Manual de Arboricultura/Enfermidades
ENFERMIDADES DA VINHA
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A vinha está sujeita a muitas enfermidades que podem ser originadas por differentes causas: 1.ª A propria natureza das plantas, quando já trazem por herança, das cêpas d'onde provéem, a predisposição morbida. 2.ª Os defeitos do terreno, quando lhe faltam as condições physicas e chimicas para alimentar e alojar as videiras. 3.ª Os maus tractos, defeitos da cultura e errado systema de poda. 4.ª A acção dos agentes meteorologicos, excessos de frio ou de calor, geadas, chuvas e intempestivos nevoeiros. 5.ª Ataque de parasitas, animaes ou vegetaes.
A 1.ª causa evita-se facilmente, proscrevendo absolutamente na occasião da plantação todos os bacêllos provenientes de cêpas que não sejam perfeitamente sãs e productivas. A 2.ª remedeia-se, corrigindo e adubando convenientemente o terreno, sangrando-o por meio de vallas cegas ou abertas, quando o defeito provém de excesso de humidade. A 3.ª evita-se, estudando-se a indole da videira; ha certas castas que quando se lhes applica a poda curta apresentam fortes lançamentos e muitas flores, que todas abortam, negando-se assim a produzir fructo. As espoldras e espontas excessivas e fóra de tempo podem causar a atrophia dos fructos.
As cavas profundas, muito tardias, causam a destruição de muitas raizes superficiaes, e assim privam a cêpa dos seus melhores orgãos de nutrição.
As intemperies que mais geralmente prejudicam os vinhedos, são: as geadas, os nevoeiros, as chuvas torrenciaes da primavera e as grandes alternativas de calor e de frio.
Para se evitarem os effeitos d'estes flagellos, aconselha Dr. Guyot a adopção de abrigos feitos d'esteirões. Não nos parece que esta indicação possa ter applicação prática em Portugal; por isso não nos deteremos em explical-a.
Nas localidades sujeitas a geadas tardias, os meios de até certo ponto se evitarem ou attenuarem os seus effeitos, consistem em reservar a poda para tarde, e melhor seria podar por duas vezes, deixando-se pela primeira vez algumas varas para reforço, no caso em que sobrevenham geadas que queimem os renovos; mais tarde escolhe-se a vara que fôr menos castigada.
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É sabido que por tempo nublado, ainda que a temperatura seja muito baixa, as geadas não são para temer. Por esta razão já escriptores muito antigos aconselhavam que para as evitar se produzissem nuvens artificiaes de fumo, queimando-se matto e estrumes entre as vinhas. Era um processo realmente efficaz, mas muito difficil de pôr em prática. Ultimamente tem-se simplificado muito a sua execução, de modo que em França já teve uma larga e mui vantajosa applicação. Dispõe-se uma porção de pequenos vasos de barro contendo borras d'alcatrão, distanciados de 10 em 10 metros do lado d'onde sopra o vento; quando pela madrugada, duas horas antes de nascer o sol, se vê o céo limpido e a temperatura muito baixa, accendem-se rapidamente aquelles fogaréos; forma-se logo uma espessa nuvem de fumo, que se espalha sobre a vinha e a preserva da destruição que soffreria, se sobre ella incidissem logo pela manhã directamente os raios solares.
Os nevoeiros aqui sobrevéem na primavera, na epocha da florescencia da vinha; prejudicam gravemente a fecundação das flores, pelo que muitas abortam, transformando-se em gavinhas ou produzindo cachos muito desguarnecidos de bagos.
Por isso na plantação dos vinhedos se deverão evitar os locaes onde taes nevoeiros costumam estacionar.
As alternativas de frio e grandes calores na primavera causam ás vezes a atrophia dos pequenos fructos já formados; quando sobrevéem calores excessivos, os bagos murcham e tomam uma côr avermelhada. Nos climas meridionaes, onde estes desastres são mais para temer, recommenda-se a maior circumspecção nas podas vivas, e que a vinha se eduque mais alta e menos distanciada; assim escapa mais facilmente ao excesso de calor reflectido pelo terreno, e abrigam-se melhor as videiras umas ás outras.
