Manual de Arboricultura/Plantação
PLANTAÇÃO DAS ARVORES
-
As arvores produzidas no alfobre, muito proximas umas das outras, tendem a elevar-se muito em altura, criam poucos e pequenos ramos lateraes, e apresentam por isso um tronco delgado e fraco. Para que possam robustecer-se é preciso pol-as á larga, arralando-as e transplantando as mais fortes para outro logar.
Do mesmo modo é indispensavel arralar os viveiros para que as arvoresinhas no seu crescimento não se prejudiquem mutuamente.
TRANSPLANTAÇÃO
Nos terrenos soltos e areosos deve fazer-se a transplantação logo no principio do inverno; nos terrenos mais compactos e onde o clima fôr mais humido deverá ficar para mais tarde; porque o excesso da humidade na estação invernosa póde prejudicar e destruir as raizes.
As arvoresinhas nunca se arrancam; isto seria destruir-lhes as melhores raizes e comprometter gravemente a sua vida; para transplantal-as devemos servir-nos de um instrumento proprio, do feitio de uma pá bem afiada, em fórma de telha (fig. 16): crava-se na terra, a maior ou menor distancia da planta, segundo o seu porte, parallelamente ao tronco; depois com um leve movimento lateral se desloca a terra em que a planta tem as raizes.
Fig. 16
84
Quando a plantação não póde ser feita immediatamente, é indispensavel collocar as arvoresinhas em cêstos, com a terra que trouxeram agarrada ás raizes, ajuntando ainda mais alguma, e melhor será cobrir-lhes as raizes com laminas de terra musgosa ou enrelvada, que as preserve da sêcca.
As plantas que no alfobre ou viveiro se apresentam rachiticas e desmedradas devem ser arrancadas e destruidas; não valerá a pena dedicar-lhes cuidados e attenções. As que se aproveitam devem ser divididas em cathegorias, segundo a sua robustez e desenvolvimento. Esta divisão e classificação é de grande utilidade, para mais tarde escolhermos o destino, tratamento e fórma que mais lhes possa convir.
As que se apresentam mais robustas e desenvolvidas devem destinar-se para formar arvores d'alto fuste; as outras, conforme a sua força, podem adaptar-se a outras fórmas mais modestas.
Em todo o caso as plantas mal conformadas ou estioladas devem ser irremissivelmente inutilisadas; não valem os cuidados que precisariam para viver e nunca chegariam a formar arvores perfeitas e rendosas.
Não se avalia da robustez das plantas sómente pela sua estatura; é principalmente pela regularidade do seu todo e pelo desenvolvimento das suas raizes que devemos ajuizar do seu valor.
Antes da plantação procede-se ao preparo das raizes e dos ramos.
Por maior cuidado que haja na transplantação, as raizes sempre soffrem algumas contusões; as que se apresentarem dilaceradas ou contusas serão aparadas pelo são, com um instrumento cortante bem afiado, poupando-se o mais possivel as radiculas mais finas que se acharem em bom estado.
A póda dos ramos, por esta occasião, deve ser proporcional á que tenham soffrido as raizes. Se estas nada soffreram, muito pouco ou nada se deverá cortar aos ramos; se foram muito sacrificadas deveremos cortar com maior rigor.
Quasi todos os arboricultores theoricos e práticos aconselham, que por occasião da transplantação se corte o espigão ou raiz mestra da arvore (fig. 17), porque d'este modo se desenvolvem mais fortes e numerosas as raizes lateraes, que são as que maior nutrição trazem á planta.
Como unica excepção a esta regra apresentam-se sómente as arvores pertencentes á grande familia das coniferas, para as quaes tal operação é em extremo perigosa.
85
Fig. 17
Effectivamente, o corte do espigão é uma operação indispensavel em muitos casos, e de grande vantagem quasi sempre. Mas é certo que não é só ás coniferas que ella póde prejudicar gravemente.
Não podemos, pois, aconselhar tal operação sómente com aquella restricção; ha outras arvores pertencentes a diversas familias para as quaes ella seria prejudicial: a amendoeira, por exemplo, e o sovereiro estão n'este caso.
