Manual de Arboricultura/Marmelleiro
CULTURA DO MARMELLEIRO
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O marmelleiro é conhecido e cultivado na Europa desde tempos immemoraveis: os gregos tributavam a esta arvore uma certa veneração; a mythologia considerava o marmello como symbolo religioso, e era dedicado especialmente ao culto de Venus, com elle se adornavam os seus templos e altares. Pelos elogios que os antigos fizeram a esta arvore parece que possuiam alguma variedade, hoje perdida, que produzia fructos mais doces e saborosos. Os fructos do marmelleiro, hoje conhecidos, mesmo os mais aprimorados, são acidos e travosos; só se podem comer depois de preparados e condimentados. Comtudo a sua cultura é muitissimo importante, não só pela grande procura e consummo que tem os fructos para a preparação de doces variados, como tambem porque nos serve de excellente cavallo para a enxertia de outras especies, notavelmente das pereiras.
VARIEDADES
São entre nós conhecidas tres variedades: 1.ª marmelleiro commum, (cydonea communis), pequenos arredondados, cobertos de espessa lanugem, sabor muito travoso; 2.ª marmelleiro pyriforme, fructo um pouco maior que o antecedente, superficie rugosa, sabor acerbo; 3.ª marmelleiro mollar, (cydonea Lusitanica), produz fructos grandes, lizos, muito menos acerbos, conhecidos pelo nome de gamboas.
O marmelleiro dá-se perfeitamente nas regiões meridionaes da Europa; é n'este clima que produz melhor e mais volumoso fructo; contenta-se com qualquer terreno, mas agradece muito os solos profundos e frescos.
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A cultura do marmelleiro é das mais simples e faceis: reproduz-se optimamente por todos os processos conhecidos de semente, estaca ou mergulhia; ordinariamente faz-se uso do systema de reprodução por estaca, por ser muito facil e economico, e porque as estacas d'esta especie prendem e enraizam com grande facilidade.
As estacas podem ser varas de qualquer edade e grossura, mas convém empregal-as de um a tres centimetros de diametro, e de 25 a 30 centimetros de comprimento, plantam-se a 50 centimetros de distancia, se o estio corre secco dão-se-lhes algumas regas.
O marmelleiro póde acceitar qualquer das fórmas que indicamos para as macieiras e pereiras; comtudo não nos parece que haja vantagem em lhe applicar podas reiteradas e fórmas forçadas. O que mais convém é dirigir-lhe a fórma natural de modo que os seus ramos não se prejudiquem mutuamente, e se conservem em equilibrio.
A producção de fructos, no marmelleiro, tem logar de um modo muito differente d'aquelle que se observa nas pereiras e macieiras. As gemmas fructiferas apparecem sobre os raminhos delgados e compridos que nascem sobre o esqueleto da arvore. No anno seguinte estas gemmas desenvolvem-se e produzem um gomo que se alonga até 4 ou 6 centimetros; guarnece-se d'algumas folhas e na extremidade apresenta um botão florifero, que produz o fructo.
A poda de fructificação que se lhe applica, consiste sómente em espontar ou quebrar os renovos que apparecem sobre aquelles raminhos, que não apresentam flôr á ponta.
No inverno encurtam-se os ramos que produziram fructo, a fim de obrigar a seiva a refluir para a base, impedindo o seu crescimento e obrigando-os a produzir novos raminhos lateraes; d'estes ramos lateraes conservam-se os que estiverem bem situados.
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