ATAQUE DOS PARASITAS
Desde a mais remota antiguidade, a vinha tem soffrido em differentes epochas o ataque de verdadeiras pragas; os auctores antigos não descrevem com clareza os seus caracteres, por isso hoje ha opiniões desencontradas: se as enfermidades que ultimamente téem assolado os nossos vinhedos são novas, ou se serão as mesmas que os antigos conheceram. Para o nosso estudo, essencialmente prático, não nos importam muito estas questões, nem necessitamos entrar em longos estudos ácerca da origem e historia natural dos sêres d'ordem inferior que causam ou acompanham as epiphitias que nos téem assolado as vinhas e que nos ameaçam ainda. D'estas a que tem produzido maiores estragos é o oidium; o phylloxera vastatrix já tem causado grandes prejuizos, mas no nosso paiz, até ao presente, não tem feito estragos de grande monta.
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O oidium é hoje bem conhecido, e bem conhecido é tambem o meio de o debellar. O seu ataque manifesta-se pelo apparecimento de manchas alvacentas sobre as folhas e partes verdes da planta; tornam-se escuras e como revestidas de lanugem, exhalando cheiro a bolôr; as folhas crispam-se e perdem a côr. Os fructos cobertos d'aquellas manchas atrophiam-se, fendem-se e seccam.
O especifico reconhecidamente efficaz contra esta enfermidade, é o enxofre. A prática tem provado que o enxoframento, bem applicado e em tempo conveniente, produz sempre resultado excellente.
Segundo a intensidade do mal, ou conforme as probabilidades da sua invasão, o enxoframento mais ou menos repetido deve ser uma prática usual em todas as vinhas, pois está reconhecido que não só tem a virtude de destruir o oidium, mas imprime mais vigor e vivacidade á videira.
A prática aconselhada pelos melhores auctores é que se applique o primeiro enxoframento logo que appareçam os primeiros indicios da existencia do oidium, e se repitam tantas vezes quantas seja necessario, até que desappareça completamente. Outros aconselham que, mesmo antes d'aquelles indicios apparecerem, se deve fazer a applicação do enxofre, não só como preventivo, mas como estimulante da vegetação.
A maneira de praticar o enxoframento é facilima; é um serviço que ordinariamente é feito por mulheres ou rapazes: consiste em espargir o pó do enxofre sobre todas as partes verdes da videira; para isto empregam-se varios enxofradores, dos quaes, os que nos parecem mais commodos, são as borrachas que se encontram á venda, proprias para tal serviço.
Como o enxofre tem ultimamente subido de preço, póde applicar-se misturado com cinzas ou gesso bem pulverisado, por partes eguaes, ou mesmo reduzindo o enxofre a uma terça parte; esta mistura produz resultados muito satisfactorios.
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PHYLLOXERA
Contam-se por centenas os escriptos que se téem publicado ácerca d'este flagello das vinhas. As academias, os sabios mais respeitaveis, agronomos e naturalistas, téem procurado estudal-o. Hoje conhece-se perfeitamente a vida e os costumes do insecto. Mas... ignora-se ainda o meio prático de o debellar!
Felizmente, em Portugal, os seus estragos por ora não são de grande monta.
Ácerca d'este assumpto nada poderemos dizer, de conhecimento ou experiencia propria, porque ainda não tivemos occasião de observar vinhas doentes. Convidados no anno de 1871 para vêr os terriveis estragos produzidos pelo phylloxera, n'uma vinha do snr. arcediago Nunes de Vasconcellos, no districto de Vizeu, vimos algumas cepas moribundas, com as folhas amarellas e arredondadas, e fraquissimos lançamentos com todos os caracteres que se attribuem aos estragos do phylloxera. Arrancadas algumas cepas, viu-se que as raizes, em grande parte, estavam apodrecidas e exhalavam mau cheiro; observadas ao microscopio, não apresentavam nem vestigios do famoso insecto.
O solo d'esta vinha é granitico; em partes apresenta bastante profundidade, em outras tem apenas uma delgada camada de terra de pouca fertilidade, assentando sobre o granito compacto. Era justamente n'estes pontos que a vinha se mostrava atacada. Onde o terreno era profundo e fertil não havia signal de molestia.
No Algarve temos observado algumas vinhas, apresentando em alguns pontos signaes muito similhantes aos que se attribuem e que se diz que caracterisam o phylloxera; folhas estioladas, pequenas, arredondadas, manchas vermelhas e denegridas. Esta enfermidade é aqui conhecida desde tempos immemoriaes; os cultivadores chamam-lhe amarella.
