toda a qualidade de terreno.

Os melhores e mais afamados vinhos portuguezes são produzidos nas diversas formações schistosas que bordam o rio Douro.

No Douro superior, em Traz-os-Montes e na Beira, vêem-se magnificos vinhedos nas formações graniticas. As vinhas da Bairrada e os célebres vinhos de Setubal são produzidos em terreno neogeno lacustre superior.

Os terrenos quaternarios da margem direita do Tejo apresentam excellentes vinhas. No Algarve as notaveis vinhas da Fuzeta são cultivadas n'uma alluvião moderna formada de arêas soltas, e em partes d'um conglomerado de arêas ferruginosas e calháus rolados, que dão ao terreno uma apparencia de esterilidade absoluta.

Não ha pois duvida alguma de que em Portugal todas as formações geologicas são aptas para a vinha; quasi todos os terrenos, mesmo os que á primeira vista parecem estereis, dariam vinho muito soffrivel. Sómente os que forem excessivamente humidos ou formados exclusivamente de rocha compacta são improprios para esta cultura.

Comtudo a vinha, como todos os outros vegetaes, agradece sempre um solo substancial e profundo, que lhe possa offerecer uma nutrição abundante. Nos solos delgados e pobres a sua producção é muito menor e vive menos tempo, se não lhe acudirem com adubo e tratamento conveniente.

Ainda assim, uma grande parte dos terrenos que temos abandonados, reputados estereis, poderiam com grande vantagem ser applicados a esta cultura. Ainda que a sua producção fosse um pouco inferior á média que actualmente se costuma colher, attendendo-se ao baixo preço por que taes terrenos se podem adquirir, a sua exploração deveria dar magnificos lucros.

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Nos terrenos sêccos e pedregosos, o custo da plantação da vinha é mais elevado e a sua producção é menor do que nos terrenos fortes e fundos, mas a qualidade da producção é mais aprimorada e o vinho mais espirituoso e aromatico.

REGIÕES VINICOLAS DE PORTUGAL

São variados os systemas de cultura da vinha em Portugal, como variados são tambem os seus productos.

Segundo a Noticia da viticultura portugueza, publicação official, escripta pelo exm.º snr. conselheiro Rodrigo de Moraes Soares, divide-se o paiz em oito regiões vinicolas. Não nos parece ocioso dar aqui uma breve noticia dos diversos systemas culturaes adoptados em cada uma d'estas regiões e das castas de bacello que em maior quantidade concorrem á producção dos seus respectivos vinhos.

Estas regiões são:

1.ª Douro.

2.ª Traz-os-Montes.

3.ª Minho.

4.ª Beira Alta.

5.ª Beira Baixa.

6.ª Extremadura.

7.ª Alemtejo.

8.ª Algarve.

DOURO

Esta região, afamada em todo o globo pelos preciosos vinhos que produz, acha-se situada entre 41° e 41°,30 de latitude e borda as duas margens do rio que lhe dá o nome; divide-se em tres sub-regiões:

Douro superior, que é comprehendida entre a Barca d'Alva e o rio Tua; Alto Douro, desde o Tua até ao Corgo, e Baixo Douro desde o Corgo até Mezãofrio. É a região média comprehendida entre o Corgo e Tua que tem fornecido ao universo os mais preciosos vinhos que se conhecem pelo nome de vinhos do Porto, comtudo as outras duas sub-regiões produzem tambem vinhos que rivalisam com os primeiros; as castas de bacello, os processos culturaes e o systema de fabrico do vinho em todas ellas é identico; algumas differenças que se notam nas qualidades do vinho provéem essencialmente da exposição e attitude das vinhas.

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Nas duas sub-regiões Baixo e Alto Douro, os terrenos plantados de vinha são todos de natureza schistosa; na parte mais baixa, e junto do rio, pertencem á epocha geologica dicta devonianiana; na parte mais elevada pertencem á epocha siluriana. Na delgada camada de terra que os reveste superiormente predomina geralmente a argilla. A sua exposição é muito variada, depende das ondulações das encostas mais ou menos inclinadas, ou das inflexões do curso do rio. As vinhas situadas na margem direita gosam geralmente de melhor exposição, por isso tambem os seus vinhos são geralmente mais primorosos; com isto não queremos dizer que não haja na margem esquerda tambem vinhedos que produzem vinhos de egual merecimento.

No Douro superior quasi todo o terreno é de origem granitica; composto pela maior parte de areolas grossas misturadas com alguma argilla, é geralmente muito accidentado e as vinhas acham-se situadas em escalões pelas encostas bastante inclinadas.

CASTAS

Em todas as tres sub-regiões que constituem a região vinhateira do Douro se cultivam geralmente as mesmas castas de bacelo; contam-se alli mais de duzentas variedades. Limitamo-nos a indicar sómente as que julgamos mais valiosas e recommendaveis, e que concorrem á composição dos vinhos mais preciosos e afamados; são:

CASTAS TINTAS

Bastardo. - Produz vinho generoso, pouco adstringente, notavelmente aromatico, pouco carregado em côr; requer piza muito intensa e grande curtimenta.

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D'esta casta faz-se um vinho licoroso, de grande merito pelas suas qualidades balsamicas.

