Memória sobre a ilha Terceira/V/I/I

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PRIMEIRA ÉPOCA

CAPÍTULO I Quem foi o primeiro descobridor da ilha Terceira? Na primeira parte deste nosso trabalho, já nos referimos ao descobrimento dos Açores e notámos que, muitos anos antes de Gonçalo Velho Cabral1 ter encontrado a ilha de Santa Maria, já as ilhas dos Açores vinham representadas em algumas cartas geográficas, tais como: o mapa catalão de Angelino Dulcert publicado em 1339;2 o Atlas Mediceo datado de 1351;3 o célebre portulano dos séculos XIV e XV (1384 a 1434);4 e o Atlas de Giacomo Giroldi de 1426,5 existente na Biblioteca Marciana em Veneza. Conquanto apareçam nestes mapas algumas das ilhas açorianas, com nome diferente do atual, é fora de dúvida que este arquipélago já era conhecido dos navegantes antigos, genoveses e venezianos; e se os não povoaram logo, arrogando para si a glória da descoberta, foi porque motivos especiais, para nós desconhecidos, a isso os obrigaram. Sabe-se perfeitamente que a Itália, naquela época, tinha duas potências marítimas, Génova e Veneza, cujos navegantes davam lições aos outros povos; mas, tanto uns como outros, tinham as suas vistas sobre o Oriente, de onde lhes vinham as riquezas, a glória e o domínio. Por vezes, correram o Oceano Atlântico em busca de novas terras, preferindo aquelas de onde pudessem auferir, sem muito custo, um grande comércio; porém, com as viagens audaciosas e pouco afortunada dos irmãos Zeno (Nicolau e Antonio),6 entre 1326 e 1340, esfriou-se-lhes o ânimo e voltaram-se apenas para o vasto comércio do Oriente. É então que ao lado destes intrépidos navegadores, surge o vulto eminente do Infante D. Henrique, em Portugal, no meio de uma geração que se


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debate na ânsia do desconhecido e que procura, engrandecendo-se a si, elevar Portugal, a sua pátria, à culminância da glória, estendendo-lhe o seu domínio, abastecendo-a de riquezas. Esse vulto prodigioso, a quem Portugal deveu toda a sua riqueza, reunira em Sagres, onde se instalara, todos os recursos de que, naquela época, dispunham a cosmografia e a arte de navegar. Obtendo de seu irmão D. Pedro,7 que em viagem científica percorrera as cidades principais da Europa, o manuscrito das peregrinações de Marco Polo, os mapas de Valseca,8 as obras de João de Muller de Koenigsberg,9 de Jorge Purbach10 e as narrativas e roteiros dos pilotos, constituiu, por assim dizer, uma escola de náutica, em que ele, rodeado dos seus discípulos, se entregavam, dia e noite, à decifração dos enigmas que encontravam nesses escritos e nesses mapas. E foi desse labutar constante que surgiram as grandes descobertas dos portugueses, assombrando o mundo inteiro, e é lógico supor-se que não foi o mero acaso que levou Gonçalo Velho Cabral ao encontro da ilha de Santa Maria, mas sim o rumo que lhe tinha sido dado pelo Infante D. Henrique. E tanto assim é que, na primeira tentativa do comendador de Almourol, tendo apenas encontrado as Formigas, e voltado a Portugal, ordenou D. Henrique uma segunda viagem com o mesmo rumo. Foi então que encontrou a ilha de Santa Maria, em 1432, e, como dali se avista São Miguel em dias claros, é muito natural supor-se que o mesmo Gonçalo Velho Cabral dali partisse para aquela ilha, onde chegou a 8 de maio de 1444, povoando-a do mesmo modo. Este ato do comendador de Almourol poderá ser considerado como verdadeira descoberta ou não passou de um reconhecimento ao arquipélago, já previsto pelo Infante D. Henrique, na leitura dos mapas que possuía? Inclinamo-nos para esta segunda hipótese, não só pelo que deixamos dito, mas também pela seguinte Carta de El-Rei D. Afonso V, passada em 2 de julho de 1439, concedendo licença a seu tio para povoar as sete ilhas dos Açores: «Dom Afonso, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que o infante D. Henrique meu tio nos enviou dizer que ele mandara lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores e que se nos aprouvesse que as mandaria povoar. – E porque a nós dello praz lhe damos logar e licença que as mande povoar. E porem mandamos aos nossos vedores da fazenda, corregedores, juizes, e justiças, e a outros quaesquer que esto houverem de ver que lhas leixem mandar povoar e lhe não ponham sobre ello embargo, e al não façades. Dada em a cidade de Lisboa 2 dias de julho. Elrei o mandou com autoridade da Senhora rainha sua madre como sua tutor e curador que é, e com acordo do infante D. Pedro seu tio defensor por ele dos ditos reinos e senhorios. Pais Rois a fez escrever e subescrever por sua mão. Ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil e IIIJCXXXIX (1439).»


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Sendo a ilha de Santa Maria povoada em 1432 e São Miguel em 1444, como é que o Infante D. Henrique, em 1439, já sabia serem sete as ilhas dos Açores? Tais são as considerações que nos levam a admitir que D. Henrique ordenara e insistira nas viagens de Gonçalo Velho Cabral, baseado nos mapas antigos, onde figuravam somente sete ilhas no arquipélago açoriano, e que os portugueses não fizeram mais do que reconhecer a sua existência. Como se reconheceu depois a existência da ilha Terceira? Eis um dos pontos mais obscuros da nossa história, e que talvez nunca seja esclarecido. Confrontando a data de 1444, em que Gonçalo Velho Cabral aportou à ilha de São Miguel, com a da carta de doação da ilha Terceira, a Jácome de Bruges, passada em 1450, deduz-se que esta ilha seria reconhecida em 1447, pouco mais ou menos; e por quem? Seria algum dos companheiros do comendador de Almourol que, em viagem exploradora a algum dos pontos da ilha São Miguel, de lá avistasse a ilha Terceira (o que sucede algumas vezes em dias claros), e que, dando parte para Portugal, Jácome Bruges, tendo dela conhecimento, a pedisse ao Infante D. Henrique? Esta nossa hipótese, que está em harmonia com a carta de doação feita a Jácome de Bruges, e transcrita no capítulo seguinte, carece todavia de mais alguns dados históricos, por ora desconhecidos, ficando no incógnito, por enquanto, o nome daquele que reconheceu a existência da ilha Terceira.


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