Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/IV
IV
AGUAS CLARAS
O peixinho, porem, era um guarú valente que nunca teve medo de cucas, e porisso alli continuou firme, cada vez mais interessado em decifrar o enigma. Pensou, pensou muito tempo, de mãosinha no queixo, e de repente, vendo a boneca ao lado da menina, bateu na testa, numa grande alegria:
— E esta ! Pois não é que é Narizinho Arrebitado, a nossa amiguinha de todos os dias ? Bello encontro ! Vou convidal-a a visitar o Reino das Aguas Claras.
Empertigou-se todo, arrumou a gravata e gritou no ouvido della:
— Oʼ de casa !
— Quem fala ? respondeu Lucia, fingindo não saber de nada.
— Sou eu, o principe Escamado, guarú de prata para a servir.
— E que quer você, peixinho ?
— Quero convidar a menina para conhecer os meus dominios, lá na cidade das Pedras Redondas, capital do Reino das Aguas Claras.
Narizinho, que não desejava outra coisa, bateu palmas de alegria e exclamou:
— Com todo o prazer ! Estou ás ordens do amavel principe das Escamas de Prata...
O peixinho fez uma mesura e deu-lhe o braço; e lá se foram os dois, como um casal de namorados, em direcção ao Reino das Aguas Claras, com Emilia, muito têzinha, atrás.
Depois de muito caminhar, chegaram a uma grande pedreira, numa curva do ribeirão.
— A entrada do meu reino é por aqui, disse Escamado, apontando uma furna entre as pedras e dando a mão á menina para ajudal-a a subir.
Entraram.
Mas a escuridão era peior que a de uma noite sem estrellas, e Lucia parou, cheia de medo. O peixinho sorriu e disse:
— Os filhos dos homens só enxergam quando ha luz, mas os filhos das aguas são como as corujas: — tanto enxergam no claro como no escuro. E puxou do bolso um vagalume de olhos accesos, pendurado num cabinho de arame retorcido. A caverna clareou um bocadinho, illuminada pela luz fraca da lanterna viva. Essa caverna ficava justamente debaixo do ribeirão, e Narizinho, que no começo não enxergava coisa nenhuma foi acostumando os olhos e, depois de muito esfregal-os, com facilidade poude ver que se achava nʼum corredor comprido, especie de tunnel, com uma porta ao fundo, fechada. Encostado a essa porta viu um sapo rajado, de espada á cinta e lança na mão. Era o guarda do palacio.
Mas dormia a somno solto, num regalo !
— Eʼ isto exclamou o principe, furioso. Pago ao major Agarra-e-Não-Larga-Mais, cincoenta moscas por dia para me tomar conta desta porta e assim que sáio o ladrão ferra no somno ! Veja o desaforo! Mas desta vez me paga, vae ver... disse preparando-se para acordal-o com uma duzia de ponta-pés.

— Não ! Não ! interveiu Narizinho. Vamos antes pregar-lhe uma boa peça. Tiramos as armas desse dorminhoco e o vestimos com a saia da Emilia. Imagine o espanto delle quando acordar!
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
