Manual de Arboricultura/Estabelecimento
ESTABELECIMENTO DE POMARES
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Em Portugal todo e qualquer terreno póde servir á creação de valiosos pomares, quando não seja extremamente pedregoso e areento, ou excessivamente pantanoso. Entretanto, quando estes defeitos não são em alto grau, corrigem-se; aquelles pela irrigação e adubos, estes pela drenagem.
Os pomares destinados á cultura de uma determinada especie fructifera reclamam cuidados particulares, proprios a essa especie, que estudaremos em outro logar; mas ha certos preceitos geraes, que aproveitam a todas, que agora nos cumpre indicar.
O terreno destinado á creação de um pomar deverá ser todo profundamente arroteado; a prática de se abrirem sómente pequenas covas para as arvores, deixando-se o resto do solo sómente arranhado, é summamente prejudicial.
Emquanto as arvores são novas, que não téem longas raizes, parece-nos que o estado do terreno circumvisinho não póde influir n'ellas; pois a experiencia mostra-nos todos os dias que nos terrenos completamente arroteados o seu desenvolvimento, mesmo nos primeiros annos, é muito mais rapido.
Quando o terreno apresenta um subsolo pouco permeavel, é indispensavel rasgal-o profundamente, e fazer-lhe uma boa drenagem.
A melhor drenagem para os pomares é a que se pratica por meio de vallas fundas a céo aberto; mas apresentam o inconveniente de difficultarem os trabalhos de cultura e roubarem muito terreno; por isso, quando o terreno tem um valor elevado, e para evitarmos os obstaculos que ellas nos oppoem, na maior parte dos casos convir-nos-ha fazel-as cegas; abrem-se á profundidade conveniente, lança-se-lhes no fundo uma boa porção de mattos (a esteva grossa ou o tojo é o melhor para este fim), calca-se fortemente a maço, e em seguida enche-se novamente a valla, sendo a terra bem calcada.
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Passados alguns annos os mattos decompoem-se, mas em todo o caso lá fica por onde a agua se possa escoar.
A drenagem feita com tubos de barro é mais dispendiosa, e para os pomares tem o inconveniente de ser de pouca duração; basta que as raizes das arvores se encostem aos tubos para que estes se desviem da sua posição e funccionem mal; só fazendo-se a drenagem a uma grande profundidade podemos evitar este inconveniente, mas n'este caso teremos um excesso de despeza consideravel.
Quando se plantam as arvores é muito util plantar junto a ellas uma estaca grossa que penetre até á extremidade das raizes; quando sobrevéem grandes e longas estiagens, arranca-se a estaca, e pelo buraco que deixa na terra lança-se agua que vae directamente refrescar e vivificar as raizes; em seguida colloca-se novamente a estaca no seu logar, repetindo-se a operação quando convém.
Os terrenos destinados á creação de pomares deverão ser fechados e resguardados por paredes altas, pelo menos de 2,50; custam certamente uma somma elevada, mas as suas vantagens compensam bem o que custam: não só nos defendem dos ladrões, mas servem-nos de abrigo ás plantações, e sobretudo offerecem-nos um meio de obtermos fructos muito mais precoces, aproveitando-as para armar latadas das especies que mais nos convierem.
Os sitios mais alumiados, que apresentarem uma exposição mais beneficiada pelo sol, deverão ser destinados a especies mais exigentes, e que melhor pagam este beneficio; taes são, o pecegueiro, a vinha, o limoeiro e a laranjeira; as exposições ao norte e ao oeste convéem melhor á cerejeira, mesmo á maceira e á pereira.
As culturas annuaes que ordinariamente se fazem nos pomares exercem uma influencia poderosa sobre o desenvolvimento e fructificação das arvores.
