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Manual de Arboricultura/Nogueira

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NOGUEIRA

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A nogueira (juglans regia) é uma das arvores mais preciosas que se conhecem; o seu fructo tem um largo consummo, e tem sempre bom preço e procura certa no mercado; a sua madeira é das mais estimadas para construcções e para todas as obras de marcenaria; as suas folhas e raizes tem applicação na tinturaria. Na Belgica e em alguns departamentos de França, não ha uma casa de campo que não tenha ao menos uma nogueira á porta; em Portugal esta arvore está muito longe de gosar a consideração que merece. O nosso solo e clima presta-se optimamente á sua cultura; se houvesse mais alguma illustração nas povoações ruraes, certamente poderia a riqueza publica augmentar consideravelmente pelo incremento que poderia tomar a exploração d'esta valiosa arvore.

Fig. 92

A nogueira é oriunda da Persia; foi naturalisada na Europa pelos romanos; pertence á familia das amentaceas; apresenta as flôres unisexuaes. A fig. 92 representa um amentio, que é uma reunião de flôres masculinas; a fig. 93 representa as flôres femininas; aquellas depois de operado o acto da fecundação murcham e cáem; estas desenvolvem-se e produzem os fructos.

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Fig. 93

As variedades mais conhecidas em Portugal são: rocaes ou ordinarias, molares, temporãs e durazias; encontram-se tambem alguns exemplares d'outra variedade que produz fructos muito grandes, mas cujo miolo não enche a casca. Ha outras variedades (ou especies) especialmente proprias á producção de madeira, originarias da America do Norte, e são: nogueira preta (juglans nigra), nogueira porcina, e nogueira oliviforme. A nogueira preta é muito conhecida em Portugal; a sua madeira adquire uma linda côr escura; é muito forte e de grande duração. As outras duas variedades tambem produzem madeira de não menor valor; a nogueira porcina attinge proporções gigantescas.

TERRENO E CLIMA

A nogueira dá-se mal nos climas frios; as geadas destroe-lhe muitas vezes as flôres e os rebentos; em Portugal prospera optimamente, porque não temos grandes invernos a receiar; prefere as exposições ao oeste e noroeste. É pouco exigente em relação ao terreno: vemol-a medrar por entre os rochedos nas encostas das serras em terras magras e seccas; mas para tomar um desenvolvimento rapido exige terras frescas e profundas. Nas terras pouco fundaveis as raizes estendem-se horisontalmente a grandes distancias, prejudicando consideravelmente as colheitas que ali se fizerem.

As folhas da nogueira que cáem sobre a terra prejudicam gravemente as culturas, porque contendo uma grande quantidade de tanino, tornam o solo acido e adstringente; mesmo a agua que cae sobre a folhagem carrega-se d'aquelle principio e prejudica as plantas onde chega; por isso para a cultura d'esta arvore devem aproveitar-se os terrenos devolutos, as orlas dos caminhos e os sitios onde não cause damnos.

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MULTIPLICAÇÃO E CULTURA

A nogueira multiplica-se ordinariamente por meio da sementeira; escolhem-se nozes das variedades mais vigorosas, stratificam-se em areia; nos climas seccos e quentes do sul semeiam-se no outono; nos climas mais humidos do norte semeiam-se em fevereiro. Póde semear-se logo no local que as arvores teem de habitar, mas melhor é semear-se em viveiro; abrem-se regos de 30 centimetros de profundidade, distanciados de 70 centimetros, colloca-se no fundo uma fiada de telhas, enche-se o rego com boa terra, depois á distancia de 50 centimetros umas das outras, collocam-se as nozes, que devem ficar de 6 até 10 centimetros de profundidade, conforme a consistencia e tenacidade da terra, sempre com a ponta para baixo. Julgam alguns arboricultores que quebrando-se-lhes a casca apressa-se a germinação; é errada esta supposição: as nozes devem semear-se inteiras; passados 30 até 50 dias devem estar as arvoresinhas nascidas; se o solo é muito compacto e a estação corre muito fria podem levar ainda mais tempo. Os ratos são muito avidos d'esta semente; muitas vezes destroem completamente a sementeira; para se evitar este damno convem collocar nas visinhanças excretos frescos de gado suino, ou melhor, um pouco de sulphureto d'arsenico.

A collocação das telhas por baixo das sementes tem por fim evitar que o espigão profunde verticalmente na terra; por este artificio as raizes ramificam-se em sentido horisontal; a transplantação é mais facil e as arvores depois prendem mais facilmente.

Durante os tres primeiros annos os cuidados com as novas nogueiras limitam-se a trazer o terreno limpo, e dirigir a formação do caule, impedindo que se desenvolvam ramos lateraes muito fortes; ao terceiro anno deve-se-lhe aplicar uma cava profunda, cortando-se-lhes as raizes que forem além de 40 centimetros de distancia do tronco; por este modo se obrigam a ramificar sem se alongarem demasiadamente; ao quinto ou sexto anno terá a arvore 2 a 3 metros d'altura; está no caso de se transplantar.

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Quando a nogueira é destinada especialmente á producção de fructo é muito conveniente enxertal-a; póde-se-lhe applicar a enxertia d'escudo, mas a mais usada e que mais lhe convem é de flauta, como vae descripta a pag. 138.

Na transplantação da nogueira é indispensavel que se observem as indicações feitas a pag. 88; nos terrenos seccos e quentes transplanta-se no outono; nas terras humidas convem esperar para o fim do inverno.

A nogueira sente-se muito dos cortes que se lhe fazem; por isso não se lhe devem fazer grandes amputações; a sua educação na edade nova consiste em formar-se-lhe o tronco direito e forte; depois deixa-se-lhe formar a copa naturalmente.

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