Meditação (Junqueira Freire)

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Meditação
por Junqueira Freire
Poema publicado em Inspirações do Claustro.

Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que doutro modo não sei escrever.

GARRETT.


I

 
Gosto de meditar de noite, às vezes,
           Como um infante,
Espasmado no olhar, fitando o corpo,
           Que tem diante.
 
Gosto de meditar de dia, às vezes,
           Como o ancião,
A quem idéias se erguem do passado
           Em borbulhão.
 
O infante, o ancião!—os dois extremos
           Da existência;
Um à vida, outro à morte, iguais amostram
           Igual tendência.
 
Este é planta mimosa, delicada,
           Esperançosa:
Aquel'outro hasteada e quase murcha,
           Colhida rosa.


Este promete e cheiro e viço e ramas.
           Flores ao cento;
Aquel’outro esgalhar espera as folhas
           A certo vento.
 
E muitas vezes o sol cresta a plantinha,
           Denuda e mata:
E vinga a planta antiga, — e quase morta
           Revive intacta.
 
O velho então é como o infante estúpido,
           Que nasce agora:
Magina mil visões: sem causa ri-se,
           Sem causa chora.
 
Se fui infante estúpido e pasmado,
           Adulto louco:
Se hei de ser velho, sem sentir, sem alma,
           Daqui a pouco.
 
Antes quisera ser infante, — quase
           Sem sensações:
Não tora ao menos cônscio de remorsos,
           Nem decepções.
 
Fosse por toda a vida infante néscio,
           Sem consciência:
Morresse alfim apenas circunscrito
           Em minha essência.
 
 

II


 
Por que e para que rompeu meu corpo
           Do embrião?
Que melhor que não fora me abafasse
           A compressão?
 
Fora melhor. E o olho vil do hipócrita
           Não me veria:
Franzindo-me o nariz atrás das costas,
           Não se riria.
 
Fora melhor. E a seiva de amargores
           Não me coara,
E a precoce da estação das dores inda
           Não me chegara.
 
Fora melhor. E o estigma da tristeza
           Não me selara.
Melancólica ronha os rins sensíveis
           Não mos gastara.
 
O coração não fora um grosso livro
           De negras laudas.
Não me açoitara a hidra dos remorsos
           Co'as férreas caudas.


Não me fora sem flores a existência
           Contínuo inverno.
Não me fora este mundo um campo estéril,
           Páramo eterno.
 
Onde só nascem, crescem e vicejam
           Males sem conto.
Donde se ceifa antecipado pranto,
           Enojo pronto.
 
Porque e para que rompeu meu corpo
           Do embrião?
Pela miséria, e para a morte interna
           Do coração!
 
E o Deus, que tem por escabelo nuvens
           De ouro e marfim,
De ofendido, parece deslembrado,
           — Triste! — de mim!
 
Deus! para que tiraste-me do imo
           Do embrião?
P'ra vida de minha alma, — ou para a morte
           Do coração?
 
 
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III}}


Oh! morra o coração, — gérmen fecundo
           De mil tormentos.
Desfaleçam-lhe as fibras, — espedacem-se
           Os filamentos.
 
Isenta de paixões, — de amor, ou ódio,
           Surja a razão.
Não obedeça escrava aos sentimentos
           Do coração.
 
Torne-se o coração lâmpada extinta,
           Cinza no lar.
E deixe que a razão veleje livre
           Em largo mar.
 
Creia num Deus, — e dos dulçores goze
           De almo ascetismo.
Não mais lhe roa as vísceras o cancro
           Do cepticismo.
 
A dúvida infernal, batendo as azas,
           Perdendo as cores,
Precipite-se súbito nas chamas
           Exteriores.
 

Sepulte-se a descrença em negras trevas
           De negro inferno.
Creia a razão convicta nas justiças
           Do Deus eterno.
 
Sim: o viburno pequenino, humilde
           No prado agreste,
Vegeta ao pé da realeza enfática
           De alto cipreste.
 
