Memória sobre a ilha Terceira/V/II/V

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CAPÍTULO V A Ilha Terceira durante o reinado de Filipe III; rendição do castelo de Angra e expulsão dos castelhanos Não lucrou a ilha Terceira com o novo Rei que tão iniquamente governou Portugal, entregando-se nas mãos do Conde Duque de Olivares, um dos promotores da nossa ruína colonial Novas autoridades tinham sido nomeadas para esta ilha, pouco escrupulosas na manutenção da ordem pública, algo despóticas nos seus cargos, e ignorantes nos seus deveres. No Castelo de São Filipe encontrava-se o governador D. Pedro Esteban Dávila, descendem de uma família das mais nobres de Espanha, mas um déspota nas suas sentenças, um carrasco na sua execução. Na cidade estava o corregedor Pedro Vaz Freire, político exaltado e incapaz de se colocar na imparcialidade que o seu cargo exigia. Com estas autoridades tornou-se impossível o sossego e a paz entre os angrenses, cujos ânimos exaltados, pela política local, davam lugar a repetidos distúrbios, cometendo-se assassinatos. O exemplo partia dos fidalgos de Angra, que se haviam dividido em dois partidos; um, denominado «de cima», tendo como chefes os Cantos e os Monizes; o outro, o «de baixo», tendo como cabeças os Bettencourts e Pamplonas, auxiliados pelo governador D. Pedro Esteban Dávila, enquanto o corregedor se ligava ao partido «de cima». Patrocinados pelas autoridades principais da ilha, grandes foram as lutas travadas nas eleições, chegando a paixão política do governador a mandar assestar a artilharia do castelo contra a cidade e casas do capitão-mor Manuel do Canto de Castro, o que ia dando lugar a uma sublevação do povo contra a fortaleza.


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Contra esta política tão nefasta para a prosperidade da ilha, e ponderando bem as consequências futuras, resolveu a Câmara de Angra enviar a Lisboa o cidadão Lopo Gil Fagundes de Sousa, varão respeitável pela sua idade e ilustração, como portador de cartas para El-Rei, onde a Câmara. relatava os últimos acontecimentos e os excessos praticados pelas autoridades, tanto militares como civis. Filipe III, que já conhecia os atos praticados pela nobreza de Angra e desejava patrocinar o pedido justo da Câmara, mandou sindicar os atos do corregedor e outras autoridades, ordenando ao mesmo governador D. Pedro Esteban Dávila a entrega do castelo a D. Iñigo Hurtado de Corcuera y Mendoza, a quem mandara seguir para a ilha Terceira. Foram sindicantes o licenciado Alfonso Moratalla de Tobar e o corregedor Francisco de Carnide; e mandados comparecer na corte de Madrid os seguintes cidadãos: Hierónimo de Roxas, vedor do Castelo de São Filipe, o capitão-mor de Angra, Manuel do Canto de Castro, que não chegou a ir por ter já falecido, o corregedor Pedro Vaz Freire, Cristóvão Borges da Costa e Fernão Feio Pita. Da sindicância a que procederam os enviados de Filipe III, apenas se averiguou que tão culpados eram uns como outros; e que melhor seria substituir as autoridades locais, ficando definitivamente como governador do castelo, D. Iñigo de Corcueras e corregedor o licenciado Francisco de Carnide. Passava-se isto em 1626. Serenavam-se os ânimos com a expulsão das principais cabeças dos partidos em que estavam divididos os fidalgos de Angra e, com a presença de D. Iñigo, julgou o povo, que um governo pacífico e zeloso os esperava. No fim de pouco tempo revelou o novo governador o seu génio altivo e imprudente para com os habitantes de Angra, salientando-se mais para com os seus súbditos, de quem foi um verdadeiro algoz. Repetiram-se com frequência os castigos e mau tratamento de D. Iñigo„ chegando alguns soldados a pedirem com urgência a sua substituição. Destas queixas teve conhecimento o governador, mandando logo levantar um auto para inquirição de testemunhas, que revelassem os autores das cartas enviadas para Madrid. Reunida uma junta, composta de indivíduos da sua confiança para sentenciarem dois soldados, considerados como réus, resolveu-se que fossem enforcados; mas, que o governador poderia usar de alguma clemência para com eles. Foi uma simples formalidade que quiseram ter para com D. Iñigo„ cujo génio vingativo lhe não permitia a comiseração para com dois pobres soldados; e, no dia 24 de dezembro de 1626, pagavam na forca, mandada levantar junto ao portão dos carros, o grande crime de se queixarem contra o mau tratamento dos seus superiores.


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Novas denúncias teve D. Iñigo contra alguns oficiais superiores, recaindo sobre o capitão Felipe Spínola toda a responsabilidade das cartas enviadas para Madrid. No dia 23 de julho de 1627, era também mandado à forca o capitão Spínola; e como, por duas vezes, se quebrasse a corda, mandou o governador que fosse decapitado, a pedido do padecente, perante a soldadesca que se horrorizou com tão grande crueldade. Não valeram as súplicas dos padres que acompanharam o desditoso capitão. Aquele coração de ferro estava sequioso de vingança e não queria perder aquela vítima, a quem odiava desde criança, frequentando juntos as aulas. A indignação foi lavrando cada vez mais contra tanta tirania, e novas queixas apareceram perante Filipe III, que se viu obrigado a mandar substituir o governador D. Iñigo, por D. Diego Fajardo Chacón, que tomou posse no mês de junho de 1627. Foi ativo e zeloso na fortificação da ilha, mas severo nos castigos, não lhe importando a qualidade ou geraquia dos réus. Até 1634 nada houve de notável a registar na história política da ilha Terceira. O comércio de Angra paralisara um pouco, pela falta de navegação que afluíra ao porto da Vila da Praia, tornando-se necessária a criação de uma casa aduaneira naquele ponto. Foi o provedor da fazenda António Ferreira de Bettencourt que instituiu naquele ano a alfândega da Praia, que passou a funcionar nas casas de Ambrósio de Freitas da Câmara, tendo por almoxarife, ou chefe delegado do provedor, Francisco Ferreira Drumonde, nomeado a 11 de janeiro de 1634. Continuavam as desinteligências entre as autoridades locais da ilha Terceira, já pela excessiva ambição do poder, já pela preferência das pessoas escolhidas; e deste caos a que foi lançada esta pequena parcela do arquipélago açoriano, resultou o seu atraso material, a ruína dos seus habitantes. Da convivência com as famílias espanholas tornou-se altiva e arrogante a aristocracia terceirense, perseguindo o povo, sempre escravo do seu trabalho. A agricultura encontrava-se na maior decadência, sem ter do seu lado quem lhe desse auxílio. Com imenso trabalho tiravam os terceirenses os cereais da pequena parte produtível da ilha, permanecendo incultas no interior, vastas campinas abandonadas. E, enquanto o plebeu, sob os raios ardentes do sol, ou açoitado pelos ventos, gemia agarrado aos aparelhos da sua lavoura, para dar o pão ao seu senhorio, os fidalgos terceirenses, enchendo os salões da aristocracia espanhola, assistiam à perda das suas fortunas nas bancas do jogo, cujo vício lhes era subrepticiamente feito pelos estrangeiros. Partilhava a ilha Terceira da mesma decadência de Portugal, cujos portos, até ali frequentados por milhares de navios, estavam agora quase desertos. O Conde Duque de Olivares, a quem se entregara Filipe III, exigia novos tributos, ao mesmo tempo que desbaratava o melhor dos rendimentos. Perdera-se a importante provinda do Maranhão, a alma do comércio brasileiro,