Póde dizer-se que nenhuma lhe é inoffensiva, porque todas esgotam mais ou menos o terreno e todas evaporam para a atmosphera maior ou menor quantidade de humidade, que na occasião da maturação dos fructos os prejudica e lhes deprecia a qualidade; no entretanto a boa economia aconselha-nos em muitos casos a aproveitar o terreno existente entre as arvores. Se entendermos dever até certo ponto sacrificar um pouco a qualidade dos fructos á producção que este terreno nos póde offerecer, deveremos ao menos escolher o genero de cultura menos prejudicial. Os cereaes, além de serem muito esgotantes téem o grande inconveniente de prolongarem a sua vegetação até á época em que as plantas ordinariamente começam a apresentar os seus fructos, que é quando mais soffrem com a sua presença; por isso devem ser excluidos: as culturas menos prejudiciaes são as que se colhem logo no principio da primavera e principalmente as que se colhem em verde. A melhor applicação que podemos fazer d'estes terrenos é semeal-os d'azevem, no outono, para ser ceifado e cavado na primavera; a cultura da fava e do chicharo tambem é admissivel sendo destinada á colheita em verde.
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Quando o terreno se apresenta inçado de junça, escalracho, ou outras plantas damninhas, é preciso perseguil-as constantemente por meio de cavas repetidas, applicadas antes que estas plantas comecem a florir. Succede que apesar de todas as diligencias muitas vezes não é possivel dar cabo d'ellas; n'estes casos convém asphixial-as, empregando para este fim outra planta que seja ainda mais vivaz do que ellas, nos terrenos de origem granitica; semêa-se com bom resultado o azevem, o joio ou a serradella; nas terras calcareas emprega-se ordinariamente o trevo amarello ou a luzerna; no caso de se empregar a luzerna, ao fim de dous ou tres annos, quando houvermos conseguido o nosso fim, convém destruil-a, lavrando-se reiteradamente a terra; do contrário lançará raizes profundissimas, que podem prejudicar gravemente as arvores.
ALINHAMENTOS
É de maxima conveniencia que as arvores sejam plantadas com ordem, methodo e symetria, guardando entre si distancias eguaes, para as mesmas especies, e perfeitamente alinhadas.
As plantações alinhadas não só téem a vantagem de facilitarem muito melhor todos os trabalhos de cultura, mas offerecem melhores condições á circulação do ar e penetração da luz.
Os alinhamentos podem fazer-se por dous systemas, em quadrado ou em quinquoncio.
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Os alinhamentos em quadrado fazem-se estabelecendo-se uma linha de arvores equidistantes (fig. 64, A B) e estabelecendo-se depois sobre cada arvore plantada outra linha perpendicular á primeira (A C e B D), sendo ainda n'esta linha as arvores plantadas á mesma distancia que ficaram primeiro, como se vê da fig. 64.
Fig. 64
O systema de plantação em quinquoncio é geralmente preferivel e tem vantagens muito notaveis sobre aquelle. O terreno é mais aproveitado, a mesma superficie comporta maior numero de arvores e cada uma gosa exactamente da mesma porção de terreno que as suas visinhas, ficando exactamente equidistantes em todos os sentidos, o que não succede nas plantações em quadrado, pois que a distancia da diagonal A F (fig. 64) é maior do que a da perpendicular A G. Além d'isto as plantações em quinquoncio offerecem melhor vista, porque se apresentam alinhadas em todos os sentidos, seja qual fôr a direcção da vista.
O meio prático de se fazerem as plantações em quinquoncio consiste em se dividir primeiramente o terreno em triangulos equilateros, sendo cada lado egual á distancia que as arvores deverão guardar entre si; fazem-se depois as respectivas covas nos vertices do triangulo.
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O processo para se dividir o terreno em triangulos eguaes equilateros não offerece difficuldade alguma; é tão facil como o que se adopta para a divisão em quadrados.
Estabelece-se primeiramente um alinhamento que deve servir de base (fig. 65, A B); sobre este alinhamento marcam-se as distancias a que se devem plantar as arvores; seja, por exemplo, oito metros: toma-se um cordel que tenha o dobro d'aquelle comprimento, dar-se-ha um nó exactamente ao meio, fixa-se uma extremidade no ponto A, a outra no ponto C, onde deve plantar-se a arvore immediata, estende-se o cordel para o lado, o nó marcará exactamente o ponto D, e assim temos estabelecido o primeiro triangulo equilatero, tendo exactamente oito metros por cada lado, porque a distancia A C foi medida, e as distancias A D, C D são metade da extensão do cordel; pela mesma fórma marcaremos no extremo da linha o ponto F; marcados estes pontos tiram-se os alinhamentos A D K, B F N, E F I, C D P; em seguida não ha mais do que tirar alinhamentos parallelos a estes pelos pontos préviamente marcados na linha que serve de base (A B); no logar do cruzamento das linhas fixa-se uma estaca para marcar o ponto onde as arvores devem ser plantadas.
