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Manual de Arboricultura/Formação

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FORMAÇÃO DAS ARVORES

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A formação e direcção do esqueleto das arvores fructiferas reclama uma serie de operações que devem merecer ao arboricultor assiduos e intelligentes cuidados.

É da boa direcção das arvores, da regularidade e justo equilibrio das suas ramificações que depende todo o seu futuro.

Se as deixarmos crescer e desenvolver a seu capricho e sem educação, desenvolverão uma grande quantidade de ramos, pela maior parte inuteis, muitas vezes desequilibrados em direcções inconvenientes, prejudicando-se mutuamente, de modo que nem a seiva se poderá distribuir regularmente por toda a arvore, nem o ar e a luz poderão penetrar no seu interior, como é mister.

É logo no viveiro, na edade nova, que deveremos principiar a educar as arvores, segundo a direcção e fórma que pretendermos que ellas venham a tomar, e conforme o destino que houvermos de dar-lhes.

As arvores fructiferas podem ser destinadas a viver isoladamente, a formar pomares ou vergeis, a formar linhas e bordaduras em torno das terras cultivadas, á beira dos caminhos, a formar cordões, sebes, e vestir muros, ornar jardins, formar caramanchões, etc.

Conforme fôr o seu destino, assim teremos de as educar apropriadamente.

Para a formação de pomares e vergeis convirá sempre obtermos arvores robustas que attinjam grande porte, que não exijam cuidados minuciosos; para este fim preferem-se sempre as arvores d'alto fuste ou copa alta.

Para as plantações em linhas, no nosso clima, ainda nos casos mais geraes serão arvores d'aquelle porte que nos convirá adoptar, mas em muitas circumstancias poderá já haver conveniencia em se adoptarem fórmas mais modestas, copa mediana ou baixa, pyramides, cordões, etc.

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Para sabermos dirigir o desenvolvimento e formação das arvores fructiferas, precisamos em primeiro logar distinguir e classificar as partes que as devem constituir, e conhecer os differentes fins que cada uma d'ellas tem de satisfazer.

Já temos algumas noções ácerca da structura e funcções dos orgãos constitutivos das arvores, debaixo do ponto de vista anatomico e physiologico. Agora temos de estudar qual a conformação e educação que mais lhes convém, debaixo do ponto de vista economico, no sentido de obtermos o melhor e mais abundante producto.

Nas arvores fructiferas temos a distinguir duas ordens de producções lenhosas, cujos destinos são inteiramente distinctos, e que por isso requerem cuidados e tratamento mui diverso.

Temos em primeiro logar o tronco, as arrancas (ramos primarios), os braços (ramos secundarios), e ás vezes ramos terciarios, etc., que formam o esqueleto da arvore.

Em segundo logar temos o conjuncto de ramos destinados á producção fructifera, que são de differentes classes e cathegorias.

O esqueleto da arvore serve tamsómente como supporte d'este segundo grupo; a sua missão consiste em distribuir-lhe regularmente a seiva absorvida da terra.

Nas primeiras edades da planta é essencialmente sobre a formação do seu esqueleto que devem convergir os nossos cuidados.

Qualquer que seja a fórma que pretendamos dar-lhe, é indispensavel que ella seja sempre symetrica, isto é, que as arrancas se disponham regularmente em volta do tronco, de egual fórma e dimensões, e do mesmo modo todas as ramificações se disponham com regularidade e em equilibrio.

Não é sómente pelo prazer de obtermos uma arvore elegante que estes cuidados se reclamam, é principalmente para obtermos uma arvore sadia, productiva e de longa duração.

Quando um ramo do esqueleto se desenvolve com energia superior á dos seus parceiros, perturba-se o equilibrio da vegetação; este produz muita folhagem e varedo, os seus visinhos definham, e se produzem abundante fructo é pêco e desmedrado.

Chegada a arvore á edade adulta, limitam-se os nossos cuidados, com relação ao esqueleto, em trazêl-o sempre em perfeito estado de asseio, limpando-o dos lichens e parasitas, e de todos os ramos adventicios que sobre elle rebentem.

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Sómente deveremos conservar algum d'estes rebentos adventicios quando algum dos ramos da segunda cathegoria que lhe seja visinho, por causa de doença, velhice ou qualquer accidente reclame ser substituido. N'este caso será aquelle poupado, a fim de servir a seu tempo como substituto.

Na segunda cathegoria temos a distinguir primeiro os ramos que, comquanto não fructifiquem elles proprios, deverão produzir os ramusculos que hão-de fornecer a novidade do anno.

Ha varias especies vegetaes que não produzem fructo senão nos raminhos novos nascidos no mesmo anno, e estes, fructificando uma vez, nunca mais tornam a fructificar. Estes raminhos para darem fructo regular hão-de provir d'uma gemma normal; se provierem d'uma gemma adventicia, das que ás vezes se produzem nas arrancas e braços do esqueleto, serão estereis; por isso n'estas especies teremos de sustentar sobre os ramos do esqueleto outros que estejam em circumstancias de produzir gemmas normaes, d'onde devem partir os ramusculos fructiferos.

A estes ramos intermediarios entre os do esqueleto e os fructiferos chamam os francezes coursonnes; nós poderiamos chamar-lhes fiadores, porque são elles que nos servem de fiança e garantia da producção do anno.

Para melhor fixarmos estas ideias tomaremos como exemplo a videira.

É sabido que este arbusto não produz fructo senão nos rebentos novos do anno; tambem se sabe que os rebentos novos que nascem sobre o esqueleto (cepa e braços) são ordinariamente estereis; os que são verdadeiramente productivos são os que nascem sobre as varas formadas no anno antecedente. Posto isto, é evidente que além do esqueleto é indispensavel que a videira contenha uma ou mais varas de dous annos, de maior ou menor dimensão, segundo as circumstancias, de cujas gemmas hão-de nascer os ramos fructiferos. São estas varas de dous annos que na cepa téem o nome de varas de fructo, esperas, pollegares, etc., que nós, generalisando a outras especies, chamaremos fiadores.

Em algumas especies os ramos fructiferos partem directamente do esqueleto; não existem pois estes intermediarios. A pereira, por exemplo, está n'este caso.

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RAMOS FRUCTIFEROS

Fig. 20

Fig. 21

Os ramos fructiferos são de differentes especies; os que mais convém distinguir são: 1.º Bolsas, pequenos ramos curtos, bojudos e rugosos (fig. 20), ordinariamente muito productivos; mais tarde vão-se ramificando e tomam então o nome de pinhas (fig. 21) e dão fructos por muitos annos successivamente. 2.º Ramos capilares, são raminhos curtos de 0,05 a 0,1 de comprimento, ponteagudos (fig. 22); passam dous ou tres annos sem fructificar, mas depois perdem a ponta, desenvolvem gemmas floriferas bem conformadas e dão excellente fructo. 3.º Ramos doudos, são delgados e compridos, attingem 0,30 a 0,50 (fig. 23); téem as gemmas muito distanciadas entre si, costumam mostrar muitas flôres e fructos, mas poucos chegam a sazonar. 4.º Ramos mixtos, apresentam-se fortes, viçosos e compridos, guarnecidos de gemmas foliares até metade do seu comprimento e só d'ahi para cima é que apresentam gemmas floriferas, que não chegam nunca a produzir expontaneamente fructo grado e bem sazonado; para os forçarmos a isto é preciso cortar-lhes a extremidade (fig. 24).

Fig. 22

Fig. 23

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Fig. 24

RAMOS FOLIARES

As gemmas adventicias que se desenvolvem no esqueleto das arvores dão logar á producção de ramos estereis, que absorvendo grande cópia de seiva crescem e medram consideravelmente, defraudando os ramos fructiferos que lhes ficam proximos; por isso com muita propriedade são chamados ladrões; distinguem-se perfeitamente pelo seu viço e vigor exagerados, apresentam-se direitos e aprumados, de côr luzidia, olhos pequenos e afastados. É preciso perseguil-os e aniquilal-os onde quer que appareçam; sómente quando por velhas ou doentes as arvores precisem ser decotadas, ou seja necessario cortar-lhes algum ramo do esqueleto, deveremos poupar algum que se apresente em situação e condições proprias para o substituir.

