Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/III
III
O ESPIRRO
Em seguida o peixinho, com o feixe de barbatanas em baixo do braço, desceu e principiou a examinar attentamente os labios e as faces da menina. Deante do nariz parou e, apontando para as ventas, disse:
— Ora aqui está uma tóca muito geitosa para um casal de besouros. Dois commodos, um para o marido, outro para a senhora besoura. Não acha?...

— Bem geitosa ella é, disse o besouro, mas bom será que não móre aqui algum maldicto escorpião !...
— Não creio, retrucou o peixinho. Os escorpiões mudaram-se para o outro lado do rio, onde ha grande numero de cupins velhos.
— Apesar disso, accrescentou o besouro, corre por ahi na bocca do povo que um delles anda do lado de cá, fazendo estrepolias. E bem pode ser que esteja escondido justamente nesta caverna !...
— Não creio, disse o peixinho. Tenho uma boa policia que me informa dos menores passos desses monstros.
— Em todo o caso vejamos, disse prudentemente o besouro. E sacudiu dentro da “tóca” o seu bengalão:
— Hu! Hu! Sae fóra, tinhoso !
Ora aconteceu que a bengala fez cocegas nas ventas da menina e Lucia, por mais que se expremesse, não poude conter um grande espirro:
— “Atchin !”
Os dois bichinhos, pegados de surpreza, reviraram de pernas para o ar, cahindo um grande tombo no chão.
— Não disse? exclamou o besouro, erguendo-se e limpando com a manga o chapéo sujo de terra. Não disse que havia “coisa ahi dentro? Eu tenho um faro que não nega fogo! Já meu fallecido avô, que Deus haja, dizia sempre: este besourinho vae longe, pois enxerga, dormindo, mais que tres duzias de vagalumes acordados! Eʼ a tóca do Escorpião Negro, não resta a menor duvida, e eu com raças de ferrão venenoso não quero historias, não! Até logo, amigo Escamado, sáre bem e seja muito feliz. Caspité !
E lá se foi pelos ares afóra, zumbindo que nem um aeroplano...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