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e para a reconquistar, perderam-se militares de vidas, contribuindo os Açores com um recrutamento de mil homens, em 1638.

Portugal vivia oprimido e escravizado pelo jugo castelhano, que, a pouco e pouco, sugava as mealhas de sangue e dinheiro do cadáver português. O Duque de Olivares, o valido de Filipe III, urdia na sombra a anexação violenta do território português à coroa de Espanha, servindo-se da poderosa armada de Oquendo, que devia chegar a Lisboa depois de bater os holandeses. Tendo sido infeliz nesta empresa, com a derrota naval das Dunas em março de 1640, e a insurreição da Catalunha, em junho do mesmo ano, modificaram-se os planos políticos de Olivares. Conhecedor do poder da casa de Bragança, que, desde 1580 se mostrava, por cálculo, partidária de Castela, viu, como político astuto que era, a sombra que lhe podia fazer o Duque de Bragança e o perigo em que estava Portugal, se ele fosse nomeado vice-rei. E em vez de o aniquilar, procurou quebrar-lhe a força, nomeando-o apenas para o governo militar, enquanto que a regência ficava a cargo da Duquesa de Mântua. Conhecidos os planos políticos de Olivares, decidiram alguns fidalgos portugueses, em cujo coração palpitava o amor pátrio, convidar o Duque de Bragança a aceitar a coroa. de Portugal e expulsar por uma vez o governo espanhol. A muito custo obtiveram a aquiescência de D. João; e, no dia 1..° de dezembro de 1640, levantava-se em Lisboa o grito da Liberdade, e a 6 do mesmo mês, era aclamado Rei de Portugal o Duque de Bragança D. João, que ficou sendo o IV do nome. Feita a aclamação, mandou El-Rei à ilha Terceira Francisco de Ornelas da Câmara, capitão-mor da Vila da Praia, para ali o fazer aclamar, bem como nas outras ilhas dos Açores; e com os plenos poderes de, em seu nome, oferecer ao mestre de campo D. Álvaro de Viveros, que tinha vindo substituir D. Diego Fajardo no governo do castelo, o título de Conde com o rendimento de dez mil cruzados, se porventura quisesse render-se sem resistência. Francisco de Ornelas da Câmara era filho de Francisco da Câmara Paim e sucedera na capitania -mor, por desistência de seu pai, a 28 de abril do 1638. Era casado com D. Filipa de Bettencourt, filha de Vital de Bettencourt e irmã de João de Bettencourt, capitão-mor de Angra. A 21 de dezembro de 1640, saía de Lisboa Francisco de Ornelas da Câmara e só no dia 7 de janeiro seguinte chegou ao porto da Vila da Praia, desembarcando, sem revelar os acontecimentos de Portugal, a não ser a frei Diogo das Chagas, que o procurava em sua casa e a quem fez seu confidente na empresa que lhe tinha sido destinada. Apresentou-lhe as cartas, que trazia


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de D. João IV, para o capitão-mor de Angra e provedor da fazenda Agostinho Borges de Sousa, e as de Filipe III para o governador do castelo, prevenindo-o de um assalto que pretendiam fazer as esquadras francesa e alemã. Nessa mesma noite, e por conselho de seu pai, partiu Francisco de Ornelas para Angra, onde chegou na madrugada do dia 8. Dirigiu-se a casa do capitão Espínola, parente de sua mulher, e por intermédio dele mandou chamar o capitão-mor bem como o provedor da fazenda que se recusou a comparecer. Lida a carta de El-Rei, prometeu João de Bettencourt auxiliar de boa vontade o cunhado, a quem aconselhou mandar chamar o alferes-mor do castelo D. Pedro Ortiz de Melo, antes que o provedor da fazenda o denunciasse ao governador. Feita a exposição dos acontecimentos de Portugal e as recomendações que trazia Francisco de Ornelas para o governador D. Álvaro de Viveros, partiu para o castelo D. Pedro Ortiz, de onde voltou pouco depois com a recusa formal do castelão, às mercês que lhe conferia o novo Rei e que, só à força armada, entregaria a fortaleza. Com esta resposta desanimou Francisco de Ornelas, que esperava obter facilmente a entrega do castelo; e, reconhecendo o perigo que corria em permanecer na cidade, partiu para a Praia, onde chegou na madrugada do dia 10, com a firme tenção de embarcar para Lisboa no primeiro navio que encontrasse. Frei Diogo das Chagas, sacerdote exemplar e escritor distinto, conseguiu dissuadi-lo da viagem, e prontificou-se, de boa vontade, a partir para a cidade, a espionar os atos de D. Álvaro de Viveros e informar ao mesmo tempo os seus correligionários da Praia. Àquele sacerdote deve a ilha Terceira a sua libertação do jugo castelhano, concorrendo com a sua palavra e os bons conselhos que soube administrar ao seu amigo Francisco de Ornelas. Logo que o castelão teve conhecimento perfeito da restauração de Portugal, procurou prender Francisco de Ornelas, indo em pessoa à casa do capitão Espínola; e como o não encontrasse, tratou, sem demora alguma, de arrecadar a pólvora e mantimentos que lhe garantissem alguns meios de cerco, declarando que tais medidas eram uma prevenção contra algum assalto dos estrangeiros, como se espalhara em toda a ilha. Ficou aterrorizado Francisco de Ornelas com estes preparativos de D. Álvaro de Viveros; e novamente tentou partir para Lisboa, por não ter confiança no povo terceirense para a conquista do castelo de Angra. Como não encontrasse embarcação no porto da Vila da Praia, e temesse ser preso pelo castelão, resolveu, de harmonia com os capitães do seu comando, colocar sentinelas nas entradas das ruas e estradas. Logo nas primeiras noites, foram assaltadas por tropa da cidade algumas das sentinelas, e como encontrassem resistência, voltaram para a cidade refugiando-se no castelo.


