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Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/X

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X

O BAILE

 

Mal Narizinho entrou, correu pela sala um murmurio de admiração, muito explicavel, visto como jamais apparecera em Aguas Claras creatura assim tão deslumbrante. E começaram a cochichar que com certeza era a propria Fada dos Rios que se encarnára na menina. Algumas damas invejosas, porem, morderam os labios ao ver Narizinho passar á frente dellas, pelo braço do principe, em direcção ao throno. E uma feia barata descascada, amarella de inveja, murmurou ao ouvido de uma besoura de pernas cambaias, torcendo o nariz:


— Nem porisso !...

Um gentil gafanhotinho verde que estava atrás, e já apaixonado pela menina, ouviu o desabafo da invejosa e castigou-a, ferrando-lhe uma terrivel dentada na perna secca. A barata gemeu de dôr. Mas aproveitou a lição, ficando bem caladinha o resto da noite.

A sala estava que era um céo aberto. Em vez de lampadas havia no tecto, pelas paredes e pelos vasos, buquês de raios de sol colhidos pela manhã. Flores em quantidade, lindas flores do campo, arrumadas em festões pelas senhoras abelhas.

Em redor da sala, sentada em cadeirinhas de madreperola, a nobreza da côrte, em trajes de gala, esperava as ordens do principe.


Havia de tudo.

Besouros sérios, de oculos e casaca preta.

Baratinhas de mantilha, com myosotis no cabello.

Abelhas douradas, muito finas de cintura, com laços de fita nas asas.

Moscas azues; rãs de todas as côres; lindas mães-dߴ-agua de corpo esguio e leves como bailarinas; camondongos de collete branco e sapatos de fivella; borboletas com toucadinho de gaze; maripozas, mamangavas...

Havia ainda peixes de todos os formatos, caranguejos cascudos que só andam de lado; camarões que se atrapalham com tantas pernas; mariscos de casca aberta como livros; caramujos que carregam a casa ás costas e andam apalpando o caminho com as trombas.


Havia até um velho kágado de olhinhos pretos e casca mais dura que a peroba.

A orchestra era composta de cigarras e passarinhos miúdos: canarios, pintasilgos, papacapins, corruiras, viuvinhas. Aߴ frente della estava, de batuta na mão, um sabiá-do-campo, maestro de fama. Essa orchestra executou as musicas mais lindas do mundo, fados de rouxinol, canções de patativa, barcarolas de Martim-pescador.

Uma lindeza !...

Lá pelo meio da noite o principe deu ordem para a quadrilha.A orchestra rompeu uma composição do maestro Colleirinha e os cavalheiros principiaram a tirar as damas. Quem marcava era um faceiro tangará, famoso mestre sala da côrte.

 


Narizinho, sentada no throno, estava doidinha por dançar. Mas a quadrilha passou e ninguem veiu tiral-a.

Logo depois, entretanto, a orchestra rompeu a Valsa Real e o principe, levantando-se, disse á menina:

— Eߴ chegada a nossa vez. Quer dar-me a honra desta valsa ?

Narizinho, que não queria outra cousa, desceu alegremente do throno, e nos braços do principe rodopiou pela sala em gyros tão velozes que mais parecia um pião vivo.

O kágado vendo aquillo cochichou para o caramujo: Si aquelle foguetinho te tirasse para dançar, que seria de ti, compadre ?

Respondeu o caramujo:

— Talvez me sahisse melhor do que um cascudo da tua marca !

E cada um riu-se lá por dentro da triste figura que faria o outro, porque no reino dos animaes, assim como entre os homens, ninguem se conhece.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.