Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/II
II
A SOMNECA
Certa vez, estando a menina á beira do rio, em companhia da boneca, sentiu os olhos pesados e uma grande lombeira pelo corpo. Estirou-se na relva e logo dormiu, embalada pelo murmurinho do ribeirão. E estava já a sonhar um lindo sonho quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos e, com grande assombro, viu de pé na ponta do nariz um peixinho vestido.
Vestido sim, pois não ! Trazia casaco vermelho, cartola na cabeça e flôr no peito : — uma galanteza !
O animalzinho olhava para o rosto della com ar de quem não está comprehendendo coisa nenhuma.
Tão admirada ficou a menina da estranha scena, que reteve o folego, com medo de assustar o curioso, e assim permaneceu algum tempo até que a zoada de um insecto a distrahisse. Era um besourão que voava por cima da sua cabeça e que depois dumas tantas voltas veiu pousar-lhe na testa.
Narizinho, arrepiada, ia espantal-o com um bom tabefe, quando notou que tambem elle estava vestido de gente, com sobrecasaca, óculos, e bengalão. Conteve-se e ficou bem quietinha a ver em que dava aquillo.
O besouro, notando a presença do senhor peixe, levou a mão ao chapéo e cumprimentou-o amavelmente:
— Ora viva, mestre Escamado ! Como lhe vae a saúdinha ?
— Assim, assim, amigo Cascudo. Lasquei hontem tres escamas do lombo e o medico receitou-me ares de campo. Vim tomar o remedio, mas aqui encontrei este morro que não é meu conhecido, e estou a parafusar que terra tão branca e lisa é esta. Será marmore ? disse o peixinho batendo com a biqueira do guarda-chuva no nariz de Lucia.
O besouro, sujeitão muito entendido em questões de terra, pois vive a fazer buracos, agachou-se, ageitou no bico os oculos e depois de examinar a “terra” disse:
— Marmore não é. Parece antes borracha ou requeijão !...
— E estas plantinhas sem folhas ? perguntou de novo Escamado, mostrando as sobrancelhas.
— Devem ser varas de marmello ou barbatanas, não vê como são flexiveis ? Vou levar um feixinho dellas ao compadre Grillo
para que me faça um balaio de costura.
— E eu outro, para Dona Aranha Costureira collocar nos espartilhos que costuma fazer para as
vespas. E puzeram-se, muito sériozinhos, a arrancar
fios da
sobrancelha de
Lucia. Cada “barbatana” que arrancavam era uma dorzinha aguda, e bem
vontade teve a “terra” de os varrer dʼalli com
uma tapona. Mas tudo supportou, sem a menor careta, tão interessante estava achando
a singular aventura.
E ficou bem quieta, a espiar a manobra dos bichinhos, pensando lá comsigo:
— Esta é boa ! Parece que virei baleia !...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