Já sabemos que as gemmas normaes formam-se n'um anno, e só no anno seguinte é que se desenvolvem em ramos ou fructos, mas succede ás vezes que uma gemma se desenvolve no mesmo anno em que nasceu; n'este caso produz sempre um ramo esteril; estes são chamados ramos anticipados.

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Alguns tratados d'arboricultura tratam ainda de mais duas especies de ramos foliares, a que dão os nomes de bastardos e legitimos.

Os bastardos provéem de gemmas adventicias, mas apresentam os caracteres que distinguem os ladrões; téem os olhos mais approximados e não são tão vigorosos e aprumados; os legitimos provéem de gemmas normaes. Tanto uns como outros podem transformar-se em ramos fructiferos, applicando-lhes o tratamento proprio, que consiste em expontal-os, quebral-os ou torcel-os a maior ou menor altura. Em outra parte estudaremos mais detidamente esta prática.

PODAS

A poda das arvores fructiferas tem por fim:

1.º Dar-lhes uma fórma symetrica, de modo que os seus ramos sejam egual e regularmente alimentados e beneficiados pela acção do ar e da luz;

2.º Promover uma fructificação annual regular, evitando-se as intermittencias d'abundancia e d'escassez que se dão nas arvores abandonadas aos seus instinctos;

3.º Auxiliar a formação de fructos melhores e mais volumosos do que seriam sem este tratamento.

Para se conseguirem estes resultados é indispensavel que o arboricultor tenha pleno conhecimento da structura das arvores e dos differentes fins, que os seus diversos orgãos téem a satisfazer.

Aquelle que ignorar os fins e destino das suas differentes producções fará bem em deixal-as em paz. É preferivel abandonal-as ao seu capricho do que mutilal-as irracionalmente, sacrificando-lhes o fructo e compromettendo a sua existencia.

É certo que as podas, por mais bem dirigidas que sejam, abreviam os dias de vida ás arvores. Os córtes repetidos contrariam-lhes o natural desenvolvimento, provocam-lhes uma velhice anticipada, mas o valor e abundancia dos fructos compensam de sobejo este inconveniente.

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Se as podas não forem dirigidas com discernimento, privar-nos-hemos de todas as vantagens que ellas nos poderiam dar e soffreremos todos os seus inconvenientes.

Antes de entrarmos no estudo prático das differentes operações de poda, necessarias á boa educação e fructificação das arvores, convém fixarmos um certo numero de principios fundamentaes que o arboricultor deverá ter sempre bem presentes.

CÓRTES

É indispensavel que os córtes sejam sempre bem lizos e nitidos, de fórma que a agua das chuvas, e a humidade atmospherica que alli se deposita em pequenas gottas, possa escoar-se, e não se introduza no interior do lenho.

Nas arvores de lenho duro, os córtes devem fazer-se logo ao pé d'uma gemma, pela parte superior a ella (fig. 25).

Fig. 25

Fig. 26

Nas especies de lenho celluloso e frouxo, que tem a medulla grossa, o córte deverá ser um pouco mais afastado.

Os córtes não devem ser perpendiculares ao eixo dos ramos, mas sim um pouco obliquos, como se vê da fig. 25.

Quando se supprimirem totalmente alguns ramos, é um gravissimo erro deixar-lhes cotos; devem ser nitidamente cortados pela base, junto ao tronco ou ás arrancas d'onde nasceram, como se vê da fig. 26.

É um costume geral, mas altamente censuravel e inconveniente, deixarem-se estes cotos ou tornos; pelo decorrer do tempo seccam e apodrecem, levando a podridão e a morte ao interior da arvore; a prática que usualmente se segue dá muitas vezes o resultado do que se observa na fig. 27. Operando-se os córtes conforme se vê da fig. 26, a ferida cicatrisa facilmente e em pouco tempo.

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Fig. 27

Quando os ramos já téem uma certa grossura, que se não podem cortar facilmente com o podão, emprega-se o serrote; mas n'este caso é absolutamente indispensavel alisar a ferida com um instrumento cortante afiado, e será utilissimo cobril-a com o unguento d'enxertar, cuja composição vae adiante indicada.

FERRAMENTAS

Os instrumentos mais geralmente usados para podar são o podão e a podôa; as suas fórmas e feitios são muito variados, segundo a moda e o capricho de cada região; nas provincias do Minho, Beira e Traz-os-Montes, usa-se geralmente a podôa indicada na fig. 28, sem exclusão, comtudo, do pequeno podão (fig. 29). No termo de Lisboa usa-se, muito especialmente na poda da vinha, o podão (fig. 30). Este ultimo tem vantagem sobre os outros de se poderem cortar com elle ramos já bastante grossos, com muita facilidade, sem ser necessario recorrer ao serrote, mas sendo manejado por mãos pouco destras torna-se perigoso, por muitas vezes ir cortar e destruir ramos que deviam ser conservados.

Fig. 28

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Fig. 29

No nosso entender todos os instrumentos são bons quando andem cuidadosamente afiados e os podadores os saibam manejar; um habilissimo podador do Douro ver-se-hia em grande embaraço quando tivesse de podar com o podão usado em Lisboa; o mesmo succederia a este quando tivesse de trabalhar com uma ferramenta desconhecida.

Fig. 30

Ha alguns annos que se começou a introduzir na prática das podas a thesoura de molas (fig. 31), a que se dá o nome de secador. É um instrumento de grande vantagem para os amadores e principiantes que não podéram ainda adquirir a habilidade manual indispensavel para manejarem bem o podão; com a thesoura corta-se rigorosamente o ramo no ponto que se quer, sem risco de se ferir ou cortar accidentalmente outro ramo visinho, ou o que é peior, algum dedo do podador; o que não poucas vezes succede aos principiantes, quando se servem d'outras ferramentas. Os córtes feitos á thesoura nunca são bem lisos, e sempre magoam mais ou menos a planta; no entretanto, quando, por exemplo, ha grandes vinhedos a podar e poucos operarios habeis n'este serviço, convém de preferencia adoptar a thesoura; com ella qualquer jornaleiro póde ser um podador, basta para isto dar-lhe algumas explicações, e assim pouparemos muitas varas fructiferas, que decerto seriam involuntariamente destruidas se lhe confiassemos o podão.

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Fig. 31

Fig. 32

Quando é necessario supprimir alguns ramos grossos, é conveniente fazer-lhes primeiro um entalhe pela parte inferior (fig. 32), para se evitar que estalem, rachem e dilacerem a arvore.

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N'estes casos, faz-se uso do serrote, que diversifica dos serrotes de mão usuaes unicamente em dever ser muito bem travado e de dentes dobrados. Para se alizarem as asperezas do córte póde empregar-se um formão bem afiado.

PODAS CURTAS E LONGAS

Quando uma arvore é fraca em todas as suas partes, as podas que se lhe fizerem devem ser geralmente curtas; ao contrário, nas arvores vigorosas as podas deverão ser longas.

Comprehende-se que as arvores fracas, fazendo-se-lhes podas longas, isto é, deixando-se-lhes longas varas, estas ficariam com grande numero de gemmas fracas, que se desenvolveriam mal, e poucos e maus fructos poderiam produzir; se lhes fizermos uma poda curta, as gemmas ficam reduzidas a menor numero, a seiva absorvida pelas raizes convergirá toda para ellas, os novos rebentos virão muito mais fortes e a fructificação será mais grada e vingará.

Nas arvores vigorosas não ha receio de se lhes deixar maior quantidade de gemmas; todas poderão alimentar-se e desenvolver-se convenientemente.

Quando um ramo foliar se apresenta debil, e convier robustecel-o, deixa-se longo; ao contrário, se um ramo se apresenta muito forte, e convier moderar-lhe o vigor, poda-se curto.

O ramo longo fortifica-se e engrossa, porque creando folhas em todo o seu comprimento, estas vão attrahindo e elaborando seiva para o alimentar.

