Manual de Arboricultura/Melão
MELÃO
-
O meloeiro (cucumis melo L.) é uma planta annual da familia das cocurbitaceas, natural nas regiões tropicaes da Asia, na Europa dá-se bem e produz bom fructo, sómente nas regiões meridionaes.
Em Portugal se exceptuarmos alguns pontos, que pela sua altitude e desabrigo são sujeitos a frios intensos, póde dizer-se que prospera em toda a parte, comtudo ha localidades extraordinariamente favorecidas para a producção d'este valioso fructo.
Conhecem-se muitas variedades de melões, que em cada localidade tomam nomes diversos, por isso não as indicamos, nem isto é necessario, porque n'esta especie a melhor variedade degenera logo e torna-se inferior se lhe faltarem os cuidados do cultivador e as necessarias condições de solo e clima; as variedades reputadas mediocres pódem tornar-se excellentes se houver cuidado na escolha e preparo da semente e na cultura, por isso o que tem a fazer o cultivador é procurar a melhor raça que conhecer, ou muito melhor procurar fructos de superior qualidade e preparar por si as sementes.
O melão quer terreno calcareo-argiloso, os solos um tanto ferruginosos tambem lhe são favoraveis, pede copiosos adubos, bem curtidos, nos quaes deve predominar a potassa.
Dá-se muito bem nas terras novamente arroteadas, os terrenos humidos e os que forem excessivamente argilosos, são improprios para esta cultura, exige uma exposição quente e alumiada.
Em Portugal cultiva-se o melão ao ar livre, não ha necessidade de abrigos nem coberturas, nas regiões mais ao norte é necessario semeal-o em vazos ou caixotes, que se guardam abrigados; transplantando-se para o terreno quando a primavera vae adiantada e já não ha receio de geadas ou grandes frios.
368
Para se obterem magnificos melões começa-se por se procurar boa semente, n'este ponto ha grande descuido da maior parte dos cultivadores, a avidez do lucro faz com que levem ao mercado os seus melhores fructos, ficando para consummo domestico os mais inferiores, é d'estes que tiram a semente, d'este erro resulta um grande prejuizo.
Para se obter semente de primeira qualidade escolhem-se os melhores fructos, deixam-se amadurecer completamente, deixam-se mesmo começar a apodrecer, extrahem-se-lhes então as pevides, lavam-se, enxugam-se com um panno, expoem-se por alguns dias ao ar para seccarem, guardam-se em areia bem secca e limpa; na occasião da sementeira é necessario fazer ainda uma escolha rigorosa, regeitando-se todas as sementes de perfeição duvidosa, deitam-se em agua, e sómente as que forem rapidamente ao fundo deverão ser aproveitadas.
O terreno destinado á cultura dos melões deverá ser profundamente cavado ou lavrado, abrem-se covas de 50 centimetros de diametro por 40 de profundidade (ou mais nos terrenos arenosos e menos nas terras fortes) distanciadas de 3 metros umas das outras, no fundo da cova deita-se uma boa porção d'estrume velho, bem curtido, misturado com boa terra, sobre esta cama lança-se ainda uma camada de terriço de 6 ou 7 centimetros de espessura, comprime-se tudo fortemente á enxada, ao centro da cova collocam-se cinco ou seis sementes, cobrem-se com boa terra fresca e substancial, ficando enterradas á profundidade de 8 a 10 centimetros.
Nos climas quentes e seccos, faz-se a sementira em fins de fevereiro e por todo o mez de março, nas localidades mais frias e em terrenos frescos reserva-se até ao mez de abril, se os frios são intensos e ha receio de geadas, deve-se lançar sobre as covas algumas folhagens seccas ou palhas, esta precaução não só serve de abrigar e preservar a vida das plantas no primeiro periodo do seu desenvolvimento, mas fornece-lhe tambem mais tarde um supplemento de adubo.
Passados trinta dias, convem sachar todo o terreno, não só para se destruirem as hervas que appareçam, mas para lhe conservar a frescura, amontoa-se a terra em volta das plantas.
369
Quando a planta apresenta 4 folhas acima das cotyledonares começam os trabalhos da poda, que n'esta especie toma o nome de capação. Corta-se a extremidade do ramo logo acima da 4.ª folha, em breve se desenvolvem dois ramos lateraes, quando estes tem lançado seis folhas corta-se-lhes a extremidade logo acima da 5.ª, abaixo do corte em breve se desenvolvem outros dois braços, que se deixam crescer até que apresentem 5 folhas, capa-se acima da 4.ª obrigando-se por este modo a produzir tambem dois ramos lateraes, a estes applica-se o mesmo tractamento, e assim por deante até á 5.ª capação, depois da qual o meloeiro apresenta 32 ramos. Chegada a planta a este estado escolhem-se os fructos melhores que se devem conservar e supprimem-se todos os que parecerem inferiores, com os ramos que os sustentam, supprimindo-se tambem todos os rebentos e flôres que vierem posteriormente.