Ácerca d'este ponto ainda entre os arboricultores ha profundo desaccordo, de modo que na realidade não podemos guiar-nos senão pela nossa propria razão e experiencia, ou pela experiencia dos nossos visinhos, que nos merecem inteira confiança.
O barão Manteuffel, director geral das mattas do reino da Saxonia, um dos mais sabios arboricultores da Europa, em muitos casos, quando as arvores são destinadas a povoar terrenos pouco profundos, de subsolo pedregoso e esteril, manda-lhes cortar o espigão, seja qual fôr a sua familia e especie, sem exceptuar mesmo as coniferas; o pinheiro silvestre e o abeto são tratados por esta fórma; diz elle ter obtido magnificos resultados de semelhante prática.
Falta-nos a propria experiencia para dar opinião sobre este assumpto; no entretanto, com relação a outras familias temos já algumas observações que nos parecem concludentes, das quaes deprehendemos que para o geral das arvores fructiferas é o corte do espigão de grandissima utilidade, mas esta regra tem algumas excepções. Quando tratarmos em particular da cultura das especies mais notaveis, diremos, segundo o nosso modo de vêr, quaes exigem aquella operação e quaes a devem dispensar.
86
Havendo-se preparado as arvores de modo que o systema ramifero se ache em perfeita harmonia e equilibrio com o systema radicular, pela fórma indicada, vejamos como devemos proceder á sua plantação.
Trata-se ainda de dar ás novas arvores uma habitação provisoria, mas onde ellas possam achar condições de vida que as fortaleçam e auxiliem no seu desenvolvimento, para mais tarde poderem ser plantadas definitivamente onde tenham de ficar.
N'esta nova habitação devem ficar muito mais á larga do que estavam; fazem-se-lhes as respectivas covas espaçosas e profundas para que as raizes se desenvolvam á vontade.
Fazendo-se as covas fundas não se deve entender por isso que as arvores devam ser plantadas profundamente; a natureza indica-nos o ponto até onde ellas devem ser enterradas; é o nó vital ou collo da raiz. Alguns arboricultores suppoem que enterrando as arvores mais profundamente as obrigam a crear mais raizes, e que virão mais robustas; é um completo engano; ao contrário levarão muito mais tempo a desenvolver-se, e nunca chegarão a adquirir grande corpulencia e vigor. Só nos terrenos que forem excessivamente soltos e areosos é que o nó vital deverá ficar um pouco abaixo da superficie do solo, a fim de se evitar o effeito dos ardores do sol e da sêcca sobre as raizes superficiaes. Em geral deveremos sempre seguir a regra que a natureza indica.
O arranjo e accommodação das raizes deve fazer-se com a maior circumspecção, para que não fiquem em posições forçadas e tortuosas. É altamente reprehensivel o uso de se calcar a terra sobre as raizes a pés ou a maço; este serviço deve ser feito á mão.
É n'esta residencia temporaria que as arvores fructiferas devem gosar os primeiros beneficios da educação, que deve ser apropriada aos fins que devem preencher e á fórma que ulteriormente téem de tomar.
87
Esta educação consiste na enxertia, e na formação e direcção do tronco e dos ramos, segundo melhor convier.
Em breve entraremos no estudo d'esta materia.
Ordinariamente, passados dous ou tres annos, estão as arvores em estado de ser plantadas no local que téem d'occupar definitivamente.
PLANTAÇÃO DEFINITIVA
N'este serviço deverá haver o maior cuidado em se levantarem as plantas do solo sem se lhes dilacerarem as raizes. Aquellas que soffrerem alguma contusão cortam-se. Todas as mais considerações que fizemos com relação á transplantação são applicaveis n'esta circumstancia.
As covas para a plantação definitiva devem ser proporcionaes á grandeza futura que as arvores deverão attingir. Para as que forem destinadas a formar copa alta nunca deverão ter menos de 1m,50 de largura por 1m de profundidade. Nas terras areosas e sêccas ainda esta profundidade deverá augmentar; nas terras frescas poderá diminuir um pouco.