Estes principios não téem applicação aos ramos fructiferos; n'estes as cousas passam-se d'outro modo. A seiva elaborada pelas folhas vae a maior parte em beneficio dos fructos; por isso o ramo nada ganhará em ficar longo, porque a seiva que prepara não é para elle, é para fornecer aos fructos que supporta.

Sobre os ramos fortes podem conservar-se muitos orgãos fructiferos; aos ramos fracos deve supprimir-se a maior parte d'elles.

Os fructos são orgãos exgotantes; se os deixarmos em grande numero sobre ramos fracos nunca poderão medrar e adquirir grande valor, e prejudicarão gravemente o vigor e saude da arvore.

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Em geral attende-se pouco a esta circumstancia, colhem-se os fructos bons ou maus onde apparecem, sem attenção alguma com a producção futura.

A boa prática manda que se alliviem os ramos fracos da maior parte dos fructos que apresentarem; por este modo os que ficam adquirem muito maior volume, e evita-se o excessivo extenuamento, não só d'aquelle ramo, mas de toda a arvore, poupando-se-lhe assim a força productiva para os annos subsequentes.

As gemmas situadas junto á extremidade dos ramos desenvolvem-se sempre com maior vigor do que as que ficam na parte inferior. A seiva, afluindo com mais força á ponta dos ramos, auxilia com maior energia o desenvolvimento das gemmas alli situadas, em prejuizo das inferiores, que muitas vezes por esta causa ficam atrophiadas; para que os ramos se apresentem guarnecidos desde a base é indispensavel podal-os, torcer-lhes ou quebrar-lhes a extremidade.

Quanto mais facil e rapida é a circulação da seiva, maior será o viço da arvore, maior a producção de folhagens e productos lenhosos, mas mais diminuta e inferior será a producção dos fructos.

É assim que nós vemos os ramos mais vigorosos e aprumados desprovidos de fructo, emquanto que os mais tortos e nodosos são os mais productivos.

Os obstaculos que a seiva encontra no seu trajecto, obrigando-a a demorar-se, fazem com que se concentre e se adapte melhor á formação dos fructos.

PODAS DE FORMAÇÃO

Sabemos que as arvores devem receber logo na primeira edade uma educação apropriada aos fins que téem de preencher.

Alguns arboricultores, com o fim de favorecerem o desenvolvimento do caule, logo no viveiro despojam as arvoresinhas de todos os seus ramos lateraes; outros entendem que n'esta edade convém principalmente favorecer o desenvolvimento e multiplicação das raizes, por isso não lhes tocam, deixam-as ramificar á vontade, porque, é sabido que quanto mais numerosas e fortes forem estas ramificações, mais forte e abundante será o raizame.

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Qualquer d'estas práticas é defeituosa.

Se despojarmos a planta de todas as suas ramificações lateraes, o caule crescerá em altura rapidamente, mas ficará muito delgado e fraco, e o systema radicular tomará pouco desenvolvimento; se a deixarmos ramificar sem correcção, alguns dos ramos lateraes podem exceder em vigor a haste principal, transtornando a direcção d'ella, resultando formar-se um tronco tortuoso e cheio de nós.

A boa prática manda que aquellas ramificações se conservem, mas que sobre ellas haja vigilancia, cortando-se metade até tres quartos do seu comprimento áquellas que se apresentarem mais vigorosas, de modo a conservar-se sempre a preponderancia da haste principal, havendo toda a attenção em que se mantenha sempre bem direita e vertical.

Fig. 33

Deve ter-se em vista que, o que melhor convém, é que as arvoresinhas se apresentem bem guarnecidas de numerosos ramos lateraes, mas que sejam delgados e fracos, que auxiliem a nutrição aéria da planta, sem comtudo desviarem da haste principal uma grande quantidade de seiva, em proveito proprio, e não deixem grande ferida no tronco quando a final tiverem de ser cortados.

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Quando mais tarde as plantas apresentam uma certa robustez e grossura, que o tronco se acha já bem conformado e forte, deveremos começar a supprimir os seus ramos lateraes, cortando-os rentes ao tronco, começando pelos mais grossos e mais baixos.

Se são destinadas a formar arvores d'alto porte, ao 4.º ou 5.º anno todas as suas ramificações lateraes serão supprimidas até á altura de 2m,50, pouco mais ou menos; corta-se tambem a extremidade da haste principal; a arvore deverá então apresentar o aspecto da fig. 33; a este tempo deverá estar em condições proprias para dever ser enxertada.

Fig. 34

Fig. 35

Os processos de enxertia devem variar segundo as especies e as circumstancias; vão descriptos em outro lugar.

O desenvolvimento dos enxertos deve merecer toda a attenção, para que a arvore venha a formar uma copa regular e symetrica; não se lhe devem deixar crescer mais de quatro ramificações; se deitar maior numero de lançamentos escolhem-se apenas tres ou quatro, que estejam em symetria e bem espaçados; os mais devem ser sacrificados: para isto durante o estio torce-se-lhes a extremidade, e no inverno cortam-se rentes. É indispensavel observar-se que os lançamentos reservados conservem egual força e desenvolvimento; se algum se tornar preponderante e excessivamente vigoroso, convém moderar-lhe a força, torcendo-se-lhe a extremidade herbacea.

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Fig. 36

No inverno seguinte os ramos conservados deverão ser cortados a 0,20 a 0,25 de comprimento, devendo observar-se que apresentem na extremidade, junto ao córte, duas gemmas bem situadas para fornecerem os ramos secundarios do anno seguinte. As gemmas que se apresentarem na base e axilla do ramo devem cegar-se; d'este modo, na primavera, cada ramo desenvolverá dous vigorosos lançamentos symetricos; a esse tempo a arvore deverá apresentar o aspecto da fig. 34; a fig. 35 mostra a disposição e ordem das suas ramificações, vistas em plano.

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No inverno seguinte applica-se a estes novos lançamentos nascidos na primavera anterior o mesmo tratamento que se fez aos primeiros, isto é, cortam-se tambem, mas um pouco mais longos, que fiquem de 0,25 a 0,35 de comprimento, e cegam-se-lhes os olhos da base, a fim de se favorecerem os que ficam á ponta, que deverão produzir dous lançamentos symetricos; a esse tempo a arvore deverá apresentar a disposição que se vê da fig. 36; a fig. 37 mostra as suas ramificações, vistas em plano.

Fig. 37

Desde que a arvore se acha assim formada, apresentando tres ou quatro arrancas principaes e seis ou oito ramos secundarios, nada mais ha a fazer senão conservar a sua symetria e boa ordem.

Dissemos que no viveiro se deveria ter feito uma escolha e classificação das plantas, destinando-se as melhores e mais desenvolvidas á formação d'arvores de copa alta. É a estas essencialmente que se applicam todas as considerações e indicações que acabamos de apresentar.

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Com relação ás plantas menos desenvolvidas, que apresentarem um caule mais fraco e irregular, procederemos de outro modo: estas serão destinadas a formar arvores de menores dimensões, copas medianas ou baixas, pyramides, espaldeiras, sarças, etc.

Um anno depois de transplantadas no viveiro, decepam-se a 0,1 acima do collo da raiz, ficando apenas dous ou tres olhos fóra da terra.

Esta operação não póde comtudo applicar-se indistinctamente a todas as especies; as que téem um lenho muito duro, difficeis de rebentar, não a supportam; do mesmo modo as coniferas não lhe resistem.

Alguns arboricultores aconselham que se faça esta operação sómente dous annos depois da transplantação, outros dizem que convém fazel-a no mesmo anno em que a arvore se transplanta.

A experiencia tem-nos demonstrado que ordinariamente a arvore supporta facilmente esta mutilação no anno seguinte ao da transplantação; não achamos razões que justifiquem a espera de dous annos, no entretanto as arvores já muito crescidas, cujas raizes tenham soffrido grandes córtes na transplantação, podem decepar-se logo n'essa occasião; a razão d'isto não é difficil de conhecer.

