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Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/XI

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XI

O ESCORPIÃO NEGRO

Terminada a valsa Narizinho voltou para o throno e assistiu a uma polka dançada por um caranguejo e uma tatorana vermelha, muito gorda, de grande faixa de gorgorão na cintura.

Apesar do respeito devido ao principe, a côrte riu-se a mais não poder, e Narizinho chegou a perder o folego. Porque não havia nada mais comico do que o senhor caranguejo a pular passos de polka nos braços da senhora tatorana, que suava em bicas numa grande afobação. Quando a musica parou, a dama nem suster-se em pé podia, de tão cançada, e foi preciso carregarem-na a braços e entregal-a aos cuidados do doutor Caramujo.

Depois desse comico incidente, surgiram na sala as bailarinas libelinhas. Uma azul, outra vermelha, outra verde esmeralda, todas muito leves e nervosas, começaram a bailar, treme-tremendo as lindas asas transparentes. Tão vivos e rapidos eram seus movimentos que aquillo mais parecia um bailado de raios de luz vivamente coloridos.


Foi um deslumbramento...

E estavam todos, no maior encanto, suspensos no ar pela admiração, quando se ouviu o barulho dߴuma correria em frente do palacio.

Eram os grillos da guarda que entravam, espavoridos e pallidos de terror.

— O escorpião negro ! annunciaram elles, arregalando os olhos.

— O escorpião !... repetiram aterrorisados os convivas.

Foi o mesmo que annunciar a peste.

As damas nervosas cairam para trás, desmaiadas; outras treparam em cima das cadeiras, gritando de pavor. A tatorana, com ataque de nervos, tombou desacordada nos braços do Caranguejo. O kágado fechou-se dentro da casca. Os caramujos encolheram-se dentro das conchas. E bichinho de asa não ficou nenhum que não voasse para o tecto.

Era tempo.

O horrendo Escorpião Negro assomou á porta, de ferrão arreganhado.

Parou.

Bufou de colera e correu pela sala um olhar de desafio.

— Quem é essa pequena humana que ousa penetrar no reino dos animaes ? disse elle, trincando os ferrões.

Ninguem respondeu, mas o escorpião vendo Narizinho de pé no espaldar do throno, pallida de espanto e muito atrapalhada com o seu vestido de cauda ,arreganhou um sorriso feroz, marcou-a bem e investiu para ella.


Um grito de horror encheu a sala, e todos os olhos se fecharam para não ver a catastrophe.

O Escorpião Negro avança, gingando o corpo.

Está já a um metro da menina.

Um passo mais e a alcançará com o seu venenoso ferrão.

Narizinho, desvairada, olha para o principe, implorando soccorro.

Era sua ultima esperança...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.