Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/V
V
O CASTIGO DO SAPO
Escamado achou optima a idéa. E pulando os dois de contentes puzeram-se a despir o sapo muito devagarinho; depois lhe amarraram á cintura o saiote de pintas vermelhas da Emilia, puzeram-lhe na cabeça a touca da boneca, e em lugar da lança um guarda-chuva. Ficou tão engraçado o pobre sapo que a menina tapava com a mão a bocca para não estourar de rir.

— Vamos acordal-o agora, disse Escamado. E pespegou-lhe um formidavel pontapé na barriga.
— Hum!... gemeu o sapo, arregalando os olhos e abrindo a bocca, espantado de ver o principe em companhia dʼuma menina desconhecida e dʼuma senhora boneca muito envergonhada de achar-se em fralda de camisa.
Escamado, muito têzinho, engrossou a vóz e ralhou:
— Bella cousa, major Agarra !... Vestido de mulher, você, o guarda do palacio !...
— Vestido de mulher ? Eu ? exclamou o sapo espantado.
— Mire-se neste espelho, disse o principe, apresentando-lhe um.
Só então o sapo percebeu a judiaria de que tinha sido victima. Ficou apalermado, a olhar para o principe, para a menina e para o espelho, sem nada comprehender do caso.
— Agora, por castigo, disse o principe, em vez das cincoenta moscas do nosso trato, vae engulir cincoenta pedrinhas redondas, ouviu ?
O sapo derrubou um grande beiço, e foi encorujar-se a um canto, muito desconsolado da vida, emquanto Narizinho ria-se a mais não poder.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
