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Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/XIII

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XIII

DEPOIS DA FESTA

No dia seguinte Narizinho e Emilia levantaram-se tarde, depois de almoçar na cama, servidas por criadas abelhas, muito galantes em suas toucas entiotadas. Estavam ainda nervosas do grande susto da vespera. O doutor Caramujo receitou-lhes as pilulas de mestre Serra-páu, recommendando passeios pelo campo. Narizinho, depois de tomar o remedio, saiu em companhia de Dona Aranha e passeou durante uma boa hora pelos jardins do palacio. Emquanto isso as saúvas experimentavam lindos vestidos em Emilia.

A menina pediu noticias do principe. Disseram-lhe que tinha sahido de viagem para as fronteiras afim de organizar a defesa contra a invasão de outros monstros.


Narizinho suspirou de saudades e disse:

— Vou confessar a você, amiga aranha, o meu grande segredo: desde hontem que me sinto apaixonada pelo principe...

Disse e corou. A Aranha sorriu-se e respondeu:

— E elle muito que merece o amor da menina, porque não existe no mundo inteiro principe mais valoroso. Meu desejo é que se casem, porque do contrario o principe é bem capaz de engraçar-se dʼalguma barata e o reino soffreria a vergonha de ser governado por uma rainha que volta e meia perde a casca...

Assim, conversando, caminhavam as duas pelas alamedas muito limpinhas e bem arrumadas do jardim.

Esse jardim fôra plantado pelos antepassados do principe, em epoca remotissima, segundo contava uma velha lenda. E todas as manhãs as formigas corriam-no inteiro, catando todos os cisquinhos, aparando os gramados e deixando tudo que era um primor. Havia um lago á beira do qual pararam, mirando-se no espelho liquido. Estavam pensativas ambas: Narizinho com saudades do principe e a Aranha com saudades das sessenta filhas papadas pelo major Agarra. Nisto ouviram um gemido a certa distancia. Approximaram-se. Era o sapo que gemia com uma barriga enorme estufada de pedrinhas.

— Ai de mim, chorava elle, que nem posso andar !... Menina dos cabellos de ouro, tenha dó deste pobre sapo empanturrado, que nunca fez mal a ninguem, e peça ao principe que me perdôe. Prometto que dˋaqui por deante saberei guardar a porta do palacio com cincoenta olhos accesos!...

Narizinho tinha bom coração. Compadeceu-se da miseria do infeliz animal e prometteu intervir em seu favor.

— Veja, disse ella á Aranha, este coitado está pagando o crime de ser dorminhoco. Foi castigado só porque não poude resistir ao somno...

— Eʼ bem feito ! respondeu a aranha. Quem o mandou comer as minhas sessenta filhas ?

— Então, disse Narizinho, aqui neste reino um pilhando o outro de geito é zás ! para o papo ?

— Isso mesmo, minha filha tal qual entre os homens, que são uns urubús, comedores de carne de cadaveres.

Narizinho espantou-se com a idea que os bichos faziam dos homens e quiz desmentir a Aranha. Mas não poude porque a Aranha a interrompeu dizendo:

— São urubús, sim, porque comem cadaveres de animaes. Já tive minha teia num açougue da cidade e todas as noites via chegar um carroção cheio de cadaveres de bois, carneiros e porcos esfolados, que um homem, sujo de sangue, chamado açougueiro, vendia em pedacinhos ás criadas de cesta.

Narizinho pensou, pensou e viu que era bem verdade aquillo...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.