As plantas novas e tenras n'um anno téem tempo sufficiente para poderem tomar posse do terreno e entrarem n'uma vegetação normal; por isso, n'estas circumstancias, já resistem muito bem a este tratamento.

As mais idosas, por maior cuidado que haja na sua transplantação sempre se lhes destroe uma grande parte das raizes; já sabemos que n'esta occasião o systema ramifero deve ser sacrificado em proporção com os córtes que as raizes soffrerem; por isso, é claro que n'estas circumstancias poderão soffrer córtes mais rigorosos e até a decepagem.

A época mais propria para se effectuar esta operação é o fim do inverno. Na primavera os olhos que ficaram fóra da terra desenvolvem-se e produzem lançamentos; escolhe-se o mais vigoroso e direito, preferindo, em egualdade de circumstancias, o que nasce mais proximo da terra; ata-se ao coto que ficou do caule primitivo, mantendo-se por este modo em posição bem vertical (fig. 38); cortam-se os outros, no inverno seguinte, corta-se o coto da haste primitiva no ponto - a - e assim teremos formado á arvore um novo caule, direito, forte e vivaz, apto para ser enxertado pela fórma e systema que melhor convier, segundo a especie e as circumstancias.

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Fig. 38

Se a arvore fôr destinada a formar copa mediana ou baixa, todas as indicações que apresentamos com respeito á formação e direcção das arrancas e ramos secundarios nas arvores de copa alta lhes são applicaveis; a differença consiste apenas na altura do tronco. Se pretendermos dar-lhe a fórma de vaso, ainda as práticas a seguir são identicas.

Se pretendermos dar-lhe a fórma de pyramide, o tratamento que deveremos dar-lhe é inteiramente diverso.

Deveremos ter todo o cuidado em que a haste se conserve perfeitamente vertical, e no inverno seguinte corta-se a 0,50 d'altura, a fim de favorecermos os olhos inferiores do novo caule, e obrigal-os a produzir bons e fortes lançamentos; sem isto, os mais baixos ficariam atrophiados, e assim ficaria a pyramide desnudada na parte inferior. Attender-se-ha a que o vigor dos rebentos seja regular; se algum se apresentar excessivamente desenvolvido, predominando sobre os seus visinhos, torce-se ou corta-se-lhe a extremidade.

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O lançamento lateral superior tenderá a tomar a posição vertical; deverá ser auxiliado n'esta tendencia, atando-se a um tutor; é elle que deverá formar a flexa da arvore, e continuar o caule (fig. 39). No inverno do anno seguinte corta-se ainda a extremidade da flexa, a fim de se favorecerem as gemmas que ficam. Tambem se deverá cortar uma terça parte do comprimento dos ramos lateraes; por este modo a gemma que fica mais proxima do córte desenvolverá um lançamento longo e forte, que deverá constituir definitivamente o prolongamento do ramo.

Fig. 39

Nos annos subsequentes vae-se dirigindo a arvore em conformidade d'este systema; cortam-se todos os ramos folheares que apparecerem sobre o caule e sobre os ramos que constituem o esqueleto, de modo que a arvore depois de adulta deverá apresentar a fórma que se vê da fig. 40, e que se compõe d'um caule bem aprumado, guarnecido de ramos regularmente distanciados, que não se deverão subdividir nem bifurcar, e que se deverão guarnecer de producções fructiferas. Quando estes ramos se alongam demasiadamente, encurtam-se, cortando-se nas proximidades d'um raminho fructifero, que se transforma, para continuar o prolongamento do ramo cortado.

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Fig. 40

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Este tratamento e fórma convém a muitas especies fructiferas, mas é particularmente na pereira que dá os mais proficuos resultados.

Se a arvore é destinada a formar espaldeira ou latada, deverá ter sido enxertada na base do tronco, applicando-se-lhe dous ou tres enxertos d'escudo, que deverão desenvolver dous ou tres lançamentos symetricos (fig. 41), empregando-se os meios já indicados para que se conservem em equilibrio; mais tarde, depois de plantadas definitivamente onde téem de ficar, poder-se-ha então dirigir a sua formação de modo a formar leque, palmeta ou qualquer outra fórma que as circumstancias aconselhem como mais vantajosa, como veremos em outro lugar, visto que agora só temos a tratar da formação das arvores na primeira edade; julgamos que se estas indicações forem adoptadas poderemos mais tarde sujeital-as com grande facilidade ás fórmas que maior vantagem nos offereçam.

Fig. 41

PODAS DE LIMPEZA

Todos os annos, ou pelo menos de dous em dous annos, é indispensavel cortar todos os ramos sêccos, assim como todos os lançamentos adventicios e anticipados que se apresentarem; além d'isto convém limpar as arvores de todos os lichens e das cascas sêccas e velhas que revestem o tronco e as arrancas principaes; usa-se para este fim de uma raspadeira de ferro, triangular, como as que servem a bordo dos navios (fig. 42); introduzem-se os angulos nos sulcos da casca, a fim de se expellirem os parasitas que alli se alojam; usa-se tambem de uma luva das que costumam servir á limpeza dos cavallos; depois das chuvas, estando os troncos humidos, basta uma forte fricção com esta luva para que os lichens e parasitas desappareçam.

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Fig. 42

PODAS DE FRUCTIFICAÇÃO

As producções fructiferas não se desenvolvem, nas differentes especies, de modo identico. Algumas especies não produzem fructo senão sobre os raminhos novos, nascidos e creados no ultimo anno; outras só fructificam nos ramos creados no anno antecedente. Outras exigem que os ramos fructiferos tenham já uma certa edade, tres ou mais annos, para então começarem a produzir, e d'ahi por diante continuam a fructificar regularmente todos os annos. Cada especie tem pois as suas necessidades e conveniencias.

O systema de poda, que para umas seria o mais conveniente, seria para outras altamente prejudicial. Quando estudarmos as necessidades e tratamento apropriado a cada uma d'ellas, veremos qual a poda que mais lhes convém. Por agora basta que fixemos bem os principios fundamentaes anteriormente indicados, e que não percamos de vista:

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1.º Que os ramos folheares se podem tornar fructiferos, obrigando-os a diminuir em vigor por meio de expontas, torsões, ou córtes mais ou menos rigorosos;

2.º Que os ramos mais fracos são ordinariamente os mais fructiferos; por isso convém em muitos casos allivial-os do excesso de fructo que apresentam, que não se poderá desenvolver convenientemente, e que só servirá para acabar de extenuar o ramo e a arvore.

DECOTES

É na parte superior dos ramos mais elevados que as arvores fructiferas começam a mostrar os primeiros signaes de velhice.

É isto signal de que a seiva já não tem força para chegar ás extremidades, e n'este caso a arvore reclama decote; consiste no rebaixamento geral de todos os ramos do esqueleto, a maior ou menor altura, segundo as necessidades, mas sempre de modo que os ramos fiquem regularmente espaçados e symetricos em todos os sentidos.

Quando a arvore, por mal educada desde a origem, apresenta uma copa esgalhada e irregular, convirá tambem recorrer ao decote para se dar remedio a este grave defeito, que não prejudica sómente a formosura da arvore, como o vulgo suppõe, prejudica e gravemente a sua boa e regular fructificação.

Nas arvores d'ornamento, cujo fim principal é que apresentem uma copa frondosa e ampla, assim como n'aquellas cujo principal producto é a folhagem, convém empregar o decote, ás vezes reiteradamente; por este artificio obrigamol-as a crear fortes e numerosos novidios, que dão folhas amplas e tenras.

ROLAGENS

Quando o esqueleto da arvore se apresenta carcomido e cariado, mesmo quando apresenta outros defeitos ou deformidades graves, póde ser necessario, em alguns casos, recorrer a uma operação mais energica do que o decote: é a rolagem. Consiste em se cortar a arvore redondamente pela parte superior do tronco, alizando-se bem o córte e resguardando-se com unguento de enxertar. Brevemente se devem desenvolver muitos novidios provenientes de gemmas latentes, que com tratamento apropriado podem em pouco tempo formar novas arrancas e uma nova copa á arvore.

