Manual de Arboricultura/Multiplicação
MULTIPLICAÇÃO DAS PLANTAS
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Por dous methodos essencialmente differentes se podem reproduzir e multiplicar as plantas: 1.º por sementeira, é o processo chamado natural; 2.º por estacas, mergulhias e enxertos, é o que se diz de reproducção artificial.
SEMENTEIRA
Observando o processo de multiplicação de que a natureza se serve, vêmos que, em geral, nas arvores fructiferas, os fructos depois de maduros cahem por terra, e o seu pericarpo passa por certa fermentação que dá em resultado o seu amollecimento até chegar á decomposição; á chegada do inverno as folhas cahem, e d'este modo, com os fructos apodrecidos e folhas, a Providencia tem preparado adubo para a terra e resguardo para as sementes que destina a perpetuarem a especie a que pertencem. Nas sementeiras feitas por mão do homem não ha mais do que imitar, quanto possivel, os sabios processos de que a Providencia usa.
Precisamos preparar a terra como a natureza a prepara, rica em despojos organicos, e precisamos proteger os pequenos vegetaes que téem de nascer contra as intemperies do inverno.
Não devemos comtudo esquecer que a natureza dispõe d'uma prodigiosa quantidade de sementes; ainda que a maior parte d'ellas se perca, poucas que se salvem bastam para preencher o seu fim, que é assegurar a conservação da especie. Nós temos de aproveital-as o melhor possivel, assim como o terreno que lhes é destinado; por isso é indispensavel protegel-as contra os accidentes que as possam destruir.
Muitas especies, para poderem germinar, necessitam um grau de calor assás elevado; indo para a terra no principio do inverno, ficam em risco de serem destruidas pelos animaes, ou de apodrecerem antes que tenha chegado a temperatura que necessitam para lhes despertar a vida. Por isso convem colher as sementes e guardal-as até á época em que no solo haja a temperatura que lhes convem.
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Algumas sementes conservam por largo tempo as suas faculdades germinativas, outras perdem-nas dentro d'um periodo mais ou menos breve. Em todo o caso, para as conservar, convem preserval-as da humidade, das alternativas da temperatura e defendel-as do ataque dos insectos.
Os meios mais faceis e efficazes de satisfazer estes fins, consistem: em expôl-as por algum tempo ao sol, logo depois de colhidas, a fim de lhes eliminar o excesso de humidade que contiverem; guardam-se depois em vasos fechados, misturadas, por camadas, com terra areosa, sêcca e pulverisada, e depositam-se em logar fresco, ou melhor será enterral-os.
Quando pretendemos guardar uma grande quantidade de sementes, póde proceder-se do seguinte modo: depois de bem enxutas, misturam-se com terra areosa e bem sêcca, collocam-se em monte sobre a superficie da terra, em sitio elevado e sêcco, cobrem-se depois com uma camada de terra sêcca e bem batida, de 0,50 de espessura; assim se podem conservar por muito tempo castanhas, bolotas, penisco, etc. Antes de lançar a semente á terra é preciso verificar o seu estado; as sementes novas e aptas para germinar, apresentam-se, geralmente, pesadas e lustrosas.
Quando ha necessidade absoluta de se aproveitarem sementes velhas, de cuja capacidade se desconfie, convem, antes de semeal-as, tel-as durante cinco ou seis horas mergulhadas n'um banho d'agua salgada na proporção de quinze grammas de sal commum por cada litro. O sal tem a propriedade de excitar a vitalidade do embryão, amortecida pelo tempo.
O systema de reproducção natural, ou por semente, não póde ser geralmente adoptado para um grande numero d'especies, por varias razões: em primeiro logar, a semente reproduz necessaria e invariavelmente a especie a que pertence, mas raras vezes reproduz com exactidão a variedade de que proveio.
As arvores fructiferas actualmente cultivadas são variedades já aperfeiçoadas pela cultura, ou que por circumstancias fortuitas de terreno, de exposição e de clima, apresentaram fructos saborosos e avolumados. Se lançarmos á terra a semente d'uma d'estas arvores, rarissimas vezes obteremos uma variedade identica; esta semente tenderá sempre a reproduzir o typo primitivo da sua especie; produzirá pois ordinariamente uma arvore bravia.
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Algumas vezes succede que a semente produz uma nova variedade, que póde apresentar qualidades apreciaveis; por este modo se tem conseguido obter castas muito preciosas. Semêa-se algumas vezes com este fim; n'este caso, para conhecermos em breve a casta do fructo que as novas arvores téem de produzir, convém tirar-lhes alguns garfos que se enxertam sobre outras da mesma especie, escolhendo-se de preferencia para patrões as menos vigorosas, porque estas fructificam mais cêdo do que as suas congeneres que se apresentam mais robustas e desenvolvidas.
O bom exito da sementeira depende do estado e qualidade das sementes, da natureza e preparação do terreno, do modo e do tempo em que se semêa.
Já vimos, quando estudamos os phenomenos da germinação, quaes as condições a que as sementes devem satisfazer para poderem effectuar a sua evolução vital.
