Memória sobre a ilha Terceira/IV/IX

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CAPÍTULO IX Cemitérios da cidade de Angra Cemitério do Livramento Ocupa uma grande parte da cerca do extinto convento de Santo António dos Capuchos. Notando-se em 1845 a necessidade de um cemitério geral, bastante amplo, que pudesse servir a toda a cidade, o governador civil de então, Nicolau Anastácio de Bettencourt, enviou ao Ministério do Reino, em ofício de 13 de março daquele ano, uma representação da Câmara Municipal de Angra, sob a presidência do falecido Visconde de Bruges, pedindo a doação de uma parte da cerca do extinto convento de Santo António dos Capuchos para construção de um cemitério. Feita esta concessão, por consulta do Tesouro Público de 7 de agosto de 1845 e portaria do ministério do reino de 8 de maio de 1848, começaram as obras de construção no dia 3 de junho daquele ano, e no dia 2 de novembro do ano seguinte procedia-se à bênção religiosa do novo cemitério, feita pelo arcediago da Sé Manuel Correia de Ávila, ouvidor eclesiástico que recitou as orações do estilo, com a assistência de todo o clero, autoridades civis e grande concurso de povo. A entrada é ampla e vedada por uma grade de ferro, em cuja parte superior está uma caveira e outros emblemas da morte, e por cima do arco de pedra, que forma a entrada, a legenda «Orae por nós», gravada em pedra, sendo o último remate uma urna, também de pedra, servindo de pedestal a uma cruz de ferro. Este cemitério contém 930 sepulturas para adultos e 154 para crianças,


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sendo estas últimas situadas em espaço separado. Contém um grande número de mausoléus e jazigos de família, sendo já muito pequeno o número de sepulturas disponíveis. Cemitério de Santa Catarina Junto à ermida de Santa Catarina, está uma pequena área de terreno, medindo 4,84 ares, que outrora fazia parte do adro da mesma ermida e que, em 1821, passou a servir de cemitério para a freguesia de São Pedro. Foi em 14 de novembro daquele ano que D. Fr. Manuel Nicolau, Bispo desta diocese, autorizou o vigário da paróquia de São Pedro a benzer a terra destinada a cemitério, o qual foi depois aprovado em 22 de janeiro de 1822 pelo governador do bispado, o Deão José Maria de Bettencourt Vasconcelos. Ali continuaram os enterramentos até 1883, ano em que foi dado o terreno por incapaz e insuficiente para a mortalidade daquela freguesia, passando-se a sepultar os cadáveres no Cemitério do Livramento. Cemitério dos Ingleses A seguir à ermida da Boa Nova, encontra-se um pequeno campo murado, denominado Cemitério dos Ingleses, por ter sido este terreno concedido em 1813 pelo capitão general Aires Pinto de Sousa, para ali serem sepultados exclusivamente os cadáveres dos súbditos da Inglaterra. O primeiro cadáver ali sepultado foi o do cônsul britânico Diogo Alton, em maio de 1813, e durante a época da grande exportação de laranja, em que o porto de Angra era frequentado por navios ingleses, alguns enterramentos se fizeram neste cemitério, que hoje está de todo abandonado. Cemitério dos Hebreus Acha-se situado na Rua do Castelo, vulgarmente conhecida pelo nome de Caminho Novo. Este terreno, que outrora pertencia ao Município de Angra, foi concedido aos hebreus em 15 de setembro de 1832 pela quantia de 300$000 réis, figurando como comprador o hebraico Joaquim Zagury. É de pequenas dimensões e sobre o grande portão de entrada, lê-se o seguinte dístico, gravado em pedra:


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«CAMPO DA IGUALDADE // OS HEBREUS COMPRARAM ESTE CAMPO // AOS IlUSTRISSIMOS MEMBROS DA // CAMARA DA CIDADE DE ANGRA PARA // FAZEREM O SEU JAZIGO // ANNO DE 1832». Cemitério de Nossa Senhora da Conceição Reconhecendo-se em 1888, que o Cemitério do Livramento não podia servir por muito tempo mais para os enterramentos de toda a cidade e arredores, resolveu a Câmara Municipal de Angra, em sessão de 14 de dezembro daquele ano, mandar construir um novo cemitério mais amplo, sendo aprovada esta deliberação pela Junta Geral de Distrito. Depois de competentemente analisado o terreno, resolveu a Câmara comprar um campo com a extensão de 116,16 ares, situado acima do lugar denominado Chafariz dos Melancólicos, onde se começou a construção do novo cemitério no 1.° de janeiro de 1889. Não está ainda completo; apenas tem uma parede de vedação bastante alta, e só uma parte do terreno é que está por enquanto dividida em sepulturas. A forma do novo cemitério é retangular, com uma larga entrada voltada ao sul, notando-se ao lado esquerdo a casa do guarda, e à direita uma outra que serve para autópsias e casa mortuária. No interior do cemitério, que é plano, haverá também uma larga capela. Este novo cemitério comporta, aproximadamente 2:500 sepulturas, parte das quais servirão para crianças e outra para os não católicos.


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