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Infelizmente um grande numero d'arvores fructiferas não resiste a esta operação; nas oliveiras dá ordinariamente bom resultado, muitas vezes nas figueiras, e em geral nas arvores de madeira branca; nas rezinosas esta operação é sempre mortifera.

DECEPAGEM

A decepagem consiste no córte completo do tronco da arvore, um pouco acima do collo da raiz. Emprega-se em tres casos:

1.º Como já vimos, nas arvores novas, no viveiro, quando o seu caule é mal conformado e pretendemos substituil-o por outro; já sabemos que esta operação dá sempre bom resultado, quando bem feita; as arvores n'aquella edade téem sufficiente energia vital para rebentarem de novo.

Tambem se emprega nas arvoresinhas novas, com o fim de as multiplicar; por effeito d'esta operação, ordinariamente desenvolve-se uma grande quantidade de novidios, junto ao collo da raiz; conchegando-se-lhes terra, todos elles criam raizes e formam outras tantas arvores, que se podem separar e plantar onde convenha.

Quando as arvores, por extrema velhice ou por doença, reclamam uma substituição completa, tambem em muitas circumstancias se lhes póde applicar a decepagem.

Se o systema radicular conserva bastante energia vital, se a arvore é de especie vivaz, produzirá do mesmo modo sobre o collo da raiz alguns novidios, dos quaes se escolhe o mais forte e bem conformado para formar o caule da nova arvore.

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PODAS VIVAS

Dá-se este nome á série de operações de córtes, torsões, cegagens, expontas, espoldras, etc., que se applicam ás arvores durante a época da sua vegetação activa.

Em Portugal são geralmente descuradas quasi todas estas operações; no entretanto algumas d'ellas são da maior importancia, especialmente para alguns vegetaes, para nós do mais alto valor.

CEGAGEM

Consiste na suppressão das gemmas, cujo desenvolvimento queremos evitar, a fim de favorecermos outras que se achem mais bem situadas e em melhores condições de producção.

Já sabemos que a seiva actua sempre com mais energia, imprime maior vigor ás producções novas que véem á extremidade dos ramos; por essa razão as que nascem na parte inferior são sempre mais debeis, e muitas vezes abortam. N'estas circumstancias, convém mais cegar-lhes as gemmas á nascença, do que deixal-as desenvolver, pois que nunca darão producto vantajoso; escusam de consummir seiva que será muito mais bem empregada nas producções superiores.

Em outras circumstancias, quando queremos obrigar as gemmas inferiores a desenvolver-se com força, deveremos supprimir a parte superior do ramo, mais ou menos rigorosamente segundo as conveniencias, não se perdendo de vista que um córte muito exagerado póde forçar as gemmas inferiores a um desenvolvimento plethorico, tornando-as por isso estereis. Só o bom senso e o uso nos podem guiar com segurança n'estas práticas.

ESPOLDRAS E ESLADROAGENS

A esladroagem deve applicar-se a todas as arvores fructiferas sem excepção: consiste na suppressão de todos os novidios adventicios e anticipados; as razões d'esta prática são obvias; sómente quando a necessidade nos obriga a substituir algum fiador ou ramo importante do esqueleto, é que deveremos poupar algum d'aquelles, que se apresente em posição e condições taes, que se possa utilisar como substituto.

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Na vinha armada em cordões, destinada á producção de uvas de meza, quando os fiadores, passados 8 a 10 annos, já vão muito altos, é indispensavel il-os substituindo por outros; teremos, n'estes casos, de utilisar para este fim algumas d'estas producções, como veremos quando tratarmos d'esta cultura.

A espoldra applica-se especialmente á vinha: consiste na suppressão dos ramos novos que não apresentam signaes de fructificação, assim como das gavinhas. Estas suppressões não devem fazer-se de repente e d'uma só vez; deve ter-se em vista que a folhagem é indispensavel á elaboração da seiva, e além d'isso deve até certo ponto resguardar os novos fructos dos ardores mais intensos do sol; deve pois fazer-se este serviço com prudencia. Só quando os fructos se acham já bem formados, que começam a amadurecer, deveremos ser mais rigorosos, supprimindo então todas as producções inuteis, sem receio de expôr os fructos aos raios directos do sol.

EXPONTAS

Já mais de uma vez temos indicado os casos em que convém recorrer á exponta dos ramos; dous resultados se obtéem por este meio: 1.º dar força ás gemmas que se acham na parte inferior do ramo; 2.º sustar o seu crescimento, fazendo com que consumma menor quantidade de seiva, fazendo-a convergir a outros ramos proximos que queiramos robustecer.

Especialmente na vinha, quando os fructos se acham já formados e limpos, convém expontar as varas que os sustentam, a fim de obrigar a seiva a refluir para elles.

A exponta tem applicação a quasi todas as arvores fructiferas, como um dos meios mais efficazes não só de manter o equilibrio e symetria das suas ramificações, mas para auxiliar o desenvolvimento e augmento de volume dos fructos e adiantar a sua maturação.

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Esta utilissima operação póde comtudo causar graves prejuizos quando seja feita por mãos inhabeis e inexperientes; expontando-se de mais e antes de tempo ha o risco de se imprimir vigor exagerado ás gemmas da base, que por este facto só produzem depois ramos estereis.

É impossivel indicar determinadamente a época e a altura a que se deve fazer a exponta, porque é extremamente variavel, não só segundo a especie, mas na mesma especie segundo o clima, o estado da arvore e conforme tenha corrido o anno. As regras a seguir são as que já vão indicadas em outra parte; os ramos fracos não se expontam, os mais fortes expontam-se mais ou menos rigorosamente segundo a sua conformação e segundo o estado das gemmas que se apresentam na sua parte inferior. N'este ponto, tudo quanto podéssemos dizer não poderia de modo algum supprir a necessidade absoluta da prática.

ENTALHES E INCISÕES

Estas operações podem praticar-se no fim do inverno, quando começa a despertar a vida activa das arvores, ou mais tarde, depois das arvores se apresentarem em flôr.

No primeiro caso, quando a arvore se nega obstinadamente á producção de fructos, tira-se-lhe um annel de casca de 4 a 6 millimetros de largura, na parte inferior dos ramos principaes, ou mesmo no tronco.

Sabemos já que quanto mais rapida e activa fôr a circulação da seiva, maior tendencia terá a arvore a formar producções lenhosas, com grave prejuizo da fructificação; o artificio indicado tem por fim oppôr um obstaculo a esta rapida e abundante ascensão de seiva; por este modo determinamos um enfraquecimento geral na arvore, mas a fructificação apparecerá. Não deve porém esquecer que por este modo provocamos uma doença artificial na arvore, que póde comprometter a sua existencia; por isso nunca aconselharemos tal prática; para conseguirmos o mesmo fim póde-se, durante o inverno, recorrer a outros meios mais inoffensivos: são o descalçamento das raizes e mesmo a poda ou maceração d'algumas d'ellas.

As incisões de primavera não se fazem senão em um ou outro ramo, cujo fructo queremos excepcionalmente favorecer. Na parte inferior do ramo, ou logo abaixo das flôres, pratica-se uma incisão annullar ou simplesmente um entalhe em fórma de V; a seiva no seu descenso encontra este obstaculo, accumula-se na parte superior, fornecendo assim abundante alimentação aos fructos que se acham já formados nos ovarios das flôres.

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Esta prática tem tambem o inconveniente de sacrificar a arvore, compromettendo as producções dos annos seguintes; mas nas especies que costumam apresentar os fructos nos ramos nascidos n'aquelle mesmo anno, não traz inconveniente algum, visto que aquelles ramos, fructificando uma vez, em caso nenhum tornam a fructificar. A videira e o pecegueiro estão n'este caso, os seus ramos fructiferos nascem no mesmo anno que os fructos; se lhes fizermos estes entalhes ou incisões favorecemos consideravelmente a fructificação do anno, sem prejudicarmos em nada o futuro, visto que a fructificação subsequente ha-de provir de outros ramos.