Os terrenos soltos, leves, areosos e ricos em materias organicas, são os mais favoraveis á germinação das sementes, logo que tenham alguma humidade. Ao contrário, os terrenos argillosos, frios e excessivamente humidos são os mais improprios áquelle fim; as sementes levam muito mais tempo a desenvolver-se, e muitas apodrecem.
Quanto ao modo de operar a sementeira, ha a tomar em consideração o volume da semente, a natureza do terreno e o clima proprio da região.
Quanto maiores forem as sementes, mais fundas se devem semear; aconselha-se geralmente que ao menos deverão ficar cobertas d'uma camada de terra d'uma grossura igual ao maior diametro que ellas tiverem; mas esta regra deve soffrer grandes modificações: apenas é applicavel aos terrenos argillosos e frios; nos terrenos soltos a profundidade deve ser muito maior, principalmente nos climas quentes, em que estes solos deixam evaporar a humidade e seccam até uma profundidade consideravel.
As regras que devem guiar-nos são as seguintes: As terras soltas e sêccas exigem sementeiras profundas; quanto mais quente fôr o clima, mais deverá augmentar a profundidade. Nas terras fortes e humidas, as sementeiras devem ser muito mais superficiaes. É indispensavel não se perder de vista que a semente nunca poderá germinar a uma profundidade tal, que não possa receber os beneficios do ar atmospherico.
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Quando satisfeitas aquellas condições, é ainda indispensavel que as sementes achem na terra a humidade que precisam; por isso, para se attenuarem os effeitos da grande evaporação da terra nos nossos climas, convém para as sementes mais delicadas, durante os primeiros tempos, cobrir o terreno com folhagens sêccas ou palhas, que além d'aquelle beneficio, ainda depois servem de abrigo ás novas plantas que vão nascer, e que na tenra idade podem soffrer consideravelmente da intensidade dos raios solares, e depois ainda concorrem com os seus despojos a fertilisar o terreno.
É certo que não é o processo de reproducção natural o que geralmente nos convém seguir, para obtermos as variedades fructiferas aperfeiçoadas que pretendermos, mas ainda assim merecem as sementeiras o mais assiduo cuidado e estudo do arboricultor; basta dizer-se que é por meio da sementeira que se obtéem as arvores mais sãs e vigorosas, sobre as quaes, mais tarde, se enxertam as variedades escolhidas.
Tambem para aquelle fim se recorre muitas vezes á reproducção por estaca, mas é certo que as arvores enxertadas sobre outras d'esta origem, comquanto fructifiquem mais cêdo, nunca adquirem o desenvolvimento, o vigor e longevidade d'aquellas que provéem da reproducção natural.
REPRODUCÇÃO ARTIFICIAL
Sabemos que as gemmas das arvores contéem já, perfeitamente organisados, os germens de ramos, que mais tarde se desenvolvem.
É no conhecimento d'este facto que se baseam todos os processos de reproducção artificial por estaca, mergulhia e enxerto.
Em qualquer d'estes casos é sempre uma gemma que se desenvolve, formando um ramo que depois vem a constituir o tronco d'uma nova arvore.
Recordando-nos dos principios de physiologia vegetal já estudados, sabemos que durante a época em que a vida das plantas se acha amortecida, os olhos guardam sempre uma certa porção de seiva elaborada, que deve servir á evolução das primeiras producções da nova estação. Se cortarmos da arvore um ramo, ou mesmo sómente uma d'estas gemmas, se a collocarmos em circumstancias favoraveis, de modo que a seiva que contém se não destrua, e que não perca a humidade que contém, ao approximar-se a estação propria desenvolver-se-ha, produzindo um ramo identico áquelle d'onde proveio.
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ESTACAS
A estaca é uma parte de um ramo provida de gemmas, das quaes algumas se enterram e outras ficam expostas ao ar e á luz.
Já sabemos que as gemmas, quando enterradas e subtrahidas á acção da luz, comquanto tragam em si ramos embryonarios, transformam-se e produzem raizes; as gemmas superiores que ficam expostas á luz, contendo ainda alguma seiva elaborada, desenvolvem as primeiras folhas; estas, começando logo a funccionar, attrahem a seiva que existe ainda por elaborar no resto da estaca; sendo elaborada pelas folhas desce a accumular-se nas gemmas inferiores enterradas, que começam então a desenvolver raizes; se na sua descida a seiva encontra um obstaculo qualquer, demora o seu percurso, accumula-se n'esse ponto, formando uma intumescencia, da qual em breve começam tambem a nascer raizes. D'este modo a estaca produz um vegetal perfeito, dotado de todos os orgãos necessarios á sua conservação.
Para que estes factos se possam realisar favoravelmente, é preciso attender ás seguintes condições:
1.º É indispensavel que as estacas conservem a seiva precisa para a evolução das suas primeiras folhas. Para isto, convém plantal-as logo depois de cortadas da arvore mãe, ou quando isto não seja possivel, evitar a sua exposição ao ar sêcco e quente. O melhor meio de lhes conservar a frescura e vitalidade, é pelo abacellamento; consiste esta operação em enterral-as debaixo d'uma boa camada de terreno fresco; por este modo podem conservar a sua energia vital por muitos mezes.