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D. Álvaro de Viveros, vendo frustrados os seus intentos, mudou de tática; e, com meios ardilosos, procurou chamar a si o capitão Francisco de Ornelas, entabulando com ele uma correspondência afetuosa e mostrando-lhe desejos de conferenciar. A todas as cartas respondeu o capitão-mor da Praia com evasivas, por conhecer a intenção do Governador; o qual, por fim, o intimou a comparecer na sua presença. Não surtiu o efeito que esperava D. Álvaro nesta intimação: Francisco de Ornelas deixou de lhe responder e continuou preparando o campo para a aclamação, instigado sempre por seu pai ou por frei Diogo das Chagas, vulto mais importante do movimento político daquela época e de quem pouco falam os nossos historiadores. No entretanto, mandou o governador D. Álvaro preparar dois navios, um para a Corunha e outro para Sevilha, a pedir socorros, e intimou as três Câmaras da ilha Terceira a fazerem igual pedido a Filipe III. Apenas se conhece a seguinte resposta da Câmara de São Sebastião ao governador, sendo provável que só a de Angra, temendo um conflito com a primeira autoridade militar, cedesse à intimação que lhe era feita: «Não nos consta de certo cousa de que devamos avisar a Sua Majestade e se a Vossa Mercê lhe consta faça, na forma que melhor lhe parecer que mais a seu serviço convém; e se tem alguma carta sua, em ordem que a todos toque, faça que se ajuntem as Câmaras nesta Vila, como é costume e tomar-se-á assento do que mais convier; e todos nós estamos prestes com pessoas e fazendas para servir a Sua Majestade como fiéis vassalos, que sempre fomos. Escrita em Câmara.» Irritou-se o castelão com a resistência inesperada das Câmaras da Praia e de São Sebastião; e, ao ler a resposta desta última, disse: «Os de la Praia dizen que nó sabien nada, e a voz sahiu de la melhor. Estes senores de la Villa de San Sebastian que nó escrieven a S. M., e a mim respondien com palabras prienhas; e dizen que son villanos, por mui cordos los tiengo yo, mas tudo se pagará a su tiempo, assim a ellos, como a quien los aconseja que yo sey mui bien.» Tornava-se urgente adotar qualquer medida decisiva, antes que o governador recebesse alguns socorros de Espanha; e é ainda o grande vulto de frei Diogo das Chagas que resolve Francisco de Ornelas a tomar uma atitude enérgica na aclamação de D. João IV na ilha Terceira. Fez reunir a Câmara da Praia, resolvendo-se estabelecer o corpo da guarda na praça da Vila e proceder-se à organização de nova tropa, com que se entreteve em exercícios nos dois primeiros meses do ano de 1641. Informado o governador D. Álvaro de Viveros, da altitude que tomava a Vila da Praia, que mais parecia ser contra o castelo de Angra do que para


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defesa da ilha Terceira, intimou a Câmara daquela Vila, para que ordenasse ao capitão-mor e aos mais oficiais o levantamento da tropa, recebendo como resposta as seguintes cartas: «Vossa mercê tem esse castelo à sua conta, como eu esta capitania à minha. Sua Majestade a tomará a quem vão proceder como deve, e castigará como merecem seus procedimentos, quando a tome ou mande tomar. Dos meus mostrarei sempre como foram, e são mui dirigidos a seu serviço, e tudo suposto neste precatório, e cargas que nele me faz, são obradas com sinistra informação, que em mim não houve nunca ficções, mas verdades puras, como devo a quem sou, e a meus progenitores. As guardas que meto são as costumadas, comunicadas com a Câmara, e sem inovar postas. Quando Espanha está tão baralhada com guerras civis (como a todos é notório), e as armadas de França e Holanda no mar, urgentíssima razão é estarmos com as armas na mão de noite e de dia, pois é certo que nunca as ilhas e partes ultramarinas estiveram tão arriscadas, e expostas a qualquer acometimento destes inimigos de Espanha, como nesta ocasião presente. E quando para lhes resistir convém estar prestes, e prevenidos, e com as armas nas mãos, me diz vossa mercê desista delas, e que não meta guardas, que são contra esse castelo, que dista desta Vila, em que elas se metem, três léguas. Eu estou certo que tenho procedido bem, como a todos é notório; e também o estou, que sucedendo desordens as pagará quem der motivo a elas. — 7 de Março de 1641. — O capitão maior da Praia — Francisco de Ornelas da Câmara.» «Os senhores oficiais da Câmara, e senhor ouvidor, nos fizeram denunciar a que vossa mercê chama exortação, no que parece não tem muita razão, pois sabe muito bem, que os capitães, alferes e sargentos, e mais oficiais, têm obrigação de seguir e guardar todas as ordens que por seus capitães lhes são ordenadas, às quais devem obedecer, como fazemos, e a nós não compete perguntar como as dão e ordenam. Contudo, entendemos o respeito porque mandam que haja guardas, e se exercitem armas, será pelas revoluções que entre os príncipes Cristãos há. Permitia o céu pô-los em paz e amizade, para que seus vassalos a tenhamos; e protestamos não sermos em desgraça em os ditos, e nós sós, por sermos da portuguesa nação, preclara na obediência e fé para os seus monarcas, dote que o Omnipotente Deus em o Campo de Ourique lhe deu, dizendo: — et erit mihi regnum santificatum fide purum pietate dilectum. — Esta é a verdade, que não pode ser ofuscada por maus fins e fementidos prejuízos, que com sombras e aparências, querem ter entrada com vossa mercê. Isto é o que respondemos, os capitães e mais oficiais abaixo assinados. — O capitão Manuel do Canto Teixeira — O capitão Melchior Machado de Lemos — O capitão Manuel do Canto Vieira.»


