Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/VIII
VIII
NO PALACIO REAL
De volta ao palacio teve a menina occasião de visitar numerosas salas, lindamente enfeitadas com avencas, samambaias e musgos de todas as cores. Viu tambem a bibliotheca, cheia de folhinhas seccas onde os sabios escreveram toda a historia do reino. E lá estava, ainda, admirando-se de tudo, quando um grillo recadeiro veiu chamal-a para o jantar. Narizinho acompanhou o grillo e sentou-se á mesa ao lado do principe, encantada do bom gosto com que tudo estava arrumado.

— Artes das senhoras saúvas, disse Escamado. São ellas que colhem as florinhas do campo e enfeitam estes vasos.
Serviam de pratos lindas conchas côr de rosa, e as terrinas eram feitas de búzios rajados. Gafanhotos verdes serviam á mesa e traziam da cozinha os petiscos em que um gordo caranguejo, de avental branco e gôrra, ia dando os ultimos retoques. Veiu uma deliciosa sopa de barbas de camarão, e, depois, lombo de marisco, filé de cigarra, entrecosto de mãe-dߴagua, omeléte de ova de tainha. Para sobremesa trouxeram mel de jaty em petalas de magnolia, e mil outras preciosidades.

Emquanto jantavam, uma excellente orchestra de cigarras, piuns e pernilongos, afinadissimos, executava lindas musicas compostas pelo maestro Sabiá-do-campo. Vieram depois os dançarinos tangarás e dançaram graciosos bailados.
Em seguida appareceu um papagaio real que tinha fama de orador. Subiu á tribuna de um poleiro de ouro e fez um bello discurso a respeito da arte de falar. Provou que os homens tinham aprendido a falar com os papagaios, e não os papagaios com os homens, como estes gabolas andavam a dizer. Uma chuva de palmas acolheu as suas palavras.
O mesmo não aconteceu, porem, com a poetiza Lagartixa, que principiou a recitar uma longa poesia e engasgou no meio, acabando o recitativo em chôro e faniquito.
Para destruir essa má impressão vieram tres vagalumes magicos que fizeram varias sortes, sendo muito apreciada a sorte de engulir fogo.
Narizinho, encantada, batia palmas a cada novidade e ria-se muito das graças e micagens que o bôbo da côrte fazia. Este bôbo era o caruncho Carlito Pirolito, um corcundinha pegado dentro dum caroço de milho e criado pelo principe para divertir a côrte. Durante o jantar sentou-se ao lado de Narizinho e não parou de fazer diabruras e molecagens o tempo todo.
E assim correu a alegre refeição, deixando no espirito da menina recordações inesqueciveis.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