Quando por qualquer razão, na occasião da plantação, as estacas apresentam pouca humidade e a camada herbacea da casca empallidecida, e que por isto se receia do seu porvir, convém n'este caso tel-as de molho em agua durante vinte e quatro horas.
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Se apresentarem o liber completamente sêcco, estão irremediavelmente perdidas.
Nas estacas de madeira porosa e frouxa, a circulação da seiva é muito mais facil, por isso muito mais facilmente se desenvolvem. Nas de lenho mais duro o seu exito é muito mais difficil; para algumas d'estas só á força de grandes cuidados e precauções é que poderemos obter resultado satisfactorio.
Servindo-nos dos conhecimentos de physiologia vegetal anteriormente adquiridos, saberemos como se poderá auxiliar com efficacia a evolução da vida vegetal n'estas circumstancias difficeis.
ESTACA SIMPLES
Nas especies de lenho branco e poroso, como por exemplo a videira, a figueira, e outras mesmo de lenho mais duro, mas que ainda assim facilmente se propagam na estaca, como o marmeleiro, romeira, cidreira, etc., basta enterrarmos o fragmento d'um ramo que seja provido de gemmas; se elle contiver alguma seiva e se a terra tiver alguma humidade, o seu desenvolvimento é certo. Para as especies, pois, que se acham n'este caso, podemos dispensar-nos de mais precauções e cuidados; para obtermos um exito satisfactorio basta cuidarmos em que a terra conserve alguma frescura, e verificar o bom estado das estacas no acto da sua plantação.
Empregam-se estacas de variadas dimensões provenientes de ramos de formação mais ou menos recente.
Nos casos mais geraes o que mais convém é empregar varas de 0,25 a 0,30 de comprimento, de formação do anno antecedente, que se cortam nitidamente nas duas extremidades e que se limpam perfeitamente de todas as folhas e ramusculos. Quando tratarmos da cultura e tratamento particular a cada especie, veremos as modificações que teremos a fazer com relação a algumas d'ellas.
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ESTACAS DE TALÃO
Fig. 13
Fig. 14
Para as especies acima referidas, e mesmo para outras mais difficeis de enraizar, emprega-se com mais segurança de bom resultado a estaca de talão. É a parte inferior d'um ramo que se arrancou da planta mãe, com a base que o ligava ao tronco.
Já sabemos que na axilla dos ramos ha sempre uma grande quantidade de gemmas latentes, que só se desenvolvem quando as que existem na parte superior são destruidas; além d'isto, a seiva descendente sempre se accumula em maior quantidade n'este ponto, por causa da curvatura que alli fazem os canaliculos que a conduzem; é claro, pois, que n'estas condições, esta parte do ramo tem mais elementos para poder enraizar e sustentar-se. Seria este um excellente systema, se não tivesse o inconveniente de prejudicar gravemente as arvores d'onde estas estacas são tiradas, produzindo-lhes feridas difficeis de curar, que ás vezes se tornam cancerosas e podem matar, senão toda a arvore, pelo menos os ramos que soffreram tal operação.
N'estas não é o ramo arrancado, mas cortado de modo que traga na sua base um pedaço de ramo velho, como se vê da fig. 14. Offerece as mesmas vantagens que as estacas de talão, e ainda maiores se o ramo velho tiver algumas gemmas, que tambem produzirão raizes. Téem tambem o mesmo inconveniente de sacrificarem as arvores d'onde são tiradas, e é necessario na plantação preparar-lhes covas mais largas.
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ESTACAS UNHADAS
É uma estaca simples, a que se torce a parte inferior; pelo acto da torsão os vasos seivosos são forçados a formar uma curvatura, que obriga a seiva a demorar-se alli, e d'este modo se facilita a evolução das raizes n'este ponto. É este o systema geralmente adoptado para a plantação das vinhas, que discutiremos em logar proprio.
TANCHOEIRAS
São grandes estacas, de 1 a 3 metros de comprimento, provenientes de ramos de 4 ou 5 annos, que se despojam das folhas e ramusculos e se enterram de 0,40 a 0,80 de profundidade, conforme a consistencia e humidade do terreno. A parte que fica fóra da terra deve ser, nos primeiros tempos, resguardada dos rigores do sol, formando-se-lhe um monticulo de terra na base, e vestindo o resto da estaca com palhas ou folhagens.
As oliveiras reproduzem-se facilmente por este modo; em pouco tempo medram e dão fructo, mas a sua duração é muito menor do que quando provéem de estacas pequenas, ou melhor, de enxertos sobre zambujeiros. Os salgueiros, choupos, amieiros, etc., tambem vingam perfeitamente por este systema.