Mourisco. - Distingue-se pelos seus grandes cachos, excellentes para meza; produz um vinho precioso, dos mais estimados. A videira de mourisco dá-se bem em todos os terrenos; nos solos fortes toma grandes proporções; só costuma dar boa producção de dous em dous annos, mas n'esses compensa largamente os annos de falha; requer poda de vara longa.

Alvarelhão. - Vinho fino, pouco corado, bastante adstringente quando tem boa feitoria; com a edade adquire qualidades preciosas, torna-se um dos mais generosos vinhos. Por si só, sem addição d'alcool, e levando pouca feitoria, produz um vinho de pasto delicioso, o melhor que conhecemos.

Tourigo. - Produz muito e bom vinho, adstringente, bastante alcoolico e carregado em côr; constitue a base de grande parte, se não da maior, dos vinhos do Douro.

Souzão. - Notavel pela côr summamente carregada; costuma pizar-se em separado, tirando-se o liquido ao balseiro e deixando-se a casca em sêcco para se lhe extrahir melhor a tinta: mistura-se depois no lagar ou distribue-se pelos toneis.

Tinto cão, ou Nozéllo. - Cacho pequeno, bago miudo; dá pouco vinho, mas muito corado, forte e adstringente. A videira exige poda curta em talões.

Moscatel preto. - Muito tinto, levemente adstringente e muito aromatico.

Malvazia preta, murêto e camorate. - Produzem excellente vinho muito alcoolico, adstringente e carregado em côr.

Bôca de mina, Gonçalo Pires, Simôa, Capitôa, Verdeal. - Muita producção, mas o vinho é pouco alcoolico e descorado.

Molarinho, Nevoeira, Tinta de França. - Produzem pouco; o vinho é carregado em côr, principalmente o ultimo.

Tinta bastardeira, tinta francisca, Carrega. - Muita producção, vinho corado e pouco alcoolico.

CASTAS BRANCAS

Malvazia. - É uma das castas mais preciosas; produz um vinho dos mais primorosos que se conhecem, fructifica com abundancia, e exige poda longa.

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Cerceal. - A uva é bastante adstringente, dá um vinho magnifico, e é de boa producção.

Esgana-cão. - A uva é muito adstringente; quando soffre muito sol e calores excessivos os bagos fendem-se e perdem-se em grande parte; dá excellente vinho.

Gouveio ou bastardo branco. - Vinho fino, muito aromatico; faz optima liga com a malvazia.

Samarrinho. - Producção muito abundante, mas a uva é molle e sujeita a apodrecer facilmente; vinho fraco.

Cóscoro. - Cacho pequeno, bago miudo; faz bom vinho; producção regular.

Molarinho branco. - Pouca producção, vinho fino e aromatico.

Moscatel - Producção regular, quando se lhe faz uma poda judiciosa; dá um vinho primoroso, distincto pelas suas propriedades balsamicas; faz-se especialmente vinho licoroso de grande valor; o moscatel sêcco não tem menor valia.

Mourisco branco. - Cacho grande, bago grande; atura por muito tempo; boa uva para meza e para dependura; dá excellente vinho.

Cógueda, Terrantez, Trinca-dente. - Uvas de pouca duração, vinho bom, mas não é do mais apreciado.

Sarilho, verdelho. - Producção abundante, bom vinho.

Dedo de dama. - Bella uva, excellente para meza; vinho frouxo.

Uva do pastor. - Producção abundante, boa para meza, vinho inferior.

TRABALHOS DA CULTURA

Depois das vindimas, o primeiro trabalho que se applica ás vinhas é a poda: tem logar desde dezembro até fim de fevereiro; nas localidades mais expostas a geadas recommenda-se que as podas sejam tardias.

É no serviço das podas que melhor se prova o zêlo e pericia dos trabalhadores do Douro.

Ao primeiro lance de vista escolhe a vara de fructo para o anno seguinte, que deve ser robusta, apresentar bons olhos, não ter os entre-nós muito distanciados e estar em posição conveniente; cortam-se todas as outras com extrema nitidez; a escolhida é muito bem limpa das gavinhas, corta-se-lhe a extremidade a maior ou menor comprimento, segundo a robustez da cepa e a casta do vidonho; os simples jornaleiros sabem muito bem a quaes devem deixar maior ou menor vara. Em certos casos, quando a videira é robusta e tende a elevar-se muito, deixa-se-lhe uma espera com dous olhos, que deve partir da cepa, de um ponto mais baixo do que o da vara de fructos. E' esta espera que no anno seguinte deverá dar a vara de fructo e uma nova espera ou vara de poda. Em muitos casos deixa-se apenas a vara de fructo, que na occasião da empa é gemida a dous olhos, ficando assim estes dous olhos, que ficam abaixo da torsão, encarregados de substituir a espera. Limpa-se perfeitamente o tronco de todas as cascas velhas e adherencias extranhas.

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O comprimento da vara de fructo é variavel, segundo a natureza da cepa e a sua robustez, entre 6 até 10 olhos.

Algumas castas, como as differentes variedades de bastardos, e o tinto-cão, exigem uma poda especial, dicta de talões: consiste em se lhes deixarem tres ou quatro pequenas varas, ou talões de tres ou quatro olhos, conforme a sua robustez.

Fig. 66

Depois da poda segue-se a cava, que tem logar no mez de março, limpando-se perfeitamente a terra de todas as hervas e raizes; segue-se a empa, verga-se a vara, a dous olhos, sobre a cepa, junto d'esta crava-se uma estaca vertical, ata-se-lhe a vara, e se esta é muito comprida ainda se lhe applica outra estaca perto da extremidade, ficando a cepa conforme se vê da fig. 66.