Não podemos duvidar da existencia do phylloxera, mas estamos intimamente convencidos que em Portugal se tem attribuido ao novo flagello alguns estragos devidos a outras causas, sendo talvez a principal o esgotamento dos terrenos, occasionado por uma longa cultura, sem que jámais se cuidasse de restituir-lhes as substancias que annualmente as colheitas lhes roubam.
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Tem-se apregoado ultimamente muitos especificos infalliveis para a destruição do phylloxera, mas nenhum ha ainda que sériamente se possa applicar, economicamente e com vantagem, e que produza os effeitos desejados. Ultimamente, Mr. Dumas, um dos sabios mais abalisados da França, tem aconselhado o emprego do sulfo-carbonato de potassa, que se diz ter produzido optimos resultados, dissolvido e empregado em regas. A grande respeitabilidade do sabio chimico que indica este tractamento, e mesmo a acção e effeitos conhecidos dos ingredientes empregados, fazem-nos crêr na sua efficacia, mas duas grandes difficuldades se nos apresentam, para que este especifico seja adoptado: em primeiro logar o seu custo, depois a maneira de o empregar, de modo que chegue até á profundidade a que a videira lança as raizes.
O recurso mais efficaz que até ao presente podemos empregar contra este e outros flagellos, é trazer a vinha cultivada e tractada por tal modo, que possa reagir victoriosamente sobre qualquer influencia morbida que a ameace. Nos vegetaes, assim como nos animaes, são sempre os que vivem na miseria e os que soffrem privações, as primeiras victimas das epidemias.
A lagarta das vinhas, tortrix vitizana, causa ás vezes enormes estragos.
Na primavera vêem-se volitar, entre a folhagem das vinhas, pequenas borboletas amarelladas, com riscos avermelhados; depositam grandes ninhadas de ovos sobre as folhas, dos quaes em breve nasce uma infinidade de pequenas lagartas esverdeadas e com a cabeça negra; fazem uma devastação cruel nas folhas e rebentos da videira, que devoram com avidez; no outono vão alojar-se nas rugosidades da cepa, onde passam o inverno, para na primavera seguinte se transformarem em borboletas.
O melhor meio de prevenir os estragos d'esta praga é na occasião das podas haver todo o cuidado em se limparem perfeitamente todas as rugas da cepa, extrahindo-lhes todas as cascas velhas e dando-lhes uma lavagem rapida com agua fervente.
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Quando, apesar d'estes cuidados, ainda na primavera apparece a lagarta, convém metter na vinha um bom rebanho de perús e gallinhas, e teremos assim dois proveitos: veremos diminuir consideravelmente a praga e cevaremos aquellas aves.
SEMENTEIRA DA VINHA
A sciencia explica, e a prática tem demonstrado, que geralmente as plantas provenientes de estaca, são menos robustas e mais enfermiças do que as que provéem de semente.
Ha muito quem attribua ao antiquissimo systema de reproducção da vinha por estaca, as doenças que ultimamente a tem atacado; é certissimo que as videiras provenientes de semente seriam incontestavelmente muito mais fortes, resistiriam muito melhor a todos os accidentes morbificos; mas tambem é certo que a vinha de semente degenera em qualidade e leva muitos annos a crear-se. Apesar d'estes inconvenientes não nos parece inexequivel a adopção de um novo systema, que nos parece deveria assegurar a saude e longevidade dos nossos vinhedos.
N'um pequeno canteiro de terra póde qualquer proprietario de vinhas estabelecer uma sementeira consideravel de videiras; ao terceiro anno poderão estar em optimas condições de serem enxertadas das castas que se escolherem, e ao quarto anno podem ir ao seu destino, povoar as terras que lhes forem destinadas.
Parece-nos que por este processo nem ha um grande accrescimo de despeza, nem grande perda de tempo, e ainda que haja mais algum sacrificio, parece-nos evidente que a grande vantagem de obtermos uma vinha sadia e forte nos compensa largamente estes trabalhos.
Objecta-se que é difficil obter-se com segurança a reproducção da videira por semente, porque a sua germinação é difficil e falha muitas vezes; sendo as sementes convenientemente preparadas e semeadas em boas condições, nem uma falhará. Basta tel-as 48 horas de molho n'uma lexivia de agua, com cinzas e escretos de boi e semeal-as no principio da primavera em boa terra, cobertas com um ou dois centimetros de terriço leve; o exito da sementeira será perfeitamente satisfactorio.