OUTRAS ESTACAS
Para algumas especies, para a oliveira, por exemplo, é vantajoso em certos casos empregar o seguinte processo:
Quando se fazem decotes e podas vigorosas, aproveitam-se os ramos, que se limpam perfeitamente das folhas, mas deixam-se-lhes todos os ramusculos, abrem-se covas largas de 0,25 a 0,30 de profundidade, deita-se-lhes algum estrume bem cortido, misturado com terra vegetal, enterra-se o ramo horisontalmente, levantando-se-lhe os ramusculos no sentido perpendicular e cobrem-se de terra, deixando apenas as extremidades de fóra; cada um d'estes ramusculos fórma em breve uma arvore, que se separa das mais para ser transplantada para onde convier.
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Nas especies de lenho muito duro, difficeis de propagar por estaca, póde recorrer-se a qualquer dos meios que vamos indicar, a fim de auxiliarmos quanto possivel o seu bom exito: No anno anterior áquelle em que as estacas se hão-de plantar, vae-se á arvore que as ha-de fornecer e escolhem-se os ramos que se destinam áquelle fim; um pouco abaixo do ponto onde téem de ser cortados, applica-se-lhes uma forte ligadura bem apertada, com um cordel, ou melhor com um arame; a seiva na sua descida encontra este obstaculo, fórma dentro em pouco uma protuberancia annullar logo por cima da ligadura; no anno seguinte corta-se o ramo, por debaixo d'aquella protuberancia, e d'alli se evolvem depois facilmente as raizes. Em logar da ligadura, tambem se póde tirar um annel de casca ao ramo, no ponto onde deve ser cortado no anno seguinte; do mesmo modo esta operação produz a accumulação da seiva na parte superior, e dá approximadamente o mesmo resultado.
ESTACAS SEMENTES
Sabemos que todas as gemmas bem conformadas, podem desenvolver-se, produzindo ramos; por isso, quando haja difficuldade em se obter a quantidade de estacas que se pretenda, póde multiplicar-se consideravelmente o seu numero, dividindo-as em pequenos fragmentos, contendo apenas uma gemma cada um. Semeam-se em terra leve e humosa, e cobrem-se ligeiramente apenas com uma camada de terriço de 0,01 de espessura; havendo o cuidado de se conservar o terreno sempre humido, desenvolvem-se bem, em breve criam folhas e raizes. A videira e a amoreira propagam-se em viveiro optimamente, por este processo.
ESTACAS RAIZES
São fragmentos das raizes, que se cortam das arvores velhas quando se arrancam, ou que mesmo em outras circumstancias convenha amputar, quando, por exemplo, pela sua extensão vão prejudicar valiosas culturas visinhas; dividem-se em pedaços de 0,10 a 0,16 de comprimento, e plantam-se com a parte mais grossa para cima, ficando apenas 0,01 fóra da terra. Por este modo se podem reproduzir facilmente algumas especies que difficilmente enraizariam por outra fórma.
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A época propria para se proceder á plantação das estacas, é quando as arvores téem amortecida a sua energia vital, que a seiva se acha inactiva, mas que esteja prestes a entrar em movimento. Se as plantações se fazem muito cêdo ha o risco de se desenvolverem cêdo as gemmas, e serem destruidas e queimadas pelas geadas; se a plantação é feita muito tarde, quando as gemmas começam a rebentar, e que a seiva se acha já em pleno movimento, muita se desperdiça e evapora; ha o grande perigo das estacas seccarem completamente.
Para evitar estes riscos, e quando por meio de estaca tentamos reproduzir plantas delicadas e preciosas, difficeis de enraizar, é indispensavel empregarmos todos os meios para se obstar não só á evaporação da seiva que a estaca contiver, mas á seccura do solo; recorre-se para isto ás regas frequentes, aos abrigos, e em algumas circumstancias mais difficeis até se lança mão de campanulas de vidro, com que se cobrem as estacas, a fim de impedirem a evaporação e irradiação do solo.
MERGULHIAS
A theoria da reproducção por mergulhia é exactamente a mesma que exposemos ácerca das estacas.
A mergulhia é uma estaca, que fica durante algum tempo ainda dependente da planta mãe (fig. 15).
Por meio da mergulhia se póde obter a reproducção de muitos vegetaes, que por estaca só com grandes difficuldades se poderiam propagar; além d'isto, o desenvolvimento das mergulhias é sempre muito mais rapido e seguro do que o das estacas. Nos primeiros tempos a estaca apenas póde viver da seiva que contém no seu interior, emquanto o mergulhão continúa a nutrir-se da planta mãe, e em breve adquire forças para emancipar-se.
Nem todas as especies téem egual facilidade em enraizar por este processo, exactamente como nas estacas as de lenho celuloso e frouxo são as mais faceis de propagar por este meio.
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Fig. 15
Nos casos mais faceis poderemos empregar com bom exito a mergulhia simples (fig. 15); pratica-se, abrindo-se uma ou muitas covas nas proximidades da planta que quizermos reproduzir, vergam-se os ramos para a terra, segurando-os no fundo das covas por meio de forquilhas (fig. 15 A), apruma-se a extremidade do mergulhão, sujeitando-a a um tutor, enche-se a cova de terra, que deve ficar bem calcada, e corta-se a extremidade do mergulhão, que deve ficar só com dous olhos fóra da terra.
