Narizinho Arrebitado (1ª edição)/Primeira parte/XV
XV
A FESTA VENEZIANA
Nessa noite houve uma pequena festa nocturna nos jardins do palacio. Pelas avenidas de areia muito alva perfilavam-se vagalumes immoveis, de olhos arregalados como tochas, servindo de lampeões.
No lago, pequenas rãs serenatistas coaxavam, compassadamente, o “Nocturno do Luar”, acompanhadas do cri-cri de milhares de grillinhos.
O principe deu uma volta pelo jardim em companhia da menina e depois a convidou para um passeio de gondola. Lá se foram, numa linda gondola de madreperola, remada por doze cavallos marinhos.

E por muito tempo vogaram sobre as aguas, embalados pelos formosos versos que uma libelinha poetisa recitava ao som de pequenina harpa tangida por mestre Louva-a-Deus.
De volta desse passeio encantador o principe teve uma idéa:
— Vamos dar um gyro de aeroplano ?
— Até aereoplanos ha por aqui? perguntou a menina, espantada.
— Ha, sim. E mais seguros que os aeroplanos dos homens ,vaes ver, respondeu o principe.
Apesar do medinho, Lucia encheu-se de coragem e acceitou o convite.
Veio logo um aerogrillo. Era um grillão verde, que trazia nas costas a barquinha de vime e na cabeça dois insectos, um besouro e um vagalume. Este vagalume, com os seus grandes olhos phosphorescentes, servia de pharol ao aeroplano e o besouro estava alli para zumbir, fingindo o barulho da hélice.
Narizinho achou muita graça na engenhosa invenção e trepou á barquinha sem medo. 0 besouro zumbiu e o aerogrillo disparou como um raio pelos ares afóra. Subiram, subiram, subiram. . . Subiram tão alto que a terra de lá paredia uma laranja.
Atravessaram nuvens brancas como algodão, formadas de agulhas de gelo, e chegaram pertinho da lua. Lucia quiz apeiar na lua, mas o principe teve receio e ella contentou-se de tocal-a com a pontinha do dedo. E assim, voando, voando, boiaram em pleno azul até que o sol despontou.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