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Debalde tentou Francisco de Ornelas obter com meios pacíficos a rendição do castelo, mandando como parlamentário o prior da Graça, frei João da Purificação, confessor de D. Álvaro de Viveros. Ao princípio recusou-se com evasivas às propostas que lhe apresentava, até que por fim o mandou prender na fortaleza, onde ficou detido. Vendo o capitão-mor da Praia que nada mais tinha a esperar do governador, fez espalhar por toda a sua capitania a aclamação de D. João IV em Portugal, instigando o povo a acompanhá-lo no dia 24 de março. Neste dia, domingo de Ramos, depois da missa, levantou Francisco de Ornelas o grito de— Viva El-Rei D. João IV, Rei de Portugal — na igreja de Santa Cruz da Vila da Praia, saindo depois uma solene procissão formada pelos clérigos, nobreza da Vila e grande concurso de povo. Feita a aclamação do novo Rei, nas ruas e largos principais da Vila, recolheu-se o préstito à igreja., lavrando-se o respetivo auto que não está registado. Francisco de Ornelas vendo bem iniciada a sua empresa, participou logo à Câmara de Angra o que acabara de se efetuar na Vila da Praia, exortando-a a acompanhá-lo no movimento político que promovera. A cobardia e servilismo dalguns vereadores fez com que a Câmara respondesse com evasivas ao capitão-mor da Praia, mas o povo terceirense, sequioso da sua liberdade, procurou por si só dar motivo à luta, perseguindo todos os espanhóis que encontrava, condenando assim tacitamente o procedimento pouco digno do senado angrense. Álvaro de Viveros não se descuidava, pelo seu lado, da fortificação e abastecimento do castelo; e, temendo uma invasão do povo da Praia, mandou três companhias de ordenanças, uma para o portão de São Bento, outra para junto dos moinhos de São João de Deus e a terceira para a praça da Câmara, onde estiveram até quarta-feira de trevas, 27 de março. As desordens continuaram na cidade, entre o povo terceirense e os castelhanos; e D. Álvaro de Viveros, querendo afastar aqueles que podiam fazer-lhe sombra e promover qualquer revolta na cidade, mandou chamar António do Canto de Castro, um dos principais fidalgos da cidade, sob o pretexto de o informar sobre os acontecimentos da ilha Terceira. A altitude bélica com que os soldados espanhóis entraram na cidade, comandados pelo sargento Ruy Selom, despertou a curiosidade entre o povo angrense que os acompanhou até à praça da Câmara, onde estava passeando António do Canto. Desconfiado do fim a que iam os soldados, recolheu-se o fidalgo à casa da guarda, que ficava próxima, onde o sargento da escolta expôs ao capitão Fernandes Coelho a ordem que recebera do governador D. Álvaro, para conduzir ao castelo António do Canto. Como a resposta fosse negativa, tentaram os espanhóis atacar a casa da guarda, correndo em auxílio do fidalgos terceirense todo o povo que enchia a praça. Foi nesta ocasião que os


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angrenses, indignados com o procedimento do governador e instigados por António do Canto e o capitão Fernandes Coelho, soltaram o grito de: «Liberdade! Viva D. João IV! Abaixo os castelhanos!» Dado o sinal de alarme, foram os castelhanos perseguidos pela Rua de Santo Espírito até ao seu quartel do cais e dali até à Boa Nova onde tinham outro, sendo pouco depois repelidos para o castelo pela grande massa de povo, onde se viam vários clérigos e os próprios padres de São Francisco que, com o seu exemplo, animavam os angrenses. Estava declarada a guerra contra os castelhanos; e recuar um passo que fosse, seria a ruína completa da ilha Terceira. Francisco de Ornelas desenvolveu então a sua energia, organizando um conselho de guerra sob a presidência dos dois capitães-mores e composto: pelo tenente Sebastião Cardoso Machado, chefe de estado maior; Francisco de Ornelas; Manuel de Barcelos Machado, antigo sargento-mor da Praia; António do Canto de Castro, sargento-mor de Angra; Francisco do Carvalhal, almirante; João do Canto, ouvidor da cidade; e de Tomé Correia, lugar-tenente do capitão do donatário. Este conselho, que estava em exercício contínuo, tinha por fim especial a resolução de quaisquer dúvidas suscitadas sobre as operações militares e com o seu sábio parecer, indicar o melhor modo de conquistarem o castelo de Angra. Ao sinal de rebate, formaram na praça da Câmara as diversas companhias de ordenanças, sob o comando de Diogo do Canto e Castro, Constantino Machado, Galaor Borges da Costa, Henrique Moniz da Silva Merens, João Pacheco de Vasconcelos, Vital de Bettencourt, Jerónimo Fernandes, Francisco do Canto de Vasconcelos e João de Ávila; e dali partiram para as proximidades do castelo, cabendo ao último capitão o lugar denominado dos Quatro Cantos. Faltava no entanto a pólvora para o ataque; e não encontrando Francisco de Ornelas as chaves da casa onde estava depositada, por ter ficado na fortaleza o almoxarife Cristóvão de Lemos, mandou arrombar as portas da casa da pólvora, ficando a última, a principal, que não cedeu aos golpes de machado. Foi nesta ocasião que o padre jesuíta António de Abreu, com a chave da ermida de Nossa Senhora da Saúde, abriu com facilidade a última porta, franqueando ao povo o material necessário para o ataque. Distribuída a força pelas imediações do castelo, partiram para a Vila da Praia o fidalgo Mateus de Távora Valadão e o vigário das Fontinhas, enviados por João de Bettencourt a pedirem reforços; e para as outras freguesias, António Cardoso, da Ribeirinha. Na Vila de São Sebastião conseguiu com alguma dificuldade, o Padre frei Diogo das Chagas, que se reunissem as principais autoridades e vereadores,


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sendo Manuel Martins Fenais, juiz presidente, o primeiro a empunhar a bandeira e chegar à janela da Câmara a aclamar D. João IV.

Estava dado o grito de Liberdade em toda a ilha Terceira, com exceção das fortalezas de Angra, que se conservavam fiéis a Filipe III. Na tarde do dia 27 de março, chegavam à cidade as companhias de São Bento e da Ribeirinha, sendo a primeira comandada pelo sargento Álvaro Martins da Maia, e a segunda pelo capitão Manuel Jacques de Oliveira, indo logo ocupar as trincheiras de defesa da cidade. No dia seguinte, apresentavam-se as duas companhias da Vila de São Sebastião, comandadas pelos capitães Henrique Fernandes Pacheco e João Pacheco Machado, seguindo-se depois a do Porto Judeu, comandada pelo capitão Gaspar Gonçalves Vieira, as de Santa Bárbara, pelos capitães Pedro Lourenço Machado Simão, Fernandes Rodovalho e Francisco João; a de São Bartolomeu, pelo capitão Bartolomeu Gonçalves Rodovalho; e, finalmente, a milícia da Vila da Praia, à frente da qual estava o capitão-mor Francisco de Ornelas da Câmara, com o sargento-mor Sebastião Cardoso Machado e os capitães, Melchior Machado de Lemos, Baltazar Mendes de Vasconcelos, Manuel do Canto Teixeira, Manuel do Canto Vieira e Manuel de Ornelas da Câmara. No dia seguinte foi resolvido fazer-se um cerco perfeito ao Castelo de São Filipe, desalojando os castelhanos do Largo da Boa Nova e estabelecendo um entrincheiramento perfeito, a começar no alto do Porto Novo, seguindo pelo Largo do Quartel, Caminho de São Pedro e Rua do Ferral, atualmente Rua do Conde de Sieuve de Menezes. Fizeram-se também os seguintes redutos: um, no Pátio de Alfândega, onde estava o capitão Borges da Costa com seu cunhado Joaquim Merens da Silva; outro, acima da igreja paroquial de Santa Luzia, com o alcaide-mor da cidade, Bartolomeu Gomes de Oeiras, com duas ou três peças; e um em Santa Catarina, ao portão de São Pedro, construído pelo hebraico Afonso Eanes Perez, a cargo de Afonso Gomes Perez. Existia também o castelo de São Luís, onde está o monumento a D. Pedro IV, que naquela época fora abandonado pelos espanhóis, logo que se concluíra a fortaleza de São Filipe. No mesmo dia em que se preparava o cerco ao castelo de Angra, era assaltada a fortaleza de São Sebastião, conhecida hoje pelo nome de Castelinho, distinguindo-se nesta ação a companhia da Ribeirinha, auxiliada por Francisco do Carvalhal, que, quase de improviso, penetrou dentro do castelo, pondo em fuga os castelhanos, parte dos quais passaram num pequeno barco para a bateria do Monte Brasil e de lá partiram para a fortaleza. Estava pois ocupado pela tropa terceirense um dos pontos estratégicos mais importantes, não só para o ataque da Fortaleza de São Filipe, como também para a baía de Angra, impedindo quaisquer socorros que pudessem vir de Castela para o governador D. Álvaro de Viveros.