Nas especies de lenho mais duro é indispensavel auxiliar as raizes por algum dos meios já indicados para as estacas.
Conforme a natureza da planta podemos adoptar um dos seguintes processos: de torsão, de estrangulação, de circumcisão ou de incisão.
O primeiro consiste em operar-se uma torsão na parte do ramo que fica enterrada no ponto onde desejamos que se desenvolvam as raizes.
A estrangulação consiste em ligar o ramo fortemente n'aquelle ponto com um arame ou cordel forte, conforme se indicou para as estacas.
A circumcisão é a extracção de um annel de casca n'aquelle ponto. A incisão é um córte obliquo que se faz na curvatura do mergulhão (fig. 15 B); deve penetrar até á medulla e introduz-se-lhe qualquer corpo estranho, a fim de evitar a soldadura do córte.
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Algumas arvores não produzindo ramos senão a uma altura consideravel, sendo impossivel vergal-os até ao solo, não podem multiplicar-se por este modo. N'este caso recorre-se á mergulhia aerea, ou alporque; consiste na applicação d'um vaso, ou cortiço cheio de terra, ao ramo que pretendemos enraizar, que se apoia e sustenta sobre um supporte qualquer. Ainda para este caso são applicaveis as práticas destinadas a auxiliar a evolução das raizes que vão indicadas para as mergulhias e estacas em geral.
Outro processo de grande utilidade, applicavel em um grande numero de casos, principalmente ás arvores que produzem muitos rebentos junto á base do tronco, é o que os francezes chamam marcottage en butte.
Quando haja alguma d'estas arvores já velha e carcomida, corta-se no inverno; na primavera desenvolve-se junto á base uma grande quantidade de rebentões; cobrem-se de boa terra; todos tomarão raiz e podem depois ser separados e transplantados.
Tambem se applica este processo ás arvoresinhas novas, de dous ou tres annos; cortam-se junto á terra e por este modo criam grande numero de filhos, que depois constituem outras tantas arvores. As amoreiras, por exemplo, multiplicam-se por este modo com grande facilidade.
Algumas especies que lançam raizes longas e superficiaes podem facilmente reproduzir-se por mergulhões de raiz; o processo a seguir é simples - consiste em descobrir uma d'aquellas raizes, produzir-lhe uma contusão na casca e tornar a cobril-a com uma ligeira camada de terra; quasi sempre alli se desenvolvem gemmas, que em breve formam rebentões e renovos.
As mergulhias feitas na primavera, sendo faceis de enraizar, podem geralmente desmamar-se no principio do inverno seguinte; mas quando o seu desenvolvimento é fraco e moroso, devem estar dependentes da mãe até ao segundo inverno.
As considerações a fazer para o bom exito das mergulhias são as mesmas que apresentamos com relação ás estacas; é indispensavel que a terra conserve sempre alguma humidade e que a temperatura favoreça os actos vegetativos.
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ENXERTOS
A enxertia consiste na implantação d'uma parte viva d'um vegetal, susceptivel de produzir ramos, sobre outro vegetal que se encarrega de fornecer-lhe a nutrição precisa para o seu desenvolvimento.
Já sabemos que as sementes das arvores fructiferas raras vezes reproduzem os caracteres e qualidades das variedades que as produziram. Por esta razão, quando pretendemos obter arvores que produzam fructos d'uma determinada casta, não podemos de modo algum confiar nos resultados da sementeira.
A estaca e a mergulhia reproduzem fielmente a arvore d'onde provéem, pois que póde dizer-se que não é um vegetal novo que se vae produzir, mas sim uma parte da arvore que vae continuar a sua existencia em novas condições; os seus fructos hão-de ser identicos aos da arvore mãe, salvo as modificações que pelo decorrer do tempo lhe forem impressas pela natureza do terreno e pelas condições climatericas. Mas ha um grande numero de plantas, cujos ramos difficilmente lançam raizes; n'este ponto tem a arboricultura feito, nos ultimos tempos, importantes progressos, obrigando a enraizar estacas e mergulhias de muitas plantas refractarias a este processo; para isto se conseguir é indispensavel empregar precauções e artificios dispendiosos, inapplicaveis na exploração economica das arvores fructiferas. Estes artificios consistem no emprego dos meios anteriormente indicados conjunctamente com outros, tendentes a conservar a humidade do terreno e a manter-lhe uma temperatura regular e constante; recorre-se para isto aos abrigos, estufas, rescaldos, camas, campanulas de resguardo, etc.
O meio mais facil e seguro de reproduzir as arvores que se acham n'aquelles casos é enxertal-as sobre outras do mesmo genero, que se prestem facilmente á propagação por qualquer d'aquelles meios.
O vegetal sobre o qual se implanta o enxerto, e tem de nutril-o, toma o nome de patrão ou cavallo.
A enxertia nunca poderá dar resultado satisfactorio senão quando o enxerto e o patrão tenham entre si grande semelhança de organisação, analogia e conformidade.