Vê-se pela fig. 65 que ha uma grande parte de terreno onde aquellas linhas já se não cruzam, nem ha necessidade d'isto; marcados os pontos dos cruzamentos, d'ahi por diante basta marcar as distancias sobre os alinhamentos e ir collocando estacas; necessariamente hão-de coincidir um alinhamento em todos os sentidos.
Se a extensão a plantar é grande, principia-se o trabalho pela fórma indicada; mas acontece que, sendo aquelles alinhamentos em sentido divergente, fica uma porção de terreno por alinhar; não deve isto causar embaraço algum; estabelecidas aquellas linhas pela fórma indicada, é facilimo estabelecer-lhes parallelas equidistantes, e marcal-as em todo o terreno.
Tambem se póde usar de outro systema, com que os jornaleiros se dão melhor e que dispensa a vigilancia de pessoa mais entendida; marcada sobre a linha da base a distancia A C, toma-se um cordel d'aquelle comprimento, fixa-se a extremidade no ponto A e com a outra extremidade descreve-se um arco de circulo; no ponto C faz-se a mesma cousa: marca-se o ponto do cruzamento dos dous arcos, prepara-se uma ripa do comprimento A C, justamente ao meio e em sentido bem perpendicular, prega-se-lhe uma outra ripa em fórma de T, que deve medir a distancia exacta entre o ponto D e o meio da linha A C, e feito isto não ha mais do que adoptar esta cruzeta sobre a linha; a extremidade da ripa pregada ao meio indica a collocação da arvore na segunda linha; formado o segundo alinhamento por este modo, os demais estabelecem-se pelo mesmo processo.
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Fig. 65
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PLANTAÇÃO Á BEIRA DAS ESTRADAS
A plantação de arvoredo ao longo das estradas, além das vantagens que offerece aos viajantes pela sua belleza, sombra e frescura; além da sua utilidade para fixar e consolidar os aterros e taludes, poderia offerecer ao Estado uma importantissima origem de receita, se se olhasse para este serviço com a solicitude que merece.
Especialmente nas regiões do sul de Portugal percorrem-se muitos kilometros de estrada sem se deparar com uma arvore!
Para se obter a maior somma de vantagens n'esta ordem de plantações é indispensavel ter-se em vista um certo numero de condições especiaes; em geral as arvores fructiferas estão excluidas, pela razão muito intuitiva de que a cubiça d'alguns transeuntes lhes causaria graves damnos e mutilações, tentando a colheita prematura dos seus fructos.
Convém adoptar especies que attinjam uma estatura elevada, que sejam de longa duração, que offereçam boa sombra, que resistam quanto possivel ao ataque dos animaes, que não exijam na sua educação cuidados muito minuciosos, e que offereçam o melhor rendimento possivel, que póde ser proveniente de lenhas colhidas nas podas e desbastes, cascas, folhagens, mesmo de madeiras de construcção ou de marcenaria, e até de fructos de algumas especies menos sujeitas á rapacidade dos vadios.
Em alguns districtos téem-se plantado nas estradas, especialmente junto ás povoações, alguns milhares de amoreiras, que já dão alguma receita para o cofre das obras publicas. A amoreira tem a vantagem de offerecer a materia prima para uma industria importantissima; os inconvenientes que esta especie apresenta são compensados pelo seu importantissimo rendimento.
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Estes inconvenientes são: em primeiro logar nunca se fazem arvores de grande porte; para armarem uma copa regular exigem cuidados minuciosos desde a primeira edade, a sua madeira é muito sujeita a rachar e estalar, e para prosperarem exigem terreno de alguma frescura, e substancial.
Quando ha necessidade de se fixarem rampas e aterros, a especie que mais geralmente se emprega é o salgueiro; não é arvore que attinja grandes proporções, arma-se naturalmente em sebe, fechada, e produz longas raizes reptantes, que se entrelaçam na terra, fixando-a solidamente.