As incisões longitudinaes téem um fim diverso; quando a casca do tronco ou dos ramos se acha extremamente sêcca, nodosa, endurecida, e apresenta muitas protuberancias, convém fazer-lhe algumas d'estas incisões; com a ponta de uma faca pratica-se nas arrancas ou no tronco uma ou muitas fendas, d'alto a baixo, que penetrem toda a espessura da casca até ao alburno; por este modo se facilita o engrossamento da arvore, alliviando-lhe as camadas geradoras da pressão exercida pelas camadas externas da casca, sêccas e inuteis.

Tambem se empregam as incisões longitudinaes como preservativo e até curativo d'algumas enfermidades que atacam as arvores fructiferas, que se revelam por exudações liquidas e viscosas pelas fendas da casca, protuberancias e feridas.

É esta uma operação muito recommendavel n'um grande numero de casos; a época mais propria para a executar é no periodo da primeira seiva, emquanto os calores estivaes não são intensos.

EMPAS E TORSÕES

A empa tem por fim difficultar a circulação da seiva, obrigando-a a demorar-se no seu percurso, a fim de melhor se condensar e soffrer uma elaboração mais completa, tornando-se assim mais apta á formação dos fructos.

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Pratica-se a empa recurvando os ramos fructiferos em arco, mais ou menos aberto, atando-os a um tutor ou a outro ramo proximo.

É especialmente á vinha que entre nós se applica esta operação; sem ella a seiva, subindo com muito impeto até á ponta das varas e actuando com grande força sobre as extremidades, obrigal-as-hia a destenderem-se, dando logar á formação de producções lenhosas e folheares; assim, a videira ostentaria frondoso varedo e folhagem, mas com enorme sacrificio da quantidade e qualidade dos fructos.

Tambem a outras especies se poderia com grande vantagem applicar a empa; em França e na Belgica empam-se as pereiras, com bom resultado.

Em alguns casos applica-se a torsão para o mesmo fim que a empa; na vinha empregam-se variadissimos systemas d'empa, alguns dos quaes são verdadeiras torsões.

Quando os fructos se acham já formados e desenvolvidos, uma ligeira torsão no ramo que os supporta ou mesmo no pedunculo força-os a amadurecerem mais cêdo.

Como já vimos em outro logar, tambem se applica a torsão á extremidade dos ramos cujo viço e vigor quizermos diminuir.

PODA DAS RAIZES

Succede muitas vezes que as arvores fructiferas, quando plantadas em terrenos fortes e muito substanciaes, e mesmo outras vezes por motivos difficeis de explicar, se negam por muito tempo a produzir fructo; já indicamos que n'este caso se recorre ás incisões annullares no tronco e nos ramos, mas tambem notamos os perigos d'estas operações; é a poda das raizes que n'este caso se deve empregar: excava-se a arvore em volta d'ellas, e cortam-se algumas das que se apresentarem mais grossas e mais aprumadas; rarissimas vezes este tratamento deixa de produzir os effeitos desejados; a arvore definha um pouco, mas no anno seguinte carrega-se de fructos.

Por modo algum deveremos abusar d'esta prática; só a deveremos empregar nas arvores reconhecidamente aváras, pois é claro que ella tambem não é isenta de inconvenientes, principalmente quando applicada ás arvores novas; a ambição de lhes colher fructo muito cêdo aconselha ás vezes estas mutilações, que a final obstam a que a arvore se desenvolva normalmente e adquira vigor.

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ENXERTIAS

Quando tratámos dos processos de multiplicação das plantas dissemos em que consiste a importantissima operação da enxertia. Estudaremos agora alguns dos variadissimos processos práticos que usualmente se empregam na sua execução, e as condições physiologicas e anatomicas indispensaveis ao seu bom exito.

Um enxerto nunca poderá viver, alimentar-se e desenvolver-se senão quando o seu patrão tiver com elle grande analogia e semelhança, debaixo do ponto de vista anatomico e physiologico. É indispensavel que a época, em que um e outro despertam da lethargia hybernal, coincida muito approximadamente, do contrário, se a seiva do patrão entra em movimento muito antes que a vitalidade do enxerto seja despertada pelo calor, este não poderá absorvel-a; se a vida do enxerto despertar antes que o patrão lhe possa offerecer alimento morrerá infallivelmente.

Por estas razões, na prática se recommenda que antes o enxerto esteja um pouco atrazado em vegetação relativamente ao patrão; porque é preferivel que este lhe possa fornecer alimento antes de ser necessario, do que estar o enxerto á espera de seiva que o patrão ainda lhe não póde offerecer.

Em todo o caso, esta differença deverá ser muito ligeira; nunca deverá exceder ao espaço d'uma semana.

É indispensavel que a textura do lenho seja semelhante, e approximadamente da mesma consistencia; além d'isso é tambem indispensavel que as proporções e estatura da variedade ou genero d'onde provém o enxerto sejam analogas ás do patrão.

Tudo quanto se conta de enxertias caprichosas, de vinha sobre figueira e outras extravagancias analogas, são fabulas.

Para que o enxerto vingue e prospere, é indispensavel que os seus tecidos vivos, onde a circulação da seiva é mais activa, que são, como sabemos, a parte mais interna da casca, que constitue o liber, e a parte mais externa do lenho, fiquem em contacto intimo, de modo que possam unir-se perfeitamente.

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O enxerto depois de desenvolvido sobre um patrão, qualquer que elle seja, conserva perfeitamente todos os seus caracteres, que trouxe da arvore mãe. Se enxertarmos um pecegueiro que tem a madeira branca, sobre uma ameixeira que a tem avermelhada, veremos, passados muitos annos, que a madeira da arvore será avermelhada, e com os caracteres perfeitos da ameixeira, até á altura do enxerto; d'ahi para cima será branca e exactamente conforme a qualquer outro pecegueiro. A crença vulgar de que a enxertia produz até certo ponto uma especie de hybridação é erronea.

A seiva absorvida pelas raizes do patrão só nas folhas e partes verdes da planta é vitalisada e adquire a faculdade de poder organisar-se, para formar os diversos tecidos vegetaes; necessariamente organisará tecidos inteiramente conformes aos da arvore mãe d'onde essas folhas e partes verdes descendem.

FERRAMENTAS

Os instrumentos necessarios para a prática das enxertias são: uma enxertadeira ou navalha d'enxertar, um serrote de dentadura dobrada, e uma enxertadeira de cunha.

A navalha (fig. 43) deverá ter uma pequena espatula, que serve para com ella se levantar a casca do patrão ou do enxerto, quando é necessario.

Fig. 43

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A cunha (fig. 44) serve especialmente para abrir as fendas que se praticam na enxertia de garfo.

Fig. 44

PROCESSOS DE ENXERTIA

Podemos classificar os differentes processos de enxertia em tres secções:

1.º Enxertos d'encosto. São dous ramos que se approximam e soldam, continuando ainda por algum tempo unidos e dependentes da planta mãe.

2.º Enxertos de garfo. São ramos ou pedaços de ramos que se cortam d'uma arvore qualquer, e se implantam sobre outra.

3.º Enxertos de gemma. Consistem na implantação de uma ou mais gemmas que se tiram de uma planta juntamente com um pedaço de casca, e que se adaptam sobre o tronco ou qualquer ramo d'outra planta.

Cada uma d'estas secções subdivide-se ainda em differentes grupos e n'estes grupos ainda ha processos muito variados, dos quaes apenas descreveremos os que téem maior importancia prática.

ENXERTOS D'ENCOSTO

A natureza offerece-nos algumas vezes o exemplo d'enxertos d'esta ordem; succede, ainda que raramente, que dous ramos encontrando-se no seu crescimento se apertam e ferem mutuamente, e acabam por soldar-se, formando um verdadeiro enxerto. Ás raizes tambem ás vezes succede o mesmo; encontrando-se, apertam-se e unem-se, formando depois um corpo unico.