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Ainda não ha muitos annos vogavam a respeito das enxertias ideias as mais extravagantes - houve quem fizesse sérias tentativas, a fim de enxertar entre si plantas as mais desparatadas, como a videira sobre nogueira, etc. A verdade é que, por defeito dos actuaes systemas de classificação, ou por outra qualquer razão para nós desconhecida, a botanica ainda não limitou as raias dentro das quaes as enxertias possam effectuar-se. O facto é que entre plantas da mesma especie, a enxertia póde fazer-se com segurança sempre de bom exito, se a operação fôr bem executada; entre as plantas de especie differente, mas do mesmo genero, ainda as enxertias dão geralmente bom resultado; entretanto aqui já se notam anomalias difficeis d'explicar; a pereira e a macieira, cujo organismo é tão semelhante que ambas pertencem ao genero Pirus, nunca dão resultado satisfactorio quando enxertadas entre si, ao passo que sobre o marmeleiro prosperam admiravelmente. Succede que outras do mesmo modo classificadas pelos botanicos no mesmo genero se negam á mutua enxertia, ao passo que vegetaes classificados em generos diversos dão magnificos resultados, por exemplo, o pecegueiro e a ameixieira - aquella pertencente ao genero amygdalus, esta ao genero prunus, que quotidianamente se cruzam entre si.
Visto a sciencia ser tão avarenta de luzes a este respeito, teremos por ora de contentar-nos com as indicações que o bom senso e a experiencia nos possam aconselhar. O que devemos pois ter em vista, é que não haja pronunciada desharmonia entre os vegetaes que se pretendem reunir em relação á dureza do lenho, á época em que costumam florir, á época em que deixam cahir as folhas e á sua estatura e conformação geral.
É por meio da enxertia que podemos assegurar a qualidade dos fructos das arvores que houvermos semeado.
Sabemos que a semente produz uma arvore bravia; [5] basta pois possuirmos uma arvore de uma dada variedade para que ella nos forneça centenares de enxertos que podemos implantar sobre aquellas e trazel-as todas assim á variedade identica.
[5] É sabido que ás vezes, por excepção, as arvores bravias apresentam variedades de fructos de preciosa qualidade; pena é que em Portugal não haja o cuidado de as apurar e propagar. Na freguezia de Cachopo, concelho de Tavira, appareceu ha poucos annos uma figueira bravia no meio das serranias, que produz os mais formosos e delicados figos que temos visto. Na freguezia d'Esmolfe, districto de Vizeu, appareceu ha tempos uma pereira brava, que dá fructos de doçura e aroma incomparaveis. D'ambas estas variedades temos já alguns enxertos e estacas, que pretendemos propagar.
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A enxertia é tambem um grande recurso para aperfeiçoarmos e augmentarmos as producções fructiferas.
Observa-se geralmente que, enxertando-se uma arvore sobre outra da mesma especie, e de variedade exactamente igual, os fructos sahem depois mais grados e saborosos. Se ainda sobre este enxerto implantarmos outro de casta identica, ainda obteremos um aperfeiçoamento dos fructos.
Alguns botanicos duvidam d'este facto; o sabio Duchartre nega-o; nós, com o devido respeito a tão abalisado professor, não podemos deixar de o acceitar e reconhecer tal como se offerece á vista e observação de todos os arboricultores práticos, e parece-nos que a propria botanica nol-o explica cabalmente.
A cicatriz proveniente da soldadura do enxerto é um obstaculo que se oppõe á livre e rapida circulação da seiva; sabemos que todas as causas que tendam a este effeito auxiliam a formação dos fructos; é para isto que se praticam as empas, torsões, etc.
É principalmente como meio de aperfeiçoamento ou de regeneração das plantas que a enxertia se emprega; é pois em outro logar que teremos de dar mais algum desenvolvimento a este importantissimo assumpto; então estudaremos a sua prática e as condições convenientes ao seu bom resultado.
ALFOBRES
Quasi todas as especies fructiferas necessitam, na tenra idade, de tratamento e cuidados assiduos para bem se desenvolverem e fructificarem. Se as crearmos logo de principio no logar que definitivamente téem de occupar, todos estes cuidados se tornarão muito mais onerosos; além d'isso, as pequenas plantas isoladas a grandes distancias não poderão facilmente ser abrigadas como é mister que o sejam; sobretudo ha ainda o grande inconveniente de occuparem por muito tempo uma grande extensão de terreno que se poderia dedicar a outras culturas.
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Por estas razões, salvo poucas excepções, que indicaremos quando tratarmos das culturas especiaes, convém sempre reproduzir as plantas em alfobre e creal-as em viveiros.
Dedicando um pequeno talhão de terreno áquelles fins, poderemos ter sempre provisão d'arvores escolhidas para plantarmos onde convier.
A causa que mais directamente concorre para que Portugal não esteja tão povoado como deveria estar de arvoredos, é a soffreguidão natural de proprietarios e cultivadores, que querem receber immediatamente da terra o fructo dos seus capitaes e trabalhos; custa-lhes a resignar-se a esperar alguns annos, embora depois esse fructo lhe venha multiplicado ao decuplo.