Modernamente tem-se simplificado muito este trabalho, com vantagem para a producção dos fructos. Pelo methodo francez capa-se o meloeiro logo que apresenta tres folhas acima das cotyledonares, cortando-se a haste acima dos dous primeiros nós, desenvolvem-se dois ramos lateraes que se deixam crescer até que tenham 33 centimetros de comprimento, capam-se então acima da 4.ª folha. Estes dous ramos bifurcam-se, produzindo cada um dois lançamentos lateraes, que se deixam tambem crescer até 33 centimetros, cortam-se então acima da sua terceira folha, d'ahi por deante deixam-se á vontade. Quando os fructos tem já um certo desenvolvimento, isto é quando apresentam o tamanho d'uma pequena laranja escolhem-se os melhores, supprimem-se os que parecerem mal conformados, com os ramos que os sustentam, os ramos conservados são expontados ficando com duas folhas para além dos fructos.
Todas as hastes produzidas posteriormente devem ser supprimidas.
Julga-se geralmente que a capação dos melões é uma operação indispensavel para se obterem bons fructos, alguns agronomos asseguram ao contrario que a capação é perfeitamente dispensavel, cada um enuncia a sua opinião conforme os factos que tem observado, ora estes factos é que são muito variaveis, segundo as castas de melões que se cultivam, e sobretudo conforme o clima. A Andaluzia produz magnificos melões muito afamados; nos suburbios de Cadiz e de Sevilha ha hortelões habilissimos n'esta cultura, que capam ou deixam de capar o meloeiro, conforme a casta; algumas, sabem elles muito bem, que lhes darão magnifico fructo, sem ser necessario recorrer a esta operação, teem vindo algumas sementes para o Algarve que tem dado excellente fructo sem ella. Comtudo é possivel que estas mesmas castas que nas regiões quentes e seccas fructificam optimamente sem necessidade de capação, quando transportadas a regiões mais frias e humidas exijam esta operação. Os frios da primavera fazem abortar muitas flôres, além d'isso a superabundancia de humidade no solo produz um grande desenvolvimento de ramagem; não havendo calor sufficiente para elaborar e concentrar a seiva de modo a tornal-a apta a formação dos fructos, certamente estes ficarão pecos e desmedrados, por isso n'este caso a capação é indispensavel para moderar a expansão dos ramos, concentrar a seiva dentro d'um espaço menor, obrigal-a a nutrir melhor os fructos que se desenvolvem em menor quantidade.
370
CULTURA FORÇADA DO MELÃO
Nos paizes frios situados além de 45 graus de Lat-norte, o meloeiro exige uma cultura e cuidados especiaes para produzir bons fructos. Em Portugal só em algumas localidades que pela sua altitude teem um inverno mais frio e prolongado, estes cuidados podem ser necessarios, ou quando por capricho ou conveniencia se pretendam obter melões maduros fóra do tempo.
Semeam-se as pevides em vazos cheios de terra siliciosa curtida com muito estrume: para que possam germinar, e as plantas tomar um desenvolvimento regular, exigem uma temperatura que regule de 15 até 18 graus centigrados, para se obter tal temperatura é necessario collocar os vazos em camas quentes, que se fazem como vae indicado a pag. 180; quando a temperatura media ao ar livre regula por 18 graus podem ser os meloeiros transplantados. Para que os fructos, possam chegar a um estado de perfeita maturação é necessario que gozem por algum tempo de uma temperatura não inferior a 25 graus.
Alguns horticultores usam d'outro processo: cavam no chão um fosso de 60 centimetros de profundidade, enchem-n'o até meia altura com excretos de cavallo frescos, misturados com palhas e folhas velhas; tudo isto é solidamente batido e calcado; deitam-lhe por cima uma camada de terriço de 12 a 15 centimetros, e ahi semeiam as plantas. A fermentação da cama de estrume de cavallo produz uma temperatura muito elevada, ás vezes chega a 50 graus, por isso se o estrume é muito fresco convém deixar passar alguns dias até que o calor desça a um grau que não prejudique a sementeira. Sobre estas camas adapta-se uma cobertura qualquer, que se levanta quando convém.
-