O salgueiro dá um rendimento rasoavel pelo seu producto em lenha, e pelas cascas, que são procuradas para usos industriaes e medicinaes.
Uma das especies que presta melhor serviço á arborisação das estradas é o ulmeiro; cresce rapidamente, attinge uma estatura muito elevada, e quando bem tratado apresenta um porte aprumado e elegante, mas exige terreno fresco.
As arvores que mais vulgarmente vemos empregar na arborisação das estradas são differentes variedades da especie populus; de todas a que julgamos mais vantajosa é o populus nigra; cresce approximadamente com a mesma rapidez e até egual altura que o populus alba (28 a 30 metros), e a sua madeira é muito mais forte e valiosa; o populus nivea apresenta a folhagem prateada, de lindo effeito, mas a sua madeira é de pouco valor.
Téem-se ultimamente empregado tambem para o fim de que se trata differentes variedades de eucalyptos. São arvores de um crescimento muito rapido, mas só quando novas apresentam um porte regular e elegante; mais tarde fazem-se tortuosas e esgrouviadas. Não nos parece que a sua utilidade real esteja em harmonia com o enthusiasmo que esta arvore tem causado; tem em verdade alguns merecimentos, entre outros o de crescer com uma rapidez admiravel, as suas cascas e até as folhas terão grande valor, mas até agora, que nos conste, ainda entre nós ninguem conseguiu trocar este valor por um outro tangivel e permutavel.
Sem menospresarmos as diligencias e sacrificios que se hajam feito para introduzirmos arvores exoticas, de valor mais ou menos problematico, parece-nos que o grande e mais importante serviço que as pessoas encarregadas da direcção e administração das estradas publicas poderiam fazer n'este sentido, era multiplicar quanto possivel as especies nossas velhas conhecidas e conterraneas, cujo altissimo valor e rendimento se acha provado pela experiencia de muitos seculos.
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Temos em Portugal tres especies de arvores, eminentemente proprias á arborisação das estradas, que até hoje téem sido despresadas, e que nenhuma outra especie exotica ou indigena poderá talvez exceder em qualidades, valor, belleza, duração, rendimento, etc. São a nogueira, o sovereiro, e a alfarrobeira.
Nas regiões do norte e mesmo no sul, onde o terreno offerecer bom fundo e alguma humidade, nenhuma especie prosperará e dará mais alto rendimento do que a nogueira. É certo que o seu desenvolvimento é bastante moroso, mas se tomarmos cêdo as providencias necessarias, poucos annos depois da sua plantação poderão attingir um porte regular e dar bons productos.
Semeam-se as nogueiras em viveiro, no outono; ao segundo ou terceiro anno transplantam-se no viveiro, ficando então já bastante distanciadas, de 1 metro a 1,50; do 5.º ao 8.º anno plantam-se definitivamente. Ao 6.º ou 7.º anno de viveiro, se o terreno é de boa qualidade já a arvore está bem desenvolvida; fazendo-se-lhe boas cavas, corrigindo-se-lhe o terreno, e applicando-se-lhe os cuidados que vão indicados no capitulo em que tratamos especialmente da sua cultura, tres ou quatro annos depois da plantação poderão as arvores attingir já 2,5 a 3 metros de altura, e terão um tronco approximadamente de 12 a 14 centimetros de diametro.
A sovereira póde prosperar quasi sem excepção em todos os terrenos; vemol-a vegetar regularmente sobre os schistos aridos e nús, sobre o granito, e nos terrenos calcareos; por toda a parte affronta os calores e prolongadas sêccas, offerecendo-nos sempre copiosissimo rendimento.
Para a arborisação das estradas offerece-nos esta arvore uma preciosa qualidade, é a propriedade que ella tem de resistir ás offensas dos animaes, cujo dente destroe muitas vezes as outras especies; esta tem a sua capa de cortiça, onde os animaes embotariam os dentes; por isso a respeitam.
Ha em algumas terras um prejuizo no vulgo de que sovereiras e alfarrobeiras só haverá as que a Providencia quizer dar, isto é, que só poderemos ter as que o solo produz expontaneamente.