A creação dos viveiros attenua consideravelmente este grave inconveniente, anticipando dous ou tres annos a producção das arvores fructiferas.
Nas actuaes circumstancias o proprietario que se resolve a estabelecer um pomar, ou tem de principiar pela sua creação inicial, e n'este caso só poderá esperar resultado no fim de muitos annos, ou terá de recorrer a algum viveirista para obter as arvores por preços mui altos, e que nem sempre correspondem á fama com que são apregoadas.
É pois da mais alta vantagem que os agricultores destinem um pequeno canteiro de terra para aquelle fim. A sua cultura, comquanto exija alguns cuidados, é até um agradavel divertimento para quem sabe apreciar os verdadeiros gosos do corpo e do espirito.
É n'estes exercicios saudaveis que mais nos elevamos em espirito, collaborando com o Creador para a formação dos interessantes sêres vivos, que mais tarde hão-de produzir as mais primorosas iguarias das nossas mezas.
Já que os proprietarios desprezam estas práticas que lhes poderiam ser de tamanha utilidade, era dever dos corpos gerentes dos negocios publicos tomar providencias tendentes a promover o desenvolvimento das culturas arboreas e pomiferas, que tão altamente interessam á economia, á salubridade e á felicidade geral.
Se todas as camaras municipaes mandassem estabelecer viveiros d'arvores escolhidas para serem distribuidas a preços minimos aos cultivadores dos seus concelhos, decerto a arboricultura tomaria entre nós, em breve, um incremento notavel.
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Certamente uma medida de tamanhas vantagens não lhes traria sacrificio algum, pois que o preço das arvores, ainda que reduzido a uma quantia minima, de sobejo pagaria as despezas. [6]
A terra do alfobre necessita ser cavada profundamente, bem estorroada, solta e rica em despojos organicos vegetaes. É indispensavel que seja abrigada dos ventos, principalmente do nascente, que são os mais sêccos.
Algumas sementes mais grossas e rusticas dispensam a sementeira no alfobre; podem ser logo semeadas no viveiro, ou mesmo no local em que devem ficar definitivamente. Estão n'este caso a castanha, a bolota, a noz, a amendoa, etc. Outras exigem imperiosamente condições e cuidados que só se lhes podem prestar no alfobre: por exemplo, a larangeira, a amoreira, o eucalypto, etc., como veremos quando estudarmos a sua cultura em especial.
Podem estabelecer-se os alfobres em canteiros de terreno especialmente preparados para este fim, mas melhor é estabelecel-os em arretos ou alegretes levantados sobre a superficie do solo, ou ainda melhor em caixões de madeira ou vasos de barro; é indispensavel que tenham aberturas na parte inferior que dêem esgoto ás aguas de rega; enchem-se de boa terra silico-humosa e collocam-se em logar abrigado. A luz solar directa, quando muito viva, estimula excessivamente as plantasinhas ao nascerem; por isso convém que n'este periodo ellas sejam resguardadas e apenas a recebam coadada por folhagens, que mais tarde se podem tirar pouco a pouco, para que gradualmente se vão robustecendo e habituando á luz.
As sementes mais finas e delicadas devem semear-se á superficie, e cobrem-se apenas com laminas mui delgadas de terra fresca e musgoza, que se póde obter em qualquer recanto sombrio das hortas e jardins; por este modo se conserva muito melhor a frescura na terra do que se a semente fosse coberta de uma camada pulverisada; rega-se amiudadas vezes, de modo a conservar-se a terra sempre humida: convém usar para isto regadores de lata que tenham os orificios muito estreitos, pois que um jacto d'agua muito forte póde abalar as sementes e prejudical-as no acto da germinação.
[6] N'este sentido deu o districto de Faro um brilhante exemplo ao paiz, sendo o primeiro que auctorisou meios para a fundação de uma estação agricola, aonde actualmente temos doze mil plantas arboreas das especies e variedades mais convenientes a esta região, que em breve serão disseminadas pelo districto, sendo logo substituidas por outras.
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Ha sementes que exigem uma temperatura bastante elevada no solo para se desenvolverem, e temem muito a luz durante o primeiro periodo da vida. Para estas convém tomar precauções especiaes. O caixão que destinarmos para a sua sementeira deverá ser munido d'uma tampa de vidraça; lança-se-lhe no fundo uma boa porção de excretos de cavallos, em fresco, e sobre elles a terra bem preparada; feita a sementeira, lança-se uma esteira ou ramagens e folhas sobre a tampa envidraçada, que deve ficar um pouco levantada sobre o bordo do caixão, só quanto seja preciso para a entrada do ar: por este modo se conserva uma temperatura muito elevada no alfobre, e se conserva a humidade. Á maneira que as plantas se vão desenvolvendo vai-se levantando gradualmente a tampa, e vai-se deixando penetrar mais luz.
Algum tempo depois de nascidas devem as plantas ser desbastadas, se vierem muito juntas, devendo achar-se a superficie do terreno sempre bem limpa de hervas.