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Sobre a cidade fez assestar o castelão toda a artilharia, sem causar dano algum, ao mesmo tempo que do alto da fortaleza pretendia destruir as trincheiras portuguesas, sem resultado algum. Assim se passou o resto da Semana Santa de 1641, até que, no domingo da Ressurreição, depois das cerimónias eclesiásticas da Sé, se organizou uma procissão cívica, onde se incorporaram os capitães-mores e toda a oficialidade, nobreza e povo da cidade, com grande número de clérigos e congregações religiosas, levando João de Bettencourt a bandeira real, para aclamar nos lugares públicos o novo Rei de Portugal; cantando-se, por último, um solene Te Deum, depois de recolhido o cortejo. De tudo isto se lavrou o seguinte auto de aclamação «No ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil seis centos e quarenta e um, em dia de Páscoa da Ressurreição, trinta e um do mês de março, na cidade de Angra desta ilha Terceira, na Sé do Salvador, pelos oficiais da Câmara, a saber: Luís Coelho Pereira, presidente dela, e o capitão Constantino Machado, juízes ordinários, e os vereadores os capitães João de Ávila, Galaor Borges da Costa, Jerónimo da Fonseca, e o procurador do concelho Manuel da Silveira Toledo, foi mandado a mim tabelião fazer este auto, sendo presentes os procuradores do povo António Fernandes Fialho, Gil Rodrigues Cunhete, e Pedro da Costa Machado, e Gaspar Fernandes, dizendo: — que quarta feira santa, vinte e sete do presente mês haviam eles e o mais povo desta cidade aclamado a voz de El-Rei nosso Senhor, o senhor D. João IV de Portugal, de miraculosa memória por nosso Rei e senhor natural; por cuja causa logo no mesmo dia e hora se pôs em cerco a fortaleza de São Filipe do monte do Brasil, que os castelhanos ocupavam, sem que até àquele dia tivessem ordem por carta, nem aviso do dito senhor para o poderem fazer, mas por tão somente o haver feito na Vila da Praia o capitão-mor Francisco de Ornelas da Câmara, domingo da festa de Ramos, vinte quatro do dito mês de março. E porque naquele dia de quarta-feira, nem nos mais, com o contínuo exercício da guerra em que estavam, se não pôde, com a solenidade que convinha, fazer o dito ato, e publicação de tão solene nome, sendo juntos em corpo de Câmara nesta dita santa sé do Salvador, assistindo o capitão-mor desta capitania de Angra, João de Bettencourt de Vasconcelos, e Francisco de Ornelas, capitão-mor da capitania da Vila da Praia, e o ouvidor João do Canto de Castro; e os fidalgos e cidadãos, e muita gente do povo em a forma costumada, em voz alta o dito capitão-mor João de Bettencourt de Vasconcelos aclamou e alevantou de novo por nosso Rei, e senhor, a Sua Majestade, com as solenidades devidas, por assim ser ordenada por eles ditos oficiais da Câmara: a que também assistiu o reverendo cabido, e mais cleresia da Sé, e os religiosos da Companhia de Jesus, Santo Agostinho e de São Francisco, fazendo-se solene procissão na dita


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igreja, com grandes alegrias, e vivas, rendendo-se graças ao céu por tão alta mercê, de que todo o reino de Portugal goza, e esta ilha Terceira, e mais ilhas esperam gozar com paz e quietação, assim em vida de Sua Majestade que Deus guarde por muitos anos como de seus sucessores, com acrescentamento de grandes vitórias e impérios. — E para que a todo o tempo conste, do sobredito mandaram fazer este auto neste livro do registo da Câmara, em que assinaram. — E eu Jorge Cardoso tabelião que o escrevi. — O ouvidor da justiça Pedro do Canto. de Castro — João de Ávila — Constantino Machado — António da Silveira Toledo — Luís Coelho Pereira — Pedro da Costa Machado — Galaôr Borges da Costa — Jerónimo da Câmara — António Pires Fialho — Gil Rodrigues Cunhete.»

Feita a aclamação de D. João IV em toda a ilha Terceira, resolveram os capitães-mores enviar emissários às outras ilhas, a fim de ali reconhecerem o novo Rei de Portugal, e pedir-lhes ao mesmo tempo o seu auxílio para a conquista do Castelo de São Filipe. Foram escolhidos, o capitão Vital de Bettencourt e frei António Evangelho, para as ilhas de São Jorge e Pico; Constantino Pais e frei Diogo das Chagas, para a Graciosa; Francisco de Sá Coutinho para as Flores e Corvo; e para São Miguel e Santa Maria o presbítero António Mendes de Vasconcelos, e depois o Padre Agostinho Paim. Todos foram felizes, com exceção dos dois últimos, que voltaram à Terceira indignados com a receção que tiveram do capitão do donatário, o Conde de Vila Franca. Esta indiferença do Conde, e não do povo micaelense, tinha, como fundamento, o receio de qualquer ataque mandado por Filipe III, semelhar,te ao do Marquês de Santa Cruz, e contra o qual não podia resistir. Poucos dias depois recebeu o Conde uma carta de El-Rei D. João IV, relatando-lhe o sucedido em Portugal, não tendo então dúvida o capitão do donatário de São Miguel, de acordo com as outras autoridades locais, procederem à aclamação do novo Rei, com geral aplauso do povo micaelense. Logo que Filipe III teve conhecimento da situação em que se encontrava a ilha Terceira, e do pedido feito por D. Álvaro de Viveros, mandou seguir um aviso para esta ilha, recomendando ao governador todos os esforços para conservar as ilhas dos Açores, e logo depois uma nau e duas caravelas, com armamento e pólvora, balas e soldados, confiando o seu comando a Manuel do Canto e Castro, que era considerado como seu fiel servidor. O primeiro navio teve de arribar à Madeira, onde foi aprisionado pelos portugueses, seguindo os outros para a ilha Terceira, de onde foram avistados no dia 9 de abril de 1641. Prevendo Manuel do Canto o estado da ilha, ordenou aos dois navios que se conservassem à distância, enquanto ele, em pessoa, fazia um reconhecimento da costa, aproximado-se da freguesia do Porto Judeu, onde