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A causa d'este prejuizo é que, em verdade, a sementeira d'estas especies, se não empregarmos certos cuidados e artificios é extremamente fallivel e contingente, e se algumas nascem e vingam, rarissimas vezes resistem á transplantação.
Não é possivel suppôr-se que a nudez das nossas estradas nas provincias do sul seja motivada por taes prejuizos. Outras razões ha decerto para que aquellas estradas se não achem todas guarnecidas de sovereiras. Os individuos a cujo cargo está este serviço, certamente sabem como a sovereira se obtem muito facilmente de semente, e se faz com muita segurança a sua transplantação; no capitulo especial que dedicamos ao estudo da sua reproducção e cultura trataremos d'este assumpto. Nas plantações á beira das estradas apenas ha a attender á conveniencia de se plantarem arvores já bastante desenvolvidas; por isso se lhes deverão fazer covas muito largas e profundas, e não haja receio de que as arvores morram por serem já crescidas; com relação á sovereira, se lhe cortarmos perfeitamente toda a folhagem e extrahirmos a cortiça na parte que fica enterrada, havendo cuidado em se não mutilarem as raizes, hão-de vingar; só uma sêcca excessiva e prolongada poderia comprometter o bom exito da operação, e n'este caso a applicação de algumas regas basta para nos assegurar a sua vida.
A alfarrobeira é mais propria ás regiões do sul.
Em Portugal a sua exploração é limitada sómente á provincia do Algarve.
Parece-nos todavia que a sua cultura se poderia estender muito mais ao norte; temos visto alfarrobeiras isoladas até no districto de Vizeu, mas não dão fructo.
Como é uma arvore dioica, talvez seja esteril alli por não ter nas visinhanças individuo de outro sexo; mesmo no Algarve, para que a alfarrobeira fructifique regularmente é indispensavel enxertal-a, e que sobre cada individuo se implante um ou mais enxertos de sexo differente; os proprios jornaleiros analphabetos, que nada sabem de sexos nem de fecundação das plantas, na sua linguagem figurada, mas que tão rigorosamente exprime as suas ideias, e ás vezes traduz pensamentos de profunda sabedoria, chamam ás alfarrobeiras estereis alfarrobeiros; implantam-lhe um ou mais enxertos de outro individuo fructifero e d'este modo approximam os dous sexos.
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Ácerca da reproducção da alfarrobeira tambem existem os mesmos prejuizos; diz-se que não nasce senão expontanea, ou quando a semente haja préviamente passado pelo intestino do gado. A semente da alfarrobeira germina e nasce perfeitamente; para isso é preciso têl-a de môlho durante tres ou quatro dias n'uma lixivia feita de agua com cinzas e excretos de boi.
Semêa-se em vasos ou em viveiros; só depois do 4.º anno se deverá plantar na sua morada definitiva, quando já esteja provida de boas raizes lateraes; na occasião da plantação devem ser supprimidas todas as folhas, cortado o gavião da raiz e muito poupadas as raizes lateraes.
Por se desprezarem geralmente estes preceitos é que se diz que a alfarrobeira não resiste á transplantação.
O tratamento das arvores das estradas acha-se a cargo dos respectivos cantoneiros; seria de grande utilidade que os seus superiores lhes dessem ou mandassem dar algumas breves lições de arboricultura, para ao menos no futuro se cuidar com mais intelligencia d'este importantissimo ramo de serviço. Actualmente a maior parte das arvores soffrem tratos crueis: esgalhadas sem methodo, apresentam logo na edade nova ulceras profundas no tronco, e em geral desenvolvem uma copa irregular e desequilibrada.
ABRIGOS
As arvores fructiferas quando açoutadas pelos ventos desenvolvem-se mal, o seu tronco e ramos tornam-se tortuosos e pendidos para o lado opposto d'onde o vento é mais frequente; além disso, quando no principio da primavera começam a desabotoar, a maior parte das flôres é destruida e a que escapa não póde ser convenientemente fecundada, por isso não dá fructo. Nas localidades expostas a ventanias é indispensavel abrigal-as.
