Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/IX
IX
D. ARANHA COSTUREIRA
Logo que saiu da mesa recolheu-se Narizinho ao quarto afim de preparar-se para o baile da noite. Para servil-a encontrou lá Dona Aranha, a melhor costureira do reino, e tambem varias mucamas formigas.
Dona Aranha adeantou-se e disse respeitosamente:
— Quer a menina examinar a nossa collecção de vestidos de baile ?
— Com muito gosto, respondeu Narizinho, encantada.
As formigas, incontinenti, abriram os guarda-roupas, e tiraram para fóra uma porção de vestidos de luxo, cada qual mais lindo. Um era feito de céo azul todo enfeitado de estrellinhas. Outro, de petalas de rosa com entremeio de myosotis. Outro, de espuma do mar com rendas de coral... O que mais encantou Narizinho, porém, foi um vestido de cauda feito de teia de aranha e enfeitado com pingos de orvalho.
Não podia haver coisa mais linda e Lucia bateu palmas de alegria, deixando a aranha toda cheia de si porque esse vestido era inteirinho feito por ella. Ella mesma fabricára o fio, tecera a gaze e ella mesma o cosera.
— Vejo que a menina tem muito bom gosto ! disse a aranha lisonjeada. E, linda como é, si fôr á festa com elle, certamente que será a rainha da noite.
E poz-se a vestil-a, deante de um espelho de prata. Penteou-lhe o cabello á moda do reino, calçou-lhe nos pés sapatinhos de ouro e, nas mãos, luvas fabricadas com pellica de pecego. Deu-lhe depois um maravilhoso leque bordado a raios de sol sobre asas de mãe-dߴagua.
Narizinho não cabia em si de gosto. Mirava-se ao espelho e duvidava dos proprios olhos:
— Serei eu mesma ou uma fada das Mil e Uma Noites ?
Quando julgou que já estivesse prompta veiu a Aranha com varios cofres cheios de diademas, collares, anneis e braceletes capazes de dar inveja a todas as princezas do mundo.
Narizinho escolheu as mais lindas. E assim recamada de ouro e brilhantes ficou a scintillar como um sol.
— Está “quasi” prompta, disse a Aranha.
— Quasi ? disse Narizinho, sorrindo. Pois falta ainda alguma cousa ?
A aranha respondeu mandando vir escrinios com pó de asas das mais raras borboletas e polvilhou-a inteira de azul furta-côr.

Que maravilha ! O proprio espelho chegou a abrir a bocca, espantado de tanta formosura.
Nisto a porta abriu-se e o principe appareceu:
— Senhora, disse elle, a côrte reunida no grande salão aguarda anciosamente a rainha da festa. Vinde !
E, dando-lhe a mão, conduziu-a com grande cerimonia ao baile.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