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deixou aprisionar a sua guarnição, ao saber com a máxima alegria os sucessos da ilha Terceira. No dia seguinte, guarnecida a nau de Manuel do Canto com gente portuguesa e sob o comando de Francisco do Carvalhal, seguiu por ordem superior em busca dos outros navios espanhóis, contra os quais já tinha navegado o capitão Roque de Figueiredo em um barco artilhado, e Mateus de Távora num outro. Sem muita resistência se apoderaram de uma fragata, enquanto a outra procurava a baía do Fanal, sendo repelida pelo reduto de Santa Catarina e obrigada a retroceder, indo cair nas mãos dos outros naus que estavam em poder dos portugueses. Nestes navios vinha a correspondência oficial de D. Filipe para D. Álvaro de Viveros, de cuja entrega se lavrou o seguinte auto: «3.ª cópia e aviso. — Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e seiscentos e quarenta e um, aos doze dias do mês de abril, na cidade da ilha Terceira nas casas em que reside o capitão-mor Francisco Ornelas da Câmara por ele e pelo capitão-mor João de Bettencourt de Vasconcelos e João do Canto de Castro, ouvidor das justiças que exercita o cargo de corregedor, foi mandado a mim escrivão fazer este auto dizendo que — ontem, que se contaram onze deste dito mês, se viram defronte do porto desta cidade dois pataxos, que foram reconhecidos serem castelhanos, que vinham de aviso para o castelo desta ilha e frota de Índias pela informação que tinha dado Manuel do Canto de Castro, que dois dias antes viera a esta cidade em uma nau pela coroa de Castela com a qual, por mandado deles capitães-mores e ouvidor, se foram reconhecer os ditos pataxos com gente que desta cidade se meteu nela, os quais foram rendidos em continenti e vindo a terra o capitão Pascoal de Castilho de uma das fragatas foi examinado e perguntado pelas cartas de aviso confessou as deitara ao mar logo que lhe tiraram com a artilharia da nau e sendo hoje dito dia pelas nove horas da manhã, veio a terra da outra fragata, chamada Nossa Senhora do Carmo e San Diogo, Mateus de Távora que entrou nela quando a renderam e nos entregou as cartas que diziam: — Por El-Rey de Castela — Ao mestre de campo Dom Álvaro de Viveros e ao Corregedor das Ilhas ou quem seu cargo servisse — e outra para Agostinho Borges de Sousa, provedor da fazenda, — as quais vinham cerradas — e assim uma instrução dada ao capitão Pedro de Cardena que vinha por cabo do dito aviso feita e passada pelos ministros da casa da contratação de Sevilha e uma ordem do Duque de Maqueda, capitão general do mar oceano por El-Rei Dom Felipe, a qual ordem e instrução vinham abertas — e logo fizemos abrir e se abriram as cartas cerradas em nossa presença e do escrivão que este fez e abertas e lido tudo é o que ao diante segue e para constar a El-Rei nosso senhor do que contém e obrarmos de nossa parte o que acharmos que convém a seu real serviço se fez este auto


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que assinamos e eu escrivão dou fé passar tudo em minha presença na forma que no auto se diz. — Manuel Ferreira o Moço escrivão da ouvidoria que o escrevi. — Manoel Ferreira o Moço — Francisco de Ornelas da Câmara — João do Canto de Castro — João de Bettencourt de Vasconcelos.» Nesta correspondência, que não reproduzimos por ser demasiado longa, recomendava D. Filipe a todas as autoridades da ilha Terceira a manutenção do seu governo contra os portugueses que ele considerava como rebeldes. Não tendo recebido Francisco de Ornelas comunicação de Lisboa, nem os socorros prometidos por El-Rei D. João IV, mandou no dia 22 de abril corno emissários, numa caravela que chegara da Bahia, o franciscano frei António Paim e o capitão João Teixeira de Carvalho; e no dia 25 o capitão Roque de Figueiredo e Manuel do Canto de Castro. Neste mesmo dia chegava ao porto da Vila da Praia uma nau holandesa conduzindo o Padre Francisco Cabral e sete capitães para comandarem as forças de terra. No mesmo navio enviou El-Rei alguma pólvora e armamento, ficando depois ao serviço da armada terceirense, conjuntamente com outra nau da mesma nação que viera do Faial contratada para o mesmo fim. Vinha o Padre Francisco Cabral investido com os plenos poderes para tratar da conquista do castelo, como se vê da seguinte carta régia dirigida à Câmara de Angra: «Juízes, vereadores, e procurador da cidade de Angra da ilha Terceira — Eu El-Rei vos envio muito saudar. — Ao padre Francisco Cabral, religioso da Companhia de Jesus, visitador nessas ilhas, mando que com esta carta, dê conta do que deveis fazer em meu serviço, tomando logo a voz dele obedecendo-me por vosso Rei, e senhor natural e verdadeiro que sou; e como se há de encaminhar a redução e entrega da Fortaleza de São Filipe Monte Brasil, que os castelhanos ocupam. Em tudo espero de vós que procedereis à minha satisfação. E vós deveis estar certos que nas ocasiões que se oferecerem mandarei ter sempre com essa cidade, ilha e seus moradores, em comum e em particular, muita conta, e fazer-lhes favores e mercês. — Escrita em Lisboa a 13 de abril de 1641. — REI. — Para a Câmara da cidade de Angra da ilha Terceira, por El-Rei. — Aos juízes e vereadores e procurador da Câmara da cidade de Angra da ilha Terceira.» No dia 2 de maio um piquete de soldados castelhanos atacava as trincheiras portuguesas, sendo repelidos com energia pelos terceirenses, repetindo-se alta noite o mesmo ataque, que durou duas horas, sendo valorosamente repelidos pelo alferes Vital de Bettencourt, que os perseguiu com um punhado de homens até aos fossos do Castelo.