O melhor abrigo é uma boa parede de 2 1/2 ou 3 metros de altura; o seu custo é muito elevado, mas o rendimento de um bom pomar recompensa este sacrificio, attendendo-se a que estas paredes servem tambem para a armação de latadas.
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Os abrigos mais economicos são os que se fazem com vegetaes proprios a este fim.
O que hoje se emprega com melhor resultado é o pittosporus; fórma sebes, muito solidas e de bonito effeito.
A romeira poderia empregar-se vantajosamente para o mesmo fim, educando-se convenientemente; esta arvore ramifica-se logo desde a base do tronco; fazendo-se a plantação apenas distanciada 1 metro, ao fim de 3 ou 4 annos já os seus ramos lateraes se entrelaçam, e com o decorrer do tempo fazem sebe cerrada, que póde attingir uma grande altura e resiste muito bem aos ventos.
Em certas circumstancias é indispensavel crear-se um abrigo immediatamente; não é possivel esperar-se que o pittosporus ou as romeiras se desenvolvam; n'este caso convém arranjar plantas que cresçam rapidamente, e que logo no primeiro anno satisfaçam ao seu fim. N'estes casos emprega-se geralmente o canavial; no mesmo anno da sua plantação cresce a altura necessaria. Tambem se emprega especialmente para abrigar viveiros o milho sorgha (holcus sorghum); cresce approximadamente até 2 metros, dá um rendimento rasoavel, mas é necessario reproduzil-o todos os annos, e não póde preencher o seu fim senão durante uma certa época do anno; no inverno ficam as arvores desabrigadas, mas tambem n'esse tempo estão ellas sem folhas, offerecem menor superficie á acção dos ventos, e estes não são tão prejudiciaes como mais tarde durante a primavera e estio.
O uso de abrigos sêccos, formados de ramos entrelaçados, canas, etc., parece-nos inconveniente; todos os annos exigem grandes concertos, dispendiosos, e são de pessimo effeito nos pomares, e não poucas vezes, se não forem estabelecidos mui solidamente, são derrubados pelo vento.
ESTUFAS
As plantas fructiferas geralmente cultivadas economicamente em Portugal vivem perfeitamente ao ar livre; basta-lhes o calor natural do clima para fructificarem optimamente. Mas já nos Açores se cultivam alguns fructos de estufa, que dão avultadissimo lucro aos seus exploradores. Parece-nos que tambem em algumas localidades do continente poderiamos tentar esta industria como negocio de grande interesse; os resultados que alguns curiosos téem colhido deveriam animar-nos a uma tentativa industrial.
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O fructo de estufa que em Portugal poderia offerecer maior lucro é o ananaz; o mercado inglez pede-o e consomme-o em grande escala, e paga-o de 6 até 10 schilings cada um.
Fazem-se estufas por dous systemas: aquecidas a fogo, por meio de uma lerna-siphão, que recebe o calor d'um qualquer foco calorifero e o distribue no interior da estufa por um encanamento de tubos de barro; ou sómente aquecidas por meio de rescaldos.
Estas são muito mais economicas e apropriadas ao fim que se pretende.
Uma estufa é simplesmente um espaço qualquer de terreno, coberto e abrigado por caixilhos envidraçados; no seu interior fazem-se alegretes ou platebandas de tijolo, de 1 metro de altura, no fundo lança-se uma camada de excretos de cavallo, frescos, misturados com folhas sêccas; sobre esta camada lança-se outra de entrecasco de carvalho, misturado com uma porção de terra arenosa, tomam-se os vasos de barro que forem necessarios, enchem-se de boa terra um pouco arenosa e copiosamente estrumada, e enterram-se n'aquella cama.
Nas noites frias devem-se cobrir as estufas com esteirões ou colmos, de modo que a temperatura não desça abaixo de 20 graus centigrados; no estio deverão abrir-se as vidraças quando no interior a temperatura exceda a 40 graus.
Como se vê, em todo o caso o estabelecimento de estufas é dispendioso, mas o elevadissimo preço dos fructos compensa largamente esta despeza; pelo menos nos Açores tem dado lucros extraordinarios; parece-nos que em Portugal, especialmente no Algarve, tambem os deverá dar. Uma estufa quadrada de 20 metros de lado póde muito bem produzir 400 a 500 ananazes.