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No decurso do mez de junho pratica-se a redra, que é uma cava mais ligeira, conchegando-se a terra ás cepas; então esladra-se perfeitamente a cepa, supprimindo-lhe todos os novidios adventicios e inuteis. Em julho e agosto esparra-se, supprimindo-se algumas folhas e lançamentos estereis; em geral só se applica esta operação ás vinhas situadas em terrenos fortes, ou menos bem expostas.

TRAZ-OS-MONTES

Acha-se situada esta região a noroeste do Douro; comprehende uma grande parte dos districtos de Villa Real e de Bragança.

Os seus vinhedos habitam geralmente terrenos de natureza schistosa, muito accidentados, e atormentados por erupções de varias rochas pertencentes ao grupo dos granitos; a sua exposição é muito variada, por isso tambem muito variada é a qualidade e valor dos vinhos que alli se produzem.

Nos concelhos de Murça, Chaves e Valle Passos, produzem-se vinhos maduros magnificos, dos quaes alguns pretendem rivalisar com os do Douro.

Os vinhos da Ribeira de Oura gosam de grande reputação; o concelho de Macedo de Cavalleiros produz vinhos generosos de alto valor.

As castas de bacello adoptadas n'esta região são geralmente as mesmas do Douro, assim como identicos são os tratamentos e amanhos que se applicam á vinha.

MINHO

Comprehende esta região os tres districtos do Porto, Braga e Vianna do Castello, apresenta uma feição viticola inteiramente diversa das duas antecedentes; alli são as videiras educadas em vinhas baixas, a eito; aqui vivem promiscuamente com outras culturas, quasi sempre associadas ás arvores que povoam os campos e os circumdam; sobem por ellas, entrelaçam-se nos seus ramos e passam d'umas para outras em graciosos festões.

Os terrenos viniferos d'esta região são geralmente frescos, recebendo boa copia de adubos que são destinados ás outras culturas que n'elles se exploram; proporcionam á vinha uma alimentação muito substancial, as videiras tomam enormes dimensões, sobem a grande altura, bracejam consideravelmente, dão uma producção muito abundante; o vinho é muito aquoso, acido e carregado de fermentos: é o denominado vinho verde.

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Comquanto estes vinhos sejam realmente inferiores aos vinhos maduros, por lhe faltar o justo equilibrio que deveria existir nos seus elementos constitutivos, e por lhe faltarem condições que possam garantir a sua conservação, são hoje vinhos muito apreciados pelas suas qualidades refrigerantes e nutritivas; os bons vinhos verdes vendem-se actualmente pelo mesmo preço ou ainda mais caros que os maduros, o que proporciona um lucro enorme aos seus productores.

O snr. visconde de Villa-Maior subdivide a região do Minho em cinco sub-regiões.

1.ª Desde o Douro até ao rio Ave, vinhos maus.

2.ª Do Ave ao Cavado, vinhos mediocres.

3.ª Do Cavado ao Lima, vinhos bons.

4.ª Do Lima ao Minho, vinhos muito bons.

5.ª Basto e Ribeira do Tamega, vinhos excellentes no seu genero.

As castas de videiras que predominam em todas as cinco sub-regiões são: espadeiro, verdelho, borraçal, vinhão, cainho, azal, souzão, mourisco, verdeal e alvarelhão; (muito differentes das que se conhecem no Douro com o mesmo nome).

Plantam-se quatro ou cinco bacellos á roda d'uma arvore, á distancia de pouco mais de um metro, e ao segundo ou terceiro anno deixa-se-lhe uma vara que se debruça ou mergulha na direcção da arvore; em terrenos frescos e bem adubados, no anno seguinte rebenta uma possante vara, que em breve se eleva a grande altura.

As videiras não téem outro tratamento senão o que recebem indirectamente e é applicado ás culturas visinhas; são podadas durante o inverno, deixando-se-lhe muitas varas, de 6 a 8 olhos, e a cada uma sua espera de dous a tres olhos.

O ex.mo snr. Ferreira Lapa, na sua missão agricola ao Minho, aconselhou que se applicasse a empa em arco a estas varas; esta prática decerto daria em resultado um consideravel melhoramento na qualidade do vinho.

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BEIRA ALTA

Produz esta região mui diversos e variados vinhos, desde o mais generoso e balsamico, que se confunde com o do Douro, até ao acidulo e verde, similhante ao do Minho. Todavia os vinhos que caracterisam o typo Beirão são os que se produzem nas margens do rio Dão, e que ultimamente téem grangeado uma subida reputação.

São vinhos côr de rubi, limpidos e brilhantes, apresentando uma força alcoolica natural entre 12 a 15°, d'um sabor delicioso, e bastante aromaticos.

Estes vinhos eram antigamente compostos e preparados para imitarem os do Douro, e muitos eram exportados pela barra do Porto debaixo d'aquelle titulo; por aquella fórma se mascaravam e occultavam as suas magnificas qualidades naturaes, para adquirirem por emprestimo outras artificiaes, que longe de lhes augmentarem o merecimento, os depreciavam aos olhos do verdadeiro entendedor.