Nos casos mais geraes, para as arvores usualmente cultivadas, podemos dispensar-nos d'estes cuidados tão minuciosos. Veremos em logar competente como teremos de haver-nos com cada especie em particular.
No fim do primeiro anno, as plantas que se apresentam mais desenvolvidas e robustas devem ser transplantadas para o viveiro; as outras, ficando mais á larga medrarão melhor, e transplantam-se no segundo anno.
VIVEIROS
Os viveiros são destinados não só á creação das arvores provenientes do alfobre, mas tambem á sementeira e plantação das especies menos exigentes. As suas condições devem approximar-se quanto possivel ás que indicamos como favoraveis aos alfobres; sómente com relação á distribuição da luz é que aqui já temos modificações a fazer.
As arvores semeadas directamente no viveiro, sendo ordinariamente mais rusticas, supportam sem perigo os raios directos do sol, mesmo na sua primeira edade, assim como as estacas que alli se plantam.
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Comtudo é de grande conveniencia, nos primeiros tempos, desde a sementeira ou plantação das estacas até que as novas plantulas tenham adquirido alguma robustez, cobril-as com folhagens sêccas ou palhas. Este resguardo não só serve de abrigo ás plantas, mas serve a evitar a grande evaporação e irradiação da terra, e deixa-lhes um adubo precioso.
O sabio professor d'arboricultura Dubreuil diz que convém escolher para o estabelecimento dos viveiros terreno um pouco menos fertil do que aquelle em que as arvores téem de ser definitivamente plantadas, porque o soffrimento que sentem na occasião da transplantação é assim compensado pelas melhores condições em que vão achar-se na sua nova morada.
A prática quotidiana mostra-nos que nos viveiros formados em terreno de pouca fertilidade, as arvores criam poucas raizes, o seu lenho é tortuoso e tem pouca elasticidade, e as folhas não téem a amplidão e o viço que apresentam nos terrenos ferteis.
Quando transplantadas para bons terrenos, lá se vão desenvolvendo, mas em todo o tempo se resentem do mal da origem. As que provéem de viveiros ferteis, trazendo um raizame forte e desenvolvido, ramos bem conformados, fazem-se muito melhores arvores.
Quando se transplantam para maus terrenos, aquellas pela maior parte morrem; estas, mais robustas, tendo melhores e mais numerosas raizes, dispoem de meios mais energicos para procurarem a alimentação que precisam, e resistem muito melhor a todas as vicissitudes.
Julgamos pois da maior conveniencia que os viveiros sejam sempre da melhor terra que se possa obter; o que convém é não resguardar e abrigar excessivamente as arvores que tiverem de ir habitar maus solos muito expostos aos ventos.
É certo que a opinião de M.r Dubreuil tem a seu favor o voto d'abalisados agronomos, notavelmente o do sabio Doutor José Maria Grande; mas nós se estamos em erro, erramos em boa companhia, pois em conformidade das ideias que expomos se pronunciam os distinctos arboricultores práticos Van Hulle, Barão de Manteuffel, e sobretudo os factos téem-nos confirmado sempre esta opinião.
Alguns livros d'arboricultura destinam longas paginas á exposição das regras para a armação dos viveiros e distribuição das culturas.
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Entendemos que estas regras necessariamente, na prática, téem de ser mil vezes modificadas, porque é a natureza e a exposição do terreno, e sobretudo a especialidade das culturas que nos devem guiar na execução d'estes trabalhos.
É intuitivo que devemos reservar os talhões mais abrigados e ferteis ás plantas mais delicadas.
É indispensavel que as differentes variedades fiquem em canteiros separados, e que cada canteiro tenha o seu numero d'ordem, ou indicação escripta da cultura que contém, e que haja o maior cuidado em que se não troquem estes numeros ou indicações.
Seria de importantissima vantagem, que quando tivessemos conhecimento dos terrenos em que as arvores do viveiro devessem ser definitivamente plantadas, as tratassemos de modo apropriado ás condições novas em que mais tarde se devem achar.
O arboricultor tem meios ao seu alcance para dirigir a formação das raizes do modo que mais lhe convier. Quanto mais profundamente se surribar o solo mais fundas se desenvolverão as raizes; quando se lançam adubos ou terras ferteis nas camadas inferiores do solo a planta desenvolverá de preferencia o seu raizame n'este sentido. Se ao contrário a surriba foi pouco profunda, se os adubos se espalharam á superficie, as raizes tenderão a desenvolver-se muito mais superficialmente.
Assim, quando as arvores fossem destinadas a terrenos fundaveis adoptariamos o primeiro processo; quando tivessem de ser plantadas em solos de pouco fundo, ou subsolo impermeavel, convir-nos-hia a segunda prática.
Se a região que tem de habitar é desabrigada e batida dos ventos, convém crear as plantas mui espaçadas entre si; assim serão mais entroncadas, grossas e resistentes.
Tendo-se em vista as considerações physiologicas que já apresentámos, e conhecendo-se as necessidades particulares de cada especie que mais adiante estudaremos, bastarão estas indicações summarias para nos sabermos dirigir no governo dos viveiros.
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