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Manual de Arboricultura/Introducção

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INTRODUCÇÃO

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Portugal é um dos paizes que a Providencia dotou com maior somma de recursos para produzir os mais variados e preciosos fructos da terra.

A accidentação natural do solo, a grande diversidade da sua constituição geologica, e as differenças de clima que se notam n'esta estreita facha de terreno, offerecem-nos a vantagem de vermos crescer e fructificar no nosso paiz tanto os vegetaes das mais afastadas regiões do norte como a maior parte dos filhos das zonas tropicaes.

Pouco nos aproveitarão estes preciosos dons da natureza, se a razão e a instrucção nos não guiarem no uso que d'elles fizermos.

Temos em Portugal alguns terrenos que se prestam optimamente ás culturas cerealiferas e pratenses; mas é certo que nas condições mais geraes do nosso paiz, o relevo da terra, a irregularidade das chuvas, a seccura do ar, e mesmo a natureza do solo, fazem com que as culturas herbaceas e colmiferas sejam em geral pouco remuneradoras.

O primeiro e mais importante problema que o agricultor tem a resolver, para conseguir o maior lucro possivel da sua propriedade e do seu trabalho, é saber qual a cultura que na sua terra e nas suas condições lhe poderá produzir o maximo producto liquido. Para isto tem de attender ao clima da região que habita, tem de interrogar com insistencia o seu solo, tem de ponderar as condições economicas da sociedade em que vive, e de investigar quaes são os productos que o seu terreno poderá produzir, que obtenham mais prompta e vantajosa venda. Isto é intuitivo, e parece ocioso dizer-se, mas é certo que, o que mais geralmente ainda se vê, é que cada um cultiva o que seus avós cultivaram, sem attenção alguma para as condições da sociedade e dos mercados actuaes.

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A maior parte dos nossos lavradores lucta, trabalha, exhaure as forças e a vida, para arrancar da terra uma seara mesquinha, quando com menos trabalho poderia auferir muito melhores proventos, se soubesse e quizesse utilisar o solo segundo a sua melhor aptidão, e em conformidade com as exigencias da sociedade, que se revelam pela melhor remuneração que dá aos productos que mais aprecia.

Em muitos pontos do paiz temos visto magnificas encostas que poderiam dar opulentos vinhedos, ou preciosas arvores de fructo, condemnadas á misera cultura de pobrissimo centeio!

Para quem tem algumas noções da economia rural de Portugal é axiomatico, que, salvo pequenas excepções, são as culturas arbóreas e arbustivas as que mais generosamente remuneram os capitaes do proprietario e os trabalhos do agricultor.

A vinha e a oliveira téem sido, até hoje, as nossas mais copiosas fontes de riqueza; a laranjeira e a figueira tambem já concorrem notavelmente para a prosperidade dos nossos agricultores, proprietarios e commerciantes. Abre-se agora uma nova época em que muitas outras arvores podem e devem ser chamadas a produzir aureos e avolumados fructos para a bolsa dos cultivadores que as queiram e saibam explorar.

Os novos meios de transporte reduziram a distancia que nos separava da America a doze ou treze dias de viagem. Em breve estaremos em communicação directa e diaria com o centro e norte da Europa. Os saborosos fructos das margens do Tejo, do Douro e do Mondego poderão facilmente ir figurar ás mezas abastadas d'aquelles paizes. Se soubermos aproveitar estas circumstancias, e explorar os mercados que se nos offerecem, poderemos auferir bons interesses. É tempo de tentarmos algum esforço n'este sentido; a terra e o clima são por nós, mas se tudo fiarmos da Divina Providencia outros nos tomarão o passo.

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Os francezes e os belgas, nos frios e brumosos climas de Pariz e Bruxellas, com o auxilio da arte produzem hoje fructos de meza como só por maravilha se vêem nas mais felizes regiões do nosso paiz. Nós vamo-nos contentando com o que a liberalidade Divina nos concede; os fructos das nossas arvores podiam ser incomparaveis de formosura, de gosto e de aroma; são quasi todos rachiticos, enfezados e corroidos de vermes!... paciencia, vão-se consummindo assim. Mas se entendermos que nos convem leval-os ao estrangeiro em troca do seu ouro e dos seus productos, então é preciso que olhemos com mais algum amor pelas nossas arvores, que as tratemos com mais cortezia. N'este abençoado torrão, ellas não são esquivas e avarentas senão para quem as despreza e maltracta; são sempre prodigas dos seus mais primorosos dons para quem as ama e lhe sabe satisfazer as vontades e caprichos.

Alguns cavalheiros que se interessam pelo bem d'esta terra e que comprehendem e sabem distinguir as verdadeiras bases da prosperidade publica, téem já apostolado estas idéas pela palavra, pela imprensa e pelo exemplo, mas para que ellas possam ser bem comprehendidas e acceites é preciso que se vulgarisem quanto possivel. É preciso principalmente que os nossos arboricultores conheçam as regras e preceitos que lhes devem servir de guia na prática dos seus trabalhos.

Para satisfazer a um fim de tão manifesta utilidade, apenas temos em portuguez alguns trabalhos dispersos em varios artigos de publicações periodicas e algumas memorias e tratados especiaes ácerca de uma ou outra cultura; não temos um livro que resuma com simplicidade e clareza os principios que devem dirigir a cultura e exploração racional das arvores fructiferas em geral, e em especial das mais uteis e mais vulgarisadas no nosso paiz.

Na França, na Allemanha e na Belgica téem-se publicado dezenas de obras d'esta natureza, das quaes algumas contam muitas edições e são lidas em Portugal, mas sendo destinadas a regiões muito differentes da nossa, é claro que as suas doutrinas não podem ser acceites em Portugal sem muita reflexão e grandes modificações; muitas práticas uteis n'aquelles climas são aqui prejudicialissimas.

N'estas circumstancias entendi que algum serviço podia fazer aos meus conterraneos, empenhando as minhas forças para executar um trabalho que julgo de tão urgente necessidade.

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Para que este trabalho possa realmente preencher o seu importantissimo fim, tem de ser baseado em larga prática e muita sciencia. Apesar da dedicação com que ha nove annos me applico ao estudo d'estas materias, e do attractivo que sempre encontrei na sua prática, sinceramente confesso que não podia nem devia confiar sómente nos meus recursos pessoaes, por isso procurei robustecer-me com o auxilio d'alguns cavalheiros, professores e amadores, que pelo seu muito saber e experiencia téem auctoridade notoria no assumpto que vou tratar.

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