Hoje que as qualidades naturaes dos vinhos do Dão vão sendo conhecidas, vão já adquirindo nome e reputação propria, não necessitam disfarçar-se com os trajes e apparencias do vinho do Douro para merecerem um preço muito remunerador, e ultimamente téem sido muito procurados e bem pagos para exportação, especialmente para o Brazil.

Os terrenos viniferos d'esta região são geralmente de origem granitica, predomina n'elles principalmente o quartzo no estado de grossas areolas, misturado com alguma argilla, em dóse variavel; o seu relevo é extremamente accidentado, as vinhas pelo geral acham-se escalonadas pelas encostas mais ou menos elevadas dos outeiros.

CASTAS

Encontram-se na Beira approximadamente as mesmas castas que se cultivam no Douro, mas já bastante modificadas pelos effeitos do clima, do terreno e exposição. As castas tintas mais apreciadas são:

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CASTAS TINTAS

Tourigo. - Constitue a base da maior parte dos vinhos da Beira; dá um vinho encorpado, bastante alcoolico e adstringente, de producção abundante e certa; resiste energicamente a todas as intemperies.

Alvarelhão. - Não se póde contar com elle com tanta certeza e abundancia como com o tourigo; dá um vinho mais aberto em côr, muito aromatico e bastante alcoolico.

Bastardo. - Conhecem-se duas variedades d'esta casta; produzem um vinho balsamico e generoso; faz optima liga com as duas castas antecedentes.

Bôca de mina. - É a mesma casta conhecida no Douro com este nome; é ainda pouco vulgar na Beira; dá um mosto muito corado e rico em assucar.

Tinta Francisca. - Côr carregada, mosto muito saccharino, producção regular.

CASTAS BRANCAS

D. Branca. - Producção abundante; dá-se bem em todos os terrenos, vinho leve, aromatico, muito saboroso.

Malvazia. - É de producção irregular, carrega bem em alguns annos, outros não produz quasi nada; produz um vinho magnifico, combinado com D. Branca e moscatel; produz um balsamo delicioso.

Cerceal. - É bastante productivo, dá-se bem em todos os terrenos, mas é muito serodio; se os frios e chuvas do outomno se anticipam amadurece mal.

Mourisco branco. - É a mesma casta que conhecemos no Douro com este nome; dá optimo vinho, mas na Beira tem dado pouca producção.

PLANTAÇÃO

A plantação dos vinhos da Beira é feita geralmente á manta; abrem-se vallas parallelas, de 4 palmos de profundidade, distanciadas de sete a dez palmos; nas terras mais soltas e seccas adopta-se a distancia menor, nas terras mais substanciosas a maior; a largura da valla no fundo regula por tres palmos, e a distancia a que se plantam os bacellos dentro das vallas é de 4 a 5 palmos; unha-se o bacello no fundo da valla, conchega-se-lhe terra em volta, de fórma que fique bem apertado; a terra que se tirou da superficie vae para o fundo da valla; esta não se enche completamente, de fórma que o bacello fica enterrado apenas a 3 palmos, e entre as vallas ou mantas fica a terra em camalhões elevados; corta-se o bacello a dous olhos; no segundo anno escava-se a terra, põe-se a descoberto o olho que estava enterrado e corta-se o olho superior; no terceiro anno poda-se ainda a dous olhos; no quarto anno, aos mais fortes já se deixa uma pequena vara para fructo; na occasião das cavas vae-se puxando alguma terra para dentro das mantas, até que ao 5.º ou 6.º anno se acha a manta completamente rasa e a videira formada.

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PODAS E EMPAS

As podas começam pouco depois das vindimas, mas em alguns pontos mais sujeitos ás geadas recommenda-se que sejam mais tardias. Na Beira a videira é geralmente mais levantada do que no Douro; a poda, comquanto menos esmerada, regula pelo mesmo systema: o podador escolhe a vara do fructo e corta todas as outras; o comprimento da vara depende da robustez da cepa e da natureza da casta; quando a videira vae muito alta deixa-lhe um fiel, situado n'um ponto mais baixo, para dar a vara de fructo do anno seguinte.

Fig. 67

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Algumas castas, notavelmente os bastardos, exigem uma poda especial, que na Beira chamam de cornecha: deixam-se-lhe duas, tres e ás vezes quatro pequenas varas de dous ou tres olhos cada uma. Os systemas da empa são variados; o mais usual é o chamado de tendal, que consiste em gemer a vara de fructo a dous olhos, e enrolal-a e atal-a a uma estaca, como se vê da fig. 67.

Nas videiras mais robustas, ás quaes convém deixar grande vara, usa-se a empa dicta amouroada; applicam-se-lhe duas estacas, uma junto a cepa, outra a quatro palmos de distancia, conforme se vê da fig. 68.

Fig. 68

Á beira dos caminhos e nos limites das propriedades armam-se geralmente as videiras muito mais altas; por isso dão uma producção mais inferior, mas muito mais abundante.

N'este caso o systema mais geral é o d'armação em cordões altos ou bardos; deixa-se elevar a cepa a 1 metro até 1,30, deixa-se-lhe uma grande vara de fructo e um fiador, conforme se vê da fig. 69.

Tambem se usa, e talvez com maior vantagem, principalmente á beira dos terrenos destinados a outras culturas, outro systema muito economico, e que dá uma producção enorme. Se a terra é substancial deixa-se elevar a cepa á altura conveniente, deixando-se-lhe tres braços e a cada braço a sua vara de fructo e a sua competente espera; applica-se-lhe um estacão, que é simplesmente um ramo de pinheiro que apresente algumas ramificações, e atam-se-lhe as varas de fructo, conforme se vê da fig. 70. Não é raro obter-se uma producção de 5 a 6 pipas de vinho por milheiro de cepas armadas por esta fórma.