Quando se abrem as covas a camada superior de terra, até á profundidade de 0,25, que é sempre a mais fertil, deve collocar-se separadamente, n'um monte; a camada que se segue inferiormente a esta, colloca-se tambem em separado; a camada mais inferior, quasi sempre esteril, lança-se fóra.
As covas deverão ter sido abertas com algum tempo de antecedencia, para que a terra tenha tempo de receber os beneficios dos agentes atmosphericos.
Convém ter d'antemão preparado alguns entulhos e caliças provenientes de velhas demolições, e um composto de boa terra vegetal misturada com estrume perfeitamente curtido e decomposto, em que devem predominar despojos organicos vegetaes, cinzas e lodos. Os estrumes animaes, principalmente, se não estiverem completamente curtidos podem comprometter gravemente o bom exito da operação.
Ao fundo da cova lança-se uma camada de entulho (fig. 18 a) de 0,20 d'espessura; sobre esta lança-se alguma terra da que se tirou da superficie, e dispoem-se de modo a formar um monticulo no centro (b); é sobre este que devem assentar as raizes da arvore, devendo ahi tomar uma posição e direcção natural.
88
Fig. 18
Sobre as raizes e por entre ellas deita-se o composto já indicado (c), devendo ser calcado á mão, de modo que se não forcem as raizes; acaba-se de encher a cova com a terra extrahida da segunda camada (d) ou mesmo da ultima, se esta não fôr de pessima qualidade.
Por este modo ficam as raizes logo em contacto em um terreno rico que lhes póde fornecer abundante alimento; a camada d'entulhos facilita a penetração do ar na camada mais funda da terra; além disso, como sempre contém alguns nitratos, e estes téem tendencia para subir e aflorar a superficie da terra, dá-se alli sempre um movimento ascencional de materiaes nutritivos; a terra mais esteril vem para a superficie, e ahi será constantemente melhorada pelas acções meteoricas, e facilmente se poderá corrigir por meio dos adubos e amanhos.
Quando houvermos de plantar arvores tiradas do viveiro ha muitos dias, e que por isso apresentem as raizes murchas ou quasi sêccas, é indispensavel refrescal-as, tendo-as por algum tempo mergulhadas em agua, em que se deverá ter diluido algum estrume de gado bovino.
Se tivermos de plantar arvores já muito desenvolvidas, teremos de poupar-lhes as raizes com o maior cuidado, e defendel-as da sêcca; convirá tambem refrescar-lhes as raizes com o composto liquido acima indicado, e revestir-lhes o tronco de uma cobertura de palhas ou ramos de pinheiro.
89
A época que mais convém á plantação das arvores é aquella em que a energia vital se acha adormecida, mas deverá anticipar-se ou retardar-se, segundo o clima, a natureza do terreno e a especie da arvore.
Nos climas quentes e sêccos deverá a plantação anticipar-se; não ha os rigores do inverno a temer, os calores da primavera chegam cêdo; é conveniente que a este tempo a planta tenha já tomado posse do terreno.
Nas terras humidas e frias convém retardar a plantação, porque o excesso da humidade, no inverno, póde destruir-lhe as raizes; as oscillações da temperatura podem despertar-lhe a vida, para mais tarde ser aniquilada pelos frios e intemperies.
As plantas cuja vegetação é mais temporã, deverão ser plantadas mais cêdo.
Ha poucos annos tem-se preconisado muito na Allemanha e em França um systema de plantação d'arvores inteiramente diverso de tudo quanto havemos exposto. É o systema que os francezes chamam de plantação en butte, que nós poderemos chamar em monte.
Tirada a planta do viveiro é collocada no ponto onde tem de ficar, com as raizes sobre a superficie da terra; não se lhe abre cova, nem tão pouco o terreno é cavado! Por entre as raizes e sobre ellas lança-se boa terra, composta com algum adubo, formando um monte (fig. 19); sobre este monte de terra collocam-se algumas placas de terra enrelvada, ficando a relva para baixo; fixa-se a arvore a um tutor, e está a plantação concluida.