As camas formadas pelo modo indicado, de excretos de cavallo e entrecasco de carvalho, renovam-se de tempos a tempos, quando se vê que já não produzem uma temperatura conveniente.
Fazem-se pequenas estufas ou camas quentes por um modo muito economico, com caixões de madeira, aos quaes se adapta uma tampa envidraçada; colloca-se-lhe o rescaldo no fundo, como nas estufas ordinarias, as tampas deverão ser construidas de modo que se possam elevar e abaixar á vontade, conforme as necessidades da planta e as exigencias da temperatura.
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SEBES E CERCAS
As cercas ou sebes servem para resguardar e circumscrever as propriedades ruraes, ou para formar divisões no seu interior; deverão ter espessura e elevação sufficientes para que possam obstar á entrada dos animaes damninhos (racionaes e irracionaes). Deverão ser formadas por arvores ou arbustos muito vivazes, que não exijam um tratamento muito minucioso e constante.
Nas provincias do norte emprega-se geralmente para aquelle fim a silva; póde formar certamente um bom resguardo, mas tem o inconveniente de não attingir grande altura, e não dar rendimento, a não ser o que provém do aproveitamento de alguma lenha para fornos.
Nas regiões do sul as cercas mais vulgarisadas são de piteira ou de figueira da India.
A piteira dá como producto uma fibra textil de grande tenacidade, que se extrahe das folhas e que se utilisa para o fabrico de cordas e tecidos diversos; no Algarve offerece a materia prima para algumas industrias domesticas, que poderiam tomar grande importancia se os seus productos fossem mais conhecidos, e se houvesse habilidade para os recommendar e fazer valer nos mercados.
A figueira da India cresce expontanea nas nossas provincias do sul; poderia prosperar perfeitamente em todo o paiz, sómente com excepção de algumas localidades onde os invernos são mais rigorosos e prolongados; fórma uma excellente cerca, e dá productos de consideravel valor. O snr. Dubreuil, citando o conde Gasparin diz que o seu fructo, o manná providencial da Sicilia, é para esta região o mesmo que a banana para as regiões equatoriaes; entre nós não se lhe dá grande valor, não sabemos porque motivo, pois que o seu sabor é agradavel, e o seu valor nutritivo é importante. Todos os animaes comem com prazer, não só os fructos mas até as folhas d'esta planta, mas é necessario préviamente tirar-lhes os innumeraveis e finissimos espinhos que as revestem, friccionando-as com um panno grosso.
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A reproducção da figueira da India é facilima: corta-se um ramo qualquer, e planta-se em qualquer tempo; em breve adquire raizes; mesmo nos terrenos mais aridos, e sobre as penedias, prospera admiravelmente; comtudo a melhor época para a sua plantação, nas regiões muito sêccas, é no outono.
Quando se planta a figueira da India com o fim de formar cerca, ordinariamente forma-se um muro de terra que circumscreva a propriedade; é na crista e nos taludes d'este muro que se faz a plantação, pela fórma indicada. Se a estação corre extremamente sêcca, dão-se-lhe duas ou tres regas, e d'ahi por diante não ha necessidade de empregar mais cuidado algum; vive, desenvolve-se e fructifica sem necessidade de cultura.
Nos Açores ha muito tempo que se adopta geralmente para a formação de sebes vivas o pittosporus, já muito conhecido e tambem adoptado nas cercanias de Lisboa; dentro de 4 a 5 annos fórma uma cerca bastante elevada e forte.
Para o clima do sul de Portugal as cercas que julgamos mais vantajosas, pela sua belleza, robustez, e pelo valioso rendimento que produzem são as de romeiras. Crescem estas arvores rapidamente até á altura de 5 a 6 metros, ramificam-se consideravelmente logo desde a base, e sendo plantadas a pequena distancia entrelaçam os seus ramos, formando uma sebe impenetravel; conservam a folhagem por muito tempo, cobrem-se de lindas flôres e dão um fructo precioso, quando se escolham as melhores variedades.
A amoreira multicaule tambem se póde adoptar proveitosamente para o mesmo fim sendo plantada e tratada convenientemente.
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