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Fig. 69

CAVAS

Pratica-se a cava ordinariamente em fins de fevereiro até meado d'abril, sendo o seu fim destruir as plantas expontaneas que apparecem no solo, e rasgar e abrir a terra á acção fertilisante dos agentes atmosphericos; convém não retardar este serviço. As cavas tardias téem o inconveniente não só de deixarem que os vegetaes expontaneos roubem por muito tempo os sucos nutritivos do solo, mas de occasionarem a destruição das raizes superficiaes que a videira vae creando na primavera.

Quando as uvas se apresentam limpas e os bagos como grãos de chumbo, pratica-se a redra, que é uma segunda cava muito mais superficial. Tem por fim destruir as más hervas, arrazar os torrões e conchegar a terra em volta da cepa.

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No fim de maio e principio de junho pratica-se a espoldra, que consiste na suppressão de todos os ramos estereis e inuteis e algumas folhas, quando os fructos se acham muito assombrados.

Fig. 70

Quando as vinhas vão envelhecendo, vão-se renovando as cepas que apresentam signaes de decrepitude, por meio da enxertia e mergulha.

BEIRA BAIXA

Comprehende esta região os tres districtos administrativos de Castello Branco, Coimbra e Aveiro. Póde dividir-se em tres sub-regiões, cujos vinhos apresentam feições profundamente distinctas.

1.ª Entre os rios Vouga e Douro; vinhos acidulos, frescos, pouco alcoolicos, um tanto verdes.

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2.ª Entre Coimbra e Aveiro; produz vinhos cobertos, encorpados, conhecidos pelo nome de vinhos da Bairrada.

3.ª Cova da Beira, que tem por centro a villa de Fundão; produz vinhos de côr aberta e brilhante, suaves, balsamicos e agradabilissimos ao paladar.

A natureza dos terrenos n'esta região é variadissima; entre o Vouga e o Douro predominam os solos graniticos; na sub-região da Bairrada apparecem os calcareos secundarios e as arenatas quaternarias. Na Cova da Beira predominam os schistos e os granitos.

Na primeira sub-região a vinha é geralmente educada alta, em uveiras, cordões e latadas, bordando os caminhos, e promiscuamente com outras culturas.

Na Bairrada as vinhas são rasteiras, planta-se o bacello á manta a 50 até 60 centimetros de profundidade; nos primeiros dous annos o terreno da vinha é semeado de milho, batatas ou meloal; ao 4.º anno, se as estações correrem favoraveis e se a terra não é em extremo ingrata para a vinha, esta tem a robustez necessaria para sustentar uma vara de fructo, e n'este sentido se faz a poda conveniente; escolhe-se a vara mais bem situada, mais robusta, que apresente os entre-nós mais curtos e corta-se a maior ou menor comprimento, segundo o vigor da cepa; todas as outras são cortadas rentes; em seguida procede-se á empa. Se a videira é sufficientemente forte geme-se a vara, dá-se-lhe uma volta em arco e ata-se-lhe a extremidade á mesma cêpa. Se a videira é fraca ata-se a vara a uma estaca.

Antes da poda, logo depois da vindima, é costume fazer-se a escava; consiste em dar uma cava superficial ao terreno junto a cada cêpa, abrindo-se-lhe alli uma pequena caldeira. Nos terrenos muito arenosos e soltos esta prática dá excellentes resultados, mas nas terras argillosas e frias póde ser prejudicialissima, porque o excesso de humidade que alli se accumula póde macerar e destruir as raizes superficiaes da videira. As cavas téem logar desde fins de março até maio, conforme a natureza dos terrenos; nas terras baixas e frias faz-se mais tarde; geralmente é feita a montes, que depois são arrasados quando se procede á arrenda. Então conchega-se a terra em volta da cêpa e limpa-se perfeitamente o terreno de todas as hervas que apparecem.

As castas mais notaveis e mais generalisadas são:

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CASTAS TINTAS

Castellão. - Muito rica em assucar, bastante productiva e temporã; prefere os terrenos fortes.

Moreto. - Bastante saccharina, de producção regular; dá-se bem em todos os terrenos.

Xara. - Muito productiva em alguns annos, n'outros dá pouco; bastante serodia; nos bons annos o seu mosto regula por 20 a 22 por cento de assucar.

Souzão. - Produz vinho forte, extremamente carregado em côr; é serodia e prefere os terrenos fortes.

Bastardo. - Produz vinho muito forte, aromatico e agradavel; exige uma poda especial, curta, em talões.

Baga. - Muito productiva, é a casta mais commum e que fórma a base dos vinhos d'esta região; dá-se bem em todos os terrenos; é pouco sujeita a enfermidades, mas o seu producto é inferior.

CASTAS BRANCAS

Arinto. - Producção regular e abundante, temporã; produz vinho não muito alcoolico, mas suave e delicado.

Boal. - Muito productiva e temporã; produz vinho fraco, mas agradavel.

Mourisco. - Producção irregular; prefere os terrenos fortes; dá magnifico vinho.

