Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/XIV
XIV
UMA OPERAÇÃO DO DR. CARAMUJO
Nisto soaram tambores e clarins ao longe. Era o principe que voltava, de galope, á frente duma guarda de grillos. O coração de Narizinho bateu apressado.

— Salve! disse o principe apeando-se. Salve, a senhora do meu coração !
— Si sou a senhora do teu coração, respondeu ella, quero pedir-te uma graça...
— Ordene que será obedecida, disse o principe.
— Quero o perdão do major Agarra, que alli está gemendo com cincoenta pedras na barriga.
O principe concedeu a graça pedida e ordenou que chamassem o doutor Caramujo para extrahir as pedras.
Veiu o doutor com a sua maleta de cirurgião. Examinou o sapo empanturrado, apalpou, ergueu os oculos para a testa e disse:
— Eʼ preciso abrir-lhe uma “casa” na barriga.
— Pois abra, ordenou o principe.
O doutor Caramujo arregaçou as mangas, pôz o avental e, ajudado por varias formigas, deu começo á operação. O sapo foi posto de costas, com a bariga para o ar, e as saúvas, com os afiados ferrões, abriram nella um córte. Depois entraram pela abertura e foram carregando para fóra, uma a uma, as cincoenta pedras do castigo. Quando saiu a ultima, o major Agarra deu um grande suspiro de allivio. Em seguida o doutor Caramujo varreu a barriga do sapo com uma vassourinha de capim e tratou de costurar o córte. Para isso uniu as beiradas da “casa” e mandou que as formigas ferrassem alli o ferrão, de modo que cada ferrotoada fosse um ponto. E assim ficaram tres formigas agarradas á barriga do sapo. Depois o medico tomou uma tesoura e foi guilhotinando as formigas, de geito que só ficassem na pelle do sapo as cabeças das coitadas.
O major Agarra agradeceu ao doutor o serviço e, para não perder tempo, foi chamando para o bucho os corpos das tres formigas degoladas que esperneavam no chão.
Era um grande pandego, este major Agarra !
Terminada a curiosa operação, Narizinho continuou o seu passeio com a Aranha, recolhendo-se mais tarde muito satisfeita por ter salvado a vida a uma pobre creatura de Deus.
— Amiga Aranha, disse ella, o principe perdôou ao pobre sapo. Perdoa-o você tambem ?
— Eu ? Nunca !... Não perdôo emquanto me lembrar das minhas sessenta filhas, respondeu a Aranha enxugando uma lagrima no lencinho.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