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Dez dias depois, pelas quatro horas da manhã, pretendeu forçar a entrada da baía de Angra um navio espanhol, sendo também repelido pela Fortaleza de São Sebastião. Vendo que nada conseguia, resolveu o seu comandante, por conselho de um pequeno barco de pesca, ir procurar a armada que estava próxima dos ilhéus, julgando ser da sua nação, e por ela foi aprisionado e saqueado. No dia 26 do mesmo mês redobrou de energia o combate, formando-se novas trincheiras nos cerrados fronteiros ao convento de São Gonçalo e organizando-se mais duas companhias de voluntários, comandadas pelos capitães Pedro de Bettencourt, natural da ilha da Madeira, e João Ibré, filho de Melchior Machado de Lemos, praiense. O valente João de Ávila, a cujo cargo estava o reduto dos Quatro Cantos, conseguiu naquele dia tomar de assalto o que estava contíguo ao castelo, auxiliado pela artilharia portuguesa, que grandes estragos causou dentro da fortaleza. Dias depois chegavam à Praia dois navios franceses, conduzindo o corregedor Manuel Figueira Delgado e o capitão Roque de Figueiredo, que voltava de novo com mais socorros para Francisco de Ornelas. Continuava o cerco à fortaleza de Angra sem resultado algum satisfatório, quando, no dia 31 de maio, a instâncias do Padre Francisco Cabral, resolveu o conselho de guerra enviar um emissário ao governador D. Álvaro de Viveros, com a promessa de grandes mercês, no caso de entregar a fortaleza. Foi escolhido um mulato do capitão Manuel do Canto Teixeira, que levou perante Viveros a carta dos capitães-mores, à qual respondeu o governador com uma recusa formal. Quis o Padre Francisco Cabral empregar os meios pacíficos para a entrega do castelo, como já o fizera Francisco de Ornelas, estabelecendo-se correspondência amiudada com o governador até ao dia 2 de junho, em que se reuniram na ermida da Boa Nova o tenente do castelo João Fernandes e o alferes D. Pedro Ortiz de Melo, e por parte dos terceirenses o tenente Sebastião Cardoso Machado e o capitão Tomé Correia da Costa. Desta reunião nada se conseguiu, continuando a guerra contra a fortaleza, cuja artilharia pouco ou nenhum dano fazia à cidade. A 20 de junho, pela uma hora da tarde, espalhou-se pela cidade a notícia de que um navio espanhol tinha conseguido desembarcar tropa na baía das Mós, partindo imediatamente para aquele ponto um destacamento por ordem de Francisco de Ornelas, indo encontrar já em terra perto de trezentos homens que, sem resistência, se entregaram. Foram estes prisioneiros encerrados na cadeia de Angra, de onde seguiram depois para São Miguel e outros para São Jorge. Acompanhava este reforço D. Luis Pérez de Viveros, irmão do governador. Poucos dias depois fugiram do castelo dois soldados e um preto para as


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fileiras portuguesas, e por elas se soube o abastecimento da tropa castelhana e os preparativos em que estavam para mandarem um pequeno barco construído dentro da fortaleza com aviso para El-Rei de Castela, o qual sereia lançado ao mar pelo lado sul do Monte Brasil, onde hoje se vê os restos do Forte da Quebrada. Numa das pedras daquela rocha existia, ainda não há muito tempo, uma grande argola de ferro por onde desceram os castelhanos. Na noite do dia 21 de julho era com efeito lançado ao mar o pequeno barco, que foi avistado de terra no dia seguinte, partindo logo em sua perseguição um navio da armada terceirense, conseguindo aprisioná-lo sem resistência e levá-lo depois para a Prainha de São Mateus. Passaram-se alguns dias em tiroteio constante, até que no dia 2 de agosto desceram do castelo alguns soldados e com grande energia atacaram, de improviso, o ponto defendido pelo capitão Baltazar da Costa, causando sete mortes e vinte feridos. Este facto inesperado excitou ainda mais os ânimos dos terceirenses, que redobraram de energia contra a fortaleza que parecia inexpugnável, e da qual continuavam as deserções para as fileiras terceirenses. Em fins de setembro e princípios de outubro, vendo os capitães-mores que não chegavam novos socorros e se aproximava o inverno, resolveram formar quatro novas companhias de milícia, comandadas por Diogo do Canto de Castro, Francisco de Andrade Machado, Cristóvão Borges da Costa e Sebastião Cardoso Machado. Esta nova tropa teve o seu quartel em um barracão construído contra o muro da cerca do convento de São Gonçalo. Em princípios de novembro aumentaram as deserções nas fileiras espanholas, sendo informados os capitães-mores do estado lastimável em que estava o Castelo de São Filipe e do desânimo que reinava no inimigo, pela falta de mantimentos e socorros que tinham pedido a Filipe III. No dia 16 de dezembro do mesmo ano dava-se novo assalto ao castelo, conseguindo o capitão Francisco Pires, natural da ilha Graciosa, aprisionar alguns castelhanos e pôr em fuga os que estavam no reduto próximo à Boa Nova: e no dia 28 do dito mês voltou o mesmo capitão ao reduto fronteiro às terras de São Gonçalo, arrasando-o por completo e fazendo novos prisioneiros. A resistência pertinaz de D. Álvaro de Viveros e a sua recusa à entrega do castelo, levou o Padre Francisco Cabral a escrever a seguinte carta ao governador, com consentimento dos capitães-mores: «Pouco depois que vim a esta, enviado por El-Rei nosso senhor D. João, escrevi a vossa mercê com os senhores capitães-mores, procurando pelos meios que tratámos, encaminhar a redução dessa fortaleza sem rigores de guerra, e comodidade de vossa mercê, e seus ministros: e como se não conseguiu o efeito que pretendíamos, em cumprimento dos ordens de El-Rei não passei