Esgana cão. - Producção regular e abundante, serodia; dá-se bem em todos os terrenos; produz vinho medianamente alcoolico e bastante adstringente.

Alvar. - Muito productiva, temporã; prospera em todos os terrenos; produz vinho de baixa graduação alcoolica.

EXTREMADURA

Comprehende esta região os tres districtos administrativos de Leiria, Santarem e Lisboa; segundo as estatisticas officiaes, a sua producção vinicola é de 190:000 pipas em média annual.

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Produz esta região vinhos de typos e qualidades muito differentes e variados; alguns gosam desde longa data da fama universal, e excedem em primor, no seu typo, todos quantos a Italia e a França produz de mais alto quilate; para o provarmos basta apresentarmos o celebrado Moscatel de Setubal. Os mercados inglezes e americanos conhecem perfeitamente os moscateis francezes e italianos, entre elles o afamado Frontignan, mas o legitimo Setubal sempre alli alcançou maior estimação e preço.

O exc.mo snr. conselheiro Rodrigo de Moraes Soares divide a região da Extremadura em 14 sub-regiões, que todas se distinguem pelo typo e qualificação dos seus vinhos.

1.ª Setubal. - Afamada pelo precioso balsamo produzido em Azeitão e Palmella, conhecido pelo nome de Moscatel de Setubal.

2.ª Almada. - Produz vinhos encorpados, carregados em côr; melhoram com a edade.

3.ª Lavradio. - Vinhos cobertos, encorpados, apresentando uma suavidade e sabor especial.

4.ª Benevente. - Vinhos saccharinos, encorpados, de longa duração quando bem feitos.

5.ª Almeirim. - Produz duas variedades de vinhos; os que são produzidos nos terrenos baixos, sujeitos ás inundações do Tejo, são frouxos e aquosos; são geralmente destinados á distillação; os que se produzem nos arneiros são pouco encorpados, seccos, fortes e aromaticos.

6.ª Chamusca. - Produz vinho encorpado, medianamente alcoolico, destinado ao consummo das circumvisinhanças, e algum se consomme em Lisboa.

7.ª Carcavellos. - Produz especialmente vinhos brancos magnificos, de um sabor e aroma especial; são muito procurados não só pelos amadores nacionaes, mas para exportação; são reputados por alto preço no estrangeiro.

8.ª Collares. - Os vinhos de Collares constituem um typo especial, perfeitamente caracterisado, delgados, de côr limpida e brilhante, brandos, um pouco acidulos; suavidade e aroma original; como vinhos de pasto são os mais estimados dos consummidores de Lisboa; a sua reputação já chegou ao estrangeiro, que os procura e paga por preço muito elevado.

9.ª Termo. - Dizem-se vinhos do termo os que são produzidos nos vinhedos dos suburbios de Lisboa. São pelo geral vinhos encorpados, carregados em côr; a maior parte é destinada ao consummo das tabernas, onde soffre preparações e misturas que lhes deturpam as qualidades naturaes. Quando racionalmente preparados melhoram com a edade e supportam longas viagens.

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10.ª Villa Franca.

11.ª Alemquer.

12.ª Azambuja.

Estas tres sub-regiões produzem vinhos analogos, mas ainda assim com dotes e qualidades taes que não se podem confundir. São geralmente pouco encorpados, mas fortes e saborosos. Os da Azambuja são mais encorpados e cobertos, suaves e agradaveis ao paladar; distinguem-se especialmente os vinhos da Abrigada, Merceama e Cadafaes.

13.ª Cartaxo. - N'esta sub-região cultivam-se as vinhas com grande esmero; os seus vinhos são excellentes e afamados, encorpados, corados e fortes. Pela maior parte são destinados ao consummo de Lisboa, onde a avidez dos taberneiros lhes deturpa as qualidades naturaes pelas misturas e baptismos; tambem d'elles se faz uma importante exportação para o Brazil e para as nossas possessões ultramarinas.

14.ª Santarem. - Produzem-se n'esta sub-região dous typos de vinhos muito distinctos; uns são produzidos nos valles do Tejo, outros nas terras altas e enxutas; os primeiros, aquosos e fracos, são pela maior parte destinados á distillação; os segundos, muito mais fortes e cobertos, destinam-se ao consummo local e ao mercado de Lisboa.

15.ª Mação. - Estende-se esta sub-região desde Abrantes até á raia d'Hespanha; produz vinhos descobertos e delicados; tornam-se especialmente notaveis os vinhos brancos.

16.ª Bucellas. - Os vinhos d'esta sub-região gosam desde antiga data de elevadissimos creditos; produzem-se especialmente vinhos brancos magnificos, de um sabor e aroma suavissimo; são muito apreciados e obtéem elevado preço, não só para o consummo interno, mas tambem para exportação.

17.ª Torres Vedras. - É esta sub-região que fornece a maior parte do consummo de Lisboa; os seus vinhos são originariamente bem constituidos, cobertos e encorpados, mas as suas qualidades são deturpadas pelos maus tratos que soffrem dos almocreves e taberneiros.

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Alguns proprietarios mais attentos aos seus interesses, que vigiam mais de perto pelo fabrico e transporte dos seus vinhos, téem conseguido apresental-os em Lisboa, com as suas qualidades naturaes, e téem conseguido acredital-os. Produzem-se tambem vinhos brancos excellentes.