Fig. 19
Não admira que este processo tenha dado excellentes resultados na Allemanha; alli o maior inimigo dos arvoredos é o excesso de humidade; d'este modo as plantas vivendo n'um plano superior ao terreno circumvisinho, não soffrerão d'este mal; além d'isto, nas terras que se conservam sempre frescas e humidas, as raizes não encontram difficuldades em penetrarem profundamente, embora primeiramente tenham sido collocadas á superficie.
90
Entre nós, o nosso inimigo é a falta de humidade; parece-nos que tal processo nos casos mais geraes seria prejudicialissimo; no entretanto, tambem em Portugal temos alguns terrenos onde o excesso de humidade se faz sentir; n'estes seria conveniente, experimentar este systema, que em taes condições póde ser de grande vantagem. Mas n'este caso, mais vantajoso será para o proprietario, destinar taes terrenos ás culturas pratenses, que lhes são proprias.
TERRENOS
Todos os terrenos em geral podem ser utilisados pela arboricultura; o ponto está em saber-se adaptar-lhes as especies que lhes forem mais apropriadas.
No sul de Portugal dá-se perfeitamente a alfarrobeira entre os rochedos calvos e nús; os areaes da Fuzeta, no Algarve, acham-se vestidos de preciosos vinhedos. Ao norte, o castanheiro e a nogueira vivem nas regiões mais alpestres.
A arboricultura póde sempre tirar excellente partido de todos os terrenos, mesmo d'aquelles que á primeira vista parecem absolutamente estereis.
As culturas pomiferas são um pouco mais exigentes; para produzirem bom e abundante fructo exigem terrenos abrigados, de boa contextura, e não muito seccadaveis.
Nem sempre o arboricultor tem ao seu dispôr terrenos nas condições que lhes são mais aprasiveis, mas até certo ponto a arte e o trabalho podem remediar este inconveniente.
CORRECTIVOS
Quando o terreno é argilloso, frio e compacto, a addição d'alguns entulhos, provenientes da demolição d'edificios, é um excellente meio de lhe augmentar a permeabilidade e de lhe corrigir todos os defeitos. Se é o defeito opposto que se lhe nota, se é excessivamente areoso e solto, convem n'este caso lançar mão d'alguns lodos, mesmo algumas argillas que se possam encontrar nas visinhanças.
91
Succede muitas vezes que a pequena profundidade, abaixo do terreno arenoso da superficie, se encontra um sobsolo de argilla; n'estas circumstancias basta uma surriba profunda para trazer para cima uma parte da camada inferior, e assim se consegue o fim desejado.
Quando no terreno, a pequena profundidade, existe uma camada inteiramente impermeavel á agua, succede que as arvores vão-se desenvolvendo regularmente até chegarem ali as raizes, mas começam em breve a dar signaes de soffrimento.
As aguas não podendo atravessar aquella camada ficam estagnadas, e logo que lá chegam as raizes começam a macerar-se, até que chegam a apodrecer e a causar a morte da arvore.
N'estas circumstancias é indispensavel recorrer a um expediente dispendioso para salvar o arvoredo; só por meio de vallas que dêem sahida áquellas aguas subterraneas o poderemos conseguir, ou por uma drenagem profunda.
Quando soubermos que os terrenos que pretendemos povoar d'arvoredo se acham n'aquellas condições, se a camada impermeavel é bastante profunda, poderemos facilmente dispôr as cousas de modo, que sem termos necessidade de recorrer áquelle expediente, evitemos todos os riscos futuros. Para isto é indispensavel educar apropriadamente as arvores desde o viveiro. Recordando-nos do que ficou exposto ácerca d'este ponto, saberemos como devemos dirigir-nos. Em primeiro logar, o viveiro não deverá ter sido surribado muito fundo, os adubos deverão ter sido encorporados á terra superficialmente, e a todas as plantas se deverá ter cortado rigorosamente o espigão; por este modo as arvores tenderão sempre a lançar horisontalmente fortes e longas raizes, não penetrarão profundamente na terra, e assim se evitarão os males que por aquella causa poderiam soffrer.