E Deus, que vivifica o alvar pinheiro
           E a tenra planta:
Que os soberbos calcina, e que os humildes
           Do pó levanta:
 
De minha vil baixeza, como os homens,
           Ah! — não se peja;
Que ele mão cheia de mil dons em todos
           Largo despeja.
 
Mas se ‘té 'qui parece deslembrado,
           Triste! — de mim:
Se não manda aguardar minh'alma dúbia
           Um querubim:
 
Se nunca se lembrar que um ente existe
           Nessa amargura,
Melhor não fora me gelasse o sangue
           A morte dura?


Em sala, onde mil luzes por mil lâmpadas
           Reparte o gás,
Delas a mais pequena que se apague
           Que mal que faz?
 
 

IV




Qual rápido relâmpago no espaço
           Sói discorrer,
Tal, sem deixar pegadas de seu vôo,
           Foge o prazer.
 
Foge o prazer como a andorinha leve
           Os ares corta:
Como o primeiro feto — esperanças suas —
           A esposa aborta.
 
Foge o prazer, qual seta que dispara
           Índio sagaz:
Qual no deserto a voz, que um eco apenas
           Nos vales faz.
 
Ali—bem vejo — ali pompéia esplendida
           A cena aberta.
E da platéia os vácuos atacados
           O povo aperta.


Jubilosas menções, palmas soantes
           Rompem, murmuram.
Melíflua orquestra, tímpanos sonoros
           A dor lhes curam.
 
Os vates das paixões enamorados,
           Como possessos,
Trovam, filtrando em todos o requinte
           De seus acessos.
 
Fugazes fadas no ademã fantástico
           Cisnes gorjeiam.
Depois, prendendo-se a audição aos cantos,
           Todos pranteiam.
 
Arrebatam-se as almas, — magnetizam-se
           Os sentimentos.
Mudam de sua ação inda os mais frigidos
           Temperamentos.
 
Letargia fatal! — ao outro dia
           Calmos acordam.
E, sonâmbulos quase, — aéreas formas
           Só lhes recordam.
 
A miséria da vida se lhes mostra
           Então real.
Catam novos prazeres: nem um deles
           De mais lhes val'.


Qual rápido relâmpago no espaço
           Sói discorrer,
Tal, sem deixar pegadas de seu vôo,
           Foge o prazer.
 
 

V




Hora da noite, — hora solene e sacra
           Á reflexão:
Quando do mesmo sono o pobre e o rico
           Dormindo estão.
 
Gosto de vós, sombras da noite queda,
           Morte do dia,
Que me amparais dos cálidos esgares
           Da hipocrisia.
 
Posso então retrair-me em minha essência,
           Viver comigo.
Não me rodeia do traidor a mascara
           Com cor de amigo.
 
Profundo o olhar do hipócrita, —profundo
           Como o oceano.
Na retina lhe luz das trevas cegas
           O anjo insano.


Sorri também.—Este sorriso estrídulo,
           Oh ente vil,
Por dá-lo mesmo assim fazes, empregas
           Esforços mil!
 
Sorri também: e seu sorriso — escárnio —
           Da natureza.
Seu sorriso — um prelúdio concebido
           De malvadeza.
 
Quanta vez viração tépida e fresca
           Serena os ares,
E procela depois revolta horrenda
           Terras e mares!
 
Quanta vez mil delícias lá desmancha
           Vaivém da sorte!
Quanta vez o prazer da vida incauta
           Precede à morte!
 
Assim sorri o hipócrita um sorriso
           De fúria má.
Mentiras, manhas ímpias seu demônio
           Grato lhe dá.
 
Hipócrita, que pisas o palácio
           E a palhoça e a cela,
Deixa de teus furores esquecida
           Uma parcela.


Não me toques na orla dos vestidos
           Co'a férrea mão:
Deixa-me entregue na soidão da noite
           Á reflexão.

17 de novembro de 1831.