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Para operarmos a enxertia d'encosto principiaremos por fazer sobre o ramo que tem de servir de patrão um córte bem liso e nitido, proporcionado á grossura do enxerto que houvermos de lhe applicar; este córte deverá pelo menos chegar até ao alburno; em alguns casos, quando tivermos de operar sobre ramos muito delgados, poderá chegar ao canal medullar.

O enxerto deverá soffrer um córte semelhante; applica-se o córte que se fez no enxerto exactamente sobre a ferida feita no patrão, havendo o cuidado de que os tecidos do liber e as camadas externas do alburno se toquem e juxtaponham no maior numero de pontos que seja possivel; feito isto liga-se tudo fortemente, com uma ligadura que tenha certa elasticidade. O enxerto é sempre um ramo, que continúa unido á arvore que o produziu; ordinariamente ao fim d'um anno está perfeitamente soldado ao patrão, e só então se deverá separar da arvore mãe; é conveniente fazer-se esta separação gradualmente, dando de tempos a tempos um golpe no ponto onde houver de se cortar.

Fig. 45

Os enxertos d'encosto podem tomar differentes fórmas: ás vezes enxertam-se os ramos em cruz (fig. 45), formando-se assim sebes vivas, muito solidas e elegantes; outras vezes é o ramo d'uma arvore que se encosta e enxerta sobre o tronco ou outro ramo da mesma arvore.

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Só quando o enxerto está soldado e perfeitamente pegado se deverá supprimir a parte superior do ramo que serve de patrão.

Os enxertos d'encosto ditos á Ingleza sómente divergem dos que acabamos de descrever em terem ao meio do córte, tanto no enxerto como no patrão, uma especie de dente, conforme a fig. 46, que engranzando um no outro tornam a soldadura mais forte.

Quando por qualquer causa accidental se destroe um ramo, e esta falha destroe a symetria da arvore, póde facilmente supprir-se a sua falta enxertando-lhe por encosto no seu logar um ramo inferior da mesma arvore.

Quando se pretende crear um ou outro fructo excepcionalmente volumoso faz-se-lhe a applicação da enxertia d'encosto pela seguinte fórma:

Quando o fructo tem um certo desenvolvimento escolhe-se um rebento forte, nascido no mesmo anno, e ainda no estado herbaceo, que lhe fique proximo, e enxerta-se d'encosto sobre o pedunculo do fructo. Corta-se-lhe a ponta, a fim de que não continue a crescer, e para que a seiva reflua a beneficio do fructo que queremos beneficiar; por esta fórma obtéem-se pecegos gigantescos e peras formosissimas; no pecego, como tem o pedunculo muito curto, faz-se a operação sobre o ramo que o supporta, logo abaixo do ponto d'onde nasce o fructo.

Fig. 46

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ENXERTOS DE GARFO

Esta secção subdivide-se em duas classes: enxertos de racha ou fenda, e de corôa; nos enxertos de racha ha muitas variedades.

O processo mais commum e vulgar consiste em cortar redondamente um ramo ou tronco e abrir-lhe uma fenda em todo o diametro (fig. 47).

Fig. 47

Dever-se-ha ter preparado o enxerto, que deverá ser um raminho do anno precedente, bem vigoroso, e que apresente boas gemmas; apara-se-lhe a extremidade em fórma de cunha, que se introduz na fenda do patrão, havendo o cuidado de que o liber de um e outro fiquem em contacto; deverá introduzir-se o enxerto no lado da fenda que fôr mais bem exposto ao sol e á luz. Se o patrão tem já uma certa grossura e aperta por si o enxerto não ha necessidade de ligaduras; se tem pouca força liga-se; em todo o caso é indispensavel resguardarem-se bem todos os córtes com o emplastro d'enxertar, que adiante indicaremos. Para que a operação dê resultado satisfactorio é indispensavel que não soffra depois abalo algum que possa deslocar o enxerto do seu logar e convém abrigal-o dos ardores do sol.

Os passaros pousando sobre o enxerto antes de estar perfeitamente soldado causam muitas vezes a sua destruição; por isso convém armar sobre elle uma vara, que póde ser um vime em arco, para que as aves vão pousar sobre ella.

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Sempre que o patrão tiver grossura conveniente, é util implantar-lhe dous garfos; assim temos mais probabilidades de que ao menos um vingará, e se ambos vingarem poderemos aproveitar o melhor, ou ambos se assim convier.

Outro processo d'enxertar de garfo consiste em cortar o patrão obliquamente, abrir a fenda sómente de um lado, que deverá ser o que tiver melhor exposição, e implantar-lhe o enxerto, conforme se vê da fig. 48.

Fig. 48

Fig. 49

Em logar de uma simples fenda tambem se usa abrir um entalhe triangular sobre o patrão, cortando-se o enxerto de fórma que se adapte perfeitamente sobre aquelle entalhe, como se vê da fig. 49.

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Os enxertos de fenda ditos á Ingleza são como se vê da fig. 50; são muito solidos, de resultado muito seguro, mas não podem ter applicação senão quando o enxerto e o patrão téem a mesma grossura.

Fig. 50

ENXERTO ESTACA

É especialmente para a vinha que este enxerto offerece maior vantagem; escava-se a cepa até á profundidade de 0,35 abaixo do nivel do solo, corta-se obliquamente, abre-se-lhe uma fenda vertical ao centro, escolhe-se para enxerto um sarmento forte, corta-se-lhe um pedaço, de 0,25 a 0,30 de comprimento, que deverá ter pelo menos tres nós; abaixo do segundo nó faz-se-lhe um córte pouco mais ou menos até a um quarto do seu diametro e faz-se depois um entalhe até ao centro. A inspecção da fig. 51 dispensa-nos de entrar em maiores explicações. Liga-se e cobre-se de terra, formando um monticulo que cubra ligeiramente a extremidade do enxerto, e põe-se-lhe uma pequena baliza, para evitar que seja calcado e destruido.

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É uma enxertia muito solida, solda muito depressa e ha a grande vantagem de que o enxerto não só se nutre logo da seiva que o patrão lhe fornece, mas em breve emitte tambem raizes suas que o ajudam a medrar e a desenvolver-se rapidamente.

Fig. 51

ENXERTOS HERBACEOS

Ha certas especies d'arvores que ha sessenta annos eram consideradas inteiramente refractarias á operação da enxertia; notavelmente as coniferas estavam n'este caso; julgava-se impossivel o enxerto do pinheiro e das mais especies da sua familia; hoje é vulgar esta operação, que se pratica pelo seguinte modo:

Quando a arvore está em plena actividade de seiva corta-se-lhe horisontalmente o olho terminal, no ponto ainda tenro onde começa a lenheficar-se (fig. 52); deixa-se-lhe na extremidade, no ponto D, um pequeno tufo de folhas, tiram-se todas as outras na extensão de 0,3 a 0,5 (A), e racha-se ao meio, em extensão maior ou menor, segundo o ponto da arvore. A este tempo já deverá estar preparado o enxerto, que deverá ser a extremidade ainda herbacea, mas que já principia a endurecer, d'um ramo da arvore que se quer reproduzir; corta-se-lhe a extremidade inferior em fórma de cunha (fig. 53), introduz-se na fenda do patrão, e ata-se com muitas voltas de fio de lã; feito isto deverão quebrar-se as extremidades dos ramos immediatamente inferiores ao enxerto, como se vê na fig. 52 (C C), isto para não distrahirem a seiva que precisamos encaminhar para o enxerto; as folhas que deixamos no ponto D servem para attrahil-a para alli.

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Fig. 52

Fig. 53

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Cinco ou seis semanas depois deverá estar segura a soldadura e cicatrisados os córtes. Em todo o caso é conveniente nos primeiros tempos ter o enxerto abrigado dos ardores do sol, envolvendo-o com um sacco ou cartuxo de papel.

ENXERTIA DE CORÔA

É este processo de enxertia o mais vantajoso para arvores já idosas e de grande estatura. Corta-se o tronco ou ramo que tem de ser enxertado, dá-se-lhe um golpe na casca, que penetre até ao alburno, e introduz-se a espatula da enxertadeira entre o lenho e a casca, a fim de levantal-a um pouco para que se possa ahi introduzir o enxerto.