92
ADUBOS
As arvores, assim como todos os outros vegetaes, para poderem desenvolver-se e fructificar necessitam encontrar na terra um certo numero de substancias mineraes indispensaveis á sua alimentação. Succede que nem todos os terrenos contéem naturalmente estas substancias na proporção exigida; outros, embora primitivamente as possuissem, podem achar-se exgotados pelas culturas antecedentes. N'estes casos é indispensavel recorrer aos adubos, a fim de se encorporarem no solo aquellas substancias.
Já vimos (pag. 53) que as substancias mais activas dos adubos, que por isso são chamadas elementos nobres, são quatro: o azote, o phosphoro, a potassa e a cal.
N'este ponto, os nossos cuidados resumem-se pois em encorporar na terra estas quatro substancias, debaixo de uma fórma que possa ser utilisada pelas plantas, isto é, n'um estado que se possa dissolver n'agua immediatamente ou dentro d'um certo praso, mais ou menos longo.
Todos estes quatro elementos se contéem em maior ou menor proporção em todas as materias organicas, provenientes do reino animal e vegetal. Todas estas substancias se corrompem, putrefazem e decompoem; no estado de putrefação e decomposição facilmente cedem aquelles principios á terra, que por seu turno os fornece ás plantas em estado assimilavel.
As substancias provenientes do reino animal são muito mais ricas nos dous primeiros elementos, azote e phosphoro, do que as vegetaes, que ao contrário proporcionalmente contéem maior dóse de potassa. Nas partes osseas dos animaes predomina essencialmente a cal e o phosphoro.
Não são só as substancias organicas que fornecem estes materiaes á vegetação; o reino mineral presta tambem enorme contingente de adubos á terra.
O salitre em bruto fornece ás culturas grande cópia de azote e potassa; os minerios phosphatados, phosphoritas e apatites, e algumas substancias organicas fosseis, excretos e despojos diversos, d'animaes que habitaram a terra em épocas remotissimas, fornecem hoje á agricultura milhares de toneladas de phosphoro e de cal.
Na distillação do carvão de pedra para o fabrico do gaz de illuminação e na preparação de certos minerios metallicos obtéem-se enormes quantidades d'amoniaco, que se utilisa para a preparação d'estrumes, e vai fornecer azote ás colheitas.
93
A mistura d'estas substancias em devidas proporções compõe adubos mineraes d'elevadissimo valor.
O consummo d'estes adubos na Inglaterra é computado annualmente em vinte e quatro mil contos de reis. Em Portugal ainda ha pouco as phosphoritas de Logrosan atravessavam o paiz, embarcando em Lisboa, para irem fertilisar os campos inglezes; e nós ficavamos a sorrir da excentricidade britannica, que se lembrava de lançar á terra, como adubo, aquelle cascalho. Hoje continúa pelo mesmo modo a exportação e reexportação de materias fertilisantes, mas já cá temos tambem algumas fabricas que as manipulam e fornecem aos lavradores; por emquanto o seu consummo é muito limitado, mas é de crêr que em breve se desenvolva. O movimento progressivo que a nossa agricultura vai tomando, a instrucção agricola e o auxilio dos capitaes, de certo hão-de animar os proprietarios a lançar mão de tão poderoso recurso para o augmento das suas colheitas.
Nem todos os vegetaes téem a mesma predilecção e identicas necessidades com relação aos quatro elementos nobres que formam a parte mais activa dos adubos; uns exigem o azote em maior quantidade, outros são mais avidos de phosphoro, outros de potassa ou de cal.
Para a agricultura geral é da maior importancia, mesmo de necessidade indispensavel, o conhecimento das exigencias especiaes das differentes plantas cultivadas com relação á sua nutrição.
Todo o agricultor deveria saber qual a quantidade de cada uma d'aquellas substancias que as suas colheitas retiraram da terra, e conhecer ao mesmo tempo a riqueza dos adubos que emprega, para poder racionalmente determinar a rotação das suas culturas, e modificar quanto possivel a composição dos adubos que emprega no sentido que mais lhe convier; conservando por este modo a força productora do seu terreno com a maior economia possivel.