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adiante. Contudo, vendo agora, que estes fidalgos têm cessado com as diligências ordinárias em sítios semelhantes ao em que vossa mercê está, me pareceu fazer nova lembrança a vossa mercê da parte de Sua Majestade, para que visto o estado das coisas, e aperto em que me consta está, por falta de mantimentos, e enfermidades de sua gente, trate vossa mercê de entregar essa praça, pois é de El-Rei D. João, nosso senhor, feita em suas terras, e com o dinheiro de seu património; para que assim cessem maiores danos, e vossa mercê possa sair desta ilha com boa passagem, que desejamos, levando em sua companhia a sua gente, e ao senhor D. Luis de Viveros; satisfazendo-se com ter da sua parte procedido com tanto valor e vantagem, em tempo que neste reino e suas conquistas não há praça que não esteja sujeita a Sua Majestade, que Deus guarde. E creia vossa mercê de mim, que tanto me leva a isto o serviço do dito senhor como o de Deus, e quietação de vossa mercê, e certeza que se isto se dilatar hão-de suceder ruínas, que não poderei atalhar, e por não me mostrar favorável à nossa parte não digo a vossa mercê o muito que pudera dizer, em razão disto. E tomei licença para remeter com a de vossa mercê a que será com esta a D. Pedro Ortis de Melo, que vossa mercê me fará permitir se lhe dê, por satisfazer a uma obrigação de que me encarreguei. Guarde Deus a vossa mercê como deseja. — Angra 30 de janeiro d e 1642. —Francisco Cabral.» A esta carta respondeu o governador D. Álvaro de Viveros: «Reconosco el zelo con que vuestra paternidad trata las materias contenidas en su carta. Son tales y tan graves, que no se pueden tratar por cartas, mas a boca. Trate vuestra paternidad los medios que para esto puedan haber, para que asy se disponga lo que mas conveniere a servicio de Dios e de su magestad. — Guarde nuestro Señor a vuestra paternidad. — Castelo de San Filipe 31 de enero de 1642. — Don Álvaro de Viveros.» Aproximava-se o mês de fevereiro sem resultado satisfatório para os terceirenses que se viam quase desamparados e sem recursos de qualidade alguma, quando o mesmo Francisco Cabral, depois de receber a carta do governador, resolveu parlamentar, subindo ele mesmo ao castelo, e ficando, como reféns, o tenente Hernandez e o alferes Ortiz de Melo. Nada se concluiu desta conferência senão tréguas por seis dias, findos os quais continuaram as entrevistas até 11 de fevereiro, sem haver acordo algum. Finalmente, no dia 24, reconhecendo D. Álvaro de Viveros, que lhe era impossível conservar-se por mais tempo dentro da fortaleza, mandou arvorar a bandeira branca, soltando o povo terceirense o grito de «Boa Nova!». No dia seguinte desceram os mesmos emissários espanhóis acima indicados, pararam


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na casa que fica no princípio na ladeira do castelo e que naquele tempo tinha o nome de barraca, sendo ali recebidos por Sebastião Cardoso Machado e Jorge Correia Pinto de Mesquita. Dali seguiram para a ermida da Boa Nova, onde estavam os capitães-mores da ilha Terceira. Prolongaram-se as conferências até 4 de março, dia em que se decidiu a entrega do castelo, mediante a seguinte capitulação: 1. —.Primeiramente, que trariam consigo duas peças de bronze de seis para sete libras, e que trariam mais seis quintais de pólvora; 2. — E que outrossim viriam todos de tropa, postos em ordem, com mosquetes às costas, e suas forquilhas nas mãos, bala na boca, murrão calado, e bandeira tendida; 3. — Que trariam todo o seu móvel, e lhes dariam carros para isso, e para virem os doentes; 4. — Lhes dariam navios portugueses ou ingleses para passarem a Castela, e lhes dariam mantimentos bastantes para seu sustento na viagem, e munições necessárias para sua defensa e segurança; 5. — Que outrossim lhe entregariam seu irmão D. Luís de Viveros, e todos os mais castelhanos que tinham cativos, que o quisessem acompanhar; 6. —Que enquanto estivesse na terra lhes dariam quartel fechado, em que estivessem seguros, o livres de os poderem ofender.» Entregues as chaves da fortaleza ao capitão-mor de Angra João de Bettencourt de Vasconcelos, entrou a tropa vitoriosa nos quartéis, enquanto frei Manuel dos Santos corria para a guarita voltada para a cidade e com as suas próprias mãos desfraldava o pavilhão português. Os castelhanos foram recolhidos em diferentes casas próximas à rocha do Portinho Novo, fazendo-se uma tapada na Rua da Oliveira nos pontos correspondentes às Ruas de D. Afonso VI e de Jesus. No dia 15 de maio de 1642 embarcavam os castelhanos com todas honras militares, passando pela frente da tropa portuguesa que lhe prestou a continência devida ao seu valor e lealdade. Importou esta guerra em mais de cem mil cruzados; e nela morreram cento e quarenta pessoas e ficaram feridas cento e vinte, do lado dos portugueses, enquanto que dos castelhanos, o número excedeu a trezentos. Na seguinte relação vê-se o número das forças que entraram no cerco do castelo, e os nomes dos seus comandantes:


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Relação das companhias terceirenses que entraram no cerco do castelo Companhias e nome dos comandantes Número de praças Total Cidade Diogo do Canto e Castro 146 1055 Constantino Machado 119

Hierónimo Afonso 92

Vital de Bettencourt 128

Galâor Borges da Costa 110

João de Ávila 117

Francisco do Canto 102

Baltasar da Costa Pereira 64

Henrique Moniz 117

João Pacheco de Vasconcelos 60

Ribeirinha Pedro Jacques

93 Porto Judeu Gaspar Gonçalves Vieira

75 São Sebastião Henriques Fernandes Frois 70

Diogo Álvares Machado 70 140 Cabo da Praia Gaspar Camelo Pereira 75

João de Sousa 75 150 Praia Belchior Machado de Lemos 80

Manuel de Ornelas da Câmara 100

Manuel do Canto Teixeira 115

Manuel do Canto Vieira 74

Baltasar Mendes 113

Pedro da Costa de Mendonça 100 582 Vila Nova Francisco Lúcio Rebelo

113 Agualva Gonçalo Vaz Dinis

100 Quatro Ribeiras Francisco Godinho

52 Biscoitos Gaspar Cardoso Machado

96 Altares Belchior Vaz 90

Pedro Borges 80 170 Santa Bárbara Antão Martins 85

Pedro Lourenço 79

António Gonçalves Tristão 64

Inocêncio Rodrigues 95 323 São Bartolomeu Gonçalves Rodovalho

75 São Mateus Sebastião Rodovalho

73 Companhias particulares da nobreza de Angra Sebastião Cardoso Machado 45

Diogo do Canto e Castro 45

Cristóvão Borges da Costa 45

André Pereira de Utra 45 180 Companhias de aventureiros pagas por El-Rei João Heure 100

Pedro de Bettencourt 100 200 Companhias pagas pelos capitães que as organizaram Diogo Leite Botelho 100

João Mendes de Vasconcelos 100

João Afonso Chácon 100

Francisco Pires de Ávila 100 400 Companhias vindas de Lisboa Jorge de Mesquita 100

F. de Arcos 100 200 Total 4077


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Estava terminada a luta. Acabava-se o domínio castelhano que, durante 59 anos, manteve a ilha Terceira debaixo de um jugo de ferro, deixando-a por fim na miséria Novos horizontes se abriam agora ao povo terceirense, iluminados pelo facho da Liberdade que acabava de fechar com a esquerda a porta da escravidão, para abrir com a direita a da redenção!


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