18.ª Arruda. - Os vinhos d'esta sub-região são muito semelhantes aos de Torres; são tambem como aquelles destinados pela maior parte ao consummo da capital; alguns mais bem preparados são exportados.

19.ª Cadaval. - Vinhos cobertos, bastantemente alcoolicos; téem sido procurados ultimamente para exportação.

20.ª Caldas da Rainha. - A producção de vinhos é pouco importante, mas apparecem alguns excellentes, não muito encorpados, de côr aberta e brilhante; muito agradaveis ao paladar.

21.ª Torres Novas. - Os vinhos d'esta procedencia gosam d'antiga e qualificada reputação, muito saccharinos, suaves e fortes. Produzem-se especialmente vinhos brancos de grande merito.

22.ª Thomar. - Os vinhos d'esta sub-região não constituem um typo definido; pelo geral são pouco corados, de fraca graduação alcoolica.

Não se segue na Extremadura um systema determinado de cultura e tratamento da vinha; cada sub-região, e póde dizer-se que cada proprietario, tem lá o seu processo de plantação, poda e empa da vinha.

Com relação á plantação, são conhecidos os systemas de barbados, de estacas simples e estacas unhadas; planta-se á barra, e ao covato, mas mais geralmente á manta.

A poda geralmente adoptada é de vara e talão. A empa é em arco de circulo mais ou menos aberto, e mais vulgarmente em circulo, atando-se a ponta da vara á cêpa.

ALEMTEJO

Comprehende esta região os tres districtos administrativos de Evora, Beja e Portalegre. Segundo as estatisticas officiaes, a sua producção vinicola orça annualmente por 325:000 hectolitros ou 65:000 pipas.

Ha vinte annos a cultura da vinha era insignificante n'esta região, a producção era insufficiente para o consummo local; os vinhos eram pelo geral de qualidade inferior; ultimamente tem tomado um grande incremento e realisado notaveis progressos. Os vinhos da Cuba e da Vidigueira são hoje muito apreciados no mercado de Lisboa, e já se exportam em grande escala para a America e Africa. Nas cercanias de Evora produz-se muito e excellente vinho; no districto de Portalegre ha extensos vinhedos, e alguns proprietarios nos ultimos tempos téem applicado solicita attenção ao aperfeiçoamento da sua cultura e ao fabrico dos seus vinhos.

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O systema de plantação no Alemtejo é geralmente á manta, com unhamento do bacello; alguns proprietarios téem ultimamente feito plantações importantes, por meio de barbados, creados em viveiro.

O systema de podas e empas é muito variado; a poda mais adoptada é de vara e talão, empando-se depois a vara de fructo em circulo, atando-se a ponta á cêpa ou a uma estaca.

No districto de Portalegre encontram-se muitas videiras d'enforcado; adoptam-se varios systemas de poda e empa para as vinhas baixas; geralmente não se deixa talão, fica apenas uma vara de fructo, que é levantada verticalmente e atada a uma estaca; outros adoptam a poda chamada de cabeça. A cêpa eleva-se 20 centimetros d'altura, e fórma na extremidade uma cabeça d'onde parte uma, duas, e ás vezes tres ou quatro varas de fructo.

ALGARVE

Possue o Algarve um clima dos mais propicios á cultura da vinha; a maturação das uvas antecede aqui 15 a 20 dias ás regiões do centro de Portugal. O seu solo apresenta geralmente uma exposição excellente, devida ao abrigo natural que tem nas serras de Monchique e Caldeirão, e porque as suas encostas são pela maior parte inclinadas na direcção meridional.

As uvas do Algarve rivalisam em riqueza saccharina com as do Douro; não é raro encontrarem-se castas que em annos regulares produzem mostos marcando 30 por cento de assucar.

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As uvas de meza são n'esta região das mais primorosas que se conhecem, apresentando a grande vantagem de amadurecerem muito temporãs.

Desde remota data os vinhos da Fuseta gosam de justificada reputação; antes da invasão do oidium exportavam-se para o Brazil e para a Africa, mas depois d'isto a viticultura cahiu em tal decadencia que a producção é insufficiente para o consummo local.

Os melhores vinhos do Algarve são produzidos nos concelhos de Tavira e Olhão. Os de Lagoa, Portimão e Lagos são um pouco menos alcoolicos, mas aromaticos, finos e saborosos; na exposição de Londres de 1874 obtiveram uma qualificação muito elevada. Produzem-se especialmente vinhos brancos magnificos, que com a edade adquirem propriedades balsamicas deliciosas e podem rivalisar com os da Madeira.

As castas de uvas que em maior quantidade povoam as vinhas do Algarve são:

CASTAS TINTAS

Negra molle. - Vinho aquoso, pouco alcoolico; muito productiva; dá muito molho; maturação temporã.

Pau ferro. - Vinho forte, encorpado e adstringente; em annos regulares marca 28 por cento d'assucar; requer terrenos fortes. Nas areias dá pouco.

Pexem. - Maturação tardia; producção abundante em terrenos fortes; vinho excellente; a riqueza em assucar regula por 28 por cento.

Alicante. - Serodia, pouco productiva; produz magnifico vinho; nos bons annos chega a marcar mais de 30 por cento de assucar.