É nos tractados d'agricultura geral que tem logar o desenvolvimento d'este importantissimo capitulo. Na arboricultura este estudo póde simplificar-se muito; para bem nos dirigirmos na applicação dos adubos ás arvores fructiferas basta fixarmos as seguintes noções:
94
Não só as experiencias chimicas de laboratorio, mas as observações práticas culturaes téem provado que os adubos ricos em azote e acido phosphorico, promovem nas plantas a formação de materias plasticas albuminoides (substancias analogas á albumina do ovo, fibrina, gluten legumina, etc.) Ao contrário, os adubos em que predomina a potassa e a cal favorecem a formação das substancias saccharinas. Se por exemplo semearmos um campo de beterrabas, empregando em todo elle a mesma qualidade de semente, mas sendo adubada uma parte com estrumes altamente azotados e outra parte com adubos em que predomine a potassa, as primeiras serão mais ricas em materia plastica, serão muito mais nutritivas; as segundas, menos ricas n'aquellas substancias, serão mais doces, apresentarão muito maior dóse d'assucar.
O facto que se dá com a beterraba dá-se com todos os outros vegetaes.
A vinha adubada com estrumes azotados dará uvas menos saccharinas, mais albuminosas e carregadas de fermento do que as que forem produzidas por vinhas adubadas com estrumes mais carregados em potassa e cal.
Já sabemos que os estrumes provenientes do reino animal são mais carregados em azote e phosphoro do que os que provierem do reino vegetal; é claro pois que estes adubos, comquanto promovam o enviçamento da planta, prejudicam a fructificação, que sahirá menos saborosa e pobre de assucar.
Os adubos em que predominam os despojos vegetaes são pois os mais proprios ás culturas pomiferas, as cinzas são de alta vantagem pela potassa que contéem; e quando houvermos de lançar mão de adubos intensivos ou artificiaes, preferiremos sempre para o nosso fim aquelles que proporcionalmente nos dêem maior riqueza em potassa.
Os estrumes d'origem animal, sendo encorporados á terra em fresco, vão alli fermentar; os phenomenos da fermentação dão logar a uma consideravel elevação de temperatura, que póde prejudicar gravemente as radiculas das arvores com que estiverem em contacto; além d'isto o movimento molecular de decomposição dos estrumes póde communicar-se ás raizes, occasionando a sua morte. Por estas razões taes estrumes só deverão empregar-se estando muito bem curtidos e misturados com cinzas e alguns vegetaes decompostos.
95
REGAS
As arvores fructiferas na sua primeira edade, tendo um raizame ainda fraco e superficial, apresentando o caule e os ramos muito herbaceos, difficilmente poderão resistir ás longas épocas de sêcca que sobrevéem nas regiões do sul do nosso paiz, se n'essas épocas lhes não acudirmos com regas.
Por esta razão é indispensavel que os alfobres e viveiros sejam irrigaveis. Para este fim devem ser armados em taboleiros, com regueiras de communicação de uns para os outros, e com um pequeno declive para que a agua não fique estagnada e corra lentamente de uns para os outros. Estes taboleiros deverão ser tanto menores quanto mais solta e areosa fôr a terra, a fim de que não haja grande desperdicio d'agua.
Nem todas as aguas téem as mesmas propriedades e qualidades fertilisantes. As melhores são as que provéem de ribeiras que tenham já atravessado um grande percurso, principalmente se tiverem corrido sobre leito de terreno granitico.
As aguas provenientes de poços profundos são muito frias e pouco arejadas; para adquirirem boa qualidade necessitam correr por algum tempo expostas ao ar. Em geral todas as aguas potaveis convém ás irrigações; outras que o não são podem comtudo servir áquelle fim, se não forem muito carregadas de gêsso, ferro ou materias organicas acidas e adstringentes.
Ao transplantarmos uma arvore, em qualquer edade que seja, é sempre indispensavel, por essa occasião, dar-lhe uma rega abundante.
Em geral, a maior parte das arvores fructiferas, quando adultas, vivem e fructificam sem necessidade de regas, mas nos nossos climas algumas especies exigem imperiosamente este beneficio.
Quando tratarmos da cultura especial de cada uma d'ellas veremos em que casos nos convirá lançar mão d'este recurso.
-