O enxerto deverá ser um pedaço d'um raminho nascido no anno antecedente, de 0,05 a 0,12 de comprimento e deverá apresentar boas gemmas; afeiçoa-se, como se vê da fig. 54, de modo que fique uma gemma na altura onde se fez o córte, virada para fóra, e introduz-se entre a casca e o lenho do patrão, liga-se e aperta-se e resguarda-se com o emplastro de enxertar. Geralmente applica-se esta enxertia a troncos ou ramos grossos, e n'este caso nunca se lhes applica só um enxerto; ordinariamente convém applicar-lhes tres, mas poderemos applicar-lhes tantos quantos caibam, logo que entre elles se guarde uma distancia de 0,10, pouco mais ou menos.

Fig. 54

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A época propria de se fazerem estes enxertos é na primavera, quando as arvores estão em plena actividade vital.

ENXERTOS DE GEMMAS

Divergem dos que temos tratado, porque n'estes não é um ramo que se implanta sobre o patrão, é sómente um pedaço de casca, munido d'uma ou mais gemmas, que pelo seu desenvolvimento vem a formar um novo tronco ou novos ramos.

Dividem-se em dous grupos: enxertos de escudo ou borbulha, e enxertos de flauta ou de canudo.

ENXERTOS DE ESCUDO

Podem fazer-se em duas épocas do anno, na primavera ou no fim do estio, comtanto que a arvore esteja em actividade de seiva, para que possa facilmente dar a casca.

Fig. 55

Os enxertos feitos na primavera devem pegar e rebentar ainda na mesma primavera; são chamados de olho vivo; os que se fazem na seiva d'agosto só rebentam no anno seguinte; são chamados de olho dormente.

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Corta-se sobre a arvore que se quer reproduzir um pedaço de casca, em fórma de escudo, que tenha uma boa gemma, munida e resguardada pela sua competente folha; corta-se a lamina ou limbo da folha, deixando-se-lhe sómente um pedaço do pecciolo, como se vê da fig. 55; é indispensavel observar que o escudo traga o liber em bom estado, e com o tecido cellular que deve existir na parte interior da gemma intacto; sem isto a operação seria perdida; faz-se um entalhe na casca do patrão em fórma ⊥; com a espatula da enxertadeira levanta-se a casca sómente o preciso para se introduzir o escudo; afeiçoa-se a casca, que deverá ficar bem unida e ligada, de modo que o liber do escudo fique perfeitamente unido e assente sobre o alburno do patrão, e em seguida corta-se o tronco ou ramo do patrão 0,08 acima do ponto onde se implantou o escudo.

Estes enxertos devem fazer-se com ligeireza e certa habilidade, evitando-se que os escudos estejam expostos ao ar antes de serem postos no seu logar, porque rapidamente se seccam. Se a operação foi bem feita, a gemma desenvolve-se ainda na mesma primavera.

Os enxertos de olho dormente fazem-se na época da segunda seiva, que vem em meio ou fim de agosto. Opera-se exactamente como ao de olho vivo, sómente com a differença de que n'estes o escudo deverá ter a fórma invertida, como mostra a fig. 56, e o entalhe que se faz no patrão tambem é invertido e em fórma de ⊤.

Fig. 56

Nos enxertos de olho vivo corta-se a cabeça da arvore enxertada immediatamente depois de feito o enxerto; nas de olho dormente deixa-se ficar, e sómente se corta na primavera do anno seguinte, depois do enxerto rebentado.

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ENXERTOS DE FLAUTA OU CANUDO

Corta-se um annel de casca, que pelo menos traga uma boa gemma munida da competente folha (fig. 57 A), e que seja de grossura egual á do tronco ou ramo que pretendermos enxertar; n'este corta-se tambem um annel de casca (B) de eguaes dimensões, colloca-se o enxerto no seu logar, liga-se e resguarda-se.

Fig. 57

Corta-se immediatamente a arvore ou ramo enxertado um pouco acima do enxerto. É indispensavel que o enxerto traga o liber em perfeito estado e que seja collocado no seu logar logo depois de tirado, para evitar que seque e se inutilise.

Tambem se podem fazer estes enxertos na seiva d'agosto, mas n'este caso as arvores enxertadas só se deverão decepar na primavera seguinte, depois de rebentado o enxerto.

Tambem se fazem enxertos de flauta por outro processo. Na arvore que se pretende reproduzir corta-se um tubo de casca, que traga tres ou quatro gemmas; escolhe-se o tronco ou ramo que deve servir de patrão, que seja de grossura egual; corta-se em redondo, dão-se alguns córtes longitudinaes na casca, de modo a dividil-a em tiras, e despegam-se do alburno até á altura do comprimento do enxerto; introduz-se este sobre a parte descascada e levantam-se novamente as tiras de casca que se ajustam e afeiçoam sobre o enxerto, ligando-se tudo de modo que sómente as gemmas fiquem livres.

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ENXERTOS DE RAIZ

Em varias circumstancias e para algumas especies convém esta classe de enxertias; podem fazer-se de garfo ou de escudo.

No primeiro caso, corta-se a raiz, levanta-se o pedaço cortado pela parte mais grossa, que fique 0,01 acima do nivel da terra, abre-se-lhe uma fenda e applica-se-lhe um garfo, do mesmo modo que indicamos para os enxertos usuaes.

No segundo caso, descobre-se a raiz, applica-se-lhe um escudo pela fórma já indicada, deixa-se a raiz descoberta n'aquelle ponto, e só no anno seguinte, quando o enxerto estiver perfeitamente pegado, se deverá separar a raiz da arvore mãe.

CONDIÇÕES DE BOM EXITO

Em geral, para que os enxertos dêem resultado satisfactorio é indispensavel que o operador tenha uma certa habilidade manual, que só se adquire com a prática; sobretudo convém que trabalhe com rapidez; a causa que muitas vezes annulla as nossas esperanças é a demora que ha entre o córte e afeiçoamento do enxerto e a sua collocação, principalmente quando se trata de enxertias de gemmas, que facilmente se aventam e perdem.

É indispensavel que as enxertias sejam feitas em tempo proprio, quando as arvores estejam em estado de seiva, que póde ser mais cêdo ou mais tarde, segundo as especies e conforme o clima das differentes localidades.

É preciso defendel-as dos ataques e abalos dos ventos e dos animaes, e da acção das chuvas e dos calores intensos.

Se os córtes que se fazem ficassem expostos á acção do ar, seccariam mui rapidamente; o resultado da enxertia seria gravemente compromettido; por isso é indispensavel que fiquem muito bem resguardados; para este fim empregam-se diversos emplastros ou unguentos; o que se usa mais vulgarmente é o denominado unguento de S. Fiacre: compõe-se de terra argillosa, misturada e amassada com excretos de boi frescos; tem o grande inconveniente de seccar facilmente; quando sécca contrahe-se, abre grandes fendas, por onde penetra o ar e onde depois se alojam innumeros insectos; tudo isto prejudica gravemente o enxerto e a arvore. Ha outros emplastros, que se empregam quentes ou frios, que se compõem principalmente de sêbo, cinzas e pêz; seja qual fôr o emplastro que se adopte, deverá ser composto de tal modo que não se derreta facilmente ao sol e que não grete e rache com o frio. Uma das composições mais convenientes é a seguinte, em cem partes:

140

Pêz negro . . . 28

Pêz de Bourgonha . . . 28

Cêra amarella . . . 16

Sêbo . . . 14

Cinzas peneiradas . . . 14

100

Aquece-se esta mistura de modo a formar uma calda grossa, que se applica com um pincel sobre as feridas, mas que não esteja tão quente que possa offender os tecidos do enxerto. Para se conservar constantemente esta mistura liquida, e na temperatura necessaria, usa-se d'uma panella como as que os marceneiros usam para ter a colla derretida; tem dois repartimentos: no inferior põe-se um foco calorifero qualquer.

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