Tamarez. - Temporã; dá-se tambem em todos os terrenos; produz optimo vinho; a sua dosagem em assucar regula por 28 por cento: pouca adstringencia; faz optima liga com a casta pau ferro, dando assim um vinho primoroso para frasqueira. Se fôr destinada ao consummo immediato convém lotal-a tambem com alguma negra molle, para lhe abater a graduação alcoolica e augmentar a quantidade; as duas primeiras castas de per si dão vinhos que com tratamento conveniente póde adquirir propriedades delicadas e tornar-se um generoso vinho de frasqueira; associadas á negra molle dão um vinho de pasto delicioso, quando é bem feito.

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O mosto tamarez sem mistura fermenta mal, por causa da sua riqueza em assucar e da falta de substancias azotadas e acidos em proporção conveniente; por isso dá sempre um vinho doce de difficil conservação.

CASTAS BRANCAS

Assario. - Producção regular, temporã; a sua dosagem em assucar regula por 26 por cento; dá bom vinho.

Tamarez. - Dá-se bem em todos os terrenos; marca ordinariamente 28 por cento d'assucar; dá um vinho aromatico e agradabilissimo.

Perrum. - Muito productiva, mas anneira; graduação em assucar pouco inferior á antecedente.

Boal. - Producção regular, temporã; marca ordinariamente 22 a 24 graus saccharinos; pouca adstringencia; dá um vinho muito agradavel.

Mantheudo. - Cacho grande, bastante productiva, excellente para meza; funde muito, mas dá vinho frouxo; a sua graduação saccharina regula por 21°.

Boal d'Hespanha. - Excellente para meza, cachos grandes, bagos graúdos, muito productiva, vinho brando e aquoso; marca ordinariamente 20 a 21°.

O systema de plantação mais geral no Algarve é o seguinte: Fazem-se alinhamentos sobre o terreno, em quadrado ou em quinquoncio, cruzando-se a um metro até 1,30, conforme a natureza do solo; surriba-se todo a eito, a 0,70 ou 0,80 de profundidade, cavando-se parallelamente ás linhas anteriormente traçadas; em cada cruzamento das linhas planta-se uma vara unhada, conchegando-se-lhe terra boa ao unhadouro. Feita a plantação cortam-se as varas a dous olhos. Durante o anno dão-se-lhe tres ou mais cavas, para extirpar as más ervas; nos dous primeiros annos semêa-se-lhe geralmente milho ou ervilhas.

Depois da vinha adulta os trabalhos culturaes que se lhe applica, são: logo depois da vindima a alumia consiste em escavar as cêpas a 10 centimetros de profundidade; este serviço é considerado como prejudicial por alguns authores de boa nota; no Algarve parece-nos justificado; por este modo as raizes recebem no inverno maior quantidade de agua, que n'este clima nunca é em excesso, a não ser em alguns terrenos baixos e humidos, que são poucos n'esta região, e os que ha não são cultivados de vinhas; além d'isso, as raizes superficiaes que nascem a favor da humidade superficial do terreno, morreriam mais tarde por causa da seccura do clima; por esta razão julgamos justificada a alumia.

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A cava faz-se geralmente a monte, e tem logar em fevereiro; a redra ou arrenda pratica-se em abril.

As vinhas são todas rasteiras; o systema de poda que se adopta consiste em deixar á cêpa tres, quatro ou cinco talões de dous olhos. Em terras fortes e substanciaes educa-se a cêpa de modo a deixar-lhe tres membros, e ás vezes quatro, como se vê da fig. 71, deixando-se dous talões a cada um; e quando a cêpa se apresenta bastante robusta deixa-se-lhe uma ou duas varas de cinco ou seis olhos.

Fig. 71

Ultimamente alguns proprietarios téem experimentado a poda da vara longa, e empa em arco; especialmente em algumas castas tem dado optimo resultado; a casta malvazia, conhecida em todo o paiz como uma das mais preciosas, é rarissima no Algarve, por se julgar quasi completamente esteril; ultimamente tem-se applicado este systema de poda a algumas cêpas e téem dado boa producção.

O clima e terreno do Algarve favorece consideravelmente a formação do assucar e aromas nas uvas; por isso são muito apropriadas ao fabrico de vinhos licorosos de frasqueira, mas taes vinhos exigem prolongado empate de capitaes, e por ora não téem um mercado certo que os pague pelo seu valor. Os vinhos de pasto, por causa da riqueza da uva e do systema de fabrico adoptado, sahem geralmente doces e excessivamente alcoolicos.

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Facilmente se poderiam remediar estes defeitos, modificando-se os systemas da cultura e fabrico. Em primeiro logar educando a vinha mais alta, e assim produziria muito maior quantidade de fructo, mas menos saccharino; depois desenvolvendo mais a cultura da casta negra molle; sabemos que é considerada uma casta plebeia; em todo o paiz é tida como das mais inferiores, mas no Algarve chega a marcar 21 graus saccharinos; dá sempre uma producção certa e abundante, e serve para abater a densidade e graduação das outras castas mais ricas, que só de per si dão um mosto tão assucarado que não póde fermentar completamente.

Quando se pretende fazer vinho licoroso para a frasqueira, é claro que temos de guiar-nos por outras considerações; n'este caso teremos de eliminar a negra molle; se o mosto das castas adoptadas não fermenta completamente, abafa-se, e seguem-se as práticas que a oenologia nos ensina, e que não cabe aqui indicar, mas que os leitores poderão estudar nos tractados especiaes de vinificação do snr. visconde de Villa Maior, ou do nosso mestre o snr. Ferreira Lapa.

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